Lutero, Calvino e Copérnico – Uma abordagem reformada sobre a relação entre Ciência e Escrituras | Keith Mathison

Martinho Lutero e João Calvino

Nesta série de posts estamos discutindo a resposta do Dr. R. C. Sproul a uma pergunta sobre a idade do universo, durante o momento de perguntas e respostas na Conferência Nacional Ligonier de 2012. Em nosso último post, olhamos para a distinção entre a revelação infalível de Deus e a nossa interpretação falível dessa revelação. Neste post, olharemos para os pensamentos de Martinho Lutero e João Calvino relativos a certas ideias sobre astronomia que estavam sendo introduzidas no tempo em que viveram.

Depois de afirmar que o entendimento da Igreja sobre a revelação especial tinha sido corrigido pelos estudiosos da revelação natural, o Dr. Sproul ilustrou seu ponto referindo-se à introdução de novas ideias astronômicas no século XVI:

Calvino e Lutero rejeitaram Copérnico como um herege no século XVI. Eu não conheço ninguém hoje, no cristianismo ortodoxo, que defenda o geocentrismo. Você conhece? Você conhece alguém que esteja? Neste caso, a igreja admitiu que interpretou erroneamente o ensinamento bíblico referente ao sistema solar e agradeceu aos cientistas por corrigirem o equívoco.

Assim, eu acho que podemos aprender com os cientistas descrentes que estão estudando a revelação natural. Eles podem ter um senso melhor da verdade a partir de seus estudos da revelação natural do que eu posso ter ao ignorá-la. Portanto, eu tenho uma alta consideração pela revelação natural.

Nesta seção de sua resposta, o Dr. Sproul está nos lembrando que os cristãos no passado tinham ideias errôneas sobre a natureza da criação de Deus porque acreditavam que essas ideias eram ensinadas nas Escrituras. Ele menciona especificamente o geocentrismo – a ideia de que o sol, a lua e as estrelas giram todos em torno de uma Terra estacionária.

Esta compreensão do universo havia sido articulada mais completamente por Ptolomeu (cerca de 90 D.C. – cerca de 168 D.C.) e foi aceita pelos cristãos por mil e quinhentos anos, uma vez que acreditavam que ela era apoiada por passagens como Josué 10:12-14 e as muitas outras que se referem ao nascer e o pôr-do-sol. Como a maioria dos cristãos (e cientistas) de sua época, Martinho Lutero e João Calvino acreditavam que o geocentrismo era uma descrição verdadeira da criação de Deus.

Os pontos de vista heliocêntricos de Nicolau Copérnico (1473-1543) começaram a circular nos círculos acadêmicos na década de 1530, embora seu livro só tenha sido publicado em 1543. Seus pontos de vista levaram muitos anos para serem aceitos – mesmo entre outros astrônomos. Como Young observa em seu recente livro sobre as opiniões de Calvino acerca da ordem criada, a “aceitação generalizada do universo de Copérnico só veio depois de descobertas feitas por Galileu Galilei (1564-1642), que ocupou cargos em matemática nas Universidades de Pisa e Pádua; a formulação das leis de movimento planetário por Johannes Kepler (1571-1630), que ensinou matemática em Graz, Praga e Linz; e a explicação física do movimento planetário em termos de inércia e gravidade por Isaac Newton (1642-1727), professor de matemática na Universidade de Cambridge.”[1] Em suma, as ideias de Copérnico não foram aceitas do dia para a noite, e certamente não foram amplamente aceitas durante o tempo de vida de Lutero e Calvino.

Mas será que Lutero e Calvino conheciam a teoria de Copérnico e, em caso afirmativo, como os reformadores responderam? Existe alguma controvérsia acerca da resposta a estas perguntas. A resposta parece um pouco mais clara com Lutero. Na obra Table Talk (coleções de comentários de Lutero sobre uma variedade de tópicos), lemos a seguinte discussão (datada de 04 de junho de 1539) em relação a essas novas ideias:

Houve menção a um certo novo astrólogo que queria provar que a Terra se move, e não o céu, o sol, e a lua. Isso se daria como se alguém estivesse andando em uma carroça ou em um navio e imaginasse que ele estava parado, enquanto a terra e as árvores estivessem se movendo. [Lutero observou:] “Então é assim que funciona: qualquer um que quiser ser inteligente não pode concordar com nada o que os outros estimam. Ele precisa fazer algo por conta própria. Isto é o que esse sujeito faz, desejando virar toda a astronomia de cabeça para baixo. Mesmo diante dessas coisas que são colocadas em desordem, eu acredito nas Sagradas Escrituras, uma vez que Josué ordenou que o sol parasse, e não a Terra [Josué 10:12].”[2]

Há alguma controvérsia se as palavras de Lutero foram registradas exatamente como ele disse, mas esta versão de Table Talk é geralmente considerada a mais precisa.[3] Independentemente de seu aluno ter registrado suas palavras de maneira precisa, ainda é claro, a partir de suas palestras sobre Gênesis, que Lutero abraçava a visão geocêntrica, que era a visão predominante em sua época.[4] Além disso, embora alguns estudiosos neguem que Lutero tenha colocado a interpretação das Escrituras acima e contra a teoria de Copérnico, esta declaração em Table Talk não é o único lugar onde um conflito ocorreu entre os pontos de vista de Lutero e dos cientistas.

Em suas palestras sobre Gênesis, por exemplo, Lutero escreveu o seguinte, acerca do sol e das estrelas:

De fato, é mais provável que os corpos das estrelas, assim como o do sol, sejam redondos, e que eles estejam presos no firmamento, como globos de fogo, para lançar luz à noite, cada um segundo o seu propósito e sua criação.[5]

Esta também não era uma visão incomum durante o início do século XVI. Lutero acrescentou a observação de que havia águas acima deste firmamento, na qual o sol e as estrelas estão presos. Em relação às águas acima do firmamento, Lutero escreveu:

Nós, cristãos, devemos ser diferentes dos filósofos [i.e. cientistas] na forma como pensamos sobre as causas dessas coisas. E se algumas delas estão além de nossa compreensão (como estas diante de nós, com relação às águas acima dos céus), devemos acreditar nelas e admitir a nossa falta de conhecimento, ao invés de perversamente negá-las ou presunçosamente interpretá-las em conformidade com o nosso entendimento.[6]

Aqui, Lutero sugere que é perverso negar que existam águas literais acima do firmamento, no qual estão fixados o sol e as estrelas. Por que ele acreditava que este era um fato inegável? Porque ele acreditava no que as Escrituras ensinam claramente em Gênesis 1. O problema surgiu quando foi descoberto, ao longo do tempo, que o sol e as estrelas não estão presos a um firmamento e que não existem águas sendo retidas por esse firmamento. Se as Escrituras realmente ensinassem a existência de tais coisas, isso deixaria duas opções: ou as novas descobertas eram más interpretações da revelação geral, ou então as Escrituras estavam erradas. Uma vez que Lutero acreditava que as Escrituras ensinam claramente a existência de águas acima do firmamento, ele acreditava que os cientistas estavam propondo uma ideia que lhe exigiria a afirmação de que as Escrituras estão erradas. Lutero aparentemente acreditava que essa era a única escolha, e se essa era a única escolha, foi a escolha que ele teve que rejeitar. Não parece lhe ocorrer as Escrituras podem, na verdade, não ensinar esse ponto de vista. Não lhe ocorreu que o conflito poderia ser um conflito entre uma interpretação correta da criação de Deus e sua interpretação falível das Escrituras.

A visão exata que João Calvino tinha de Copérnico é algo mais difícil de determinar e há muito debate-se sobre o assunto. Parte da dificuldade envolvida em discernir seu ponto de vista se deve a uma citação que foi indevidamente atribuída a ele por estudiosos desde Bertrand Russell até Thomas Kuhn. Numerosos estudiosos, incluindo Russell e Kuhn, afirmam que Calvino condenou Copérnico com as palavras: “Quem se atreveria a colocar a autoridade de Copérnico acima da do Espírito Santo?” O problema é que essas palavras não são encontradas em lugar algum nos escritos de Calvino.[7] Infelizmente, a afirmação tem sido repetida tantas vezes que ela é aceita como um fato histórico.

No entanto, apesar de Calvino não ter feito essa declaração tão frequentemente citada sobre Copérnico, há uma declaração feita por ele, em um sermão em 1Coríntios, que é relevante. Ali, Calvino adverte contra aqueles que dizem: “que o sol não se move e que é a terra que se move.”[8] Ele descreve aqueles que têm esta visão como “completamente desvairados e loucos” e como “possuídos” pelo diabo.[9] Não está claro se ele está baseando este alerta em alguma interpretação sua de uma determinada passagem da Escritura e há um debate em curso sobre como essa declaração coincide com outras declarações de Calvino sobre as revelações geral e especial, mas a declaração indica, pelo menos, que o geocentrismo foi firmemente sustentado na mente de Calvino como sendo a verdadeira explicação da natureza da criação de Deus.

O Dr. Sproul apontou que ele não encontrou ninguém dentro do cristianismo ortodoxo atual que defenda o geocentrismo. Não há muitos, mas eles ainda existem. Há sites, livros e artigos inteiros escritos por defensores contemporâneos do geocentrismo. Eles argumentam que os outros cristãos, incluindo os criacionistas da terra jovem, se comprometeram e capitularam aos cientistas, ao invés de sustentar o que eles acreditam que seja o ensinamento claro das Escrituras em passagens como Josué 10.

O geocentrismo, no entanto, não é o ponto principal. O ponto principal do Dr. Sproul, ao apontar esses erros que cristãos do passado cometeram na interpretação da revelação geral e especial, está em nos lembrar da possibilidade de erros nos dias de hoje. Teólogos e estudiosos da Bíblia não desenvolveram o conceito de infalibilidade desde o tempo de Lutero e Calvino.

O Dr. Sproul também nos lembra que os estudantes da revelação especial podem aprender com os estudantes da revelação geral. Mas este lembrete levanta questões ainda mais importantes, como o impacto da Queda na capacidade do homem de entender a revelação geral e especial de Deus, a distinção entre a compreensão humana das coisas terrenas e das coisas celestiais e aquilo que se chama de “sabedoria do mundo”. Em nosso próximo post, vamos começar a examinar estas questões.

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[1] Davis A. Young, John Calvin and the Natural World (Lanham, MD: University Press of America, 2007), 28.

[2] Martin Luther, Luther’s Works. Vol 54. Table Talk, ed. Helmut T. Lehmann (Philadelphia: Fortress Press, 1967), 358–9.

[3] B.A. Gerrish, The Old Protestantism and the New (London: T&T Clark, 1982), 168.

[4] Martin Luther, Luther’s Works. Vol 1. Lectures on Genesis, ed. Jaroslav Pelikan (St. Louis: Concordia Publishing House, 1958), 44.

[5] Ibid., 42.

[6] Ibid., 30.

[7] Para uma visão geral de como esta citação foi parar na literatura acadêmica, veja Young, Calvin and the Natural World, 43-9.

[8] Citado em Herman Selderhuis, ed., The Calvin Handbook (Grand Rapids: Eerdmans, 2009), 452.

[9] Young, Calvin and the Natural World, 47.

Traduzido por Fernando Pasquini e revisado por Jonathan Silveira.

Texto original: Luther, Calvin and Copernicus – A Reformed Approach to Science and Scripture. Ligonier Ministries.

Keith Mathison é professor de teologia sistemática no Reformation Bible College em Sanford. É autor de muitos livros, incluindo o livro From Age to Age.

Veja também os demais artigos da série:

  • Lutero, Calvino e Copérnico