Milagres realmente acontecem? – A realidade dos milagres de Jesus | Vern Poythress

Na Bíblia, os quatro Evangelhos — Mateus, Marcos, Lucas e João — registram os milagres que Jesus operou quando esteve aqui na terra. Ele curou de lepra, cegueira e muitas outras enfermidades. Jesus multiplicou cinco pães e dois peixes. Expulsou demônios. Andou sobre as águas. Ressuscitou mortos.

Perguntas sobre os milagres

O registro é extraordinário, mas suscita muitas perguntas. Para muitas pessoas dos dias atuais, a primeira de todas as indagações é se os milagres de fato ocorreram. Em seguida, se ocorreram, qual é o significado deles? Como aconteceram? Por que aconteceram? Por que os evangelistas os registraram? Quanto a nós, qual deve ser a atitude em relação a eles? Como esses milagres são importantes para nós?

Em primeiro lugar, quero tratar das perguntas sobre o significado e a importância dos milagres. Contudo, também é importante procurar saber se de fato ocorreram. Os milagres nos fazem perguntar em que tipo de mundo vivemos. A natureza de nosso mundo permite a ocorrência de milagres ou o mundo é fechado para eles? O mundo é apenas um mecanismo autossuficiente que não permite nenhum desvio de sua ordem regular? As perguntas acerca do mundo logo nos levam a perguntas acerca de Deus. Deus existe? Se existe, ele é o tipo de Deus que realiza milagres? E por que ele faria isso? Quem é Jesus, aquele por quem milagres ocorrem? 

Os milagres de Jesus aconteceram de fato?

Durante séculos se discute se os milagres de fato ocorreram. Muitos livros foram escritos a respeito. Contudo, tendo em vista que aqui o nosso foco é o significado dos milagres, não vamos tratar com detalhes das discussões de longa data sobre a existência de milagres. Para uma análise mais aprofundada desses debates, recomendo dois livros recentes, os quais, por sua vez, trazem referências a vários outros anteriores: C. John Collins, The God of miracles [O Deus de milagres]; e Craig Keener, Miracles [Milagres].[1]

Em vez de fazer aqui uma análise mais aprofundada, vamos nos contentar com um breve exame das principais questões surgidas sobre a realidade dos milagres.

A existência de Deus. A primeira questão diz respeito à existência de Deus. Na base do debate está a questão de Deus existir ou não, e que tipo de Deus ele é. Os milagres relatados na Bíblia não são meramente acontecimentos incomuns nem fatos para os quais ainda não se encontrou uma explicação científica. Eles são atos de Deus, que indicam dramaticamente o seu poder em ação. Se Deus não existe, evidentemente os milagres também não existem. 

Que tipo de Deus. A segunda questão se preocupa em saber que tipo de Deus existe. O deísmo retrata Deus como um Deus que criou tudo, mas depois disso não se envolve no funcionamento cotidiano do mundo. Está distante. Em geral, os deístas acreditam que Deus construiu o mundo como um mecanismo perfeito, que não precisa de nenhuma “intervenção” dele. A ocorrência de um milagre seria admitir que o mecanismo tem defeito. Por isso, a maioria dos deístas afirma que não existem milagres.

Uma cosmovisão materialista moderna, influenciada pela ciência, acredita que o mundo consiste basicamente em matéria e movimento regidos por leis mecânicas impossíveis de ser infringidas. A maioria dos materialistas não acredita na existência de Deus. Para estes, mesmo se existir, Deus é irrelevante para o funcionamento ordinário do mundo. Nesta visão de mundo, a condição de Deus é semelhante à do deísmo.

Qual, então, é a visão verdadeira? Podemos observar brevemente que Deus, como a Bíblia o define, é o Deus que agiu no início para criar o mundo e continua agindo depois para sustentar o mundo que criou. A Bíblia afirma não somente que a existência de Deus se mostra mediante as coisas que ele criou, mas também que ele se deu a conhecer a todos os seres humanos por meio do que criou. Todo o mundo conhece a Deus, todavia suprime esse conhecimento e cria para si mesmo substitutos do Deus verdadeiro:

Pois a ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e injustiça dos homens, que impedem a verdade pela sua injustiça. Pois o que se pode conhecer sobre Deus é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Pois os seus atributos invisíveis, seu eterno poder e divindade, são vistos claramente desde a criação do mundo e percebidos mediante as coisas criadas, de modo que esses homens são indesculpáveis; porque, mesmo tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; pelo contrário, tornaram-se fúteis nas suas especulações, e o seu coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos e substituíram a glória do Deus incorruptível por imagens semelhantes ao homem corruptível, às aves, aos quadrúpedes e aos répteis (Rm 1.18-23).

Os argumentos sobre a existência de Deus talvez sejam úteis como uma espécie de ferramenta para lembrar as pessoas do que elas já sabem. Mas o valor desses argumentos é limitado porque ninguém é neutro em se tratando de religião. Os seres humanos fogem de Deus.

De acordo com as Escrituras, Deus age permanentemente na rotina do mundo, bem como em qualquer acontecimento incomum. Sua palavra regente é a verdadeira fonte daquilo que os cientistas chamam de lei científica.[2] Ele é o Rei e o Senhor tanto sobre a ordem regular das coisas quanto sobre as exceções. As regularidades do governo de Deus são o que permite a existência da ciência. Longe de estar em conflito com a ciência, Deus é o fundamento dela.

Além disso, Deus é um Deus pessoal, não um sistema mecânico. Por isso, ele pode produzir exceções às leis regulares sempre que desejar. Os milagres não apenas são possíveis, mas também são compreensíveis e naturais, dado que Deus, às vezes, pode ter propósitos especiais que demandem ações especiais. A ressurreição de Cristo, por exemplo, foi extremamente incomum, mas ela faz sentido quando entendemos que nesse acontecimento Deus Pai vindicou a inocência de Cristo e o recompensou pela sua obediência. Por meio de Cristo, ele agora traz a salvação para os que estão unidos com Cristo. A ressurreição de Cristo faz sentido em um mundo governado por Deus; porém, não faz sentido num mundo governado por leis mecânicas e impessoais.

Credibilidade dos milagres nos Evangelhos. Em terceiro lugar, a questão é saber se o testemunho a respeito dos milagres encontrado nos Evangelhos é digno de crédito. Mais uma vez, livros inteiros foram escritos sobre isso. O testemunho jamais será digno de crédito para uma pessoa atual se ela já tiver decidido que Deus não existe e que é impossível haver milagres. Se, porém, ela acreditar que Deus existe e que é possível haver milagres, ainda permanece a indagação acerca de determinados milagres, isto é, se eles de fato ocorreram. Por exemplo, o que dizer de Jesus expulsar demônios (Mt 8.28-34) ou de ter curado o servo do centurião (Mt 8.5-13)?

Esses acontecimentos específicos realmente ocorreram e ocorreram do modo relatado nos Evangelhos?

Esse problema implica mais três perguntas. A primeira é se os seres humanos que escreveram os Evangelhos tinham em mente afirmar que os fatos realmente aconteceram. Mesmo uma leitura ingênua dá a entender que sim. E essa impressão ingênua é confirmada por uma afirmação explícita em Lucas 1.1-4 a respeito da investigação histórica de Lucas. Ele diz que escreveu o seu Evangelho “para que tenhas certeza da verdade das coisas em que foste instruído” (v. 4). O Evangelho de João afirma que “Jesus realizou ainda muitas outras coisas” (21.25). Afirma também que esse registro é “para que possais crer que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (20.31). Esse propósito pressupõe a declaração de que João não está simplesmente escrevendo uma ficção.[3]

Em segundo lugar, os autores dos Evangelhos realmente tiveram êxito em seu propósito? Os Evangelhos são fidedignos em relação à história, pelo menos tão confiáveis quanto os relatos de outros historiadores humanos? Vale a pena examinar o livro de Atos, escrito pelo mesmo autor do Evangelho de Lucas (veja At 1.1). Algumas informações de Atos sobre o Império Romano podem ser verificadas com as informações sobre Roma de outras fontes, e essa verificação confirma a confiabilidade de Atos. Os defensores atuais da fidedignidade investigam esse tipo de informação.[4]

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Em terceiro lugar, os Evangelhos têm não só autoridade humana, mas também autoridade divina no que afirmam? Se sim, eles são completamente verídicos e fidedignos no que dizem acerca dos milagres. Não são apenas mais fidedignos ou menos, como um texto histórico pode ser, mas são completamente fidedignos, por causa da fidedignidade de Deus. Mais uma vez, há livros inteiros dedicados a essa questão.[5] Eu creio que os Evangelhos são de fato palavras de Deus, não apenas palavras humanas. Em minha análise dos Evangelhos, reconheço a autoridade divina do que eles dizem.

Quem é Jesus? O que pensamos sobre os milagres nos Evangelhos também depende do que pensamos sobre Jesus. Se Jesus é o Messias, o Filho de Deus, prometido nas profecias do Antigo Testamento, os milagres fazem sentido como acompanhamento apropriado de sua obra. No entanto, se a pessoa não acredita que Jesus é o Messias, talvez também seja cética a respeito dos relatos dos milagres. A questão da identidade de Jesus também pode ter influência sobre as perguntas anteriores acerca da natureza de Deus e do caráter das Escrituras. Se a visão da Bíblia é correta, Jesus é o caminho para Deus (Jo 14.6), e o que se acredita a respeito dele pode influenciar radicalmente a crença de alguém em Deus. Uma vez que Jesus dá testemunho da autoridade divina do Antigo Testamento, uma decisão sobre Jesus também influencia a decisão de alguém sobre a natureza das Escrituras.

Em busca da verdade

Todas essas perguntas sobre Deus, milagres e a identidade de Jesus são importantes. Como observamos, podemos encontrar livros inteiros que tratam desses problemas.

Se alguém está incomodado com essas perguntas, aconselho que procure e consulte livros como os que citei nas notas de rodapé anteriores, mas também pode começar simplesmente lendo os quatro Evangelhos várias e várias vezes. Enquanto os lê, pergunte quem é Jesus, e considerando que sempre há a resistência da natureza pecaminosa humana em aceitar quem Jesus realmente é, bem como suas declarações sobre a nossa vida, recomendo pedir que Deus revele qual é a verdade e derrote a resistência do pecado. Uma pessoa que não tenha certeza da existência de Deus pode pedir: “Deus, se o senhor existe, por favor me revele a verdade enquanto leio”.

Antes de começar a ler, algumas pessoas talvez queiram procurar verificar se os Evangelhos são confiáveis em relação à História, pelo menos no que diz respeito aos seus escritos. Por isso, talvez leiam alguns livros examinando a questão da confiabilidade histórica, mas também é possível começar pelos próprios Evangelhos. Ao ler, alguém pode descobrir que Jesus faz afirmações inevitáveis sobre sua vida. Desse modo, a questão teórica da confiabilidade histórica, que em outra circunstância a pessoa talvez quisesse discutir sem contexto, acaba não sendo tão importante quanto parecia de início. Jesus é singular. Ninguém há semelhante a ele entre os fundadores ou líderes de outras religiões nem mesmo entre as outras pessoas mencionadas na Bíblia. Nada se compara ao que ele disse e fez. É tão impressionante — e tão convincente — que qualquer pessoa pode perceber que homem algum poderia ter inventado o que se encontra nos Evangelhos.

Quando alguém vem a perceber que Jesus é quem ele afirma ser, muitas coisas resultam em seguida. Nossas próprias vida têm de mudar, pois Jesus nos chama para sermos seus discípulos e, quando isso acontece, aceitamos o que ele diz. O que ele diz sobre o Antigo Testamento confirma a autoria e a autoridade divina dessa parte da Bíblia.[6] Por isso, essa mesma autoridade se estende para o Novo Testamento, que é um adendo ao Antigo Testamento, autorizado pelo próprio Jesus.

Por consequência, a pessoa que encontra Jesus e percorre o caminho para se tornar seu discípulo obtém as respostas a suas perguntas fundamentais. A Bíblia tem respostas claras a essas perguntas. Entre elas se encontram:

  • Deus existe. E ele é o único Deus.
  • Deus criou o mundo e continua governando sobre ele (em “provisão”).
  • Deus pode realizar milagres quando desejar.
  • Deus realiza milagres nos momentos em que os milagres promovem os seus propósitos.
  • Sabemos que os Evangelhos apresentam relatos históricos fidedignos, pois os Evangelhos são escritos não somente de autores humanos, mas também têm Deus como seu divino autor. O que eles dizem é a palavra de Deus.
  • Os milagres dos Evangelhos ocorreram de fato no tempo e no espaço, do modo que os Evangelhos os relatam.
  • Jesus é quem os Evangelhos dizem que é. Ele é Deus e também homem, e se fez carne (assumiu a natureza humana) a fim de trazer salvação e cumprir as promessas do Antigo Testamento acerca da vinda do Messias da linhagem de Davi.

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[1] C. John Collins, The God of miracles: an exegetical examination of God’s action in the world (Wheaton: Crossway, 2000); Craig S. Keener, Miracles: the credibility of the New Testament accounts (Grand Rapids: Baker, 2011). Veja tb. Vern S. Poythress, In the beginning was the Word: language — a God-centered approach (Wheaton: Crossway, 2009), cap. 29.

[2] Vern S. Poythress, Redeeming science: a God-centered approach (Wheaton: Crossway, 2006), especialmente o cap. 1.

[3] Veja mais em Vern S. Poythress, Inerrancy and the Gospels: a God-centered approach to the challenges of harmonization (Wheaton: Crossway, 2012), caps. 5-6.

[4] Veja, p. ex., F. F. Bruce, The New Testament documents: are they reliable? (Grand Rapids: Eerdmans, 2003) [edição em português: Merece confianca o Novo Testamento?, tradução de Waldyr Carvalho Luz (São Paulo: Vida Nova, 2010)]. Também temos defesas que se concentram nos Evangelhos e não em Atos: Craig Blomberg, The historical reliability of the Gospels, 2. ed. (Downers Grove: InterVarsity, 2007) [a ser publicado]; Blomberg, The historical reliability of John’s Gospel: issues and commentary (Downers Grove: InterVarsity, 2002).

[5] John M. Frame, The doctrine of the Word of God (Phillipsburg: Presbyterian & Reformed, 2010); N. B. Stonehouse; Paul Woolley, orgs., The infallible Word: a symposium by the members of the faculty of Westminster Theological Seminary (Philadelphia: Presbyterian & Reformed, 1967).

[6] John Murray, “The attestation of Scripture”, in: Stonehouse; Woolley, orgs., Infallible Word, p. 20-8.

Trecho extraído e adaptado da obra “Milagres de Jesus: Como os atos poderosos do Salvador servem de sinais da redenção“, de Vern S. Poythress, publicada por Vida Nova: São Paulo, 2018, pp. 15-22. Traduzido por Daniel Kroker. Publicado no site Tuporém com permissão.

Vern Poythress é professor de Interpretação do Novo Testamento no Westminster Theological Seminary. É também editor do Westminster Theological Journal. Seus amplos interesses permitem-lhe escrever com profundidade teológica em diversas áreas como linguística, matemática, ciência e sociologia. Poythress juntou-se à Westminster faculty em 1976 e também serviu como instrutor no Summer Institute of Linguistics.
Jesus caminhou sobre as águas. Curou cegos. Transformou a água em vinho. Mais do que apenas demonstrar o poder divino do Mestre, os milagres de Jesus têm significados mais profundos: são janelas da grandiosa história da redenção de Deus que prenunciam o milagre maior da morte e da ressurreição de Cristo.

Ao explicar o significado e a importância dos 26 milagres registrados no Evangelho de Mateus, Vern Poythress, estudioso e pesquisador do Novo Testamento, mostra-nos a importância desses milagres para a nossa vida hoje. Poythress elucida como o entendimento do significado dos milagres de Cristo nos ajudará a também compreender melhor a salvação que Deus trouxe ao mundo.

Publicado por Vida Nova.

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