Autocasamento | Timothy George

Eco e Narciso, de John William Waterhouse, 1903. Walker Art Gallery, Liverpool.

Ela ainda não é comum, nem uma tendência, mas já existe e tem um nome: sologamia. Sologamia é o casamento de alguém consigo mesmo. O gênero neste caso não é relevante, embora existam indicações de que mais mulheres têm abraçado o casamento sologâmico do que os homens. Linda Baker, aparentemente, foi a primeira pessoa a se casar consigo mesma em dezembro de 1993. Outras a seguiram, incluindo Sara Sharpe, que escreveu sobre seu autocasamento no livro A Dress, A Ring, Promises to Self [“Um Vestido, Uma Aliança, Votos ao Eu”]. Há também Nadine Schweigert, uma mulher de 36 anos de Fargo, Dakota do Norte, que foi entrevistada por Anderson Cooper após casar-se consigo mesma na frente de quarenta amigos mais próximos. “Eu, Nadine”, disse a si mesma, “prometo habitar minha própria vida de maneira prazerosa e saborear um relacionamento amoroso vitalício com o meu belo eu”. Jennifer Hoes é uma holandesa que fez o mesmo em 2003. Seu autocasamento foi tema de um documentário recente de dez minutos na Aeon Magazine.

O que está acontecendo? Na tradição cristã, o casamento tem sido compreendido historicamente como uma aliança conjugal vitalícia entre um homem e uma mulher, uma união de amor que envolve entregar-se a si mesmo a Deus e aos outros. Hoje, a instituição do casamento – que tem florescido não apenas entre cristãos, mas também em diversas tradições religiosas do mundo –, está sendo desafiada a partir de muitos ângulos e muitas práticas. Até pouco tempo, essas práticas eram consideradas hostis ao florescimento humano. Tais práticas incluem o assim chamado casamento homossexual, a poligamia, o incesto, os relacionamentos poliamorosos de vários tipos, e agora a sologamia.

Em alguns aspectos, o autocasamento é a consequência lógica daquilo que o crítico cultural Christopher Lasch descreveu em 1979 em seu livro The Culture of Narcissism [“A Cultura do Narcisismo”]. Lasch, que desenvolve seu argumento a partir do ensaio clássico intitulado de “Sobre o Narcisismo”, escrito por Sigmund Freud em 1916, aplicou o termo ao sentido de grandiosidade e ao excesso de amor próprio que parece marcar não apenas indivíduos com distúrbios psicológicos, mas também a sociedade estadunidense posterior à década de 1960 como um todo.

O Narciso da mitologia grega era um jovem atraente por quem todas as garotas belas se apaixonavam. Narciso, porém, desprezava esses afetos a fim de favorecer a beleza de seu próprio eu. Um dia, enquanto caminhava pela floresta, ele se ajoelhou para beber de um lago transparente. Ele estava tão encantado com sua própria imagem no lago que imediatamente se apaixonou por si mesmo. Narciso se afogou tentando agarrar seu próprio reflexo no lago.

“Cada um na cela de si mesmo está meio convencido de sua liberdade”, escreveu W. H. Auden em 1940. Nos dias de hoje, alguém quase que poderia escrever “telefone celular” em lugar da palavra “cela”, de Auden. A era do narcisismo digital está constantemente se expandido: selfies em todos os cantos do Facebook, YouTube, Twitter, Tumblr, LinkedIn, Tinder, Snapchat, Instagram, e LivesOn. LivesOn tem o objetivo de perpetuar a identidade do indivíduo até mesmo após a morte. “Quando seu coração parar de pulsar, continue a twittar.”

Lasch morreu há vinte anos, com 61 anos de idade. Ele não era um religioso, mas entendia bem como os valores, as crenças e as práticas da cultura mais ampla resultariam em uma “epidemia narcisista”, para citar o título de um livro recente. O narcisismo é mais do que o individualismo moderno levado ao extremo. Em seu cerne, é um distúrbio espiritual, aquilo que Martinho Lutero (emprestando uma frase de Agostinho) descreveu como incurvatus in se, ou seja, com as “costas encurvadas para dentro de si”.

Temos visto em nossa própria era a evisceração daquelas comunidades que nos sustentam durante os tempos mais penosos e difíceis. A principal delas é a família, que Lasch uma vez descreveu como sendo o “refúgio em um mundo impiedoso”. A tradição cristã mantém um lugar de honra ao celibato e à condição de solteiro por se tratarem de um chamado particular de Deus. Isto inclui os protestantes: pense nos pastores anglicanos Charles Simeon e John Stott, e na missionária batista Lottie Moon. O celibato, no entanto, é o oposto da sologamia, uma vez que ele se baseia na interdependência e no serviço radical do amor.

Lasch já tinha conhecimento suficiente para prever nosso momento atual nos anos 1970 quando observou o seguinte:

“A melhor esperança da maturidade emocional, então, parece estar em um reconhecimento de nossa necessidade e dependência de outras pessoas, as quais, contudo, permanecem separadas de nós mesmos e se recusam a se submeter aos nossos caprichos. Está em um reconhecimento das outras pessoas não como projeções de nossos próprios desejos, mas como seres independentes com desejos próprios.

De modo mais amplo, está na aceitação de nossos limites. O mundo não existe meramente para satisfazer nossos próprios desejos; trata-se de um mundo no qual podemos encontrar prazer e sentido, uma vez que entendamos que as outras pessoas também têm direito a esses bens. A psicanálise confirma a percepção religiosa antiga de que a única maneira de se obter a felicidade é aceitar as limitações em espírito de gratidão e contrição ao invés de tentar anulá-las ou ressenti-las de maneira amargurada.”

Hoje, em Roma, o Papa Francisco irá lançar um colóquio chamado “Humanum: A Complementaridade entre Homem e Mulher”[1]. Os oradores representam muitas nações e muitas tradições religiosas ao redor do mundo. Todos se reunirão para “examinar e propor novamente a beleza do relacionamento entre homem e mulher, a fim de apoiar e revigorar o casamento e a vida familiar para o florescimento da sociedade humana.” Em um mundo gradualmente secular no qual o sentido de Deus é descartado e a integridade da pessoa humana cada vez mais caótica, é importante lembrar que a mutualidade em dar e receber, tanto a complementaridade como a igualdade, são essenciais à vida humana – como Deus pretende que seja. Abaixo temos um belo trailer que descreve o evento Humanum, narrado pelo Dr. Peter Kreeft.

Mesmo na farsa do casamento homossexual, há um certo anseio por complementaridade. Nadine, por exemplo, falou sobre se casar com seu “noivo interior”, uma imagem decididamente baseada em gênero. Jennifer insistiu que estivessem presentes todos os apetrechos de um casamento tradicional, incluindo o vestido, as flores, a madrinha, a cerimônia pública e o registro na prefeitura. Todos esses acessórios nupciais estão disponíveis para qualquer um que queira investir meros trezentos dólares em um novo produto de consumo, qual seja, a Caixa para Autocasamento.

Dietrich Bonhoeffer nunca se casou nem tentou se autocasar. Entretanto, ele chegou a ficar noivo e refletiu profundamente sobre o significado do matrimônio. Enquanto estava na prisão de Tegel, Bonhoeffer escreveu um sermão sobre casamento à sua sobrinha Renate Schleicher e ao seu querido amigo Eberhard Bethge. Suas palavras ainda comunicam com poder:

“Matrimônio é mais que o amor que tendes um pelo outro. Ele possui mais elevada dignidade e poder porque é instituição sagrada de Deus, pela qual Este pretende conservar o homem até o fim dos dias. No vosso amor ambos vedes só a vós, no mundo, pelo matrimônio vos tornastes um elo na cadeia das gerações que Deus cria assim como as faz desaparecer para Sua honra e as chama para o Seu reino. Em vosso amor só enxergais o céu da vossa própria felicidade, graças ao matrimônio sois postos no mundo como responsáveis pelos homens. Vosso amor pertence exclusivamente a vós e de modo muito pessoal; o matrimônio é algo acima do pessoal – é um estado, uma função. Assim como a coroa faz o rei e não a simples vontade de governar, assim também é o matrimônio e não já o vosso amor de um pelo outro que vos torna um par diante de Deus e perante os homens.”[2]

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[1] Nota do tradutor: Trata-se do colóquio lançado em 17 de novembro de 2014. Para ler o discurso completo do Papa Francisco, acesse: http://www.catholicherald.co.uk/news/2014/11/17/full-text-pope-franciss-opening-address-to-humanum-conference/

[2] Extraído do livro “Dietrich Bonhoeffer, Resistência e submissão” (Rio de Janeiro: Paz e Terra & Rio Grande do Sul: Sinodal, 1980), pp. 39-45.

Traduzido por Jonathan Silveira.

Texto original: Same-Self Marriage. First Things.

Timothy George é diretor-fundador e professor de teologia da Beeson Divinity School. É mestre em teologia pela Harvard Divinty School e doutor na mesma área pela Harvard University. Ensina história da igreja, teologia histórica e teologia dos reformadores. Além disso, é editor-executivo da Christianity Today e participa também do conselho editorial da The Harvard Theological Review, Christian History e Books & Culture. É casado com Denise e pai de Christian e Alyce.
Como pensavam Lutero, Zuínglio, Calvino e Simons, grandes reformadores da história da igreja cristã? Esses homens fazem parte do alicerce de toda estrutura do pensamento teológico das principais igrejas em todo o mundo. O autor introduz o assunto apresentando uma análise do pensamento teológico predominante no final da Idade Média. Indispensável para quem se interessa por história das doutrinas.

Publicado por Vida Nova.