Pensamentos sobre a dor | Jonathan Silveira

“Vinde, e tornemos para o Senhor, porque ele nos despedaçou e nos sarará; fez a ferida e a ligará. Depois de dois dias, nos revigorará; ao terceiro dia, nos levantará, e viveremos diante dele. Conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor; como a alva, a sua vinda é certa; e ele descerá sobre nós como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra.” Oséias 6. 1-3

Brinquedos quebrados

É difícil não se rebelar contra Deus em tempos de sofrimento. O fel do sofrimento amarga o espírito; e o espírito amargo, amarga a vida. Uma vida amargurada esvazia qualquer sentido na vida. Crises existenciais surgem e, por vezes, chegamos a desejar nunca termos nascido. Percebemos que a velha indagação de Shakespeare não é mais apenas um clichê poético ou filosófico. Agora o “ser ou não ser?” se torna a questão central da vida, pois o sofrimento nos faz lembrar de que a vida tem o seu preço. Em seu célebre romance, Os Irmãos Karamázov, Dostoiévski mostra como seu personagem Ivan indigna-se em tom bastante ácido contra esse preço, desejando devolver o bilhete a Deus o bilhete de entrada neste mundo. Ele diz:

“Não quero a harmonia, por amor à humanidade, não a quero. Quero antes ficar com os sofrimentos não vingados. O melhor mesmo é que eu fique com meu sofrimento não vingado e minha indignação não saciada, ainda que eu não esteja com a razão. Ademais, estabeleceram um preço muito alto para a harmonia, não estamos absolutamente em condições de pagar tanto para entrar nela. É por isso que me apresso a devolver meu bilhete de entrada. E se sou um homem honrado, sou obrigado a devolvê-lo o quanto antes. E é o que estou fazendo. Não é Deus que não aceito, Aliócha, estou apenas lhe devolvendo o bilhete da forma mais respeitosa.”[1]

Enquanto estamos razoavelmente felizes e confortáveis, acreditamos que esse preço é baixo. Contudo, basta que venha a dor e esses momentos de felicidade e conforto que tivemos ganham aquilo que C. S. Lewis chamou de “sensação de brinquedos quebrados”.[2] É nessa situação que arguimos com Deus e reclamamos que o preço pela vida é muito alto.

No entanto, acredito que o preço pela vida que por vezes consideramos alto não é o sofrimento, exclusivamente, mas sim a forma como Deus quer que nos posicionemos em tempos de sofrimento. Esse é o preço difícil de ser pago, pois Deus nos cobra esperança, fé, paciência, coragem e força em momentos de dor. Difícil porque o sofrimento invariavelmente faz com que nos sintamos injustiçados, traídos e abandonados por Deus. E como podemos responder positivamente a algo que consideramos uma traição ou um abandono? Parece que a tendência natural é acreditar que não há qualquer fim proveitoso no sofrimento; se dói, é ruim.

Porém, é muito curioso notar que esses comportamentos cobrados por Deus em tribulações são classificados positivamente como virtudes, justamente em razão de florescerem no campo árido do sofrimento. Uma pessoa somente se torna virtuosa quando é confrontada com o mal. Um soldado que sacrifica sua vida em prol de sua pátria só é considerado corajoso porque enfrentou o perigo. É fácil imaginar que somos virtuosos. A verdade, porém, é que nunca temos certeza disso. Como disse C. S. Lewis, “Apenas um perigo verdadeiro põe à prova a realidade de uma crença”.[3]

Sempre pensamos que somos fortes, corajosos e fiéis a Deus, mas, então, um infortúnio como um fracasso ou uma doença nos sobrevém e destrói o castelo de areia que chamávamos de fortaleza. Não damos conta de que esses infortúnios, parafraseando Fernando Pessoa, são exatamente as pedras que precisamos para construir nossa fortaleza. Uma fortaleza se constrói com dor e, apesar de no fundo sabermos disto, sempre preferimos construir reinos encantados imunes à dor e ao sofrimento. Esperamos nunca ter que labutar por uma fortaleza; afinal, tudo vai muito bem ao país das fadas. Mas então a dor ataca impiedosamente nosso mundo mágico e dramaticamente percebemos que até mesmo as fadas não podem escapar do sofrimento.

 O amor é o cerne da vida

O amor é o cerne da vida. Não há outro sentido na vida senão o de que vivemos pelo amor. Se não fosse pelo amor, a solidariedade não existiria. Compartilhamos das dores do próximo e praticamos a caridade porque o amor impele-nos a fazê-los. Homens entregam suas vidas em nome de uma causa nobre por conta do amor. Por amor, portadores de deficiências físicas descobrem a superação e auxiliam outras pessoas em situações semelhantes. Somos colocados ao mundo às dores e, se não fosse pelo amor, mulher alguma se submeteria ao tamanho sofrimento do parto. O amor impele-nos a sofrer; o sofrimento impele-nos a amar. Quem ama, sofre; quem sofre, amará. De uma forma ou de outra, doerá. Mas essa dor é benigna, pois é o próprio amor que nos fere e Ele próprio que nos cura. Se o amor não existisse, não haveria ferida e não haveria cura, porque já estaríamos mortos.

Lembro-me das dramáticas palavras de C. S. Lewis retratando a difícil realidade do processo de cura:

“Suponha que aquilo que você se bate seja um cirurgião cujas intenções são inteiramente boas. Quanto mais gentil e consciente ele é, mais sem piedade prosseguirá cortando. Se ele desistir diante de suas súplicas, se ele se detiver antes que a operação chegue ao fim, toda a dor até aquele ponto terá sido inútil.”[4]

É a árdua verdade. Deus é esse cirurgião e, quando seus pacientes reclamam da dor, não estão Lhe pedindo mais amor e sim, menos.

Iludindo nossas inquietações

É bem verdade que, além de sofrermos com o processo de cura, ainda vivemos pensando no fato de que estamos sofrendo. A consciência contínua da dor tortura-nos dia e noite. Se vivemos momentos que inspiram satisfação, nossa implacável consciência lembra-nos da dor e censura qualquer reação de alegria esboçada por nosso espírito. Nossos pensamentos direcionam-se exclusivamente à dor e esquecemo-nos de dar atenção ao prazer. E na vida há prazer. Se chegamos ao ponto de duvidar do prazer e do sentido de existir por causa do sofrimento, deixamo-nos tornar escravos da dor.

G. K. Chesterton disse que a melhor maneira de impedir a emancipação de um escravo é ensinando-lhe a se preocupar com a questão de querer ou não ser livre. Afinal, enquanto ele estiver ocupado nessa tarefa, ele nunca se libertará. De certa forma, é isso que o sofrimento faz conosco: ele atormenta-nos com dúvidas existenciais e, enquanto estivermos ocupados tentando solucioná-las, seremos prisioneiros. Persista em pensar se é melhor ser ou se é melhor não ser e você “nunca será”. Não há neutralidade. Não tenho resposta para esse tipo de dúvida existencial agonizante e duvido de quem afirma ter. Ironicamente, a única solução que vislumbro para resolvermos o problema é admitindo que não há solução para ele nesta vida. Como seres finitos, somos incapazes de compreender a grandeza da vida em sua plenitude. Somente na vida eterna com Deus seremos capazes de entender quem realmente somos e o porquê de nossa existência. Enquanto isso, como afirma o apóstolo Paulo, “vemos como em espelho, obscuramente”; mas, quando habitarmos com Deus, “então veremos face a face”. “Agora”, prossegue o apóstolo, “conheço em parte; então [quando estiver com Deus], conhecerei como também sou conhecido” (1Coríntios 13.12).

É inútil qualquer tentativa de buscar sentido existencial fora de Deus. E o motivo é simples: se Deus não existe, não há sentido na vida. Por outro lado, em Deus – embora não conheçamos completamente o nosso eu e o motivo de nossa existência enquanto seres terrenos –, temos esperança da vida eterna.

Acredito que a melhor coisa a se fazer em relação a dúvidas existenciais é iludir nossas inquietações com a vida, lembrando que ela nos proporciona coisas belas, e que essas coisas compensam o sofrimento e faz-nos pensar que o preço da existência é barato. Uma paisagem, uma noite estrelada, a imensidão do universo, a boa música, os bons livros e os bons filmes, um jardim, os pássaros, a amizade, o matrimônio, o chocolate quente no inverno, o mergulho no verão, as sextas-feiras, a fidelidade e o carinho de um cão, a emoção de um jogo, a dança, o silêncio, a sabedoria, o sono, a solidariedade, a simpatia, o choro companheiro, a gargalhada ou o simples sorriso, são algumas das coisas belas na vida. São nesses pormenores que se manifestam a grandeza, a majestade, o amor e a excelência de Deus. Talvez o sofrimento realmente seja o megafone de Deus para que despertemos os nossos sentidos espirituais para coisas como essas. Para que, assim, percebamos que tudo isso é um milagre e abandonemos nossa leviandade e valorizemos a beleza dessas particularidades da vida.

O Deus que sofre

Acredito que a doutrina bíblica do sofrimento seja uma das principais coisas que faz com que o cristianismo seja tão singular. A Bíblia nos diz que, apesar de sofrermos, Deus é amor. Isso não significa simplesmente que Deus é capaz de amar. Não. Significa que Ele ama, no mesmo sentido de quando dizemos que Ele é. Ou seja, da mesma forma que seria impossível que Deus não existisse, seria impossível que Deus não amasse. O amor faz parte da essência e natureza de Deus. Vivemos e dependemos desse amor. A essência da vida está nesse Amor. Tudo na vida gira em torno desse amor.

O cristianismo nos conta que os homens indignaram-se com Deus em razão do sofrimento no mundo. Eles insurgiram-se, dizendo: “É muito fácil ser um ‘Deus amoroso’ aí em cima! Por que não vem sentir a nossa dor aqui embaixo? Por que não se submete ao sofrimento que nós nos submetemos?” E, em um ato de humildade, Deus despiu-se de glória e majestade e veio à Terra. O próprio Deus encarnou-se para dizer que ama a humanidade. E a expressão do amor de Deus foi exteriorizada em Jesus, o Filho de Deus. O Cristo que só praticou o bem neste mundo e, mesmo assim, sofreu muito.

Em Jesus, somos capazes de vencer o sofrimento e de nos aperfeiçoar. Jesus era perfeito. E era perfeito porque, dentre outros motivos, Ele se submeteu ao sofrimento e venceu-o ao ressuscitar dos mortos. Foi Ele mesmo que nos alertou: “sejam perfeitos”. Quando Jesus disse isso, acredito que, nas entrelinhas, ele quis dizer: “vocês irão sofrer”. Mas Ele também disse que estaria conosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Isso significa que Deus não é impessoal e alheio às nossas dores.

Ser cristão não significa apenas ser simpatizante dos ensinamentos de Jesus. É muito mais do que isso. É ter o caráter de Cristo impresso em nossa alma; é negar-se a si mesmo; é sofrer como Ele sofreu, carregando cada um a sua própria cruz; é saber que estamos neste mundo apenas temporariamente e que nossas tribulações são leves e momentâneas comparadas ao peso de glória que nos será revelado na vida eterna; é viver com os olhos voltados não para as coisas que vemos, mas sim para as que não vemos, pois essas são eternas; é saber que a vida, na verdade, somente começa na morte.

Se tivermos essas coisas em mente, saberemos que, com a graça diária de Cristo e o auxílio do Espírito Santo, nos aperfeiçoaremos de sofrimento em sofrimento e passaremos a contar os nossos dias com coração sábio. Assim, dia após dia, ficaremos cada vez mais próximos da eternidade.

O desencantamento

O amor de Deus fere, desencanta, cura e faz-nos viver para Ele. Ele faz todo o trabalho sozinho. Nossa tarefa é confiar e permanecer Nele, pois, no fim das contas, tudo vem Dele e retorna para Ele. É assim que a vida funciona e temos que nos adaptar às suas regras para que saibamos viver. Como diz a canção dos poetas sertanejos Almir Sater e Renato Teixeira, “cumprir a vida é simplesmente compreender a marcha e ir tocando em frente”.

Durante essa marcha, a vida nos surpreenderá com momentos de dor, mas também nos presenteará com momentos de prazer. Nossa missão é instalar nossa fortaleza em algum lugar entre esses dois extremos. E acredito que entre esses dois extremos exista um lugar chamado amor e que ali resida a felicidade.

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[1] DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os Irmãos Karamázov. Tradução: Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2012, p. 340.

[2] LEWIS, C. S. O problema do sofrimento, pp. 120-121.

[3] LEWIS, C. S. A anatomia de uma dor: Um luto em observação. Tradução: Alípio Franca. São Paulo: Vida, 2007, p. 46.

[4] LEWIS, C. S. A anatomia de uma dor: Um luto em observação. p. 63.

Jonathan Silveira é graduado em Direito pela Universidade São Francisco e mestre em Teologia pelo programa Master of Divinity da Escola de Pastores da Primeira Igreja Batista de Atibaia. É membro na Igreja Batista da Palavra, em São Paulo, trabalha na área de produção editorial e marketing em Edições Vida Nova e é fundador e editor do site Tuporém.