Como a vulgaridade normaliza os predadores | Leah Libresco Sargeant

Harvey Weinstein molestou mulheres por décadas e usou o seu poder para limitar-lhes as possibilidades de fugir de suas violações ou trazê-lo à justiça. Ele reuniu sua equipe jurídica e seus contatos na imprensa para difamar e ameaçar as mulheres que tentavam tomar alguma medida. Ele conduziu seu comportamento deplorável com o mesmo cuidado meticuloso que ele demonstrou nas suas campanhas ao Oscar, construindo uma máquina para ofender e humilhar mulheres.

Não é comum alguém com o poder e o número de pessoas que Weinstein conseguiu cooptar a serviço da sua conduta perversa, mas todo agressor sexual e assediadores no ambiente de trabalho dependem de estruturas de poder e normas para lhes ajudar a prejudicar os outros. Nós lhe damos cobertura quando normalizamos comportamentos que se aproximam de abuso, permitindo que predadores passem apenas como um tanto afobados ou descontrolados.

Os estupradores são auxiliados pela predominância do sexo adjacente ao estupro – isto é, o sexo que legalmente não é estupro, dado que não há supressão de consentimento; mas no qual o consentimento também não é garantido. Por exemplo, sexo com alguém que você não conhece o suficiente para dizer se ela está apenas um tanto alegre ou demasiadamente bêbada para consentir. O sexo com alguém cujo “Tá… tudo bem” você não conhece o bastante para distinguir recato do consentimento de alguém com medo. Sexo com alguém cujas crenças sobre o sexo você não conhece, de modo que você descobre seus limites por tentativa e erro, não conversando previamente com as roupas devidamente vestidas. (Não é coincidência que todos esses cenários são muito mais prováveis quando as pessoas fazem sexo com estranhos ou quase-estranhos. É muito difícil querer o bem de alguém que você conhece apenas genericamente).

Quanto mais comum for o sexo adjacente ao estupro, mais difícil será para uma vítima em potencial se insurgir ou alguém próximo intervir. Um estuprador resoluto não parece tão diferente do que um baladeiro descuidado e ambos têm uma negação plausível: o sexo que eles estão prestes a fazer pode não ser vivenciado como estupro.

No ambiente de trabalho, a vulgaridade também funciona como quase-assédio, mesmo quando uma piada obscena é verdadeiramente aceita pelos ouvintes. Toda malícia normaliza o sexo abusivo, ainda que esse abuso seja tão somente o deixar alguém desconfortável.

C. S. Lewis, em “Cristianismo Puro e Simples”, define a obscenidade como um pecado contra a castidade (quando ela tem propósito “de excitar o desejo sexual em si mesmas ou nos outros”) e um pecado contra a caridade (“para chocar ou causar embaraço nos outros”). Eu acrescentaria que frequentemente é um pecado contra a consciência, que é quando as pessoas se envolvem com depravação para manter o endurecimento de suas almas. Os amigos que jogam Cartas Contra a Humanidade (“Um jogo de festas para pessoas horríveis”) vão aprender a descartar a serena voz da consciência como mera frescura.

Quanto mais adotarmos a vulgaridade e a quebra de tabus como algo libertador, mais espaço daremos aos predadores. Em decorrência disso, mais pessoas bem-intencionadas serão abusivas com seus amigos e colegas acreditando que seu comportamento era seguro, já que era comum.

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Por exemplo, é difícil dizer se o executivo de Hollywood que assediou o ator Terry Crews numa festa entendia o seu ato como um assédio. Numa cultura suficientemente depravada, cumprimentar alguém tocando-lhe o meio das pernas pode ser realmente visto pelo assediador como uma brincadeira ou, em outro caso, se a vítima reagir negativamente, como um erro sincero.

Miki Agrawal, o CEO da Thinx, uma empresa que produz roupa íntima para mulheres menstruadas, apresentava-se a si e a sua empresa como livre dos tabus sobre os corpos femininos. Assim, quando ela brindava seus subordinados com detalhes de sua própria vida sexual, trocava de roupas em frente aos subordinados e comentava positivamente sobre os seios das subordinadas – seguindo a esse quase-elogio com um pedido para que elas lhes mostrassem os seios – ela talvez tenha visto seu comportamento como progressista. Mas seus empregados achavam seu comportamento infernal.

No meu próprio trabalho, certa feita eu estava ensinando uma nova contratada a usar nosso programa interno de mensagens, então eu lhe pedi para que me enviasse um emoji como teste. Ela me mandou um ícone de uma berinjela seguido de uma série de três gotas d’água – o que representava um pênis ejaculando. “Ah”, eu disse, “você me mandou uma berinjela triste. Ela tá chorando”. Ela ficou um tanto confusa. “Você acha que é isso? Você sabe o que é uma berinjela –”, eu então lhe cortei, “Eu sei, mas eu não gosto disso” e segui à próxima tarefa de nossa lista.

Uma vez eu tive que me afastar de uma conversa na minha própria sala de estar, quando um dos meus amigos que morava comigo começou a discutir com seus amigos e comparar, em detalhes vívidos, as genitálias de suas antigas parceiras. Eu não tinha qualquer intenção de participar dessa violação de intimidade ouvindo os detalhes dos corpos que lhes foram oferecidos a esses homens e agora eram tratados como lixo a qualquer um que lhes quisesse.

Lutar contra esse tipo de malícia é necessário – tanto porque a vulgaridade violenta a nossa compreensão de nós mesmos como seres sexuais, e o propósito de nossa sexualidade, quanto porque ela obscurece as linhas em torno do assédio. Não deveríamos permitir que os predadores se escondam por trás da ideia de que nós todos usamos a sexualidade para nos tornarmos uns aos outros desconfortáveis eventualmente.

Os supervisores, que têm menos a temer, deveriam prestar especial atenção às conversas amistosas, mas desagradáveis que tornam seu ambiente de trabalho um refúgio para assediadores. Enfrentar a vulgaridade é um ato de mordomia, uma oportunidade de estabelecer os limites de sua comunidade, orando por todos aqueles que lhes foram confiados.

Traduzido por Vitor Grando e revisado por Jonathan Silveira.

Texto original: How Vulgarity Normalizes Predators. First Things.

Leah Libresco Sargeant é palestrante, escreve sobre religião, estatística e teatro. É também
autora do livro 'Arriving at Amen' e escreve no blog LeahLibresco.com.