Mãe! – Maternidade do vazio | Silas Chosen

*ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS DO FILME*

O final de Mãe! é capaz de perturbar seu público de diversas formas. A protagonista vive momentos de intenso horror, e nós, que não desgrudamos dessa protagonista por duas horas, sentimos cada golpe emocional e físico que o final traz. E não sendo só um filme de camadas de significado, mas camadas que conseguem ser ao mesmo tempo delineadas e bem misturadas, o horror transcende o nível do que aquela mulher sofre e vai para os níveis de “o que aquela mulher representa”, e o que toda aquela jornada bizarra pode significar.

O final de Mãe! pode ser visto como um novo início de ciclo, mas pode ser visto como um abismo niilista, de onde ninguém escapará.

Uma mulher, papel de Jennifer Lawrence, mora numa casa isolada junto a seu marido, um poeta frustrado interpretado por Javier Bardem. Ele luta contra um bloqueio de escritor, enquanto ela tenta reformar a casa, destruída num incêndio anos antes. Um desconhecido aparece, seguido logo depois de sua esposa, dando início a uma ruptura no casal que começa como uma reivindicação da intimidade por parte da mulher, mas vai mudando de acordo com os absurdos que ela precisa suportar.

A única maneira que esse filme não pode ser lido é literalmente. Cada aspecto do filme é metafórico, e o diretor Darren Aronofsky (de Cisne Negro e Noé) nem tenta camuflar essas metáforas. No começo a ausência de nomes e pequenos deslizes sobrenaturais podem só causar um desconcerto, mas quando o casal de estranhos, vividos por Ed Harris e Michelle Pfeifer e seus dois filhos começam a discutir os problemas familiares, terminando em um assassinato muito característico, o filme deixa de ser charada. Estamos diante de uma reprodução poética do Gênesis.

Aronofsky, criado como um judeu ortodoxo, explora mais uma vez as origens da fé (ou das fés) que lhe rodearam a vida toda. Em Noé ele explorava a humanidade e o fundamentalismo do personagem título, além de um pouco de misantropia. O Noé do filme via na humanidade um erro na criação que precisava ser expurgado e, na natureza, a criação a ser salva do castigo divino. No final do filme ele descobre que a humanidade pertence à parte salva da criação e se redime. Em Mãe!, o assunto é o mesmo, mas o ponto de vista é ainda mais impiedoso.

Enquanto Javier Bardem interpreta uma versão bastante egocêntrica da divindade judaico-cristã, preocupado muito mais com o resultado da adoração que seus “fãs” têm de seus poemas do que com o estado de sua casa, sua esposa ou até mesmo de seus fãs, Jennifer Lawrence tem um papel um pouco mais abrangente. Ela é, a princípio, a mãe natureza, que provê, limpa, constrói, cuida, e nada faz além de sofrer, e de ser responsável por um tremendo cataclisma. Mas ela também pode ser uma versão do aspecto feminino de Deus. Curiosamente, é uma versão feminina de deus que comporta partes do divino consideradas “bastante masculinas”. As características de “juízo” e de “fúria” fazem parte de como ela expressa “sua divindade”, com resultados devastadores.

Aronofsky, como em Noé, almeja criar mais um alerta sobre como não estamos cuidando bem “da criação”. A humanidade (ou, de uma maneira desnecessariamente ofensiva, os cristãos) é vista no filme como um bando confuso e inquieto de pessoas que está atrás de aprovação e hedonismo, além de ser fanático pelo ídolo maior a ponto de criarem uma relação vampiresca com ele e não conseguirem nem se comunicar mais nem com seu deus, nem consigo mesmas. E no final, a natureza paga o preço do descuido com o próprio sangue.

Mas quando a humanidade é responsável pela morte do filho das divindades, vemos um tom mais escuro dessa metáfora. O corpo do filho é idolatrado, consumido, para o horror de sua mãe, numa cena profundamente gráfica e chocante. E logo depois, ela é espancada por todos e é salva pelo marido, que ainda não entendeu que aquelas pessoas e aquela relação que eles têm são completamente insanas. O marido quer perdoar a todos. Quer oferecer amor e harmonia. Sua mulher nega e extermina a todos.

É algo até mesmo Lovecraftiano de se pensar. Um desdobramento espiritual do horror niilista. Há um deus poderoso sobre nós, e ele/ela não tem a menor intenção de perdoar sua criação. O destino final da humanidade é a morte, o fogo e o vazio.

Há muito para desembrulhar com Mãe!. A história do artista incompreendido, viciado em sua própria adoração, que também pode ser lida como um autorretrato egocêntrico pelo próprio Aronofsky. Incluindo nisso a relação com a inspiração de um artista e como essa relação pode ser pouco sadia. Também há o lado, novamente autobiográfico, sobre o trato da figura feminina na vida mundana e real. Aronofsky começou um romance com Jennifer Lawrence um pouco depois de terminar as filmagens de Mãe!, adicionando um tempero sensacionalista à leitura das muitas camadas do filme. A ignorância com a qual a personagem de Lawrence é tratada por todos durante o filme todo é um sinal sobre outro tipo de relacionamento pouco sadio, algo clássico de enxergar na sociedade masculinizada.

Mãe! critica e comenta tantos assuntos de maneira tão direta (mesmo com muita gente saindo do filme sem entender absolutamente nada do que se passou), absurda, e por vezes irônica, que é esperado o rendimento baixo nas bilheterias. É uma experiência diferente do que estamos acostumados no cinema, e uma experiência que para muitos pode ser positiva, mesmo com a simplicidade da mensagem e, às vezes, falha em alcançar essa tal mensagem. É o bom e velho “tenta falar de muita coisa, acaba falando de nada”. Em certa altura, as metáforas se misturam tanto que o sentido fica perdido. Porém, é um filme surrealista que se mantém acessível em sua clareza.

A excelência de todos os envolvidos é bem óbvia. Os atores funcionam muito bem, mesmo em cenas bastante complicadas. Javier Bardem mostra porque é um dos grandes atores trabalhando, e Jennifer Lawrence encontra aquela sutileza que filmes como Jogos Vorazes não tentaram alcançar. A fotografia do filme, claustrofóbica, tentando impedir você de entender a estrutura da casa-universo, traz vários dos maneirismos de Aronofsky e é interessante vê-lo usando novamente sua experiência em prol de algo experimental, focado menos em narrativa e mais em simbolismo.

O filme é um carrossel de emoções, e tal como, termina numa elipse. Um deus que recomeça a história, mas recomeça sem se redimir, sem aprender com os erros, fadado a criar outro universo cheio de problemas, os quais é incompetente demais para resolver.

O deus de Aronofsky é terrivelmente humano, falho e imperfeito. Como teologia, não presta. Mas não o está tentando ser. Aliás, se o deus do filme não fosse assim, o filme não funcionaria. A identificação com o ser humano precisa estar lá. Porque nós queremos achar que somos poetas incompreendidos e, no final, somos só agentes da destruição por negligência e ignorância. Queremos ser deuses egocêntricos e queremos ignorar as dádivas em troca de adoração.

Se isso sempre deu certo para nós, sempre vai continuar dando, certo?

Silas Chosen é roteirista, cineasta, publicitário, ilustrador e é viciado em cinema e histórias. Escreve para sites e programas de rádio sobre cinema, cultura pop e cristianismo desde 2004. Faz parte da 4U Films, ministério de cinema independente.
  • Lucas Vasconcellos Freitas

    Meu amigo Silas. Como te falei por mensagem quando o texto ainda não tinha sido publicado, eu discordo.

    O filme pode ter virtudes estéticas e técnicas, mas a conclusão que o Aronofsky não está tentando fazer teologia está equivocada porque é o próprio diretor que convida a tirar conclusões teológicas. Isto não só porque a mola que move o plot é a narrativa de Gênesis (ele poderia ter escolhido outros épicos antigos, ou mitologia, etc), mas porque o último diálogo do filme é teológico em essência.

    Dizer que o filme deve ser assistido sem considerar a “ateologia” do diretor pelo fato de que não é teologia de verdade é o mesmo que dizer que filme pornô não é erótico porque não é sexo de verdade.

    O que me entristece é saber que tem muita gente com um conhecimento limitado de Gênesis (e do resto das Escrituras) achando que a interpretação do Aronofsky é uma leitura possível do texto. Malandro é o Aronofsky, que pega carona, senta na janelinha, e bota fogo no bonde.