Interpretando a Revelação Geral e a Revelação Especial – Uma abordagem reformada sobre a relação entre Ciência e Escrituras | Keith Mathison

Temos discutido a resposta do Dr. R. C. Sproul a uma pergunta sobre a idade do universo, durante o momento de perguntas e respostas na Conferência Nacional Ligonier de 2012. Em nosso último post, olhamos para a distinção reformada entre revelação geral e especial. Neste post, vamos começar a olhar para outra distinção crucial e que é regularmente ignorada: a distinção entre revelação infalível de Deus e a nossa interpretação falível dessa revelação.

Como vimos no último post, todos os alunos do Dr. Sproul afirmavam que a revelação especial de Deus é infalível, mas não estavam prontos para afirmar que a revelação geral de Deus é infalível. Nós já explicamos por que devemos afirmar que os dois tipos de revelação são infalíveis. Agora, temos que olhar mais de perto por que os estudantes do Dr. Sproul estavam relutantes ao afirmar isso. Em sua resposta, o Dr. Sproul diz:

Mas aquilo que eles estavam querendo dizer era que… nem toda teoria científica é compatível com a Palavra de Deus. E isso é verdade. Mas, historicamente, com a revolução copernicana, o entendimento da Igreja sobre a revelação especial da Bíblia tem sido corrigido pelos estudiosos da revelação natural.

O Dr. Sproul explica que seus alunos estavam hesitantes em afirmar a infalibilidade da revelação geral porque acreditavam, com razão, que nem toda teoria científica é compatível com a Palavra de Deus. Isto é certamente verdade, mas, como já vimos, esta não é a pergunta que o Dr. Sproul fez. Teorias científicas não são a mesma coisa que revelação geral. A revelação geral (assim como revelação especial) refere-se a uma ação infalível de Deus (ou ao conteúdo revelado por aquela ação). As teorias científicas são as interpretações falíveis daquilo que os cristãos sabem que são as obras criadas por Deus.

Há duas questões envolvidas na resposta do Dr. Sproul que devem ser abordadas. Em primeiro lugar, uma vez que tanto a revelação geral como a especial procedem de Deus, elas não podem, em última análise, ser conflitantes. Iremos abordar esta questão mais detalhadamente em um post futuro. A segunda questão é a que exploraremos aqui, e é a ideia de que uma má interpretação de um tipo de revelação pode ser corrigido por uma interpretação correta do outro tipo de revelação. Poucos cristãos discordariam da ideia de que uma interpretação correta das Escrituras (revelação especial) pode corrigir uma má interpretação da revelação geral, mas seria o inverso verdadeiro também? Pode uma interpretação correta da revelação geral corrigir uma má interpretação da revelação especial? Será que tal ideia entraria em conflito com a nossa crença na infalibilidade das Escrituras?

O Artigo XII da Declaração de Chicago sobre a inerrância bíblica

Uma vez que o Dr. Sproul menciona especificamente como certas interpretações da revelação geral ajudaram a igreja a corrigir más interpretações de revelação especial, será útil examinar brevemente o artigo XII da Declaração de Chicago sobre a Inerrância Bíblica e o comentário do Dr. Sproul sobre ele, já que um mal-entendido acerca deste artigo tem levado a alguma confusão sobre esta questão. O artigo XII da Declaração de Chicago afirma:

Afirmamos que a Escritura em sua totalidade é inerrante, sendo livre de toda falsidade, fraude ou engano.

Negamos que a infalibilidade e inerrância bíblica estejam limitadas a assuntos espirituais, religiosos ou redentores, excluindo afirmações nas áreas da história e da ciência. Além disso, negamos que hipóteses científicas sobre a história da terra possam ser usadas adequadamente para anular o ensino da Escritura sobre a criação e o dilúvio.

A seção de negações neste artigo é direcionada primariamente àqueles que limitariam a infalibilidade bíblica a questões espirituais e que excluiriam ensinamentos bíblicos relacionados a questões ligadas à história ou à ciência. Para os propósitos da nossa discussão, o entendimento correto da segunda negação é importante. Em seu comentário sobre este Artigo, o Dr. Sproul escreve:

É importante notar que a segunda negação, de que as hipóteses científicas sobre a história da terra não podem ser usadas ​​para anular o ensino das Escrituras em assuntos como da criação e do dilúvio, não carrega com ela a implicação de que hipóteses científicas ou pesquisa científica são inúteis para o estudante da Bíblia, ou que a ciência nunca tem nada a contribuir para uma compreensão do material bíblico. Ela apenas nega que o real ensino da Escritura possa ser anulado pelos ensinamentos de fontes externas.[1]

A palavra “real” na última frase é significativa. Conforme o Dr. Sproul nos lembra, descobertas científicas no período medieval forçaram a Igreja a reexaminar a sua interpretação das Escrituras a respeito do geocentrismo.

Aqui, os avanços da ciência ajudaram a igreja a corrigir uma má interpretação anterior das Escrituras. Dizer que a ciência não pode anular o ensino das Escrituras não significa que a ciência não pode ajudar a Igreja a compreender as Escrituras, ou mesmo corrigir falsas inferências a partir das Escrituras ou más interpretações reais da Escritura.[2]

O Dr. Sproul está enfatizando o simples ponto de que embora a ciência não possa anular um ensinamento real das Escrituras, às vezes ela pode corrigir uma má interpretação das Escrituras. A Igreja, por exemplo, assumiu por séculos que a Bíblia ensinava o geocentrismo – a ideia de que o sol, a lua, os planetas e as estrelas giram em torno de uma Terra estacionária. Observações cuidadosas da terra, sol, lua e estrelas eventualmente provaram que o sol é o centro do nosso sistema solar, que a Terra e os outros planetas giram em torno do sol e que a lua gira em torno da Terra. Tais observações provaram que a Bíblia estava errada? Não. Estas descobertas acerca de como Deus havia realmente criado as coisas apenas demonstraram que uma interpretação da Bíblia estava errada.

O Dr. Sproul não está dizendo nada de novo ou estranho aqui. Charles Hodge, o gigante em teologia reformada do século XIX, disse a mesma coisa:

Admite-se que os teólogos não são infalíveis na interpretação da Escritura. Pode acontecer no futuro, portanto, assim como aconteceu no passado, que interpretações da Bíblia recebidas com confiança por muito tempo precisem ser modificadas ou abandonadas para que coloquem a revelação em harmonia com o que Deus ensina por meio de suas obras. Esta mudança de visão quanto ao verdadeiro significado da Bíblia pode ser uma provação dolorosa para a Igreja, mas de forma alguma prejudica a autoridade das Escrituras. Elas permanecem infalíveis; estamos apenas convictos de termos nos enganado quanto ao seu significado.[3]

As igrejas reformadas há muito tempo consideram que sínodos e conselhos são falíveis. Conforme a Confissão de Westminster explica: “Todos os sínodos e concílios, desde os tempos dos apóstolos, quer gerais ou particulares, podem errar, e muitos têm errado…” (XXXI: 4). O mesmo é verdadeiro para os cristãos individuais. Também somos falíveis, e podemos errar e ter errado em nossas interpretações individuais das Escrituras. A menos que uma pessoa acredite que ele ou ela é um intérprete infalível das Escrituras, esta é uma realidade que precisa ser mantida em mente.

Quando esquecemos da distinção entre o que Deus diz nas Escrituras e nossas próprias interpretações falíveis de Sua Palavra, corremos o risco de substituir, sutilmente, a Palavra de Deus pela nossa palavra.

Nós cremos na Bíblia e você não

Como exemplo, considere a seguinte declaração do grande teólogo luterano Francis Pieper em sua Dogmática Cristã: “A diferença entre a Igreja Luterana e a Reformada na doutrina do Batismo é plena e adequadamente definida ao se dizer que a primeira acredita na Palavra de Deus a respeito do Batismo, e a última não” (vol. 3, p. 301). O problema com esta afirmação deveria ser óbvio (pelo menos para aqueles que não são luteranos). Pieper considera que a diferença entre a igreja luterana e a igreja reformada neste assunto é um resultado da recusa da igreja reformada em crer na Bíblia. Historicamente, os luteranos fizeram a mesma afirmação com relação às palavras da instituição da Ceia do Senhor. Em seus debates com o luterano Joachim Westphal, João Calvino quase ficava entediado diante da repetida alegação de Westphal de que as palavras de Jesus “Este é o meu corpo” não permitiam nenhuma interpretação. Uma pessoa ou acredita nelas, ou não, de acordo com Westphal.

Durante meus últimos meses no Seminário Teológico de Dallas, enquanto eu estava lentamente abandonando o pré-milenismo dispensacionalista e indo em direção à teologia reformada, fui informado repetidas vezes que a única razão pela qual eu não era um pré-milenista era porque eu não acreditava na Bíblia (especificamente Apocalipse 20). Meus amigos de lá não podiam compreender o fato de que a minha diferença de opinião com eles tinha a ver com uma diferença de interpretação e não uma diferença sobre a autoridade da Palavra de Deus.

Os cristãos reformados corretamente rejeitam a alegação de que a única razão pela qual não aceitamos a doutrina luterana do batismo ou o entendimento dispensacionalista do milênio é porque não acreditamos na Bíblia. Estas são divergências sobre interpretações da Palavra de Deus e não negações de sua autoridade.

Nas palavras finais de seu comentário ao Artigo XII da Declaração de Chicago, o Dr. Sproul explica como a distinção entre as Escrituras e as interpretações das Escrituras aplica-se a passagens bíblicas que influenciam questões científicas:

Perguntas acerca da extensão do dilúvio ou do gênero literário dos capítulos anteriores de Gênesis não são respondidas por esta declaração. Questões de interpretação bíblica que tocam no campo da hermenêutica estão abertas para uma investigação mais aprofundada e discussão. O que as Escrituras realmente ensinam sobre a criação e o dilúvio não é um assunto tocado por este artigo; o que ele deixa claro é que qualquer que seja o ensinamento da Bíblia sobre a criação e o dilúvio, ele não pode ser negado por teorias seculares.[4]

Em resumo, embora as teorias científicas possam ajudar a igreja a corrigir interpretações erradas das Escrituras, elas não podem negar o que as Escrituras realmente ensinam. As Escrituras ensinam claramente, por exemplo, que Jesus ressuscitou dos mortos. Qualquer teoria científica que negue a possibilidade de ressurreição dos mortos, portanto, está necessariamente errada. As Escrituras ensinam que Deus é o Criador do céu, da terra e tudo o que neles há. Qualquer teoria científica que afirme que fenômenos naturais surgiram a partir de causas puramente materialistas está necessariamente errada.

O Dr. Sproul ilustra seu ponto sobre a falibilidade de nossas interpretações lembrando-nos de como Lutero e Calvino responderam às novas teorias astronômicas do século XVI. No nosso próximo post, veremos isso em mais detalhes, a fim de descobrir o que podemos aprender com os erros dos outros.

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[1] R. C. Sproul, Scripture Alone (Phillipsburg: P&R, 2005), 152, grifo meu.

[2] Ibid., 153.

[3] Charles Hodge, Systematic Theology, 3 vols. (Grand Rapids: Eerdmans, 1982 [1872–73]), 1:59.

[4] Sproul, Scripture Alone, 154.

Traduzido por Fernando Pasquini Santos e revisado por Jonathan Silveira.

Texto original: Interpreting General and Special Revelation – A Reformed Approach to Science and Scripture. Ligonier Ministries.

Keith Mathison é professor de teologia sistemática no Reformation Bible College em Sanford. É autor de muitos livros, incluindo o livro From Age to Age.

Veja também os demais artigos da série:

  • Interpretando a Revelação Geral e a Revelação Especial