O consolo ateísta ao sofrimento: A romantização do niilismo | Jonathan Silveira

Caminhante sobre o mar de névoa, por Caspar David Friedrich (1818)

“Poeira ao vento. Tudo o que somos é poeira ao vento.” – Kansas, Dust in the Wind

“Nascemos para morrer.” – Lana Del Rey, Born to Die

Sejamos francos. O ponto nevrálgico do problema do mal não está no problema intelectual, mas sim no problema emocional. Quando alguém está sofrendo, dificilmente está disposto a ouvir uma solução intelectual fria e abstrata à sua dor. O que tal pessoa deseja e realmente precisa é de empatia, de esperança, de consolo emocional. Conscientes disso, devemos nos perguntar: o que o ateísmo pode oferece a um casal que acabou de perder seu filho em um acidente de carro ou a uma pessoa que está no leito de hospital por conta de um câncer terminal?

Na visão ateísta, a vida é fruto do acaso. Existimos por um golpe de sorte e por um curto período de tempo. Não há, então, um sentido ou propósito maior na vida. Simplesmente nascemos para morrer e não há nada além do túmulo. Esta premissa niilista traz implicações éticas para o modo como conduzimos nosso breve período de existência e, embora o niilismo seja notório, é comum depararmo-nos com ateus romantizando sua visão de mundo, a fim de encontrar na matéria sentido, propósito e consolo ante o sofrimento. Veja, por exemplo, o que diz a canção Epitáfio, da banda Titãs:

“Devia ter amado mais, ter chorado mais, ter visto o sol nascer. Devia ter arriscado mais, e até errado mais, ter feito o que eu queria fazer. Queria ter aceitado as pessoas como elas são. Cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração. O acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído. O acaso vai me proteger enquanto eu andar. Devia ter complicado menos, trabalhado menos, ter visto o sol se pôr. Devia ter me importado menos com problemas pequenos ter morrido de amor. Queria ter aceitado a vida como ela é. A cada um cabe alegrias e a tristeza que vier.”

Como se nota, a canção tem a intenção de nos alertar para vivermos uma vida cheia de sentido, de modo que não levemos arrependimentos ao túmulo. Ao mesmo tempo, no entanto, devemos confiar na “providência” do acaso. É a romantização do niilismo.

Nessa mesma linha, Richard Dawkins, em uma entonação praticamente religiosa, afirma:

“Por mais curto que seja nosso tempo sob o sol, se desperdiçarmos um segundo dele, ou reclamarmos que é tedioso ou estéril ou chato (como uma criança), isso não poderá ser visto como um insulto insensível para os trilhões de não-nascidos que jamais terão a chance de receber a vida? […] A visão ateísta reafirma e melhora a vida, e ao mesmo tempo nunca é afetada pela autoilusão, pelo excesso de otimismo ou pela autopiedade chorosa daqueles que acham que a vida deve alguma coisa. Se a eliminação de Deus vai deixar uma lacuna, cada um vai preenchê-la à sua maneira. Minha maneira inclui uma boa dose de ciência, a empreitada honesta e sistemática para descobrir a verdade sobre o mundo real”.[1]

A metafísica ateísta de Dawkins é estranha. Dawkins pede para que sejamos gratos à nossa existência, pois há trilhões de não-nascidos que nunca terão a experiência de existir. Contudo, o grande problema que ele parece não perceber é: será que esses não-nascidos realmente gostariam de existir se soubessem que Deus não existe? Gostariam de existir se soubessem que a vida é repleta de sofrimentos que aparentemente são injustificáveis? Esta é uma questão a ser considerada.

De acordo com o apologista e ex-assessor da Casa Branca, Dinesh D’Souza, os sociólogos Pippa Norris e Ron Inglehart observaram que muitos países mais ricos e mais seculares estão “gerando cerca de metade do número de crianças necessário para repor a população adulta”, enquanto muitos países mais pobres e mais religiosos estão “gerando duas ou  três vezes mais o número de crianças necessário para repor a população adulta”[2]. A notícia de que a Europa secularizada, por exemplo, enfrenta um inverno demográfico não é qualquer novidade. De fato, se Deus não existe, que sentido há em se ter bebês? Não seria egoísmo trazer um ser à existência, predestinando-o a sofrer a indiferença da vida?

O discurso de Dawkins é poético e emocional, mas como é possível romantizar a matéria? Como é possível que a ciência possa fornecer consolo emocional àqueles que sofrem? A verdade é que não pode. O ateísmo não oferece consolo, o ateísmo oferece apenas a extinção. O ateísmo nos oferece apenas a indiferença cega do universo. Esta é a dura verdade.

No interessantíssimo filme intitulado The Sunset Limited, dirigido por Tommy Lee Jones, mostra-se uma conversa entre um cristão chamado Black, interpretado por Samuel L. Jackson, e um professor ateu chamado White, interpretado pelo próprio Tomy Lee. O filme todo se concentra num profundo diálogo filosófico sobre Deus e o sentido da vida. Em um determinado momento, o professor ateu expõe sua visão de mundo ateísta, revelando as terríveis consequências niilistas que dela decorrem:

White:

– O mundo é basicamente um campo de trabalhos forçados, a partir do qual os trabalhadores perfeitamente inocentes são levados adiante, por sorteio, poucos a cada dia, para serem executados. Eu não acredito que isso seja apenas o modo como eu vejo o mundo, eu acredito que essa é a maneira que ele realmente é. Existem visões alternativas? Sim. Alguma delas é realista? Não. […] – Eu anseio pela escuridão. Eu oro por morte, a morte real. […] Se eu achasse que iria reencontrar minha falecida mãe e começar tudo novamente, só que desta vez sem a perspectiva da morte, isso seria o pesadelo final. 

Black:

– Professor, você não quer reencontrar a sua própria mãe? 

White:

– Não, eu não quero. Quero que o morto esteja morto para sempre. E eu quero ser um deles. Exceto, é claro, que não se pode ser um deles. Você não pode ser um dos mortos porque o que não tem existência não pode ter nenhuma comunidade. Nenhuma comunidade… Meu coração se aquece só de pensar nisso… Escuridão, solidão, silêncio, paz… E tudo isso apenas a um batimento cardíaco de distância. Eu não considero o meu estado de espírito como sendo uma visão pessimista do mundo. Eu considero como sendo o mundo em si. 

Black:

– Se eu estou entendendo bem, você está dizendo que todo mundo deveria ser suicida? 

White:

– Sim. 

Black:

– Você não está me gozando? 

White:

– Não, não estou. Se as pessoas pudessem ver o mundo como ele realmente é, ver para o que suas vidas realmente são, sem sonhos ou ilusões, eu não acredito que elas poderiam oferecer razões para não escolherem morrer o mais depressa possível. Eu não acredito em Deus! Consegue entender isso? Olhe ao seu redor, homem! Você não pode ver? O clamor daqueles em tormento tem de ser o som mais agradável aos ouvidos Dele [Deus]. […] Fraternidade, justiça, vida eterna? Até parece! Mostre-me uma religião que prepara o homem para o nada, para a morte. Essa é uma igreja que eu frequentaria! […] A sombra do machado paira sobre cada alegria. Cada estrada termina em morte: toda amizade, todo amor. Tormento, perda, traição, dor, sofrimento, idade, indignidade, doença prolongada horrível…

No documentário Expelled: No Intelligence Allowed (Expulsos: A Inteligência Não é Permitida), dirigido por Nathan Frankowski e apresentado por Ben Stein, Will Provine, professor ateu de História da Biologia da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, conta que foi diagnosticado há muitos anos com um grande tumor no cérebro. Sobre tal experiência, o professor declara:

“Vamos supor que meu tumor volte – e, quase com certeza, voltará. Não vou ficar por aí como fez meu irmão mais velho ano passado. Meu irmão estava sofrendo de esclerose lateral amiotrófica (ELA), doença de Lou Gehrig. Ele queria desesperadamente morrer, mas não podíamos ajudá-lo a morrer. Não quero morrer daquele jeito. Vou dar um tiro na minha cabeça bem antes disso. Vou fazer algo diferente. Não me sinto nem um pouco mal por manter esta posição que acredito. Não há nada nesta minha perspectiva que me faça pensar: ‘Oh, como queria ter livre-arbítrio’; ou: ‘Oh, eu queria que existisse um Deus’. Eu nunca, nunca desejei isso.”

Ben Stein nos conta que, pouco depois de tal entrevista ter sido gravada, Will Provine soube que o tumor cerebral havia voltado. O professor faleceu em setembro de 2015.

Esses exemplos servem para mostrar o niilismo como ele realmente é, sem romantizações. Se o ateísmo fosse verdadeiro, a vida não teria qualquer sentido ou propósito. Existiríamos a partir do nada, por nada e para nada. Que consolo emocional pode haver em tal cosmovisão? Que consolo um discurso ateísta oferece em uma cerimônia fúnebre? Nenhum, amigos. Nenhum. O nada, nada pode nos oferecer.

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[1] DAWKINS, Richard. Deus, um delírio. Tradução: Fernanda Ravagnani. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. pp. 457-458.

[2] D’SOUZA, Dinesh. A verdade sobre o cristianismo. Tradução: Valéria Lamim Delgado Fernandes. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2008, p. 37.

Jonathan Silveira é graduado em Direito pela Universidade São Francisco e mestre em Teologia pelo programa Master of Divinity da Escola de Pastores da Primeira Igreja Batista de Atibaia. Trabalha na área de produção editorial e marketing em Edições Vida Nova e é editor do site TUPORÉM.
  • Jaysson Oliveira

    Texto claro e de fácil compreensão. Muito bom!