Coisas terrenas e coisas celestiais – Uma abordagem reformada sobre a relação entre Ciência e Escrituras | Keith Mathison

O sono da razão produz monstros, por Francisco de Goya (1797–1799)

Nesta série, estamos discutindo a resposta do Dr. R. C. Sproul a uma pergunta sobre a idade do universo, durante o momento de perguntas e respostas na Conferência Nacional Ligonier de 2012. Em nosso último post, olhamos para a visão de Martinho Lutero e João Calvino acerca do geocentrismo a fim de expandir o comentário do Dr. Sproul sobre os erros que os cristãos do passado cometeram em sua compreensão da criação de Deus. O Dr. Sproul argumentou que a igreja foi capaz de aprender com os cientistas não-cristãos que estudaram as obras criadas por Deus. Para os cristãos reformados, isso levanta várias questões relacionadas à Queda e seu impacto sobre a razão humana.

É importante tratar destas questões, uma vez que alguns têm sugerido que aqueles, como o Dr. Sproul, que estão na tradição dos teólogos de Princeton não levam o impacto da Queda sobre a mente humana tão a sério quanto deveriam. Esta sugestão é falsa, como vários livros recentes têm demonstrado[1]. Mas como pode-se afirmar, por um lado, que a Queda contaminou a mente humana e também, por outro lado, que a Igreja pode aprender com os incrédulos acerca das obras de Deus? Antes de respondermos a esta pergunta, é necessário oferecer um breve resumo da visão reformada sobre a razão e a revelação antes e depois da Queda. O objetivo aqui não é resolver todas as questões relacionadas a isso (há muitas). Trata-se meramente de resumir alguns dos pontos mais fundamentais.

Revelação e razão antes da Queda

O homem foi criado à imagem de Deus e, antes da Queda, “a imagem de Deus era visível na iluminação da mente, na sinceridade do coração, e na solidez de todas as suas partes” (Calvino, Institutas I.xv. 4). Ele era, como Charles Hodge explica, “originalmente criado em um estado de maturidade e perfeição.” A razão[2], a vontade e as emoções do homem eram incorruptíveis pelo pecado e funcionavam corretamente.

Em relação à revelação geral antes da Queda, João Calvino explica muito bem o seu propósito original. Em suas Institutas, ele escreve: “A ordem natural era que a estrutura do universo deveria ser a escola na qual aprenderíamos a piedade, e, a partir dela, passaríamos à vida eterna e felicidade perfeita” (II .vi.1). Antes da Queda, portanto, a revelação de Deus era capaz de cumprir seu propósito original, uma vez que as faculdades de raciocínio do homem, a sua capacidade de receber o que era revelado, não tinha sido distorcida pelo pecado.

Revelação e razão depois da Queda

Nossos primeiros pais pecaram contra Deus e, como resultado, foram “inteiramente corrompidos em todas as faculdades e partes da alma e do corpo” (WCF, VI 0,2). Esta é uma descrição da depravação total. Teólogos às vezes usam a frase “os efeitos noéticos do pecado” para descrever a corrupção de uma dessas faculdades, a mente humana. É importante notar que, embora estas faculdades, incluindo a mente, tenham sido corrompidas e deformadas, elas não foram aniquiladas ou destruídas (Calvino, Institutas, I.xv.4). Deus graciosamente impediu que todos os seres humanos se tornassem animais completamente irracionais[3].

Embora a própria criação tenha sido amaldiçoada como resultado do pecado do homem (Gênesis 2:17), a infalível revelação do próprio Deus continuou. Paulo, por exemplo, explica que “os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas” (Romanos 1:20).[4] É precisamente porque a revelação continua clara que os incrédulos são considerados indesculpáveis (cf. Calvino, Institutas, I.vi.1).

Como é, então, que um crente reformado afirma, simultaneamente, o caráter caído da mente, a maldição sobre a criação, e a capacidade dos incrédulos de entender algo acerca do mundo criado? Ele pode fazer isso porque os tipos de entendimento ou conhecimento em questão são cuidadosamente distinguidos. Aqui, João Calvino pode oferecer uma outra ideia útil.

O duplo conhecimento de Deus

É importante lembrar que as Institutas de Calvino é em grande parte estruturada em torno da ideia do duplo conhecimento de Deus. O Livro Um é intitulado “O conhecimento de Deus, o Criador.” Já o Livro Dois é intitulado “O conhecimento de Deus, o Redentor em Cristo”. Se alguns estudiosos de Calvino estiverem corretos, e os Livros Três e Quatro sejam realmente agrupados sob o tema do conhecimento de Deus, o Redentor, então a totalidade das Institutas está estruturada em torno desta ideia do duplo conhecimento de Deus.[5]

Independentemente da maior parte ou todas as Institutas estarem estruturadas em torno deste tema, Calvino ensina claramente que nossas fontes de conhecimento de Deus como Criador são a revelação geral e a especial. Por outro lado, nossa fonte de conhecimento de Deus como Redentor em Cristo é apenas a revelação especial. A revelação geral, como já vimos, é insuficiente para o conhecimento da redenção. Além disso, o conhecimento de Deus por meio da revelação geral é reprimida e distorcida pelo incrédulo. De acordo com Calvino, qualquer um que deseje chegar a um verdadeiro conhecimento de Deus como Criador precisa das Escrituras. Calvino compara as Escrituras a lentes que nos permitem ver a revelação de Deus na criação de forma clara (Institutas, I.vi.1).

O ponto importante a notar aqui é que toda essa discussão, até agora, diz respeito ao conhecimento de Deus.

Coisas celestiais e coisas terrenas

Nesta série, já tratamos de algumas distinções teológicas importantes. João Calvino apresenta mais uma, capaz de lançar uma luz significativa sobre a questão que se encontra, agora, diante de nós. Ele distingue entre o conhecimento das coisas celestiais e o conhecimento das coisas terrenas. A discussão mais completa desta distinção é encontrada nas Institutas, II.ii.12-21. Calvino também a usa em seu comentário de 1Coríntios 1:20, quando comenta acerca da chamada “sabedoria do mundo”.

Calvino começa sua discussão no Livro II.ii.12. Ele começa esta seção concordando com a afirmação de Agostinho de que os dons espirituais do homem foram “retirados” dele por causa do pecado, enquanto seus dons naturais foram apenas corrompidos. Um desses dons naturais é o “entendimento”, que foi enfraquecido e corrompido. Mas esta fraqueza, de acordo com Calvino, não é a mesma coisa que a aniquilação, o que reduziria o homem ao mesmo nível de animais brutos. Quanto à “compreensão”, ele diz, “quando nós assim condenamos o entendimento humano por sua cegueira perpétua de forma a deixá-lo sem percepção de qualquer objeto que seja, nós não apenas vamos contra a Palavra de Deus, mas também entraremos em contradição com a experiência do senso comum” (II.ii.12). Assim, o entendimento humano não foi completamente destruído. Ele foi, no entanto, enfraquecido.

Embora uma compreensão humana enfraquecida esteja presente, “os seus esforços nem sempre se tornam tão inúteis, como se não tivessem nenhum efeito, especialmente quando eles voltam sua atenção para coisas de baixo” (II.ii.13, ênfase minha). Aqui, Calvino sugere a distinção que esclarece muito do seu pensamento sobre este assunto. Ele, então, se explica mais detalhadamente: “de forma a perceber mais claramente o quanto a mente pode proceder em qualquer assunto, de acordo com o grau de sua capacidade, devemos aqui estabelecer uma distinção. Esta, então, é a distinção: que há um tipo de compreensão das coisas terrenas; e outra, das celestiais “(II.ii.13). As “coisas terrenas” são aquelas coisas que não pertencem a Deus ou ao Seu reino. Entre essas coisas, Calvino inclui o governo, o cuidado doméstico, as habilidades mecânicas, e as artes liberais e ciências. Entre as “coisas celestiais” estão o conhecimento puro de Deus, a natureza da verdadeira justiça, e os mistérios do reino (II.ii.13).

De acordo com Calvino, apesar da Queda, os incrédulos podem chegar ao conhecimento das coisas terrenas, e ele fornece inúmeros exemplos. Quanto ao conhecimento da ciência, ele escreve: “Esses homens que as Escrituras [I Coríntios 2:14] chamam de ‘homens naturais’ eram, na verdade, perspicazes e profundos em sua investigação das coisas inferiores “(II.ii.15, ênfase minha). Na próxima seção, ele continua nas mesmas linhas: “Mas se o Senhor quis que fôssemos ajudados na física, dialética, matemática e outras disciplinas por meio da obra e ministério de ímpios, vamos usar esta assistência. Pois se negligenciarmos o dom de Deus oferecido livremente nestas artes, deveríamos sofrer uma justa punição pela nossa preguiça” (II.ii.16). No entanto, embora Calvino seja grato pelo conhecimento que pode ser adquirido desta forma, ele entende que o conhecimento das coisas terrenas possuído pelos incrédulos é verdadeiro apenas até certo ponto. Ele é “uma coisa instável e transitória à vista de Deus, no qual uma base sólida de verdade não o fundamenta” (II.ii.16).

Nas seções seguintes, Calvino volta sua atenção ao que a razão humana pode saber acerca das coisas celestiais (“o reino de Deus e discernimento espiritual”). Ele explica: “Esta percepção espiritual consiste principalmente em três coisas: (1) o conhecimento de Deus; (2) o conhecimento de seu favor paternal em nosso favor, em que consiste a nossa salvação; (3) o conhecimento de como alinhar nossa vida de acordo com a regra de sua lei. Nos dois primeiros pontos – e, especialmente, no segundo – os maiores gênios são mais cegos do que toupeiras”! (II.ii.18). Ele acrescenta: “A razão humana, portanto, nem se aproxima, nem se esforça para alcançar, e nem sequer aponta diretamente para esta verdade: entender quem é o verdadeiro Deus ou o que este Deus deseja ser para nós” (II.ii 0,18). Assim, embora os incrédulos possam chegar a algum entendimento preciso das coisas terrenas, eles não podem fazê-lo em conexão às coisas celestiais.[6]

A sabedoria do mundo

Em seu comentário sobre 1Coríntios 1:20, Calvino comenta sobre o que Paulo se refere como a “sabedoria do mundo”. Seu uso da distinção entre conhecimento de coisas terrenas e celestiais nos ajuda a entender como o aprendizado a partir do conhecimento dos incrédulos em algumas áreas não implica capitular à sabedoria do mundo. Ele primeiro explica, em seu comentário sobre 1Coríntios 1:20, o que já mencionamos acima, a saber, que qualquer conhecimento que os incrédulos tenham das coisas terrenas é vão, em última análise, se não estiver baseado na fé cristã. Ela pode ser verdadeira até certo ponto, mas não vai suficientemente longe. Calvino, em seguida, apresenta seu ponto principal. Ele argumenta que Paulo não está condenando o raciocínio de homem ou sua capacidade de compreender coisas terrenas. Ele está declarando “que tudo isso é de nenhum proveito para a aquisição de sabedoria espiritual” (ou seja, o conhecimento das coisas celestiais).

A distinção de Calvino relativa à capacidade dos incrédulos de chegar a algum conhecimento exato das coisas terrenas, mas pouco ou nenhum conhecimento das coisas celestiais, se baseia nas próprias Escrituras. Todas as Escrituras supõem que a razão do homem reteve alguma funcionalidade depois da Queda. Ele ainda se distingue dos animais irracionais e ainda pode chegar a uma compreensão bastante exata do mundo criado, a fim de viver e atuar nele. Ele pode dizer a diferença entre uma árvore e uma vaca. Ele pode aprender a cozinhar, a plantar, a construir e a governar através de uma observação precisa do mundo. O próprio Jesus apontou para a capacidade dos incrédulos de compreender corretamente algo do mundo natural em sua controvérsia com os fariseus e saduceus: “Ele respondeu: Quando a tarde vem, vocês dizem: ‘Vai fazer bom tempo, porque o céu está vermelho’, e de manhã: ‘Hoje haverá tempestade, porque o céu está vermelho e nublado’. Vocês sabem interpretar o aspecto do céu, mas não sabem interpretar os sinais dos tempos! (Mateus 16:2-3). Os incrédulos podem chegar a algum conhecimento das “coisas terrenas” a partir da observação da criação de Deus. Quando se trata de o conhecimento das coisas celestiais, porém, os incrédulos são cegos.

Em nosso próximo post, vamos olhar mais de perto como o Dr. Sproul sugere que os cristãos deveriam responder diante de um aparente conflito entre as Escrituras e a ciência.

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[1] Diversos trabalhos recentes e importantes começaram a responder a esta crítica específica aos teólogos de Princeton e, por extensão, para aqueles que os seguem. Veja, por exemplo, Paul Kjoss Helseth, “Right Reason” and the Princeton Mind (Phillipsburg, NJ: P & R Publishing, 2010); Fred G. Zaspel, The Theology of B.B. Warfield (Wheaton: Crossway, 2010); David P. Smith, B.B. Warfield’s Scientific Constructive Scholarship (Eugene, OR: Pickwick, 2011).

[2] Charles Hodge, Systematic Theology, 3 vols. (Grand Rapids: Eerdmans, 1982 [1872–73]), 2:92.

[3] Veja a discussão de Anthony Hoekema sobre “graça comum” em seu livro Criados à imagem de Deus, segunda edição (São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2010), 189-202.

[4] Ênfase minha.

[5] Edward A. Dowey, Jr. The Knowledge of God is Calvin’s Theology, 3rd ed. (Grand Rapids: Eerdmans, 1994), 41–9.

[6] Calvino de fato às vezes sugere uma visão das coisas espirituais muito limitada da parte dos descrentes, mas este tema está fora do âmbito da presente série.

Traduzido por Fernando Pasquini Santos e revisado por Jonathan Silveira.

Texto original: Earthy Things and Heavenly Things – A Reformed Approach to Science and Scripture. Ligonier Ministries.

Keith Mathison é professor de teologia sistemática no Reformation Bible College em Sanford. É autor de muitos livros, incluindo o livro From Age to Age.

Veja também os demais artigos da série:

  • Coisas terrenas e coisas celestiais