Por que a palavra do ano escolhida pelo dicionário de Oxford em 2016 importa | Ravi Zacharias

No fim do dia 8 de novembro de 2016, lideres bancários da Índia foram chamados às 20h para um encontro com o primeiro ministro. Totalmente despreparados para o que estava por vir, eles assistiram a um anúncio transmitido para toda população na televisão ao vivo informando que todas as notas de 500 e 1000 rúpias se tornariam inutilizáveis à zero hora daquele mesmo dia (estas são as maiores notas em circulação e usadas para a maior parte dos gastos e compras diários). Eles estavam chocados, assim como a nação.

O terremoto financeiro resultante lançou milhões no caos e na confusão. Na manhã seguinte, antes do amanhecer, as filas em frente a cada banco fechado e caixa automático contaram a história em medos humanos. Meu colega e eu passamos dois dias em nossos quartos pois não conseguíamos trocar nossas moedas estrangeiras. Alguns afirmaram que suicídios e mortes súbitas resultaram destes acontecimentos.

O propósito estabelecido para esta decisão é minar o “dinheiro sujo”, o qual varia de evasão de impostos a entesouramento de valores por terroristas. Oponentes políticos com certeza possuem posições diferentes, é claro, dizendo que o objetivo é restringir os fundos financeiros dos partidos opositores no período preparatório das eleições estaduais. Seja qual for a verdade, é algo que nunca presenciei em quatro décadas de viagem: uma moeda legal de repente perder seu valor e denominações pequenas passando a valer mais que as grandes.

Valor precisa de um referencial. No entanto, ao capricho de um homem, tudo o que supostamente apontou para o valor foi reduzido a nada. O que antes era “verdadeiro” passou a ser “falso”, tudo para expor uma mentira disfarçada de verdade. Não se pode mais confiar em garantias feitas, nem mesmo as do banco.

Desmonetização é uma coisa. Desvalorizar a verdade e a veracidade é outra, e é sistematicamente inviável. Poucos dias antes da desmonetização na Índia, outro anúncio foi feito, capaz de fazer com que a desmonetização parecesse férias perto disso: Os organizadores do Oxford English Dictionary reconheceram “pós-verdade” como a nova Palavra do Ano.

Interessantemente, a mídia, que flerta com inverdades, e a academia, que nunca hesita em substituir absolutos por relativismo pós-moderno, se uniram para dar à nossa cultura uma nova palavra. A explicação é que eles não estão cunhando um novo vocábulo, mas sim afirmando uma realidade – a verdade sobre a forma como mimamos a mentira, a derradeira declaração de autoanulação. Isto se parece com outro novo termo: “lembrar incorretamente”[1].

O post-mortem da verdade

Agora vivemos em uma cultura “pós-verdade”, na qual lembrar incorretamente é normal (não é surpresa que apenas algumas horas após as eleições americanas, uma rede de televisão francesa batizou nossa cultura de “pós-lógica”). Estes dois bastiões de valor, a academia e a mídia – nas quais o relativismo corre pelas veias – tornaram-se os arautos desta nova palavra.

Castigando os políticos, eles falsamente previram o destino dos mentirosos. Esfolando um eleitorado que se sentia mal, eles se perguntavam como pessoas poderiam ser enganadas por uma mentira. Depois de engolirem um camelo, filtraram um mosquito. Eles são os principais portadores da manipulação das palavras, repetindo distorções com frequência suficiente para transformá-las em verdade. Cuidando, não da verdade, mas do efeito e da manipulação de todo pensamento, sua vitória é pírrica[2].

Um lado suave do significado de pós-verdade sugere que os fatos objetivos influenciam menos na formação da opinião pública do que o apelo às emoções e crenças pessoais. Mas o significado mais difícil da palavra é que em nossa cultura nós, voluntária e justificadamente, transmitimos algo falso porque satisfaz um propósito final ou pessoal: os fins justificam os meios, os quais não precisam justificar a si mesmos.

Aqui está o post-mortem. A pós-verdade como fenômeno não é algo novo. Assim como a pós-modernidade não é nem pós nem moderna, mas existe desde a primeira conversa na aurora da Criação – “Deus falou?” –, a pós-verdade é, de fato, rebelião desde o início. “Deus nos deu sua palavra?”. A resposta a esta pergunta é uma questão de vida ou morte.

Até mesmo os manipuladores da verdade sabem que a verdade só é subjetiva quando alguém vitimiza outros e precisa de um subterfúgio. Uma vez que tenhamos removido Deus e decidido assumir seu papel, a verdade abre espaço para a ficção. É comum dizer: “Se um cretense diz que todos os cretenses são mentirosos, você pode acreditar nele?”. Agora temos de perguntar a nós mesmos se devemos acreditar em uma cultura pós-verdade quando ela diz que esta é uma cultura pós-verdade.

Precedentes históricos

Na década de 1960 uma capa de revista de alta circulação proclamou que “Deus está morto”! Na década de 1970 a mesma revista disse “Marx está morto”. Agora temos outra fatalidade e estamos nos enterrando. A verdade está morta. Nós a matamos. Nietzsche pensou que Deus estava morto e foi procurá-lo com uma lanterna. Mas Deus não está morto; a verdade está. E nós extinguimos a luz da verdade nos nossos salões de aprendizado tornando possível que um aluno de Harvard diga: “Eu posso acreditar no que quiser, desde que eu não afirme que isto é verdade”. Com a morte da verdade, a capacidade singular do Homo sapiens de raciocinar de forma abstrata e desenvolver linguagem foi levada ao necrotério, e toda a linguagem perdeu seu sentido.

Previmos este dia há meio século. Uma estrela da mídia, Malcom Muggeridge, declarou que as notícias estavam corrompidas por mentiras e produziu seu próprio registro da verdade em Jesus Rediscovered. Tendo vivido mentira após mentira na política e escrevendo para as massas, ele diz: “Ainda agora, a verdade é bela; considero que até mais bela que a justiça – a busca atual –, que facilmente assume uma falsa face. Onde quer que dois ou mais se juntem para exercer autoridade, foi a verdade quem morreu, não Deus.”

Leia as informações complicadas vendidas todos os dias em nossos jornais e televisões. Depois da morte de Fidel Castro, o primeiro ministro canadense Justin Trudeau declarou que ele foi um líder que “serviu a seu próprio povo”. Esse mesmo povo estava tremulando bandeiras em Miami, celebrando sua morte. Suponho que o primeiro ministro quis dizer que ele serviu a seu povo como Stalin “serviu a seu próprio povo”.

Ouça as coisas sem sentido disseminadas por nossos acadêmicos. Quanto mais bizarra a afirmação, maior a possibilidade de que ela tenha vindo de um assim chamado intelectual. Ideólogos travestidos de repórteres e intelectuais usam a academia para espalhar a mentira de que toda verdade é relativa. Religiões são falsamente representadas para servir aos políticos. A vida é desvalorizada para nossa conveniência. Definições uma vez caras são apagadas, e a verdade é imolada no altar das tendências. Valores e instituições importantes são destruídas e novos significados assumidos por nossa cultura pós-verdade. Que opinião temos além de que a “verdade está morta”?

O braço longo da verdade

E ainda assim, e ainda assim! A força da realidade é, em última análise, indestrutível. Churchill disse com razão: “A verdade é a coisa mais valiosa do mundo, tão valiosa que é comumente protegida por um guarda-costas feito de mentiras”.

Andrei Sakharov, que deu aos soviéticos a bomba atômica, disse, “Sempre pensei que a arma mais poderosa do mundo fosse a bomba. Mudei de ideia. A arma mais poderosa do mundo não é a bomba. É a verdade”.

Pense nisto: Quem são os heróis de nosso tempo? Animadores de massa que interpretam papéis e executam roteiros. Suas vidas tornaram-se tão bifurcadas que agora imitam a arte, uma disciplina que afirma não ter fronteiras.

O filósofo alemão Nietzsche nos alertou que, desde que Deus morreu no século XIX, o século XX se tornaria o século mais sangrento. Uma loucura universal surgiria e o tempo viria em que lanternas precisariam ser mantidas acesas mesmo durante o dia. Este dia chegou: O ano de 2016 em que o dicionário nos diz que verdadeiramente vivemos em uma cultura de pós-verdade.

O anúncio formal desta nova palavra nos mostra que a Bíblia é a verdade, uma consequência incrível não desejada. As Escrituras nos dizem que professando ser sábios, tornamo-nos loucos; a mentira pela qual vivemos, nos levará à morte.

Entretanto, o próprio Nietzsche assumiu que sua piedade involuntária suportaria até mesmo sua estridente filosofia quando disse, “A real verdade sobre a ‘verdade objetiva’ é que esta última é ficção. Verdade é o nome que damos àquilo que concorda com nossas próprias preferências instintivas. É como chamamos nossa interpretação do mundo, especialmente quando queremos nos colocar acima dos outros”. Mas, ele conclui, “ainda sou tão piedoso que até mesmo eu adoro no altar no qual o nome de Deus é verdade”.

Há um clamor último por justiça em cada coração. A justiça conta com a verdade. Sem estas duas realidades, a civilização irá morrer. A Bíblia diz que “a Lei veio por meio de Moisés, mas graça e verdade através de Jesus Cristo” (João 1.17). Ambas são necessárias; a lei e, portanto, graça e verdade.

Para o seguidor de Jesus, há também esperança, a esperança expressa pelo versículo mais conhecido da Bíblia: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira, que deu seu Filho unigênito para que todo aquele que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16).

Quando você analisa este simples versículo, percebe que ele incorpora tudo o que precisamos para viver:

  • O ponto inicial é a filiação
  • A entrega é incondicional
  • A recepção é volitiva
  • O alcance é eterno
  • O núcleo é judicial

No coração da existência está a lei moral. Essa lei não se atreveu a ser violada. Jesus disse “Se vocês permanecerem em minhas palavras, vocês serão verdadeiramente meus discípulos, e conhecerão a verdade e a verdade vos libertará” (João 8.31-32).

A liberdade verdadeira não é a liberdade para agirmos segundo nosso bel-prazer, mas sim para fazermos o que deveríamos. É por isso que precisamos da verdade. A graça de Deus é a única esperança que nos capacita a viver pela verdade. Nenhuma cultura sobrevive sem isso. “Sua Palavra é a verdade e permanece para sempre”.

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[1] Nota do Tradutor: Possível tradução do neologismo “misremebering”.

[2] Nota do Tradutor: Vitória Pírrica é o termo bélico para uma vitória com muitas perdas no campo vencedor.

Texto original: Why Oxford Dictionary’s 2016 Word of the Year Matters. The Gospel Coalition.

Traduzido por Felipe Wieira e revisado por Jonathan Silveira.

Ravi Zacharias é um evangelista e apologista cristão autor de vários livros, incluindo o premiado "Can Man Live Without God? e "Jesus among other gods". É presidente do Ravi Zacharias International Ministries, apresenta o programa de rádio semanal "Let My People Think" e é professor visitante do Wycliffe Hall of Oxford onde leciona apologética e evangelismo.
Quão diferente viveríamos se acreditássemos que cada evento de nossa vida - desde o alegre ao trágico e ao mundano - fosse parte de um desígnio meticuloso e intencional no qual todos os elementos estão interconectados com uma precisão de tirar o fôlego? Essa é a pergunta que Ravi Zacharias, autor bestseller e palestrante internacionalmente conhecido, responde neste livro.

Publicado por Shedd Publicações.
  • Eduardo

    Um parágrafo depois, comecei a desconfiar do artigo. O autor socorria-se a três situações, diferentes, e de categorias desiguais, para começar a pendurar em seu arrazoado o que o dicionário Oxford indicava com a ‘palavra do ano’, que não mais existia verdade. Fui ler o novo adjetivo do dicionário:

    Post-truth, “Relating to or denoting CIRCUMSTANCES in which OBJECTIVE FACTS are LESS INFLUENTIAL in shaping PUBLIC OPINION THAN appeals to EMOTION AND PERSONAL BELIEF.”

    A nota de 100 e de 500 Rupias na Índia, dada as novas circunstâncias, diante do fato objetivo, isto é, de que valiam até aquele dia, não mais depois, os valores estampados de face, já não mais seriam tidas como verdade: a Rupia perdera ‘força’ e ‘valor’ diante do novo fato, 100 e 500 nada valiam.

    Cerca de 85% dos cidadãos americanos creem no inferno. Não há um único registro de que o inferno existe, nem circunstâncias e evidências capaz de validar sua existência. Mas o americano continua a acreditar, mesmo contrário aos fatos. Emoção conta, e crença pessoal também. Às favas os fatos.

    Ahmadijenad, o mais recente candidato à presidência no Irã acredita piamente, com todas as suas forças e emoções, que a Shoah (Holocausto) nunca existiu. Para ele trata-se de uma ‘pós-verdade’.

    Quando Einstein estabeleceu a teoria da relatividade especial ou restrita, introduzindo uma nova verdade que deixava Isaac Newton a ver navios, o que estava em jogo era que as CIRCUMSTANCES ‘einsteiniana’ eram LESS INFLUENTIAL do que OBJECTIVE FACTS (o sistema ‘newtoniano’) para as pessoas de seus dias. O que formatava a PUBLIC OPINION à época era EMOTION AND PERSONAL BELIEF.

    ‘In this era of post-truth politics, it’s easy to cherry-pick data and come to whatever conclusion you desire’; ‘some commentators have observed that we are living in a post-truth age’. (Oxford).
    Fato.

    Oxford na boca do articulista, porém, teve apenas a função da atração como a abelha para o mel. Leitura atenta, e percebe-se que o dicionário está tratando de outra coisa completamente diferente https://www.oxforddictionaries.com/press/news/2016/11/17/WOTY-16

    Escreve o autor do artigo, “A soft side to the meaning of post-truth suggests that objective facts are less influential in shaping public opinion than appeals to emotion and personal belief. But the hard meaning of the word is that in this culture we willfully and justifiably convey something false because it accomplishes a personal or end goal: the end justifies the means, which do not need to justify themselves.”

    Sai o ‘sof side’, entra o ‘hard meaning’. Passa a imperar o falso sem necessidade de justificar nada. Evidente exagero. Como se o mundo todo se tornou estúpido ou emburreceu.

    A partir daí o artigo toma o seguinte contorno: “Even manipulators of the truth know that truth is only SUBJECTIVE when one has victimized others and needs a fabrication. ONCE WE REMOVE GOD and decide instead to play God, truth gives way to fiction. It used to be said, “If a Cretan tells you all Cretans are liars, can you believe him?” Now we have to ask ourselves if we can believe it when a post-truth culture tells us it is a post-truth culture.”

    Se eu disser que todos os evangélicos (Cretans) são imbecis quando querem enfiar Deus goela abaixo nas pessoas, todos seriam imbecis?

    Lembro-me de uma aula de Cornelius Van Til (Westminster Theological Seminary). Com aquela voz levemente anasalada e com um jeitinho bem serelepe de expor a verdade, fez-me ver que Karl Barth (nunca foi apreciado nos Estados Unidos), ficou velho demais para mim, implorava que lêssemos sua obra.

    Coloquei a mão em quase todo os seus livros. E o que Van Til dizia? Que atrás deste grande suíço tinha um alemão que fizera um estrago enorme no mundo teológico e que atrás dele, um inglês mais estrago fizera, David Hume.

    Este artigo é uma demonstração de que se o leitor não entender aquele alemão (e seus herdeiros filosóficos) vai continuar a apelar para definições muito precisas do Oxford, esquecendo que afirmações pós-Kant continuam a perturbar o cristianismo, aqueles cristãos que não conseguem sair da camisa de força que se meteram. E que não sabem o que fazer neste mundo de hoje que não tem muito a ver com aquele mundo que vigeu até meados do século XIX.

    Vão continuar conversando com eles mesmos.