Eu sou ele, como você é ele, como você sou eu, e nós estamos todos juntos – A importância da mente | Carrie Myatt

I am he as you are he as you are me and we are all together ("I am the Walrus", The Beatles)

A questão do Self – ou do “eu”[1] – pode parecer muito abstrata para ser considerada relevante em um primeiro momento. “O que você quer dizer com isto? O que é o Self? Eu sou eu mesmo (em inglês, I am myself). Isto não é suficiente?” Conforme começa-se a realmente estudar a natureza do Self, porém, descobre-se que suas crenças a respeito dele têm implicações importantes em muitas (senão todas) áreas. Cada questão que se faz suscita três outras a serem consideradas, e tanto filósofos como psicólogos têm dedicado centenas de anos tentando apresentar respostas sólidas.

Uma área em que essa questão possui ramificações importantes é o Direito. Estamos muito preocupados sobre QUEM cometeu um crime em particular ou QUEM é responsável por seja lá o que está sendo discutido. Se alguém diz: “Eu não a matei, e sim a arma em minha mão”, ficamos insatisfeitos com a resposta. Mas, por quê? Afinal, isso não é verdade? Pressupomos, no entanto, algum senso de autocontrole, alguma correlação entre o Self e a ação. Não apenas pressupomos isso, nós EXIGIMOS isso. Quando as pessoas afirmam ter algum tipo de doença mental que “levou-as” a cometer um crime, removendo, assim, a responsabilidade pessoal, exigimos uma documentação séria que comprove sua doença (e considera-se que uma doença se distingue de um Self controlável, que tem uma correlação de 1:1 com o corpo – ou seja, de uma pessoa por corpo).

Uma das maneiras mais fáceis de se entrar na questão do Self é examinando como o tratamos em nossa linguagem do dia a dia. Considere o que eu disse anteriormente – “Eu sou eu mesmo”. Em inglês, poderíamos dizer I am myself. MySelf (Meu – Eu, ou Self). “Meu” é a primeira pessoa do pronome possessivo. Isto implica, então, que acreditamos que o Self é algo que possuímos ou é algo que somos (“Eu SOU eu mesmo” – I AM myself; “Eu sou o meu próprio eu” – I am my own self…)? A expressão “MEU Self” implica uma diferenciação de um Self para outro, ou seja, de meu Self para o de uma outra pessoa?

Outra expressão comum é “Ele não foi ele mesmo” (He was not himself). Não foi? Então quem ele foi? (Note a correlação entre identidade e Self; eles são geralmente considerados como sendo a mesma coisa. Por quê?) Quando dizemos que alguém não foi ele ou ela mesmo, não queremos dizer que eles se tornaram outra pessoa. Em vez disso, estamos comentando sobre seu comportamento que de alguma forma não foi característico daquela pessoa naquele contexto em particular. Assim, parece que entendemos que o Self exige algum senso de continuidade. Mas quais são os critérios para essa continuidade? É o comportamento? Você é a mesma pessoa que nasceu de seus pais, embora agora como universitário você (eu espero) se comporte de maneira bem diferente de quando era um bebê. Ainda assim, você continua sendo você mesmo. Seria a memória? As pessoas frequentemente definem a si mesmas por um conjunto de experiências e relacionamentos que elas tiveram ao longo do curso de suas vidas. No entanto, se elas desenvolverem um grau severo de Alzheimer, elas ainda são a mesma pessoa? Algumas pessoas dizem que não – e quando essa pessoa morre, os membros da família às vezes dizem: “Ele/Ela morreu há muito tempo, apenas levou mais tempo para que acontecesse o mesmo com o corpo.” E quanto ao contexto? Existe algum tipo de critério contextual para a individualidade (selfhood)? Você é um Self em um momento – definido por certas memórias, experiências e padrões de comportamento – e um Self diferente em outro momento, ou será que somente um Self pode mudar?[2]

Outra referência ao Self na linguagem é “Eu estava falando comigo mesmo” ou “Eu estava debatendo comigo mesmo se eu deveria ou não fazer tal coisa”. Como somos capazes de manter um “diálogo” dentro de nosso Self? Existe algo a respeito do Self que é experimentado como sendo fundamentalmente Outro[3], ou seja, o Self com o qual somos capazes de interagir? Há, em algum sentido, um meta Self através do qual somos capazes de desprezar ou estimar a nós mesmos? Como é possível ser autoenganado (self-deceived)? Há alguma maneira de se ocultar algo de si mesmo? Se você determinou ocultar algo de si mesmo, você já não deveria saber disso?

Essas questões fazem-nos pensar sobre como o Self é unificado. Tipicamente, queremos manter uma correlação 1/1 entre corpo e mente. Autoengano, diálogo interno, etc. suscitam a ideia de que há, de alguma maneira, múltiplos Selfs ou duas partes de um mesmo Self que de alguma forma interagem entre si. Psicólogos psicanalíticos apoiam essa visão, chamando um deles de Consciente e o outro de Inconsciente. O Self consciente é entendido como sendo parte de nossas mentes que está em primeiro plano. É a parte de nossa mente que conscientemente experimentamos. A parte inconsciente, no entanto, é vista como sendo separada, uma parte relativamente secreta ou oculta do Self que funciona em segundo plano. É possível que ela venha à tona (falando ainda a partir de uma perspectiva psicanalítica) quando a consciência é colocada em descanso, ou seja, durante a hipnose, a livre associação, os sonhos, etc.

No caso de pacientes com split-brain (cérebro dividido), pacientes que tiveram seu corpo caloso severamente cortado por causa de uma epilepsia acentuada, esse conceito de múltiplos Selfs se torna muito claro pelo menos nos primeiros meses – não no sentido de consciente/inconsciente, mas sim entre os dois hemisférios, direito/esquerdo. Em um cérebro normal e saudável, eles formam um cérebro integrado e completo, mas quando são separados e incapazes de se comunicarem, demonstram uma divisão curiosa de tarefas e de consciência. Quando, por exemplo, um paciente com split-brain estica seu braço para alcançar uma camisa com a mão esquerda, ele pode se deparar com a mão direita tentando alcançar outra camisa ou, quando ele está abotoando-a com uma das mãos, a outra está desabotoando. Chegou a ser documentado o caso de uma mulher que tinha um braço que persistentemente buscava estrangulá-la, de modo que ela precisava se sentar sobre ele para impedi-lo. Isto indica que o hemisfério direito foi “libertado” do domínio do hemisfério esquerdo, que os dois lados estão de alguma forma individualizados entre si em vez de trabalharem juntos como um todo coeso? E o que dizer quando uma pessoa sofre um dano severo no lobo frontal? Sua inibição é perdida. Isto implica algum tipo de hierarquia ou estrutura de poder do Self/Selfs dentro do cérebro? A inibição é algum tipo de monitor ou centro de controle sobre Selfs indisciplinados ou sobre partes do Self?

Transtornos como o Transtorno Dissociativo de Identidade (anteriormente conhecido por Transtorno Múltiplo de Personalidade) põem em questão o nosso entendimento sobre o Self unificado de uma maneira brusca. Embora seja raro o bastante para ser duvidado por uma parcela razoável de psicólogos hoje (especialmente aqueles que não veem mérito na perspectiva psicanalítica), o transtorno realmente leva pessoas à loucura. No caso de traumas severos como abuso sexual, etc. (principalmente sofrido durante a infância), as vítimas frequentemente se veem incapazes de se lembrar dos eventos e podem até mesmo estar inconscientes deles. O TDI é uma versão extrema dessa situação em que o “inconsciente unificado” da pessoa se torna fragmentado talvez para proteger a o Self primário de memórias dolorosas.

De acordo com alguns estudos, o número registrado de personalidades (chamados de Alters[4]) chega a cem. Cada Alter possui características particulares: um deles é o Alter de Auxílio, que cuida e busca ajudar; o outro é o Alter Infantil que, em algum sentido, representa a impotência da vítima durante sua experiência traumática; há também o Alter Protetor, que tende a ser agressivo e reativo contra qualquer tipo de ameaça, etc. Indivíduos que afirmam ter múltiplas personalidades descrevem diferentes níveis de consciência entre os Alters. Um Alter pode saber tanto o que os outros estão pensando como também fazendo e outro Alter pode apenas ter consciência daquilo que outros Alters estão fazendo enquanto estão em controle de execução. Ainda assim, outros Alters podem descrever-se como não tendo qualquer consciência dos outros Alters, e esses são frequentemente os que estão em controle executivo quando a assistência psiquiátrica se inicia. Ausências longas e incompreensíveis, rendimentos financeiros novos e inexplicados, cumprimentos por estranhos, etc., são peças de um quebra-cabeça que, juntas, levam a pessoa a buscar ajuda.

Embora as pessoas frequentemente afirmem que não são capazes de confiar em qualquer um, elas podem ao menos confiar em si mesmas. Pessoas com TDI não possuem essa mesma confiança. Tratam-se de casos especiais ou elas simplesmente sabem de algo que não sabemos? Tem havido casos de pacientes que relatam ter um Alter malicioso, um que “odeia” e busca destruir os outros Alters até mesmo a ponto de destruir o corpo no qual eles vivem. Em um caso em particular, os Alters se viam tão distintos um dos outros a ponto de considerarem até mesmo seu corpo distinto. O Alter malicioso não viu conflito em destruir o corpo dos outros Alters, uma vez que não se viu compartilhando desse mesmo corpo.

Considera-se que os Alters são capazes de desenvolver características pessoais únicas em consonância com a quantidade de tempo que eles têm no controle executivo. Alters têm sido conhecidos por terem seu próprio emprego, grupo de amigos, roupas, etc. Há até mesmo relatos de Alters com alergias físicas distintas, de modo que um Alter pode comer nozes, mas se o Alter alérgico comê-las quando está no controle executivo, a pele sofre erupções.

Deixando toda a ficção científica de lado, independentemente de alguém aceitar os relatos provenientes do TDI ou não, o assunto traz à tona questões interessantes. Em primeiro lugar, por que importaria se existisse mais de um Self para cada corpo? Quais são as qualificações necessárias para um Self? O Self é um Alter? O Self é uma pessoa? Se sim, a reintegração de Alters em apenas uma unidade seria assassinato?

Em que sentido equiparamos o Self ao corpo? Pessoas que tiveram membros amputados relatam um fenômeno estranho durante seu processo de cura – eles continuam a sentir a parte do corpo que foi amputada. Eles podem ver que o membro não está mais presente, mas ainda podem sentir como se estivessem movimentando-o. Podem também sentir dor associada a ele (como um punho cerrado que não conseguem abrir), etc. É claro que aquela parte específica do corpo não está mais lá, mas, ainda assim, continuam a senti-la como sendo uma parte de si mesmos. V. S. Ramachandran, neurocientista e autor da obra “Phantoms in the Brain“, apresentou uma explicação interessante para esse fenômeno, dizendo que envolve uma ação de adaptação e de treinamento do tecido cerebral associada ao membro amputado. Parece que a questão da personalidade é um pouco mais complexa do que informa a visão tradicional óbvia do dualismo uma pessoa/um corpo. Se esse fosse o único critério do Self, como alguém poderia se ver tão consciente a respeito de um braço que não mais existe como parte de seu próprio Self?

O psicólogo Robert Joss, ao descrever a dissociação, comentou sobre uma cirurgia de joelho que ele enfrentou muitos meses atrás. Enquanto estava tomando vários medicamentos para a dor, ele se sentiu completamente separado de seu joelho. Ele estava consciente de que o joelho era uma parte de um corpo que aparentemente lhe pertencia, mas não sentiu que estava ligado a ele, então não percebeu que o joelho fazia parte de seu verdadeiro Self. Alguns meses depois, ele passou por uma cirurgia no cérebro e se sentiu perfeitamente consciente de sua ligação com o seu cérebro físico. Há algo de especial sobre o cérebro que associamos mais ao Self do que qualquer outra parte do corpo como o joelho ou o pé? Podemos amputar uma perna e sentir que a pessoa continua a mesma. Porém, quando há morte cerebral, frequentemente sustentamos que o seu Self está morto, mesmo que seu corpo continue vivo. Tudo o que resta é uma concha vazia. Isso acontece porque não podemos mais nos comunicar com a pessoa ou porque existe algum tipo de conexão entre o cérebro dela e o seu Self pessoal e único?

Mais do que um quebra-cabeça ou uma maneira fácil de se queimar os neurônios, essas questões revelam como tratamos e compreendemos a nós mesmos e nossa existência. Independentemente de nossas teorias sobre a natureza do mundo, ou seja, se ele é meramente físico ou se existe algo não-físico (chamemos isso de sobrenatural, de imaterial ou o que for), a verdade é que tratamos o Self em nossa própria linguagem como Outro, como sendo algo mais do que pequenas partes e pedaços de carne unidos. Além do mais, o tratamos também como algo não limitado à nossa experiência no momento, mas, em certo sentido, como algo duplo, ou seja, o Self que nós somos em certo instante e o Self contínuo e abrangente que une “quem nós somos” e sobre o qual falamos. Paul Ricouer destaca o seguinte ponto várias e várias vezes: poderíamos falar de nosso Self se não existisse qualquer Self como objeto ao qual podemos referir?

A questão fundamental a ser feita acerca de uma cosmovisão é: “Podemos viver em conformidade com ela? Vivemos em consonância com aquilo que afirmamos em nossa cosmovisão?” À luz das pesquisas atuais, essas questões nos forçam a considerar se uma cosmovisão estritamente material (na qual a consciência é meramente uma propriedade emergente) é suficiente para o modo como experimentamos e compreendemos nossos Selfs.

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[1] Self: “Si mesmo”, ou “ser”. William James distingue entre o “eu”, como a instância interna conhecedora (I as knower), e o “si mesmo”, como o conhecimento que o indivíduo tem sobre si próprio (self as known). (James, William (1892). Psychology: The briefer course. New York: Holt.)

[2] Heráclito apresenta as mesmas questões: “Não se pode banhar duas vezes no mesmo rio, nem substância mortal alcançar duas vezes a mesma condição; mas pela intensidade e rapidez da mudança, dispersa e de novo reúne.”

[3] Outro: um elemento constitutivo da autoconsciência (preocupação com o Self) que complementa as proposições sobre a introspecção. (Hegel, Phenomenology of Spirit)

[4] Alter: Na Psicologia, o alter ego é uma segunda personalidade de alguém, um outro eu inconsciente que se revela através de múltiplas identidades. Está associado à patologia “Transtorno Dissociativo de Identidade”.

Carrie Myatt é graduada em filosofia pelo Gordon College e mestre em estudos bíblicos e em pensamento cristão pelo Gordon-Conwell Theological Seminary. Sua área de estudo concentra-se em filosofia da mente e fenomenologia.