A Igreja precisa de filósofos e os filósofos precisam da Igreja | Paul Gould

A Escola de Atenas, de Rafael (1510-1511)

“Quem se importa com o que Aristóteles pensa a respeito de uma mão decepada?”*, retrucou uma irritada estudante de filosofia numa noite de inverno na Midwestern University. Minha palestra parou. Enquanto a classe olhava atentamente para mim, apreciando o confronto, as entrelinhas do comentário da minha aluna eram bem claras tanto para eles quanto para mim: “A visão de Aristóteles sobre a substância não me ajuda em nada no “mundo real”, portanto ela é um conhecimento inútil”.

Eu gostaria de poder dizer a você que o comentário da minha aluna naquela noite foi uma exceção à regra. Mas não é. O comentário dela destacou um equívoco amplamente difundido a respeito da Filosofia e sobre os que gostam de se identificar como filósofos, ou seja, de que a Filosofia não fornece nenhum proveito no cotidiano, nenhum benefício não-cognitivo e é de valor limitado. Aqueles que cometeram o duplo pecado de ser cristão e filósofo correm o risco de uma marginalização maior ainda, pois são frequentemente vistos com suspeitas pela igreja. Como Sócrates e seu atribulado relacionamento com Atenas, filósofos cristãos podem ser vistos pelos crentes como pessoas “inoportunas” indesejáveis que fazem perguntas irritantes na escola dominical e criam dúvidas nas mentes dos jovens na igreja.

À medida que percorremos um ambiente universitário cada vez mais pragmático e que encara a igreja com suspeita, é fácil sentir – como uma mão decepada – um pouco de desamparo. Mas antes de passar a cicuta, eu apresento a minha defesa: a igreja precisa de filósofos e os filósofos precisam da igreja.

Por que a Igreja precisa de filósofos

Eu ofereço três razões pelas quais a igreja precisa de filósofos. Primeira, perspectivas opostas à nossa fé, as quais poderíamos chamar de crenças anuladoras**, levantam-se de tempos em tempos. Filósofos cristãos são hábeis em identificar, dissecar e refutar as crenças anuladoras que se levantam contra o cristianismo. Certamente, cada época tem seu conjunto singular de crenças anuladoras ao cristianismo. No quarto século uma crença anuladora para Agostinho, antes de sua conversão, foi a ideia de uma substância (divina) imaterial (esses livros chamados de platônicos abriram os olhos de Agostinho à uma realidade invisível de formas e substâncias). Séculos depois, esse debate parece em grande parte irrelevante, mas enfrentamos outros tipos de desafios filosóficos.

Hoje, na cultura ocidental, as crenças anuladoras prevalecentes incluem a ideia de que Deus é um monstro moral, que a ciência tem refutado Deus, que o mal torna a existência de Deus improvável e que há muitos caminhos para se chegar a Deus. Filósofos cristãos são singularmente qualificados para prover lógica e bases filosóficas a tais declarações, no mesmo nível da estrutura dos argumentos erigidos em torno das crenças anuladoras. Dado o tremendo anti-intelectualismo de nossos dias, a realidade é que frequentemente o leigo não está preparado para responder aos argumentos e evidências apresentados pelos adversários contra o cristianismo. E, de modo compreensível, nem os pastores estão preparados para isso no púlpito, uma vez que estão sempre atarefados. A solução não é evitar o problema. Em vez disso, é um programa regular de discipulado que ajuda o cristão comum de banco de igreja a pensar cuidadosamente sobre esses desafios à fé ortodoxa – e os filósofos cristãos podem ajudar.

A segunda razão é que filósofos cristãos podem liderar na formação espiritual e no discipulado, destacando o papel fundamental da mente em amar a Deus e ao homem. Como cultura, não somos mais guiados pelo pensamento correto. Deixamos de estar atentos aos nossos sentimentos para sermos dirigidos por eles. Mas somos, como Aristóteles colocou, animais racionais e nesta cultura orientada pelo entretenimento – com muitos “eus” vazios que insensatamente seguem às apalpadelas de uma experiência sensual a outra – traímos nossa identidade dada por Deus. Quando Jesus declarou que o maior mandamento é amar a Deus com todo seu coração, alma e mente (Mt 22:37), ele na realidade estava dizendo: “Ame-me com todo o seu ser. Ame-me de todas as maneiras que eu criei você”. Nunca – na mente de Jesus ou na Escritura – há uma divisão da mente e do coração; eles sempre caminham juntos. Semelhantemente, o apóstolo Paulo coloca a mente à frente no processo de formação espiritual quando ele exorta os crentes a “serem transformados pela renovação da sua mente” (Rm 12.2). Filósofos cristãos podem ajudar a igreja a compreender como pensar adequadamente e, ao fazê-lo, ajudar a viver adequadamente sob a bandeira de Cristo.

Finalmente, filósofos cristãos desempenham um papel vital na contribuição do shalom – desenvolvimento humano – tanto dentro da igreja quanto na cultura geral. Esta última razão pode soar estranha – como a tarefa de se ensinar alguém a pensar adequadamente, pode realmente fazer do mundo um lugar melhor? Não é o engenheiro que constrói pontes, o pastor que alimenta os pobres, o político que institui programas para socorrer o oprimido e o advogado que condena o traficante sexual que fazem o mundo melhor? Sim! Mas, o engenheiro, o pastor, o político e o advogado fazem tudo isso em virtude de suas crenças – suas visões a respeito da natureza humana, obrigação moral, responsabilidade pessoal e vocação – todas doutrinas filosóficas. A crença verdadeira justificada – ou seja, o conhecimento – sobre Deus, o mundo e o “eu” é o princípio da sabedoria e provê auxílios para o serviço fiel ao reino em um mundo caído. Deixe que nós, filósofos cristãos, ajudemos a igreja a despertar sua curiosidade, fortalecer sua convicção, inspirar sua criatividade e trazer clareza ao seu chamado de ser sal e luz no mundo.

Filósofos precisam da igreja

A igreja precisa de filósofos. Mas nós, filósofos cristãos, precisamos da igreja também. Precisamos ser lembrados diariamente que o cânon ocidental da história intelectual não é o nosso “verdadeiro alimento”. Parafraseando Jesus: “O homem não vive apenas de Descartes e Kant, mas da Palavra de Deus”. Precisamos ser lembrados da grande comissão. Lembrar-nos que Jesus, e não a solução ao problema dos universais, é a maior necessidade do mundo. Impulsionar-nos a viver para Cristo e experimentar sua graça lembra-nos que nossa vida em Cristo é mais gratificante, mais estimulante do que ter um livro publicado, um artigo de jornal reconhecido ou mesmo uma ideia importante coerentemente articulada. Precisamos ser diariamente arrancados das alturas do Areópago, onde problemas filosóficos cambaleiam entre todos os cantos e penhascos, e sermos incomodados pelos problemas cotidianos de se relacionar uns com os outros como irmãos e irmãs em Cristo. Precisamos de uma boa exposição bíblica e de uma teologia sólida para nos lembrar dos limites da nossa disciplina e que a razão nos fornece uma ferramenta, mas não a única ferramenta, à medida que lidamos com ideias e suas implicações. Precisamos de oração e encorajamento de nossos irmãos crentes em Cristo. Nossa tentação é agirmos por conta própria, ser desconectados do corpo universal de Cristo. Conduzamo-nos a Cristo, guardemo-nos do esnobismo intelectual, lembremo-nos de nossa necessidade que temos um pelo outro.

Com o recente falecimento de Dallas Willard, um filósofo cristão par excellence, que por mais de 40 anos serviu à universidade, a igreja e o mundo, pode parecer que minha súplica é desnecessária. Mas se há algo que a história nos ensina é que somos inconstantes. Somos tão facilmente lançados pra lá e pra cá pelos ventos da cultura popular, pelos desejos da carne e memória curta. Precisamos ver o cenário mais amplo, e agora, devido a influência de proeminentes filósofos cristãos tais como Dallas Willard, Alvin Plantinga e Willian Lane Craig, esse é um bom momento para lembrar a igreja da utilidade, na verdade da necessidade, de a Filosofia servir a Cristo.

________________

Notas do tradutor:

*O comentário tolo da aluna se refere ao conceito apresentado por Aristóteles de que assim como é impossível conceber a mão sem o corpo, também é impossível conceber o indivíduo sem o Estado. (Aristóteles. A Política, Livro I, Capítulo 1.11).   

**Uma crença anuladora (defeater belief) é uma crença de contraposição, ou seja, se a crença A é verdadeira, isso significa que a crença B é falsa.

Traduzido por Tiago Silva e revisado por Jonathan Silveira.

Texto original: The Church Needs Philosophers and Philosophers Need the Church. The Gospel Coalition.

Paul Gould é professor assistente de Filosofia e Apologética Cristã no Southwestern Baptist Theological Seminary em Fort Worth, Texas. É editor de quatro livros, incluindo “Loving God with Your Mind: Essays in Honor of J. P. Moreland” (Moody, 2014). O Blog de Paul está disponível em: www.paul-gould.com.
  • Isabella Passos

    Artigo bem proveitoso. E as contribuições da Filosofia somente farão sentido quando ela deixar de ser vista como ancilla theologiae (serva da teologia).