Katherine Mansfield e a inconveniência da compaixão | Rachel Watson

Katherine Mansfield (1888-1923)

Não foi até eu me sentar na calçada junto a Joseph que aprendi sobre o vicioso ciclo da pobreza. Eu tinha dezenove anos. Antes, eu pensava que pessoas que vivem perpetuamente desabrigadas desejavam ficar desabrigadas. Pensava que elas não estavam se esforçando o suficiente. Mas assisti Joseph tentar deixar as ruas por várias vezes e ter suas tentativas frustradas por conta de uma certidão de nascimento perdida, por falta de roupas limpas para sua entrevista de emprego e por conta de multas não pagas por atravessar a rua fora da faixa de pedestres. Eu poderia descartá-lo por considerá-lo preguiçoso e tudo o mais, até que me aproximei o bastante para perceber que as pessoas não são categorias. Elas são pessoas.

Superficialmente falando, o conto A Festa no Jardim é sobre uma família que come pão amanteigado e usa chapéus elegantes. Semelhantemente ao Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, os personagens superficiais e as conversas têm o propósito de construir o contexto social e histórico. A autora Katherine Mansfield inclui na história cada suspiro e rosa de jardim por um motivo. Uma leitura mais atenta revela seu intento: indicar a inconveniência da compaixão. Vestidos elegantes e profiteroles fornecem um excelente contraste à pobreza com a qual Laura, personagem principal, testemunha no final da história. Pobreza esta que a arranca de sua zona de conforto e faz com que ela tenha empatia.

Distinções que distraem

“Se mostrardes atenção para o que vem com roupas caras e lhe disserdes: ‘Senta-te aqui num lugar de honra’; e disserdes ao pobre: ‘Fica em pé, ou senta-te junto ao estrado onde ponho meus pés’, não estareis fazendo distinção entre vós mesmos e não vos tornareis juízes que se baseiam em padrões malignos?” (Tiago 2.3-4)

Laura muda gradualmente. Durante a maior parte da história ela se encontra em um cabo de guerra. Sua família e seus amigos lutam contra ela com elogios, conselhos de moda e elaboração de cardápios. Do outro lado da corda estão os trabalhadores comuns que fazem o trabalho manual pesado para preparar sua festa, o cozinheiro que passa o dia todo na cozinha e a família pobre que vive em um chalé no fim da rua. Esses personagens representam “a outra metade” acerca da qual Laura possui pouco entendimento, mas tem uma curiosidade verdadeira. A luta que enfrenta por parte de sua família parece ser mais forte na medida em que a riqueza e o conforto deles a distraem da busca de um entendimento mais profundo daqueles à sua volta. Diferentemente de sua família, porém, Laura não está satisfeita em permanecer distante das necessidades dos outros. Quando tem a oportunidade, ela escolhe a compaixão apesar de sua inconveniência.

Distinções são inevitáveis, mas Mansfield observa que distinções concernentes à raça, classe social e ao gênero frequentemente estabelecem uma muralha entre “nós e eles”, tornando difícil de enfatizá-las com outros. As pessoas da família de Laura parecem estar contentes em ignorar a casta mais baixa, mas Laura gosta de observar os “outros”. À medida que se prepara para a festa no jardim em sua casa, ela assiste aos trabalhadores prepararem o quintal:

“O sorriso dele era tão tranquilo, tão amigável… ‘Anime-se, não vamos morder’, seus sorrisos pareciam dizer. Que trabalhadores agradáveis eram eles!”

Ela se deleita na humanidade compartilhada que testemunha na medida em que um dos homens separa um tempo para cheirar um raminho de lavanda. Ela reflete sobre o que estaria passando na mente dele: “Ele tinha uma aparência abatida, conforme seus olhos escuros examinavam a quadra de tênis. No que ele estava pensando?”. Embora sua ingenuidade seja embaraçosa, seu desejo de entender as pessoas é genuíno. De modo engraçado, as observações de Laura me lembram daquele episódio da série Leave it to Beaver em que os pais de Beaver convidam sua professora para o jantar. Ela entra na casa e, quando tira os sapatos, Beaver fica chocado ao descobrir que ela tem pés. Ele tem pensado nela somente como sua professora e não como um ser humano. As percepções de Laura me lembram da sóbria passagem do livro As Aventuras de Huckleberry Finn, quando Jim conta uma história emocionante a Huck sobre sua filha. Huck, perplexo, conclui que Jim deve cuidar “de sua família tanto quanto os brancos cuidam da deles”.

Não pare a festa

Quando a prioridade de nossa vida é a nossa própria felicidade, os problemas dos outros sempre parecerão como uma ameaça em vez de uma oportunidade. Na história de Mansfield, a família de Laura vê a compaixão como algo extravagante. Quando Laura ouve a respeito da morte de seu vizinho e sobre sua família enlutada, ela imediatamente sugere que eles adiem a festa. Suas irmãs, aborrecidas, rejeitam suas preocupações explicando: “Ninguém espera que façamos isto”.

Por vezes, os discípulos de Jesus demonstravam um aborrecimento semelhante com as necessidades dos outros. Em Mateus 15.23, eles reclamam a respeito da mulher necessitada que os segue: “Seus discípulos aproximaram-se dele e rogaram-lhe: Manda-a embora, porque vem gritando atrás de nós.” Quando os discípulos revelam seu aborrecimento com a mulher persistente, Jesus responde apontando para uma distinção que eles haviam feito: “Eu fui enviado somente às ovelhas perdidas da casa de Israel. Não é justo tomar o pão dos filhos e jogá-los para os cachorrinhos” (v. 24, 26). Este versículo nos faz tremer. Como Jesus poderia chamar essa mulher necessitada de cachorrinha? Como ele poderia fazer uma distinção tão desamorosa?

Adiante, no versículo 28, Jesus deixa claro que ele não está rejeitando a mulher, mas que está ensinando uma importante lição aos seus discípulos: “Então Jesus respondeu: ‘Mulher, grande é a tua fé! Seja feito a ti como queres’. E desde aquela hora sua filha ficou boa.” Sabemos que Jesus não a vê como cachorrinha apesar do fato de seus discípulos a colocarem nessa categoria.

Durante seu tempo na terra, Jesus teria se parecido mais com os trabalhadores contratados de Laura do que com a família dela. Ele não veio vestido com roupas finas e não tinha beleza (Is 53.2). Ele veio da modesta cidade de Nazaré (Jo 1.46) e nasceu em um humilde estabelecimento comercial. Por outro lado, em Filipenses 3.4 e 8 o apóstolo Paulo disse: “Se bem que eu poderia até mesmo confiar na carne. Considero todas as coisas como perda, comparadas com a superioridade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor”. Seja rico ou pobre, nossa necessidade por Cristo é universal. Este é o fundamento a partir do qual devemos enxergar toda a humanidade.

O bloqueio do egocentrismo

As maneiras mais fáceis de se descartar as necessidades dos outros é se concentrando no eu. Vaidade e autoconsciência guerreiam com a compaixão e o sacrifício, fazendo com que olhemos para o outro lado quando aquela jovem mãe caminha no corredor do Walmart em nossa direção.

Para Laura, são os detalhes superficiais da vida que a impedem de ter empatia por outros. Assim que a preocupação por alguém começa a se formar, a vaidade faz com que ela se distancie. Seu irmão elogia seu chapéu ou sua mãe quer discutir arranjos de flores. Laura descreve que essas distrações “não deixam espaço para quaisquer outras coisas”:

“E lhe parecia que os beijos, as vozes, as colheres tilintantes, o riso, o cheiro da grama amassada, estavam de alguma maneira dentro dela. Ela não tinha espaço para qualquer outra coisa. Que estranho! Ela olhou para o céu pálido e tudo que pensou foi: ‘Sim, esta foi a festa mais bem-sucedida.’”

O custo da compaixão

Durante a festa, Laura divaga:

“Ah, que felicidade é estar com pessoas que estão todas felizes, apertar as mãos, as bochechas, e sorrir nos olhos.”

Após a festa, seu pai saca-os de seu devaneio despreocupado ao trazer à tona o acidente que matou o pobre vizinho:

“‘Foi um caso horrível de qualquer maneira’, disse o Sr. Sheridan. ‘O sujeito também era casado. Morou logo abaixo na estrada e deixou uma esposa e meia dúzia de crianças, dizem eles’.

Um pequeno silêncio constrangedor sobreveio. A Sra. Sheridan inquietou-se com sua xícara. Realmente, foi muita falta de tato por parte de um pai…”

Ninguém acha que passar tempo considerando a dor de outra pessoa é algo agradável. Provoca desconforto. Medo. Nos torna pesados. Nos afasta de nossas famílias, hobbies, trabalho e lazer. Mas ser como Cristo significa juntar-se a Ele entre os enfermos e desanimados. Quando seu corpo estava cansado das multidões, Jesus continuava curando. Ele continuava abençoando.

Laura não é uma heroína nessa história, mas sim uma estudante de compaixão. Ela decide visitar seus vizinhos enlutados e levar sobras da festa, mas, ao chegar no chalé e ser convidada a entrar, ela rapidamente recusa, dizendo: “Eu apenas quero deixar esta cesta.” Ela não deseja entrar em uma casa de dor. Quanto mais se aproxima, mais ela anseia pela segurança e calor de seu próprio lar. Entretanto, ela é introduzida à casa e forçada a ver a viúva enlutada de perto.

Há maneiras menos custosas de ajudar pessoas. Podemos jogar dinheiro a elas. Use uma certa hashtag para criar conscientização. Essas coisas podem ser sinceras e boas, mas ingressar na dor de outra pessoa é físico, bagunçado e consome tempo. Esta é uma ilustração viva daquilo que Cristo fez por nós quando veio à terra.

Como recebedores de Sua graça, encontramo-nos na mesma situação. Cada um de nós necessita de misericórdia diária. Steve Corbett diz em seu livro When Helping Hurts:

“Até que aceitemos nosso quebrantamento mútuo, nosso trabalho com pessoas de baixa renda provavelmente irá causar mais dano do que bem. Às vezes, eu involuntariamente reduzo pessoas pobres a objetos que uso para satisfazer minha própria necessidade de conquistar algo. Eu não estou bem e você não está bem. Mas Jesus pode nos endireitar.”

Vale a leitura

Não somos defensivos quando lemos essa história, pois ela trata de Laura e não de nós. Eu imagino o rei Davi ouvindo a Natã em 2Samuel 12 de cenho cerrado em indignação. Como um homem com tanta riqueza pode roubar algo precioso de um homem com tão pouco? Davi foi capaz de ouvir a Natã objetivamente porque ele pensava que Natã estava lhe contando sobre o pecado de outra pessoa. Talvez, ao lermos essa história, reconheçamos algumas de nossas próprias tendências pecaminosas por aquilo que elas são.

Minha geração adora sentar-se atrás de telas de laptop e tuitar sobre justiça social, mas Jesus demonstrou uma compaixão que envolveu ação. O que motiva a nossa compaixão? É a recompensa? O reconhecimento? Ou já recebemos a maior demonstração de compaixão em nossos próprios corpos e almas quebrantados por meio da vida e morte de Jesus Cristo?

“Jesus dizia a todos: ‘Se alguém quiser vir após mim, negue a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me.’” (Lucas 9.23)

Traduzido por Jonathan Silveira.

Rachel Watson é estudante de teologia na Universidade de St. Andrews e professora de inglês. Esforça-se para mostrar a seus alunos como pensar, construir discernimento e desfrutar de ótimas literaturas. Escreve para o The Bible Is Relevant, The Gospel Coalition, RELEVANT e The Englewood Review. Você pode segui-la no Twitter e no Facebook.