Jesus não é nem progressista nem conservador | Michael Kruger

Há poucas dúvidas de que o último ano tenha sido uma das fases políticas mais controversas da história da nossa nação. Assim, não é surpresa que todos os tipos de jargões cristãos sobre política tenham sido usados e reutilizados.

Um dos meus favoritos é a frase: “Jesus não é nem progressista nem conservador”. Essa é uma daquelas frases que são usadas com tanta frequência que ninguém realmente se incomoda em perguntar o que ela significa e nem se incomoda em perguntar se ela é realmente verdadeira.

Então, eu quero analisar essa frase em nosso décimo e último episódio da série Taking Back Christianese. Em vez de seguir a estrutura padrão para esta série, eu simplesmente quero perguntar o que as pessoas querem dizer com essa frase (e se o que elas querem dizer faz sentido). Aqui estão algumas opções:

1. A frase poderia simplesmente significar que a Bíblia não fala de política.

Eu suponho que uma possível interpretação dessa frase é que ela significa que a Bíblia não aborda questões políticas, ela simplesmente está em silêncio sobre este assunto. A Bíblia está interessada apenas em questões redentoras e não é adequada para determinar quais visões políticas estão certas.

Mas essa é uma descrição correta da Bíblia? Claro, podemos concordar que a Bíblia não usa os termos “progressista” ou “conservador”, nem faz declarações como “você deve votar no partido político que…”. Mas, isso não significa que a Bíblia não forneça nenhum princípio ou orientação sobre como avaliar um partido político.

De fato, é como Van Til colocou uma vez: “A Bíblia é considerada como autoritativa em tudo o que fala. Além disso, ela fala de tudo. Não queremos dizer que ela fala, de modo direto, de jogos de futebol, de átomos, etc ., mas queremos dizer que ela fala de tudo, seja diretamente ou por implicação”.[1]

Assim, não há razão para pensar que a Bíblia não possa abordar questões políticas. Sugerir o contrário equivale a sugerir que a Bíblia não pode abordar a questão da evolução porque “não é um livro de ciências” (para usar outro clichê). O problema com tal argumento é que ele só permite que a Bíblia fale dos assuntos chamados “religiosos” e não dos “seculares”.

No entanto, a Bíblia em si não respeita essa distinção religioso/secular – o mundo todo é de Deus e ele tem algo a dizer sobre tudo. Além disso, quase todas as questões políticas têm uma dimensão ética e certamente a Bíblia fala sobre ética. Então, não podemos dizer que as questões políticas estão “fora de discussão” quando se trata do que a Bíblia ensina.

2. A frase poderia simplesmente significar que nenhum partido político se alinha inteiramente com o que a Bíblia ensina.

Outra interpretação dessa frase é que ela é simplesmente outra maneira de dizer que nenhum partido político é perfeito; as visões progressista e conservadora têm seus problemas (e isso seguramente é o caso), com certeza ninguém contestaria isso. Nenhuma instituição é perfeita neste lado da Queda (incluindo a igreja!). Afirmar tal coisa realmente não avança a discussão – está simplesmente afirmando uma obviedade.

Mesmo se ambas as visões tiverem equívocos em algum lugar, a verdadeira questão ainda permanece. Qual visão política é mais próxima dos princípios e da ética estabelecidos nas Escrituras? Afinal, no fim de tudo, o cristão ainda tem que ir às urnas e votar em alguém e certamente ele quer votar no partido que está mais próximo dos ensinos das Escrituras.

Portanto, minha suspeita é que essa frase não está sendo usada para dizer que ambas as visões são equivocadas. Ao contrário, está sendo usada para dizer que ambas as visões são igualmente equivocadas. Se ambas forem igualmente equivocadas, então alguém pode afirmar que não importa realmente como votamos. Todo mundo está livre dessa responsabilidade e o debate político (ao menos numa base bíblica) deve simplesmente parar.

Mas, se alguém fizer tal afirmação, terá que fazer um levantamento exegético de peso para defendê-la. Um clichê não é suficiente para demonstrar que ambas as visões políticas são igualmente equivocadas.

Além disso, eu acho que a alegação de que ambas as visões são igualmente equivocadas é altamente problemática quando se considera que os progressistas e os conservadores têm plataformas políticas praticamente opostas em todas as questões principais. Seria possível que houvesse duas visões com valores e posições éticas praticamente opostas e, ao mesmo tempo, nenhuma delas estaria próxima aos ensinos da Escritura? Suponho que seja possível, mas, também é muito improvável.

3. A frase poderia simplesmente significar que há bons cristãos que são tanto progressistas quanto conservadores.

Eu suponho que alguém poderia interpretar a frase “Jesus não é nem progressista nem conservador”, como outra maneira de dizer que há cristãos, bons cristãos, que são progressistas ou conservadores, e certamente eu concordaria.

No entanto, o problema é que uma implicação geralmente é extraída desse fato, de que não há um modo correto ou errado de votar. Se os cristãos estão em ambos os lados do espectro político, como se argumenta, então nenhuma das visões políticas deve ser melhor que a outra.

Mas, novamente, essa linha de raciocínio simplesmente não funciona. O fato de existirem cristãos que têm posições divergentes sobre um assunto não significa que a Escritura apoia ambas as posições de maneira igual (o que seria contraditório se você pensar a respeito) e nem significa que as Escrituras não são necessariamente claras sobre o assunto.

Afinal, há “bons cristãos” que são arminianos e há “bons cristãos” que são calvinistas. Mas isso não constitui motivo para dizer que ambos estão certos, que isso não importa, ou que não se pode saber tais coisas. Esse tipo de atitude se deve mais à pós-modernidade – onde não existe uma visão correta – do que ao cristianismo histórico e bíblico.

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O fato de haver cristãos em um partido político diferente do nosso certamente significa que devemos mostrar caridade, amor e respeito – afinal, eles são irmãos e irmãs em Cristo! Mas, isso não significa que lavamos nossas mãos e dizemos que a política não importa ou que a Bíblia não tem nada a dizer sobre tais coisas.

4. Esta frase poderia simplesmente significar que Jesus nunca se filiaria a um partido político ou que ele nunca teria lealdade a um partido político.

Esta compreensão particular da frase é feita para acabar com a noção de que Deus é a “favor” de um partido político e “contra” o outro. Nenhum partido político pode ser considerado como o partido de Deus. Assim, podemos votar em quem quisermos como cristãos porque Deus não usa de favoritismos com nenhum partido.[2]

Agora, parte disso é certamente verdadeiro. Deus não se alinha com partidos políticos feitos por homens no sentido de que ele os endossa. A razão pela qual ele não pode endossar tudo em um determinado partido é porque nenhum partido é perfeito. Todos eles são falhos de uma forma ou de outra.

Mas isso nos traz de volta às questões que levantamos no item 2 acima. Só porque ambas as visões são equivocadas não significa que ambas são igualmente falsas. Ainda permanece a importante tarefa de determinar qual visão está mais próxima da ética, princípios e valores das Escrituras.

Então, só porque Deus não endossa (e nem pode endossar) inequivocamente uma das visões, não é o mesmo que dizer que não importa em qual partido votamos. Alguns partidos (e algumas visões) são mais agradáveis a Deus do que outros.

Então, onde toda essa discussão nos deixa? As quatro opções acima não são exaustivas – suponho que há outras opções sobre o que essa frase pode significar. Mas, ao menos no que se refere às opções discutidas aqui, eu diria que essa frase é altamente problemática. Cada um dos possíveis significados acima sofre do mesmo erro fatal: todos eles estão tentando encontrar uma maneira de tornar a política um assunto neutro para os cristãos.

Seja o argumento de que a Bíblia não trata de política (opção 1), ou de que partidos políticos são igualmente falhos (opção 2), ou que bons cristãos discordam (opção 3) ou que Deus não pode endossar completamente um determinado partido (opção 4), todos esses argumentos estão tentando dizer que não importa quais visões políticas os cristãos apoiem.

Mas, como eu argumentei acima, essa é uma abordagem supreendentemente anticristã. Ela está quase sugerindo que há um lugar no mundo (até mesmo no campo ético!) onde Deus não se preocupa com a direção que tomamos. Isto está em nítido contraste com a posição cristã histórica (e reformada) delineada por Abraham Kuyper: “Não há um centímetro quadrado em todo domínio da nossa existência humana sobre o qual Cristo, que é soberano sobre todos, não proclame: ‘É meu’!”.

Então, se a abordagem “Jesus não é nem progressista nem conservador” é equivocada, para onde vamos a partir daqui? Eu sugeriria uma estratégia diferente. Em vez de gastar nossas energias tentando manter a Bíblia fora da política, devemos trabalhar para mudá-la. O que quero dizer com isso é que precisamos parar de dizer aos cristãos que qualquer escolha de voto que eles fizerem é tão igualmente válida quanto qualquer outra, e em vez disso, devemos encorajá-los a aplicar a Escritura a essas questões políticas, assim como a aplicamos a todas as outras áreas da vida (seja economia, arte ou medicina).

Sem dúvida isso criará debate e desacordo sobre se progressistas ou conservadores estão mais próximos dos princípios bíblicos (ou se outra visão está mais próxima!). Mas tudo bem. Cristãos debatem calvinismo e arminianismo, credobatismo e pedobatismo, homeschooling e educação em escola pública, e assim por diante.

Um debate vigoroso, profundo e amplo sobre o que a Bíblia ensina a respeito de política seria uma mudança restauradora da abordagem pós-moderna de que não ter “nenhuma posição política é melhor do que ter qualquer outra”, atualmente tão em voga na igreja moderna.

Então, pelo menos, o foco estará no lugar certo: o que a Bíblia ensina.

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[1] Para mais informações veja em: https://www.michaeljkruger.com/was-jesus-neither-a-democrat-nor-a-republican/#_ftn1

[2] A frase traz: “[…] pois Deus não usa um bóton de lapela de um burro ou de um elefante”. A menção a estes animais é uma clara referência às mascotes do partido Democrata (um burro) e Republicano (um elefante), respectivamente. Ambos são partidos politicamente majoritários no cenário político estadunidense. Neste artigo, a referência a progressista é vinculada ao partido Democrata e igualmente o termo conservador ao partido Republicano, e isso se dá devido às suas reconhecidas propostas ideológico-partidárias. 

Traduzido por Tiago Silva e revisado por Jonathan Silveira.

Texto original: Taking Back Christianese #10: “Jesus is Neither Democrat nor Republican”. Canon Fodder.

Michael J. Kruger (PhD, University of Edinburgh) é presidente e professor de Novo Testamento do Reformed Theological Seminary, em Charlotte – North Carolina. É ministro ordenado da Presbiterian Church in America (PCA), serve como pastor auxiliar de tempo parcial na Uptown Church, é casado com Melissa Kruger e possui um blog: michaeljkruger.com.
Este livro é uma crítica ampla e abrangente da tese de Bauer-Ehrman, segundo a qual a forma mais antiga do cristianismo era pluralista, havia múltiplos cristianismos, e a heresia precedeu a ortodoxia. Köstenberger e Kruger não somente reagem à “teoria de Bauer”, usando os próprios termos da teoria, mas também empregam evidências neotestamentárias negligenciadas para refutá-la. Os autores analisam três elementos como base para as suas conclusões: a evidência de unidade no Novo Testamento, a formação e o fechamento do cânon, e a metodologia e a integridade no registro e na difusão de textos religiosos por parte da igreja primitiva.

Publicado por Edições Vida Nova.

1 Comentário

  1. Róger disse:

    Que apologética incrível!!
    Exaltado seja o nosso DEUS!
    Vou compartilhar muito!!

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