A santidade de Deus e a justificação dos homens | Igor Miguel

Martinho Lutero (Lucas Cranach der Ältere, 1529)

Não se pode apreciar a noção cristã de justificação com o mesmo sabor que os reformadores, enquanto não se tem o mesmo senso de grandeza e santidade de Deus que eles possuíam.

“Deus” tornou-se um termo clichê e vazio de sentido. Com a popularização da palavra, ele facilmente se “adesiva” a certa noção superficial sobre quem Deus é. E, uma vez que a percepção de Deus se torna superficial, igualmente, a percepção da doutrina da justificação pela fé se esvaziará da força bíblica que tem. Para muita gente, o acesso a Deus é algo clichê, banal ou de uso terapêutico. E, assim, a cruz vai perdendo a glória e o brilho que lhe pertencem.

Os reformadores possuíam uma visão elevadíssima de Deus e sua santidade. Textos bíblicos que fazem menção a Deus como “fogo devorador” (Is 33:14; Hb 12:29), “terrível em maravilhas” (Ex 15:11) e “santíssimo” (Ex 30:10) eram imagens que expressavam um Deus revestido de “luz inacessível” (1Tm 6:16). Cenas bíblicas como Moisés que poderia morrer se contemplasse a face de Deus (Ex 33:20) ou de Isaías que gritava “Ai de mim!” (Is 6:5) depois de ir à sala do trono do Altíssimo, compunham esse imaginário importante sobre um Deus inefável.

A tensão dos reformadores era: como gente pecadora pode acessar o Deus descrito nas Escrituras Sagradas sem ser consumido por seu zelo e sua ardente glória e santidade? Como alguém pode se relacionar com este Deus que chama homens e mulheres a amá-lo com todo coração, alma e força (Dt 6:5)? Como disse o profeta Isaías: ‘nossas iniquidades fazem separação entre nós e nosso Deus’ (Is 59:2). Então, como entrar em seus domínios com a armadura ou traje adequados e, de preferência, um que resista seu fogo santíssimo?

Só os justos podem ir até o “Santo dos Santos”.  Mas quem é justo segundo os elevados critérios de Deus? Esta foi precisamente a angústia de Lutero:

“Nós, criaturas fracas e ignorantes, queremos sondar e compreender a majestade incompreensível da luz insondável da maravilha de Deus. Nós nos aproximamos, preparamo-nos para abordar.  Não causa surpresa, pois, que sua majestade nos domine e esmague.”[1]

Como lidar com esta tensão? Os reformadores encontraram a resposta na doutrina apostólica da justificação pela fé (Rm 3:24; 5:1; Gl 2:16-17). Justificação é imputação ou a declaração de que alguém é justo. Neste caso, é como se o pecador recebesse externamente (fora de sua própria justiça) a roupa adequada para ir até os domínios de Deus. Neste caso, a pessoa justificada veste-se da justiça de Cristo, graça obtida pela fé Nele, e realidade agora comunicada pelo Espírito Santo. Assim, tal justiça é creditada ao crente. Mas, é importante destacar, que o justificado não é alguém que se tornou moralmente neutro ante Deus, mas alguém que, além da dívida paga, obteve crédito positivo perante Deus por causa da abundante justiça de Cristo (Rm 5:20).

É por causa da comunhão com Cristo e da justiça dele no cristão que este agora pode ir até Deus como se trajado das obras justas de Cristo (Gl 3:27) e, assim, dirigir-se livremente ao Santíssimo Deus como um filho que fala a um pai (Rm 8:15 – adoção). Neste sentido, a obra de Jesus Cristo reconcilia os homens com aquilo que mais precisam: Deus (2Co 5:19).

O problema do homem moderno não-justificado ou do cristão superficial na sua fé é que ambos acham que o acesso a Deus é algo trivial. Pensa-se que se pode, a qualquer momento, ir até sua santidade e se relacionar com ele, como se Deus fosse obrigado a aceitá-los sem que estejam revestidos da justiça adequada. Não, não podem!

“Quem dentre nós habitará com o fogo devorador? Quem dentre nós habitará com chamas eternas? O que anda em justiça e fala o que é reto.” (Is 33:14-15)

O que os reformadores insistiam era: ninguém pode acessar a Deus sem que esteja em condições adequadas, ou seja, justo (Rm 2:5-11). Por isso, Cristo é quem viabiliza, por seu sangue e sua obediência, livre acesso ao Pai àqueles que pela fé nele foram justificados (Rm 5:2; Ef 2:18 e 3:12).

Desta forma, Cristo é o sumo-sacerdote que abriu o “novo e vivo caminho” (Hb 10:20) e leva cada cristão justificado para “além do véu” (Hb 6:19) e, desta forma, podem permanecer, pela fé, firmes perante Deus na justiça de Cristo (Rm 5:2). Neste momento, sem ignorar a santidade de Deus, podemos ir até Ele pela mediação de Jesus (1Tm 2:5; Hb 8:6; 9:15; 12:24) e encontrarmos o Deus de amor que ali habita. De fato, a justificação nos concede ver Deus de maneira mais profunda e mais amável, ou nas palavras de Lutero:

“Se você tem uma fé verdadeira de que Cristo é seu Salvador, então tem de imediato um Deus gracioso, pois a fé o conduz e revela o coração e o desejo de Deus, de modo que você possa ver pura graça e amor abundante. E é assim que, ao contemplar Deus em fé, você deve ver seu coração paterno e amigável no qual não há ira nem crueldade.”[2]

Uma vez que o cristão desfruta desta comunhão com Deus pela justiça de Cristo, Deus provê graça para que o cristão seja transformado à imagem de Jesus de “glória em glória” (2Co 3:18) e de “fé em fé” (Rm 1:17), agora no tempo presente. E é neste ponto que vemos a profunda relação entre justificação (ato definitivo) e santificação (ato processual), algo comumente negligenciado por cristãos que não conseguem conectar a obra que os justifica com sua consagração diária a Deus.

De fato, o enfraquecimento da obra justificadora implicará no enfraquecimento da santificação em si. Muitos querem tratar sobre santificação, mas o fazem de maneira desconectada da obra justificadora, reduzindo a obra da santificação a mera adesão a certos hábitos morais. Uma doutrina da santificação sem raízes bem fincadas na obra justificadora de Cristo resultará inevitavelmente em uma relação de permanente tensão entre um Deus santíssimo de um lado e, do outro, um miserável pecador tentando se arrastar para dentro dos domínios ardentes da santidade divina.

Finalmente, em tempos de rememoração dos 500 anos da Reforma, que Deus nos dê o frescor de nos deleitarmos nesta verdade:  “o justo viverá pela fé” (Hb 2:4; Rm 1:17; Gl 3:11 e Hb 10:38). Fé que não é mero consentimento intelectual (Tg 2:19; Mt 15:8), mas um abraçar existencial, viver e morrer em entrega total ao que Jesus Cristo realizou (Gl 2:20), confiantes de que as promessas de Deus são suficientes para nosso acesso à sua santa habitação. Neste momento, nosso acesso a Deus e à santificação se dão pela fé em Cristo, mas, no futuro, habitaremos como ressuscitados para sempre, e o veremos face a face (1Co 13:12) como Cristo o vê.

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[1] Lutero em Tischreden, p. 6561 em Weimar Ausgabe apud Bainton, Roland H. Cativo à Palavra: a vida de Martinho Lutero. São Paulo: Vida Nova, 2017. p.64.

[2] Weimar Ausgabe, XXXII, 328 apud Bainton, Roland H. Cativo à Palavra: a vida de Martinho Lutero. São Paulo: Vida Nova, 2017. p.72.

igorIgor Miguel é casado com Juliana Miguel, pai do João Miguel, cristão reformado, teólogo, pedagogo e mestre em letras (língua hebraica) pela FFLCH/USP. Educador social e coordenador pedagógico da Organização Multidisciplinar de Capacitação e Voluntariado (OMCV) em BH-MG, membro da AKET (Associação Kuyper de Estudos Transdisciplinares), articulador do movimento #IgrejaNaRua e membro da Igreja Esperança em Belo Horizonte - MG.
Um Retrato vívido de Martinho Lutero, o homem de fé inabalável em Deus que ajudou a promover a Reforma Protestante.

Ricamente ilustrado com mais de 100 gravuras da época, Cativo à Palavra dá nova vida de forma marcante, ao grande Reformador Martinho Lutero. Desde sua publicação, em 1950, a obra já vendeu milhões de exemplares e continua a ser publicada até os dias de hoje. Considerada uma das biografias mais acessíveis de Lutero, é ainda a introdução definitiva ao grande Reformador e leitura essencial para quem procura compreender essa grandiosa figura histórica.

Publicado por Vida Nova.