A idade do universo e Gênesis 1 – Uma abordagem reformada sobre a relação entre Ciência e Escrituras | Keith Mathison

Nesta série, estamos discutindo a resposta do Dr. R. C. Sproul a uma pergunta sobre a idade do universo durante o momento de perguntas e respostas na Conferência Nacional Ligonier de 2012. Já discutimos uma série de questões teológicas fundamentais, que refletem abordagem distintamente reformada do Dr. Sproul a esta questão, uma abordagem baseada no pensamento de teólogos reformados desde João Calvino até B. B. Warfield. Neste último post, nós nos voltamos para a resposta do Dr. Sproul à pergunta específica que provocou a sua longa resposta:

Quando me perguntam qual é a idade da Terra, eu digo que não sei, porque eu realmente não sei. E eu vou dizer porque não. Em primeiro lugar, a Bíblia não nos dá uma data para a criação. É claro que ela nos dá sugestões e inclinações que indicariam, em muitos casos, uma Terra jovem. E, ao mesmo tempo, ouvimos falar todas essas coisas sobre o universo em expansão, datações astronômicas e triangulações. Todas essas coisas vindo de fora da igreja me fazem pensar.

E, assim, no final da sua resposta, ele explicou mais uma vez:

Agora, tendo dito isso, trilhei um longo caminho apenas para dizer que eu não sei quantos anos a terra tem…

Eu suspeito que alguns participantes da conferência ficaram desapontados quando ouviram esta resposta. Alguns provavelmente esperavam o Dr. Sproul proclamar dogmaticamente uma ou outra resposta. Um grande número de pessoas, no entanto, aplaudiu. Acredito que eles reconheceram a sábia humildade evidenciada nesta resposta. O Dr. Sproul reconhece o tipo de dano que cristãos podem causar e de fato causaram devido à pressa em saltar para conclusões erradas sobre a revelação geral e a ciência. Quando os cristãos declararam ao mundo que o geocentrismo era algo clara e definitivamente ensinado nas Escrituras, tudo o que eles fizeram foi convencer aqueles que tinham estudado cuidadosamente a evidência na criação que a Escritura deveria, portanto, estar errada. Eles criaram um falso dilema. Este problema não é novo. Agostinho, o maior teólogo no primeiro milênio da história da igreja, também encontrou este problema e tratou dele com palavras que têm sido frequentemente citadas:

Normalmente, mesmo um não-cristão sabe alguma coisa sobre a terra, os céus, e os outros elementos deste mundo, sobre o movimento e órbita das estrelas e até mesmo o seu tamanho e posições relativas, sobre os eclipses previsíveis do sol e da lua, os ciclos dos anos e as estações do ano, sobre os tipos de animais, arbustos, pedras, e assim por diante, e esse conhecimento é tido como certo, a partir da razão e da experiência. Sendo assim, é uma coisa vergonhosa e perigosa que um infiel ouça um cristão, presumivelmente ao querer dar sentido às Sagradas Escrituras, falando bobagens sobre esses temas; e devemos empregar todos os meios para evitar uma situação tão embaraçosa, nas quais que as pessoas vejam tão vasta ignorância em um cristão e riam dele com desprezo. A vergonha não se deve tanto ao fato de que um indivíduo ignorante seja ridicularizado, mas que pessoas fora da família da fé pensem que nossos escritores sagrados sustentavam tais opiniões, e, para a grande perda daqueles por cuja salvação nós trabalhamos, os escritores de nossas Escrituras são criticados e rejeitados como homens iletrados. Se eles encontram um cristão equivocado em um campo que eles próprios conhecem bem, e ouvem-no mantendo suas opiniões tolas sobre nossos livros, como vão acreditar nestes livros nas questões relativas à ressurreição dos mortos, à esperança da vida eterna, e ao reino dos céus, enquanto pensarem que suas páginas estão cheias de falsidades acerca de fatos que eles próprios aprenderam com a experiência e à luz da razão? Os expositores imprudentes e incompetentes das Sagradas Escrituras trazem incontáveis problemas e tristezas para seus irmãos mais sábios, quando são encontrados fazendo suas opiniões falsas e perniciosas serem ouvidas por aqueles que não estão submetidos à autoridade de nossos livros sagrados. Pois assim, para defender suas declarações absolutamente tolas e obviamente falsas, eles tentarão invocar as Sagradas Escrituras para prová-las e até recitarem de cor muitas passagens que eles acham que apoiam a sua posição, embora não entendam nem o que dizem nem as coisas sobre as quais eles fazem afirmações.[1]

Os comentários de Agostinho enfatizam a importância de os cristãos terem cautela e humildade – particularmente em matéria de assuntos sobre os quais temos pouco ou nenhum conhecimento ou experiência de primeira mão. Conforme ele explica, se interpretamos mal as Escrituras nesses assuntos e, em seguida, anunciarmos aos outros que sabem alguma coisa sobre esses temas que a nossa má interpretação é a Palavra certa de Deus, traremos vergonha para Cristo e sua Igreja, colocando obstáculos desnecessários para os descrentes, aos quais estamos apresentando as boas novas. É muito mais sensato dizer, assim como o Dr. Sproul, “eu não sei”, do que afirmar que falsidades sejam o ensinamento das Sagradas Escrituras.

É também bem mais sábio dizer “eu não sei” do que dar ultimatos que podem ser baseados numa interpretação errada das Escrituras e/ou das obras criadas por Deus. Eu encontrei cristãos que disseram que iriam renunciar ao cristianismo se fossem convencidos de que a Terra se move ao redor do sol, uma vez que isso significaria que a Bíblia não é verdadeira. E eu também encontrei cristãos argumentando que qualquer crente que esteja convencido de que o universo foi provado como tendo bilhões de anos de idade deveria abandonar o Cristianismo, uma vez que isso significaria que a Bíblia não é verdadeira. Não. Como o Dr. Sproul indicou, uma prova como essa iria simplesmente significar que uma determinada interpretação das Escrituras estava errada. Ela não diz absolutamente nada sobre a verdade da Palavra de Deus. Se o universo tiver 6.000 anos de idade, este fato não entrará em conflito com o que a Bíblia realmente ensina. Mas se, por outro lado, o universo é provado como tendo bilhões de anos de idade, este fato também não entrará em conflito com o que a Bíblia realmente ensina.[2] Nós não precisamos renunciar ao cristianismo em qualquer caso. Nossa fé é vã apenas se Cristo não ressuscitou dos mortos (1 Co 15:14).

E quanto à idade do universo, então? Se os alunos da revelação geral (ou seja, os cientistas) contribuem para a nossa compreensão da revelação especial, como o Dr. Sproul explicou, então aqueles de nós que não têm o treinamento para avaliar habilmente as evidências dependem, de uma forma ou outra, daqueles que o são, a fim de que eles nos ajudem a compreender as evidências a favor e contra as diferentes opiniões. Um problema surge, no entanto, quando diferentes cristãos olham para diferentes especialistas, e esses próprios especialistas nos apresentam conclusões conflitantes. Acabamos, assim, com cristãos que têm o mesmo compromisso com a autoridade das Escrituras chegando a conclusões diferentes sobre as evidências. Isso, então, afeta nossa leitura da revelação especial.

As diferentes conclusões a que os cristãos chegaram quanto às evidências da idade do universo deram início a um debate na igreja acerca da interpretação da natureza e duração dos dias de Gênesis 1. Assim como aqueles que estavam convencidos das evidências do heliocentrismo foram forçados a dar uma segunda olhada em Josué 10 e outras passagens, também aqueles que foram convencidos de que a evidência apoia um universo mais antigo foram forçados a dar outra olhada em Gênesis 1. Isso levou a muita discussão e debate – alguns deles bastante rancorosos.

Este debate tem crescido em várias denominações reformadas. Em 2000, por exemplo, a PCA divulgou um extenso relatório sobre o assunto. Isto foi seguido por um relatório semelhante da OPC em 2004. Ambos os relatórios concluíram que várias visões acerca da natureza e duração dos dias da criação estão dentro dos limites da ortodoxia bíblica e confessional. Ambos os relatórios foram elogiados pelos diversos presbitérios e igrejas dentro das respectivas denominações devido a seu estudo e consideração. Vale a pena ler ambos os relatórios pelas suas visões gerais das questões e argumentos envolvidos.

O debate sobre a idade do universo e os dias de Gênesis também tem crescido com os numerosos livros que foram escritos no último século e meio por teólogos reformados, apresentando evidências para um ponto de vista ou outro.[3] A visão de Dias de Calendário foi defendida por teólogos reformados como Robert L. Dabney e Louis Berkhof.[4] Recentemente, ela tem sido defendido por Douglas F. Kelly, James B. Jordan, Joseph Pipa e David Hall.[5] A visão de Dias-Eras foi defendida por teólogos reformados como Charles Hodge, B. B. Warfield, J. Gresham Machen e EJ Young.[6] Mais recentemente, esta visão foi defendida por Francis Schaeffer e James Montgomery Boice.[7] A visão Framework (“Dias Estruturais”) tem sido defendida por teólogos reformados como Meredith Kline, Mark Futato e Henri Blocher.[8] Uma versão da visão de Dias Analógicos foi apresentada por William G. T. Shedd.[9] Mais recentemente, esta visão tem sido defendida por teólogos reformados como C. John Collins e W. Robert Godfrey.[10] Em suma, cristãos reformados continuam a debater sobre estas questões.

Em uma época na qual os crentes reformados estão tentando trabalhar e avaliar todas as evidências, parece ser aconselhável uma medida de gentileza, humildade e paciência. Os professores do ministério Ligonier são um excelente exemplo dessa atitude. Várias visões sobre a idade do universo e os dias de Gênesis 1 são sustentadas por eles, sem contenda e inimizade, e sem acusações de comprometimento, por um lado, ou de obscurantismo, por outro. Isto se deve ao fato de que esses homens compreendem as implicações daquilo que o Dr. Sproul disse na resposta que analisamos nas últimas semanas. Que mais cristãos possam guardar no coração estas sábias palavras do Dr. Sproul.

__________________

[1] Agostinho, De Genesi ad litteram: 1.19.39 traduzido por JH Taylor, Ancient Christian Writers, Newman Press, 1982, volume 41.

[2] E se o universo acaba tendo ambas as idades devido aos aspectos da criação de Deus se relacionarem ao tempo e à relatividade, isso também não entra em conflito com o que a Bíblia realmente ensina.

[3] Três pontos de vista sobre dias de Gênesis foram defendidas no livro de David G. Hagopian, ed. The Genesis Debate: Three Views on the Days of Creation (Mission Viejo, CA: Crux Press, 2001).

[4] Robert L. Dabney, Systematic Theology, 2nd ed. (St. Louis: Presbyterian Publishing Company of St. Louis, 1878), 254–6; Louis Berkhof, Systematic Theology, 4th rev. ed. (Grand Rapids: Eerdmans, 1941), 154–5.

[5] Douglas F. Kelly, Creation and Change, Genesis 1.1-2.4 in the Light of Changing Scientific Paradigms (Ross-shire: Christian Focus Publications, 1997); James B. Jordan, Creation in Six Days: A Defense of the Traditional Reading of Genesis One (Moscow, ID: Canon Press, 1999); and Joseph A. Pipa and David W. Hall, eds., Did God Create in Six Days? (Greenville, SC: Southern Presbyterian Press and Kuyper Institute, 1999).

[6] Charles Hodge, Systematic Theology, 3 vols. (Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1982) 1:570–71; B. B. Warfield, Evolution, Science, and Scripture: Selected Writings, edited by Mark A. Noll and David N. Livingstone (Grand Rapids: Baker: 2000), 145; J. Gresham Machen, The Christian View of Man (Carlisle, PA: Banner of Truth, 1965), 115; E. J. Young, Thy Word is Truth (Grand Rapids: Eerdmans, 1957), 169–70.

[7] Francis Schaeffer, Genesis in Space and Time (Downers Grove: IVP, 1972) and James Montgomery Boice, Genesis, Volume 1: Creation and Fall (Grand Rapids: Baker, 1982, 1998).

[8] Meredith Kline, “Because It Had Not Rained”, Westminster Theological Journal 20 (1958) 146-57; Mark Futato, “Because It Had Rained: A Study of Gen 2:5-7 With Implications for Gen 2:4-25 and Gen 1:1-2:3,” Westminster Theological Journal 60 (1998) 1–21; Henri Blocher, In the Beginning, The Opening Chapters of Genesis, Downers Grove: Inter-Varsity, 1984.

[9] William G. T. Shedd, Dogmatic Theology, 3rd ed. Edited by Alan W. Gomes. (Phillipsburg, NJ: P&R Publishing, 2003), 374.

[10] C. John Collins, Genesis 1-4: A Linguistic, Literary, and Theological Commentary (Phillipsburg, NJ: P&R, 2006) and W. Robert Godfrey, God’s Pattern for Creation: A Covenantal Reading of Genesis 1 (Phillipsburg, NJ: P&R Publishing, 2003).

Traduzido por Fernando Pasquini Santos e revisado por Jonathan Silveira.

Texto original: The Age of the Universe and Genesis 1 – A Reformed Approach to Science and Scripture. Ligonier Ministries.

Keith Mathison é professor de teologia sistemática no Reformation Bible College em Sanford. É autor de muitos livros, incluindo o livro From Age to Age.
  • Marcus Vinicius de Freitas

    MUito bom o texto. Apesar de já ter feito minha escolha qto a ambos os lados, acho, sim, prudente a cautela e, principalmente, o diálogo mais amoroso. Também concordo no que diz respeito a não taxar de herege (pra dizer o mínimo) aqueles que defendem dias não-literais. Realmente prefiro o caminho da literalidade, por ser esta uma hermenêutica mais segura no que concerne a toda a Escritura, mas entendo os que pensam diferente e oro, sinceramente, pra q o Senhor ilumine a eles ou a mim mesmo, pra q nenhum de nós continue na “escuridão” do equívoco no entendimento de Sua Palavra. Q Ele nos ajude a resolver a questão o quanto antes hehe