O evangelho na pós-modernidade: Uma entrevista com D. A. Carson

D. A. Carson

Tuporém: O senhor organizou um livro intitulado de “A Verdade – Como Comunicar o Evangelho a um Mundo Pós-Moderno”, que foi publicado no Brasil por Edições Vida Nova. Quais são os principais desafios ao ministério pastoral em um mundo pós-moderno?

Carson: Os pós-modernos são, em muitos aspectos, profundamente desconfiados em relação à “verdade” que se aplica a todos – aquilo que alguns têm chamado de “verdade verdadeira”. A verdade é amplamente vista como nada mais do que um construto social. Se alguém afirma que algo é verdadeiro de maneira transcultural, ele ou ela provavelmente será acusado de “totalização” (termo cunhado por Michel Foucault), tentando manipular a outros ao apelar para a autoridade de algo que na verdade não pode carregar o peso de uma verdade verdadeira. Esta desconfiança onde se mantém a afirmação de uma verdade supracultural escoa na avaliação pública da moralidade, ou seja, o que é certo e errado para mim pode não ser o que é certo e errado para você. Tudo isto se apresenta de modo desastroso contra as afirmações bíblicas de que, em um sentido definitivo, somente Deus possui a autoridade e o conhecimento para definir o que é bom e mau. Se não podemos identificar o problema (o pecado e suas implicações), então é impossível identificar a solução bíblica – o maravilhoso evangelho de Cristo.

Tuporém: As pessoas hoje em dia não acreditam na realidade do pecado, uma vez que tendem a vê-lo como uma invenção humana. Como podemos responder a esta objeção?

Carson: Nas Escrituras, o pecado é apresentado de várias maneiras: como idolatria, falta ou distorção do amor, errar o alvo, autoritarismo, não amar a Deus com todo o coração, alma, mente e força e ao próximo como a si mesmo, carência da glória de Deus, rebelião contra nosso Criador e Juiz e muito mais. É claro que, em última instância, aquele que comunica fielmente o que a Bíblia afirma sobre o pecado, deve eventualmente tentar abranger tudo o que a Bíblia afirma sobre isso. Entretanto, em um mundo pós-moderno, talvez seja mais fácil inicialmente trazer à tona a questão da idolatria, uma vez que ela implica a ideia de um relacionamento rompido, uma rejeição a Deus, ao Criador etc., e relacionamentos rompidos são vistos de modo mais sério por pós-modernos do que leis que foram violadas. Além disso, devemos deixar claro em nossas atitudes que não estamos zangados com as pessoas que pecam, como se fôssemos intrinsecamente melhores. Em vez disto, participamos de seus pecados de muitas maneiras e também precisamos de perdão e reconciliação com Deus.

Tuporém: Como podemos demonstrar a singularidade de Cristo em um mundo pós-moderno?

Carson: Como acontece muito em perguntas como esta, as melhores respostas se concentram em mais do que questões individuais; elas se concentram em toda a estrutura da revelação bíblica. Naturalmente, alguém poderia se concentrar no fato de que Jesus ressuscitou dos mortos, que, como Filho de Deus, ele testifica à triunidade de Deus e muito mais – características essas que o tornam único. Porém, em um quadro mais amplo, é importante notar que ele não é simplesmente um grande mestre religioso que pode ser comparado aos grandes mestres de outras religiões, mas, sim, o único que carregou nossos pecados, aquele que nos salva de nosso pecado merecido, nossa vergonha e culpa, prometendo-nos uma vida ressurreta semelhante à sua.

Tuporém: Como a teologia bíblica nos ajuda a comunicar o evangelho a pós-modernos?

Carson: A teologia bíblica, quando devidamente realizada, une todos os livros da Bíblia em uma única linha histórica ampla que dá sentido a todas as partes e mostra como Deus está por trás do todo. A teologia sistemática constrói toda a estrutura da verdade abstrata sobre Deus, e isto é importante. A teologia bíblica tende a dar mais ênfase nos diferentes gêneros literários das Escrituras e em como cada livro e seu corpora se encaixam no desdobramento do drama da revelação progressiva. Isto capacita muitas pessoas a entenderem a Bíblia, principalmente se tal teologia bíblica é cuidadosamente desenvolvida dentro do contexto de boa exposição bíblica ou de estudos em grupos pequenos.

Tuporém: Considerando que o senhor tem trabalhado em universidades, poderia apresentar algumas ações práticas que podemos adotar para fazermos missões entre estudantes universitários?

Carson: Talvez a coisa mais importante a ser reconhecida é que a maioria dos estudantes não-cristãos de hoje provavelmente não participará de estudos bíblicos e ainda menos de grandes reuniões cristãs públicas, a menos que sejam pessoalmente convidados por alunos cristãos que conheceram e nos quais confiam. Isto significa que a maior parte das missões universitárias se provam mais frutíferas quando há alunos cristãos ativos no campus fazendo amizades com descrentes e convidando-os para fazerem coisas juntos. É claro que há muitos outros fatores que contribuem para que as missões universitárias sejam frutíferas, mas esta única e simples observação é frequentemente negligenciada.

Traduzido por Jonathan Silveira.

D. A. Carson (PhD, University of Cambridge) é professor pesquisador de Novo Testamento na Trinity Evangelical Divinity School, em Deerfield, Illinois. É autor de A manifestação do Espírito, Cristo e cultura, A verdade, Os perigos da interpretação bíblica e Jesus, o Filho de Deus, organizador do Comentário do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento e As Escrituras dão testemunho de mim e coautor de Introdução ao Novo Testamento e Dicionário bíblico Vida Nova, publicados por Vida Nova. Carson é um dos fundadores da The Gospel Coalition [Coligação pelo Evangelho] e professor convidado em ambientes acadêmicos e eclesiásticos no mundo todo.
verdadeComo transmitir a verdade a um mundo que nem sabe ao certo o que ela é — ou mesmo se ela existe?

Como recomendar absolutos espirituais a pessoas para as quais eles inexistem?

Se essas perguntas já o intrigaram ou se você já lutou com elas, o livro que tem em mãos é leitura obrigatória.

A Verdade explora o conhecimento que Ravi Zacharias, Kelly Monroe, D. A. Carson, Ajith Fernando, Mark Dever e outros estudiosos notáveis adquiriram nas trincheiras do fazer evangelístico e apologético. O livro abrirá seus olhos para ver como a luta pelas almas, à semelhança de uma verdadeira guerrilha, é travada em um grande número de frentes: nos relacionamentos, nas universidades, no âmbito das etnias, no campo da razão e das emoções, no púlpito, nas comunicações... em suma: no amplo espectro da experiência e dos valores humanos.

Publicado por Edições Vida Nova.