Os pagãos necessitam do evangelho (Romanos 1.18-26) | Timothy Keller

“Pois a ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e injustiça dos homens, que impedem a verdade pela sua injustiça. Pois o que se pode conhecer sobre Deus é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Pois os seus atributos invisíveis, seu eterno poder e divindade, são vistos claramente desde a criação do mundo e percebidos mediante as coisas criadas, de modo que esses homens são indesculpáveis; porque, mesmo tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; pelo contrário, tornaram-se fúteis nas suas especulações, e o seu coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos e substituíram a glória do Deus incorruptível por imagens semelhantes ao homem corruptível, às aves, aos quadrúpedes e aos répteis. É por isso que Deus os entregou à impureza sexual, ao desejo ardente de seus corações, para desonrarem seus corpos entre si; pois substituíram a verdade de Deus pela mentira e adoraram e serviram à criatura em lugar do Criador, que é bendito eternamente. Amém. Por isso, Deus os entregou a paixões desonrosas. Porque até as suas mulheres substituíram as relações sexuais naturais pelo que é contrário à natureza.” (Romanos 1.18-26, Almeida Século 21)

Ira revelada

O versículo 18 começa com um “pois”. Portanto, ele nasce dos versículos 16 e 17; Paulo está nos mostrando que o evange­lho é necessário, não pela simples razão de me fazer feliz, mas porque existe uma coisa chamada “…a ira de Deus…” que eu enfrento. A confiança, a alegria e a paixão pelo evangelho re­pousam sobre a premissa de que todos os seres humanos se encontram, longe do evangelho, debaixo da ira de Deus. Se você não compreende a ira de Deus ou não crê nela, o evange­lho não o empolgará nem comoverá, nem o investirá de poder.

A ira de Deus — sua ira estabelecida, justa, correta — é uma realidade presente, segundo Paulo. Ela “…se revela…” (v. 18). Ele não diz: “A ira de Deus será revelada”. É possível contemplá-la agora, hoje. Isso sugere duas questões: “Por que ela se revela?” e “Como ela se revela?”. O restante do capítulo dá a resposta do apóstolo.

Supressão

O que atrai a ira de Deus é “…impiedade e injustiça…”. A primeira fala do desprezo pelos direitos de Deus, da destruição de nossa relação vertical com ele. A segunda se re­fere ao desprezo dos direitos humanos ao amor, à verdade, à justiça etc., de uma destruição das relações horizontais com aqueles que nos cercam. É a ruptura do que Jesus disse serem os dois maiores mandamentos: amar a Deus e amar ao próximo (Mc 12.29-31).

Paulo de imediato antevê a objeção da ignorância das pes­soas. Como Deus pode responsabilizar alguém por não conhe­cer um Deus de quem nunca ouviu falar? Mas, na verdade, ninguém é ignorante, porque todos conhecem a verdade e a suprimem. O versículo 21 chega a ponto de dizer que todos os seres humanos, em toda parte e em todos os tempos, “…[têm] conhecido a Deus…”. Conhecem-no porque “…Deus é ma­nifesto entre eles […] desde a criação do mundo…” (v. 19,20). A criação nos mostra que há um Deus de “…eterno poder e divindade…”. Todos sabemos, independentemente do que dizemos a nós mes­mos, que existe um Criador, de quem somos dependentes por completo e a quem devemos prestar contas. Não podemos saber tudo sobre Deus com base na criação — seu amor e sua misericórdia, por exemplo —, mas podemos deduzir que quem criou isto aqui deve ser um ser de grandeza inimaginável. E nós fazemos essa dedução, mas depois suprimimos essa verdade.

Essa é uma das coisas que a contracultura ensina. Os cris­tãos, a quem o Espírito de Deus tem mostrado a verdade sobre o Criador, costumam ser acusados de serem reprimidos — de não serem autênticos ou não se abrirem para o mundo como ele de fato é. Mas Paulo diz que, naturalmente, todos somos reprimidos, enquanto sufocarmos a verdade de que existe um Deus criador. Pois, enquanto suprimirmos essa verdade, ja­mais compreenderemos quem somos ou por que o mundo é como é. O que reprime não é o reconhecimento do direito do Criador ser o governante; é a autossupressão de se viver negando essa verdade.

Todos adoram alguma coisa

Em seguida, Paulo diz: “…esses homens são indesculpáveis”. Todo ser humano conhece a Deus, mas nenhum glorifica a Deus ou lhe dá graças (v. 21). Isso soa como se a ira de Deus viesse em resposta a nossos maus modos: esquecemo-nos de dizer “obrigado”! Mas Paulo sustenta que somos plagiadores. Pegamos o que Deus fez e damos a entender que é obra nossa. Não reconhecemos nossa dependência de quem nos criou, mas alegamos ser independentes. Preferimos a ilusão de que pode­mos dar as cartas e decidir o que é certo ou errado em vez da realidade do que nos fala a criação. Não somos gratos porque não aceitamos o que ele fez em nosso favor e à nossa volta.

O que acontece quando as pessoas se recusam a reconhecer Deus e dele depender como Deus? Não paramos de adorar. Apenas mudamos o objeto da nossa adoração. Paulo diz que as pessoas “…substituíram a glória do Deus incorruptível por imagens semelhantes ao homem corruptível, às aves, aos qua­drúpedes e aos répteis” (v. 23). Vemos essa substituição de novo nos versículos 25, 26 e (de maneira implícita) 27. Em vez de adorarem o verdadeiro Deus, as pessoas “…adoraram e servi­ram à criatura em lugar do Criador…” (v. 25).

Temos de adorar alguma coisa. Fomos criados para adorar o Criador. Portanto, se o rejeitarmos, adoraremos alguma outra coisa. Somos criaturas “télicas” — pessoas com um propósito; temos de viver por alguma coisa. Tem de haver algo que prenda nossa imaginação e nossa lealdade, que seja o local de descanso de nossas esperanças mais profundas e para o qual nos voltemos de modo a aquietar nossos temores mais intensos. Seja o que for essa coisa, nós a adoramos, e por isso a servimos. Ela passa a ser o que dá de mais fundamental para nós, aquilo sem o que não conseguimos viver que define e valida tudo que fazemos.

Como Deus criou um mundo “…muito bom” (Gn 1.31), todas as coisas criadas são boas em si mesmas. Acertamos ao considerá-las admiráveis e desfrutarmos delas. O problema surge quando devotamos a qualquer coisa criada um afeto excessivo — o afeto supremo que só Deus merece e tem o direito de exigir. Paulo está dizendo que o coração humano ama converter algo bom em deus.

Essa substituição em nossa adoração e serviço destrói a ordem criada. Os humanos são feitos de forma única à ima­gem de Deus, para se rela­cionarem com ele no mundo dele e refletirem sua nature­za e correção moral para o mundo (veja Gn 1.26-29). No versículo 1.23 de Romanos, a humanidade dá as costas para Deus e passa a se curvar às coisas criadas. Não adoramos o que é imortal; adoramos o que é feito. Em outras palavras, não adoramos o Criador; adoramos a criatura (v. 25).

Do ponto de vista de Deus, esse é o comportamento dos “…loucos” (v. 22). Como isso aconteceu? Como Paulo diz em poucas palavras muito reveladoras no versículo 21, ao se recu­sarem a tratar Deus como Deus e viver na dependência dele e em gratidão a ele, “…tornaram-se fúteis nas suas especulações, e o seu coração insensato se obscureceu”. A fim de suprimir a verdade de que existe um Criador, as pessoas se entregaram a saltos irracionais e a non sequiturs. Uma vez que a verdade fundamental acerca de Deus está sendo reprimida e ignorada, a vida não pode ser vivida de maneira coerente.

Veja a moralidade, por exemplo. Se não existe um Deus com direito de dizer o que é certo e errado, como haveremos de encontrar absolutos morais? É muita arrogância afirmar: “Isso é errado porque eu digo que é”. Mas, no fim, ninguém quer dizer: “Isso é errado porque a sociedade diz que é”. Afinal de contas, a maior parte da sociedade norte-americana (e europeia) considerou que não era errada a escravidão trezentos anos atrás. Se a moralidade é definida pela maioria, a escravi­dão não era errada na época! Se não há um Deus, não há um lugar onde localizar a autoridade que estabeleça um absoluto moral. Mas ninguém vive como se não existisse certo e errado (podem dizer que sim, mas clamam por justiça quando eles ou um ente querido é “prejudicado”).

Greg Bahnsen, filósofo e ministro cristão do século 20, for­mula isso de maneira brilhante em um debate (bem como em seu livro Presuppositional apologetics stated and defended [Apologética pressuposicionalista apresentada e defendida]):

Imagine uma pessoa que entre aqui hoje à noite e argumente “o ar não existe”, mas continue a respirar enquanto discute. Ora, intelectualmente, os ateus continuam a respirar — con­tinuam a usar a razão e a tirar conclusões científicas [o que pressupõe um Universo ordenado], a fazer julgamentos mo­rais [o que pressupõe valores absolutos] —, mas a visão ateísta das coisas, em teoria, deveria tornar impossível esse ‘respirar’. Estão respirando o ar de Deus o tempo todo em que argu­mentam contra ele.[1]

A ira de nos dar o que desejamos

Paulo construiu uma argumentação substancial a favor da jus­tiça e do mérito da ira de Deus — prosseguirá com isso nos versículos 26 a 32. Todavia, no versículo 24, descobrimos como a ira de Deus é revelada no presente.

O juízo de Deus sobre a impiedade e a injustiça consiste em nos conceder o que desejamos. Ele “…os entregou […] ao desejo ardente de seus corações…”. As coisas que servimos não nos libertarão; antes, elas nos controlam. Precisamos tê-las. E como o nosso coração foi feito para estar centrado em Deus, que é o único provedor verdadeiro de satisfação e significa­do, ele não se satisfaz — sempre sentimos a necessidade de mais, ou de alguma outra coisa. A tragédia da humanidade é lutarmos pelo que poderíamos apenas receber e desfrutar e não conseguirmos encontrá-lo. Suprimimos a verdade que nos libertaria e satisfaria.

A palavra que a NIV traduz por “desejos pecaminosos”, e a ESV por “desejo ardente” é epithumia. Literalmente, significa “desejo excessivo”, um impulso, um anseio que toma conta de tudo. Isso é revelador. O principal problema do nosso coração não é tanto o desejo por coisas ruins, mas nosso desejo exces­sivo por coisas boas — o fato de convertermos coisas criadas e boas em deuses, objetos da nossa adoração e serviço.

E a pior coisa que pode nos acontecer é que nos seja conce­dido o que nosso coração deseja em excesso. Pegue um homem que adora sua profissão. Ele a serve como aquilo que fará dele “alguém”. Ela o impulsiona e lhe domina a vida — tudo o mais gira ao seu redor. A pior coisa que pode acontecer a esse homem é uma promoção! Ela lhe permite continuar a se achar capaz de encontrar bênção em seus desejos excessivos. Ela o convence de que essa é a “vida real”. Capacita-o a esquecer das ruínas em que está transformando o casamento, a família, as amizades, a fim de buscar seu deus.

Oscar Wilde resumiu bem: “Quando os deuses querem nos punir, atendem às nossas orações”. Essa é a ira de Deus: conceder-nos o que queremos demais, entregar-nos à busca das coisas que colocamos no lugar dele. A pior coisa que Deus pode fazer aos seres humanos no presente é permitir que atin­jam seus objetivos idólatras. Seu juízo consiste em nos entregar ao poder destruidor da idolatria e do mal. O fato de pecarmos cria tensões e pressões na estrutura da ordem que Deus criou. Em vez de bênção, nosso pe­cado provoca rupturas em sentido espiritual, psicológi­co, social e físico.

A grande tragédia é que escolhemos isso para nós mesmos. Deus nos permite entrar pela porta que escolhemos.

A liberdade da oração

Existe alguma rota de fuga, algum modo de voltar atrás? Teremos de esperar o capítulo 3 de Romanos para enxergar mais uma vez a joia deslumbrante do evangelho. Mas o versículo 25 nos fornece, sim, uma pista: “…o Criador [deveria ser] bendito para sempre. Amém”. A rota de fuga é parar de suprimir a verdade e louvar a Deus como Deus — depender dele e aceitar seu direito de reinar sobre nós; desejá-lo mais do que deseja­mos qualquer coisa que ele criou.

Onde encontramos a motivação, a liberdade e o poder para isso? Só os encontramos no evangelho, onde descobrimos que mesmo sendo naturalmente ímpios e injustos, em Cristo somos amados, aceitos e abençoados. Ao compreendermos o evan­gelho — ao aceitarmos que nosso Senhor é também nosso Salvador —, somos conduzidos a encontrar liberdade no lou­vor ao Criador. Como sabemos que compreendemos e rece­bemos o evangelho? Quando aquilo que mais almejamos na eternidade é louvá-lo para sempre.

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[1] Braselton: American Vision, 2010.

Trecho extraído e adaptado da obra “Romanos 1-7 para você“, de Timothy Keller, publicada por Vida Nova: São Paulo, 2017, pp. 30-37. Traduzido por Jurandy Bravo. Publicado com permissão.

Timothy Keller nasceu e cresceu na Pensilvânia, com formação acadêmica na Bucknell University, no Gordon-Conwell Theological Seminary e no Westminster Theological Seminary. Ele é pastor da Redeemer Presbyterian Church, em Manhattan. Já esteve na lista de best-sellers do New York Times e escreveu vários livros, entre eles A fé na era do ceticismo, Igreja centrada, A cruz do Rei, Encontros com Jesus, Ego transformado, Justiça generosa, entre outros, todos publicados por Vida Nova.
Junte-se ao dr. Timothy Keller na exposição da primeira metade da Carta de Paulo aos Romanos. Entenda seu significado e veja como ele transforma nosso coração e nossa vida hoje. Escrito para pessoas de todas as idades e etapas da vida, de pesquisadores a novos crentes, de pastores a professores, este material pode ser utilizado de diversas formas e foi feito para você...

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Publicado por Vida Nova.