Até o Último Homem – Amor (ao próximo) em tempos de guerra | Silas Chosen

Existem dois tipos de filmes de guerra.

Há o filme de guerra que condena a guerra, seja através da exposição do horror e do absurdo, muitas vezes até ridicularizando o processo militar, seu treinamento, seus especialistas e os superiores, generais que, de uma sala normalmente escura, assinam a morte de milhões. Esse tipo é extremamente raro. Quando um filme desses começa a produção, dificilmente tem apoio das forças armadas, quer seja com artes conceituais ou consultoria. Nascidos Para Matar, de Stanley Kubrick, é um exemplo.

O outro tipo é muito mais comum. É o tipo de filme que explora a guerra como um triunfo (ou triunfos no meio da guerra), ou ainda, que mostra a guerra como algo inevitável, às vezes natural, também usando-a como plano de fundo para algo mais pessoal e mais íntimo acontecer no foco da câmera. Desse tipo os exemplos são como um oceano. É também o tipo de filme feito como propaganda. Hollywood não cansa de perpetuar na telona o nacionalismo americano do século XX. É uma coisa difícil para o brasileiro entender. Nos EUA, há um orgulho solene proveniente das forças armadas que é quase tão natural quanto nossa paixão pelo futebol. É meio que default. Mesmo com essa bandeira, esta categoria de filme neste formato clássico está caindo em desuso. Hoje em dia, décadas depois de um Vietnã, e com a incursão de Bush Filho no Oriente Médio ainda fresca na cabeça do povo, as pessoas estão entendendo que a guerra é muito pouco gloriosa para quem não tem nada a ver com a origem dela. Em quase todas as vezes, esses são todos os soldados de todos os lados. Então começa-se a desconstruir a guerra, a figura do soldado, os motivos pelos quais ele luta (como em Guerra ao Terror), e até a santidade das ações de horror feitas em nome da guerra. De certo ponto de vista, ainda são filmes que não estão exatamente “condenando a guerra”, talvez porque esse, como disse acima, seja um assunto também já passado. A maioria, no entanto, não deixa de enaltecer a bandeira americana e seus valores.

Mel Gibson é e foi muitas coisas ao longo de sua carreira. Muitas delas não são positivas, muitas delas levaram-no à prisão. Mas uma de suas características mais icônicas, como diretor e contador de histórias, é sua confiança. Coração Valente é até hoje um filme corajoso, no mínimo por sua produção. A Paixão de Cristo é um filme de época feito todo numa língua desconhecida, sem falar das implicações religiosas. Em Apocalypto ele novamente apela para uma língua morta, atores completamente desconhecidos e violência extrema. Além disso, seus filmes têm um forte viés cristão (indispensável em Paixão de Cristo e sutil, mas presente, em Apocalypto), mesmo que não necessariamente proselitista. E, depois de 10 anos sem dirigir nada, Gibson volta com Até o Último Homem, baseado numa inacreditável história real de heroísmo e bravura na Segunda Guerra Mundial.

Andrew Garfield como Desmond Doss.

Andrew Garfield interpreta Desmond Doss, rapaz tímido do interior dos EUA que vê na guerra um dever irrecusável e, no ataque a Pearl Harbor, uma ofensa pessoal. O porém vem do fato de ser adventista e ter como preceito pessoal o dogma de nunca tocar numa arma. Ele precisa ir para a guerra, mas não pode matar ninguém. Apesar de o filme explicar os motivos disso com um flashback dramático e desnecessário lá pelas tantas do filme, basicamente é sua crença pessoal e religiosa que o leva a tal decisão.

Começa então os embates entre ele e seus companheiros de pelotão, seus superiores, sua família, sua namorada. Ele, é claro, não desiste, e eventualmente recebe a permissão de ir para a guerra “sem uma arma para se proteger”. É enviado para o front do Oceano Pacífico da guerra, contra os japoneses. Lá, trabalhando como médico de campo, demonstra que é mais do que isso. É quase um super-herói, que resgata mais soldados do que deveria poder, o que faz com que todos à sua volta revejam seus conceitos.

O filme, do começo ao fim, não esconde suas intenções, sua época, sua ideologia. É um filme cafona além da conta, mas é um filme que usa essa cafonice como se fosse uma armadura. Mel Gibson sabe exatamente o que quer e o que está fazendo. Até o Último Homem é para ser um filme antiquado. A gloriosa luz ilumina o paladino de maneira épica, seu corpo vai levando sobre si as amarguras da guerra, a bandeira americana vira quase um coadjuvante. Mas a destreza de Gibson e a entrega de Garfield ao papel não deixam a peteca cair.

Leia também  (RE)Descobrindo a mente evangélica | David T. Koyzis

A confiança é tanta que os clichês mais nefastos abundam. Pense em um clichê, e aqui ele estará. O tom meio piadista do começo do filme, aliado ao casting tenebroso de coadjuvantes, não ajudam a levar o filme a sério, mas este filme não tem a pretensão de ser um semi-documentário como O Resgate do Soldado Ryan. Foi feito para ser um filme estilo matinê.

O que surpreende, no final, além da violência absurda com a qual Gibson parece estar casado, e também sua proeza técnica (apesar de criar cenas de batalha pouco criativas), é mesmo a moralidade do protagonista. Isso, quem sabe, seja uma desconstrução estranha no meio desse filme tão “comum”.

A frase de efeito, que está no trailer, que a câmera segura e o ator enfatiza, “sem uma arma para se proteger”, é bem enfática, e quem sabe, irônica. Uma arma é feita para matar. É assim desde o início dos séculos. A proteção pessoal (ou de terceiros) é um subproduto de seu uso. A pegadinha semântica é que, com a frase dessa forma, é como se a função primária de uma arma fosse proteger o soldado. Nos Estados Unidos, armas são partes primárias da cultura. O direito de portar armas é um dos direitos mais intocáveis dentre todos. Um herói, representante do que há de mais valoroso entre os bravos jovens da classe média americana, que se nega a tocar numa arma por causa de Jesus Cristo, é quase um iconoclasta. Mas ele não tem a intenção de ser, ele só quer servir a seu país sem tirar uma vida sequer por isso.

Mas o esforço, a via sacra, o sacrifício em prol de seus companheiros de batalha não é o suficiente. Numa cena, embrenhado em túneis ocupados pelos japoneses, Doss salva a vida de um soldado inimigo. Cura seus ferimentos e o manda para seu lado. Ainda bem que este soldado não aparece novamente, salvando Doss ou matando alguém importante (lembra do Soldado Ryan?), pois isso destruiria o conceito aqui defendido. Doss não faz isso por recompensa, faz isso por princípio. E o filme não é um ensaio niilista sobre a guerra (nem Soldado Ryan é).

O final do filme deixa claro que isto não é uma ficção, que até as coisas mais absurdas do filme realmente aconteceram, e isso não diminui o impacto de seu formato. Até o Último Homem tenta desconstruir um dos mais sagrados pilares americanos usando uma linguagem extremamente conservadora. Um dos poucos trunfos do filme é não ser proselitista. O filme não quer te convencer que Doss está “certo” e que todos os outros estão “errados”. De forma que ele não é um filme “antiguerra”. Afinal, Doss está posicionado no lado da guerra que não venceu com a bravura dos soldados, mas que venceu com uma bomba nuclear, jogada em cima de civis. O filme não aborda isso, mas dificilmente alguém vai assistir a um filme desses e esquece desse detalhe. Ou seja, de certo ponto de vista, a cosmovisão de Doss, no final, perde. Ele mesmo considera a guerra algo necessário, quiçá positivo. O único contraponto a isso é colocado nas palavras do pai dele, interpretado por Hugo Weaving, um ex-soldado da Primeira Guerra Mundial que sabe muito bem para onde todas as guerras levam os soldados. É um contraponto que o filme nem tem interesse de desenvolver ou discutir: guerra é guerra e, se os EUA ganharem, ela é uma boa guerra. Lamentável, dolorida, cara, mas vitoriosa.

Há quem diga que Jesus não era um pacifista. Há quem diga que o diabo adora épocas de paz entre os povos. É um reversal de valores que parece servir somente ao fato de ser um reversal. Jesus talvez não tenha sido claro ao não abordar “como o cristão deve se portar quando os nazistas invadirem a Polônia e os Japoneses atacarem o Havaí”. Mas foi muito claro na hora de “amar o próximo” e “dar a outra face”. Doss recebeu várias honrarias por seu serviço à guerra, aos seus companheiros, ao seu país, e faleceu em 2006, com 87 anos. E quem sabe aí então recebeu a medalha que mais queria.

Silas Chosen é roteirista, cineasta, publicitário, ilustrador e é viciado em cinema e histórias. Escreve para sites e programas de rádio sobre cinema, cultura pop e cristianismo desde 2004. Faz parte da 4U Films, ministério de cinema independente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *