Cristãos progressistas tornam-se ateus | Sam Hailes

Bart Campolo

Às vezes, cristãos fundamentalistas alertam que qualquer desvio de crenças evangélicas históricas (mesmo que pequenas) acabam se tornando um trampolim em direção ao completo ateísmo. Em outras palavras, cristãos devem aceitar que o inferno é eterno, que a Bíblia é inerrante e que Deus criou tudo em seis dias literais de 24 horas. Se você remover qualquer uma dessas doutrinas, não demorará muito para que você acabe também negando sua fé.

Jovens evangélicos como eu tendem a rejeitar essa forma de pensamento. Reconhecemos que há espaço para diferenças no modo como se interpretam doutrinas como criação e soberania. Apenas as declarações credais centrais sobre a existência de Deus, ressurreição e divindade de Cristo são inegociáveis. Por causa da pressão de nossa cultura ou uma honesta releitura das Escrituras, nos tornamos suscetíveis a mudar nossas mentes sobre doutrinas que cristãos de gerações anteriores sustentaram cuidadosamente.

Mas, o que é surpreendente é que nossos velhos amigos fundamentalistas não são os únicos a pensarem que o cristianismo progressista pode ser um trampolim para o ateísmo. Um ateu, pelo menos, concorda com esta teoria!

A História de Bart Campolo

Bart filho de Tony Campolo é bem conhecido por sua rejeição da fé cristã. Apesar de não gostar do termo “ateu”, ele não acredita mais em Deus e atualmente trabalha como um capelão humanista.

Discursando sobre o recente episódio do podcastHoly Heretics” [Santos Hereges], Bart explicou que sua jornada para longe do cristianismo começou quando ele foi exposto à pobreza urbana.

“Isso bagunçou com minha teologia”, ele explica. “Eu tinha uma teologia que dizia que Deus poderia intervir e fazer coisas.” Mas depois de um período de oração não respondida, Bart admite: “Eu tinha que mudar meu entendimento sobre Deus. A soberania tinha esfriado bastante.”

Campolo admitiu que mudanças em sua visão da soberania de Deus foram o “começo do fim” de sua fé. Por quê?

“Porque uma vez que você começa a ajustar sua teologia para adaptá-la à realidade que está diante de você, isto se torna uma progressão infinita… minha capacidade para crer em uma narrativa sobrenatural ou em um Deus que intervém e que faz qualquer coisa morreu depois de milhares de orações não respondidas.”

Campolo continuou: “Passei por todos os estágios da heresia. Isso começou quando a soberania acabou, logo a autoridade bíblica acabara também, então tornei-me um universalista e, enfim, casava gays. E, em pouco tempo, realmente eu já não cria que Jesus tinha ressuscitado dos mortos de forma corpórea.”

Como cristãos se tornam ateus

Campolo não acha que ele seja um caso isolado. Ao contrário, ele acredita que o mundo atual do “cristianismo progressista” (que ele chama de “marginais” do cristianismo) está caminhando rapidamente para a descrença total. Em um discurso durante o Festival Wild Goose (a versão americana de Greenbelt), Bart foi claro: “O que eu sei é que se há 1000 pessoas no Wild Goose hoje, daqui a 10 anos trezentas ou quatrocentas delas não estarão mais no jogo.”

Campolo está prevendo que mais de 40% dos cristãos progressistas se tornarão ateus na próxima década. Na sua visão, o processo de abandono das doutrinas cristãs é quase viciante. Uma vez que você comece, já não sabe onde vai parar. Tudo começa com um “esfriamento” de sua visão da soberania de Deus, que facilmente pode terminar em descrença.

“Você percebe este cristianismo marginal quando as pessoas falam de ‘Deus’ e isto assume o sentido de ‘o universo’ e quando dizem ‘Jesus’ pensa-se em algo como ‘a redenção’ – eles são tão progressistas que eles não esperam que nada sobrenatural ocorra, eles estão esfriando do mesmo jeito que eu esfriei.”

Bart diz que “pulou” a “reinvenção progressista” do cristianismo e foi direto à conclusão lógica de que Deus não existe. Ele considera que cristãos progressistas deveriam parar de fingir que Deus existe em forma de “universo” ou qualquer outro jogo de palavras que se valha.

Campolo diz que há um mundo de podcasts, livros, eventos e outros recursos destinados a jovens evangélicos que estão repensando doutrinas evangélicas históricas como inferno, soberania, infalibilidade bíblica, sexualidade etc. Ele acredita que cristãos progressistas possuem a seu dispor vários líderes que são “clean, legais, difusos” para seguir, e ele cita Rob Bell e Donald Miller como exemplos. Mas, como um capelão humanista, Campolo deseja oferecer orientação e ajudar jovens que rejeitaram inteiramente o conceito de Deus.

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“Lá fora no mundo há um crescente e expressivo número de jovens que não creem em Deus… Eles não possuem comunidades ou grupos. Eles precisam de capelães, criadores de comunidades, compositores musicais. Precisam de alguém que os ajude a definir esse modo de vida e assim eles tenham condições de compartilhá-lo com outras pessoas.”

O que a igreja pode aprender

Há uma lição para cristãos nas palavras de Campolo. Sua declaração “uma vez que você comece a ajustar sua teologia para adaptá-la à realidade que está diante de você, isto se torna uma progressão infinita” deveria nos fazer pensar.

A conclusão que Campolo chegou foi que se “a realidade” que está diante de você conflita com sua fé, então é sua fé que está errada e ela tem que ser mudada de alguma forma. Mas, há outras explicações. E se a sua percepção da “realidade” estiver errada? E se a “realidade” como você a percebe não é toda a verdade sobre ela? Talvez haja alguma verdade para além do que você e eu experimentamos.

Eu argumentaria que Bart simplesmente trocou uma forma de fé por outra ao abraçar a ideologia do humanismo secular. Confiantemente ele afirma que viemos de lugar nenhum e que somos produtos acidentais de um universo sem sentido. Para se crer nisso é necessário ter fé. Ele defende que, se temos apenas uma única vida, então a melhor forma de o ser humano gastá-la é maximizando o bem-estar dos outros. Isto é, mais uma vez, um artigo de fé, uma vez que esta crença de Bart (e que de modo algum é compartilhada universalmente) não é ditada nem pela ciência e tampouco pela lógica.

Creio que qualquer afinidade que encontremos em nós mesmos para o amor, bondade, beleza e verdade não é subproduto acidental de um processo evolucionário sem direção, mas um sinal em nós da imagem do Deus que Bart não acredita mais. Eu argumentaria que Deus é real quando eu o experimento tanto quando eu não o experimento. Minha experiência subjetiva não diminui a realidade objetiva.

Quando Campolo mudou sua teologia para se encaixar em sua experiência, este foi o princípio do fim. Isso deveria servir como um aviso para cristãos, sejam progressistas ou não. Ajustar sua teologia para que ela se encaixe em sua experiência pode soar como uma ideia atraente, mas isso nem sempre é tão inteligente como aparenta ser.

Muitos evangélicos progressistas recusarão o que Campolo está sugerindo. Eles argumentarão que estão há milhões de quilômetros do ateísmo. Talvez haja dois perigos iguais e opostos. Talvez evangélicos conservadores correm o risco de serem desnecessariamente dogmáticos sobre alguns assuntos e, assim, alienarem a próxima geração. Progressistas, por sua vez, correm o risco de, ao desistirem demasiadamente da doutrina histórica, sua fé começar a parecer mais com o humanismo de Campolo do que com o cristianismo histórico.

Uma fé despida de seus fundamentos está se tornando crescentemente anêmica. Mas talvez esse sempre foi o caso. Bart Campolo crê que sua adesão recente à “religião sem Deus” do humanismo o fez amar melhor as pessoas do que sua fé cristã de outrora. Isso pode ser verdade para Bart, mas, na prática, a maioria das coisas boas que são feitas no mundo é promovida por pessoas que creem que há um Deus que fez um mundo que vale a pena salvar.

Como disse C.S. Lewis: “Se você estudar a história você descobrirá que os cristãos que mais fizeram coisas para o mundo presente eram exatamente aqueles que mais pensaram no mundo vindouro.” Crenças incomuns sobre céu, inferno e eternidade não pararam cristãos de endireitar erros neste mundo. Exatamente o contrário!  Assim, se progressistas querem continuar servindo o pobre e amando o próximo, a história sugere que eles deveriam continuar bem firmes às doutrinas cristãs históricas – incluindo aquelas que não são tão palatáveis a alguns na cultura ocidental de hoje.

Traduzido por Igor Miguel e revisado por Jonathan Silveira.

Texto original: Bart Campolo says progressive Christians turn into atheists. Maybe he’s right. Premier Christianity.

Sam Hailes é editor adjunto da revista Premier Christianity. Participa também do programa de rádio “The Profile”, em que entrevista líderes cristãos, e também do programa “Your News”, onde, junto com um convidado, discute as principais notícias da semana a partir de uma perspectiva cristã.
  • Muito interessante, mas altamente suspeito esse tipo de testemunho pessoal. Seria bastante questionável tentar generalizar (e menos ainda, universalizar) uma experiência particular, por ex, que se um cristão supostamente conservador (ou fundamentalista) que vai paulatinamente perdendo a fé tornando-se um cristão progressista até tornar-se ateu significa que cristãos progressistas inevitavelmente se tornam ateus. Esse tipo de relato black-and-white ainda reflete o ethos social tipicamente estadunidense –muitos europeus, latino-americanos e pessoas de outras culturas dificilmente se identificariam com essas mudanças radicais, como se diz no Brasil, 8 ou 80. Com efeito, cristãos que de fato acreditam “que o inferno é eterno, que a Bíblia é inerrante e que Deus criou tudo em seis dias literais de 24 horas” dificilmente seriam encontrados fora do Bible Belt americano ou de guetos fundamentalistas –mais ou menos como representantes do Talibã fora das cavernas do Afeganistão– claro, eles podem ser recrutados, como tantos evangélicos que encontramos brasis afora, geralmente entre pessoas com menos escolaridade ou pessoas que vivem em guetos à procura do extraordinário. A verdade é que o ser humano sempre foi um animal em busca de algo que lhe desse sentido para a sua efêmera e paradoxal existência –ao mesmo tempo tão consciente e promissora quanto enigmática e cheia de contradições. Cristãos progressistas, liberais e das mais variadas orientações teológico-filosóficas podem, sim, florescer em suas aptidões e realizações humanas, coexistindo com judeus, budistas, hinduístas, ateus, agnósticos e pessoas que pouco se interessam por esses assuntos, sem nenhuma necessidade de abraçar quaisquer desses rótulos — afinal, a diversidade humana é bem maior do que tudo isso. Quando discutimos as identidades de movimentos sociais ou de grupos que militam através de políticas identitárias podemos perceber que uma democracia pluralista permite tal diversidade sem nenhuma pretensão de que haja efetivamente uma única doutrina religiosa ou metafísica que estaria justificada em abranger todas as outras e menos ainda autorizada a se impor sobre as demais. Foi um filósofo americano liberal, John Rawls, quem mais se aproximou dessa interessante formulação do pluralismo democrático razoável –tendo se tornado ele mesmo um protestante liberal desiludido com a doutrina abrangente evangélica da sua juventude. Mas isso poderia antes ser visto como um sinal de maturidade e não de apostasia.

  • Wesley

    Muito interessante. Conheço alguns casos assim.

  • Marcos Vinícius

    Excelente texto! Uma realidade cada vez maior.

  • Roberto

    o final do texto diz que os cristão que “endireitaram o mundo” em troca do mundo vindouro?

    isso parece algo bastante ganancioso na verdade!

    • Douglas Sousa

      Não se trata de ganancia, mas sim que uma pessoa na eternidade e em Deus trabalha mais por esse mundo, pois sua motivação não é apenas terrena e temporal mas sim o Deus que fez um mundo e a vida pelo qual vale a pena lutar. É claro que as intenções podem se corromper, e alguém fazer o bem pensando em receber o retorno la na frente, mas este não é o plano de Deus

  • Wesley Fontinele

    Esse texto é tendencioso e hipócrita. De fato a apostasia é uma tendência profetizada, assim como a própria degradação do cristianismo. Então isso não deveria causar surpresa alguma. Mas o que é realmente curioso é alguém achar que defender as “tradições” do cristianismo é a solução pra esses problemas. Foram as próprias tradições que fizeram o cristianismo adoecer. Além disso o texto sugere, implicitamente, que os envolvidos com as práticas religiosas são imunes a tudo isso. Como se não houvesse tantas claras evidências da corrupção e desvios nessas comunidades cristãs. Na verdade estão muito mais preocupados com a manutenção suas tradiçõe$$ do que com a apostasia.
    Cada um irá responder a Deus, no devido tempo. Parem de querer analisar e julgar as pessoas. Isso só cabe a Deus.

    • Michelle Zimmermann

      Concordo com você em partes, pois a questão da tradição é como a tradição de um determinado povo, serve como uma forma de identidade e perpetuação dessa identidade, a questão é muitos usam as religiões para enganar as pessoas, lucrar e até manter o status… e a questão da desistência de crença em Deus está em apocalipse e até outros livros da Bíblia “falsos profetas” Jeremias 23 por exemplo fala diretamente aos pastores enganosos.

  • Me parece mais um panfleto partidário do que um texto com o objetivo de instaurar um debate de fato…

  • Gilson Do Carmo Batista

    Argumentação de grande valor. Temos ai resposta para muitos que abandonam a fé em Cristo. Responsabilizando Deus pelas desgraças que o próprio homem produziu. Que a nossa fé, cresça a cada dia!