Por que a teologia cristã precisa de ex-ateus | John Woodbridge

C. S. Lewis (1898-1963)

Walter Hooper, secretário pessoal de C. S. Lewis, uma vez comentou ao grande escritor cristão a respeito de uma epígrafe gravada na lápide de um ateu: “Aqui jaz um ateu, vestido elegantemente, sem nenhum lugar para ir.” Sem se surpreender com isso, Lewis respondeu de maneira sagaz: “Esse ateu agora provavelmente deseja que isso fosse verdade.”

Por mais impertinente que a resposta de Lewis possa parecer, não foi uma alfinetada verbal maliciosa. Lewis estava falando muito sério. Afinal, ele via o ateísmo como tendo consequências muito sérias. Então, ele buscou atrair e alertar ateus de que eles enfrentavam um futuro desesperador à parte de Cristo.

O esforço apologético específico de Lewis de impedir o ateísmo possui uma história de fundo: o próprio Lewis havia sido um ateu convicto. Ele sabia muito bem o que falava. Ele tinha credibilidade, pois já havia estado em tal posição. No livro “Surpreendido pela Alegria”, Lewis relata sua conversão ao teísmo, um caminho sinuoso partindo da crença durante a infância, passando pelo ateísmo e o teísmo, e finalmente chegando à fé cristã.

Minha “surpresa” pessoal ao ler o livro foi causada pela descoberta de que o relato de Lewis continha experiências com as quais eu podia livremente me identificar. A razão simples – da qual eu não me orgulho – é que, como jovem, eu também rejeitei a fé cristã. Foi encorajador saber que Lewis havia vivenciado uma jornada não convencional de fé semelhante à minha. Nem todo mundo se torna cristão por ir até à frente após um apelo evangelístico em uma igreja ou em um acampamento. Às vezes, Deus busca pessoas de maneiras muito surpreendentes.

Combatendo um pressuposto

Recontar as histórias de conversão de ex-ateus que se tornaram cristãos, como Lewis e eu, é especialmente necessário nos dias de hoje. Essas histórias contrariam o mito secular amplamente espalhado de que o ateísmo é a parada final inevitável para qualquer pessoa séria, instruída, determinada a se tornar erudita, racional e objetiva ao analisar o mundo como ele é.

Especialmente em certas configurações acadêmicas, presume-se a influência do naturalismo metodológico. Brad S. Gregory, historiador da Universidade de Notre Dame, observa: “Independente da disciplina acadêmica, o conhecimento no mundo ocidental hoje é, por definição, considerado secular. Seus pressupostos, métodos, conteúdo e afirmações acerca da verdade são e somente podem ser seculares, estruturados não apenas pela exigência lógica da coerência racional, mas também pelo postulado metodológico do naturalismo e seu correlato epistemológico, que é o empirismo probatório.”

Na cultura estadunidense, o ateísmo como crença tem crescido substancialmente em anos recentes. Em 2016, a Pew Research Center relatou que, entre os anos de 2007-2014, o número de pessoas que se auto-identificam como ateias nos Estados Unidos saltou de 4% para 7% e o número de pessoas que se auto-identificam como agnósticas saltou de 2.4% para 4.0%. O número de estadunidenses que afirma ser cristão, por sua vez, caiu de 78.4% para 70.6% em 2014.

No entanto, apesar desta tendência e da narrativa que ela presume explicar, o secularismo não é o resultado inevitável da vida da mente. Antes de sua conversão, Lewis notou que algumas das pessoas mais inteligentes que ele conhecia eram cristãs. Após a minha própria conversão, comecei a reconhecer que um número de cristãos que eu mais admirava incluía muitos ex-ateus: C. S. Lewis, John Warwick Montgomery (apologista e historiador da igreja), Kenneth S. Kantzer (teólogo e editor da revista Christianity Today), Carl F. H. Henry (teólogo e editor da revista Christianity Today), William Lane Craig (apologista), Graham Cole (teólogo e educador), Alister McGrath (cientista e teólogo), Scott Chapman (pastor), Lee Strobel (jornalista e apologista), Craig Ott (missiólogo), e a lista continua.

Como resultado de – e não apesar de – suas buscas espirituais, esses e muitos outros indivíduos deixaram a descrença e foram para a fé. As reflexões de ex-ateus como esses podem fornecer insights apologéticos valiosos em relação a questões intrigantes sobre as quais eles foram forçados a navegar ao se dirigirem à fé, e muitos se tornam apologistas ou acadêmicos que dedicam suas vidas para responder a tais perguntas.

A partida do filho pródigo

As questões, porém, são reais e podem ser uma pedra de tropeço para muitos. Em meu próprio caso, foram essas questões que inicialmente me conduziram para longe da fé rumo ao cinismo e ao ateísmo. Criado em um lar cristão acolhedor, frequentei ministérios atraentes de jovens, acampamentos de verão, e recebi uma educação sólida em artes liberais em uma universidade cristã. Durante meu segundo ano universitário, me deparei com a declaração de Ludwig Feuerbach de que a oração é simplesmente uma autocatarse. A proposta me atingiu como um insight brilhante.

Em um culto de domingo à noite, um pastor piedoso disse “Vamos orar”, e as pessoas reverentemente curvaram as cabeças. Eu não o fiz. Nem fechei meus olhos. Pela primeira vez, percebi que eu não acreditava. Ao mesmo tempo, não senti que havia qualquer pessoa com a qual eu pudesse ousar confidenciar minha descrença privada. Agora eu tinha que navegar a vida como um não-crente em uma comunidade cristã.

No dia da graduação, meu pai me perguntou se eu estava planejando ir para um seminário em que eu havia feito minha pré-matrícula. “Não”, eu respondi. Um pouco assustado, ele me perguntou então sobre o motivo de minha recusa. Respondi calmamente: “Eu não creio mais”. Quase que de maneira sarcástica, mas não foi, ele disse: “Esse é um bom motivo para não ir para o seminário”. Na ocasião, não tive qualquer sentimento de remorso em relação a qualquer sofrimento em potencial que eu poderia ter causado ao meu pai. E pode ter havido sofrimento. Afinal, meu pai era a 14ª geração de pastores em nossa família e ele esperava que eu fosse a 15ª.

Fui para uma universidade Big Ten para obter um mestrado em história. Tentei recuperar meu comportamento cristão ao agir como um cristão. Internamente falando, no entanto, meu subterfúgio não funcionou. Possivelmente sentindo minha hipocrisia, alguns amigos da Cruzada Estudantil para Cristo me estimularam a visitar a sede da Cruzada Estudantil em Arrowhead Springs, na Califórnia, antes que eu começasse minha jornada para estudar na França como bolsista Fulbright. Por alguma razão, eu aderi à sugestão deles e isso foi um grande erro. Para minha decepção, achei a atmosfera intensamente evangelística da Cruzada Estudantil desconcertante. Quando me disseram que eu teria de me envolver em um projeto de evangelismo de praia ao longo da orla do Oceano Pacífico, foi a gota d’água.

Marquei uma reunião para falar com Bill Bright, fundador da Cruzada Estudantil para Cristo, que graciosamente me convidou ao seu escritório. Ele havia participado das aulas de meu pai no seminário sobre história da igreja. Sentei-me em um sofá espaçoso. Bill gentilmente me perguntou sobre o motivo da reunião. Tentei então expor minha melhor voz asinina: “Dr. Bright, você realmente acredita que o cristianismo é verdadeiro?” Como já era de se esperar de um fundador da Cruzada Estudantil, Bill respondeu: “Sim.” Percebendo meu espírito rebelde, o Dr. Bright não pisou em ovos. Ele prosseguiu com duras pancadas verbais em minha cabeça, dizendo: “Woodbridge, ou sua vida contará com Deus ou então você se tornará um intelectual sem valor.”

Eu prontamente me levantei do sofá e respondi: “Obrigado, Dr. Bright.” Dei uma volta e saí de seu escritório. Nos tornaríamos amigos anos mais tarde, e ele graciosamente nunca mencionou sobre a minha insolência daquele dia em seu escritório da Califórnia – embora eu tenha lhe perguntado sobre o episódio e ele ainda lembrasse. Naquela tarde fatídica, no entanto, eu não dava a mínima para o que ele pensava. Finalmente eu havia me exposto e estava a caminho da França para estudar com muitos historiadores de alto nível. Agora o cristianismo estava bem no meu espelho retrovisor e se distanciando rapidamente.

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Sem escapatória

Embora os escrúpulos intelectuais possam levar alguns para longe do cristianismo, eles não têm necessariamente a última palavra. Os testemunhos de conversão de ex-ateus fornecem tanto apoio apologético como consolo e conforto genuínos a pais cristãos cujos filhos se desviaram da fé. Não importa qual seja a situação espiritual deles, eles não estão além do alcance do Espírito Santo de Deus.

Em “Surpreendido pela Alegria”, Lewis descreve seu encontro pré-conversão com um amigo ateu:

“No início de 1926, o mais empedernido dos ateus que jamais conheci sentou-se no meu quarto e, contra tudo o que eu dele esperava, observou que os indícios da historicidade dos Evangelhos eram de fato surpreendentemente bons. ‘Coisa esquisita’, continuou. ‘Toda aquela história de Frazer sobre o Deus que morre. Coisa esquisita. Chega até a parecer que aquilo realmente aconteceu’. Para entender o impacto explosivo disso, o leitor precisaria conhecer o homem (que certamente desde então jamais demonstrou qualquer interesse pelo cristianismo). Se ele, o cético dos céticos, o durão dos durões, não estava — como eu ainda o diria — ‘seguro’, então a que é que eu poderia recorrer? Será que não havia mesmo uma saída?”

Um pouco antes de Lewis ter esse encontro “alarmante” com um ateu, ele havia acabado de ler o livro “O Homem Eterno”, de G. K. Chesterton. Chesterton afirmava que “a maior e mais chocante declaração feita pelo homem desde que ele articulou sua primeira palavra” é a afirmação de que o Criador do cosmos caminhou sobre esta terra. Outras religiões não podem afirmar isto. Por esta razão, escreveu Chesterton, o cristianismo “reduz a religião comparada a nada mais que pó e absurdo”. Isto provocou uma reviravolta em Lewis e finalmente o levou ao teísmo: “Cedi enfim no período letivo subsequente à Páscoa de 1929, admitindo que Deus era Deus, e ajoelhei-me e orei: talvez, naquela noite, o mais deprimido e relutante converso de toda a Inglaterra.”

Minha história é semelhante. Na universidade de Toulouse na França, eu desfrutava completamente de meus estudos e me desviei para a esquerda política. E então aconteceu algo totalmente inesperado. O alerta de Lewis a jovens ateus acerca do perigo de se ler livros cristãos tornou-se verdadeiro. Sendo eu um bibliófilo, mas com pouco dinheiro, acabei entrando um dia em uma livraria em Toulouse. Em frente à livraria havia diversos livros baratos à venda, mexidos pelo público.

Por qualquer razão, meus olhos se iluminaram sobre o livro “A Vida Diária nos Tempos de Jesus”, escrito por Henri Daniel-Rops, um historiador católico romano. Por qualquer razão, eu peguei o livro e o comprei, sem perceber que isso havia sido um erro perigoso. E por qualquer razão, ao retornar ao meu quarto na universidade, comecei a ler o livro – outro grande erro, dada a minha orientação ateísta.

Conforme eu lia o livro de Daniel-Rops, encontrei uma citação de uma passagem de Tácito, um historiador romano pagão, que fazia referência à vida de Jesus e à propagação do cristianismo primitivo (Annales 15:44):

“Um rumor persistente associava Nero ao fato de ele ter iniciado o fogo. Para destruir esse rumor, Nero fez aparecer como culpados os cristãos, uma gente odiada por todos por suas abominações, e os castigou com mui refinada crueldade. Cristo a quem tomam o nome, foi executado por Pôncio Pilatos durante o reinado de Tibério. Detida por um instante essa superstição daninha apareceu de novo, não somente na Judeia, onde estava a raiz do mal, mas também em Roma.”

Como um raio, a ideia de que Jesus poderia muito bem ter existido e caminhado por esta terra me atingiu. Afinal, eu pensei, Tácito não era um propagandista cristão e não tinha nada a ganhar em relatar um mito. Se você tem sido um crente por toda a sua vida, provavelmente achará difícil de imaginar que qualquer pessoa poderia estar tão desligada da fé cristã a ponto de entender que o fato de Jesus ter existido é uma surpresa. Mas isso foi uma grande surpresa. Não apenas o fato em si, mas o que o fato possivelmente significava.

Enquanto lia a declaração de Tácito, percebi que, se Jesus tivesse existido, isso teria implicações gigantescas. Eu nunca havia lido Chesterton como Lewis, mas, de um modo bem mais simplista, cheguei à mesma conclusão que ele. Será que Jesus não apenas existiu, mas que sua mensagem era verdadeira afinal de contas?

Mais tarde, em uma noite, eu estava caminhando pelas ruas de Toulouse e fiquei preso em uma enxurrada provocada por uma chuva torrencial, e eu estava sem guarda-chuva. A Basílica de Saint-Sernin me proporcionou a única porta aberta em que eu podia observar um local de abrigo. Entrei na enorme igreja úmida e vazia para fugir do temporal. Poças d’água estavam espalhadas no chão. Lâmpadas descobertas penduradas ao longo da igreja forneciam a única luz.

Após alguns minutos, me senti compelido a ir até a frente da igreja. Parei próximo a um dos bancos e pedi a Deus – se ele existisse – para que aceitasse minha fé escassa, pois eu não acreditava em muita coisa. Algo de uma natureza interior aconteceu quando fiz essa oração. Senti-me como que fora um teísta pelo menos naquele momento – talvez até mesmo um cristão.

Testemunho valioso

Testemunhos de ex-ateus fornecem evidência do poder do evangelho de Jesus Cristo em transformar vidas, lembrando-nos de que o evangelho realmente é o próprio poder de Deus para salvação (Rm 1.16). Ademais, os próprios ex-ateus frequentemente são bem pacientes e empáticos ao interagir com pessoas que lutam com questões de fé. Ateus hostis muitas vezes estão fechados ao reino.

Um intelectual estadunidense proeminente, que é um ateu confesso, uma vez me disse que, apesar de sua aclamada carreira acadêmica, ele não havia encontrado satisfação ou felicidade. Suas palavras foram tocantes e também inesquecíveis: “John, você não sabe que não há nada no topo da escada?”. Assim como todos, os ateus – seja qual for a posição intelectual – precisam nascer de novo (Jo 3.1-12). Eles precisam saber que Jesus Cristo é o caminho, a verdade e a vida (Jo 14.6) e que o evangelho de Jesus na verdade confere vida. Ele oferece uma maravilhosa esperança de ressurreição. Por meio do poder de convencimento do Espírito Santo e da Escritura (Hb 4.12), até mesmo os ateus mais difíceis podem se converter a Jesus Cristo.

Traduzido por Jonathan Silveira.

Texto original: Why Christian Theology Needs (Former) Atheists. Christianity Today.

John Woodbridge é professor pesquisador de história da igreja e história do pensamento cristão na Trinity Evangelical School em Deerfield, Illinois.
Quem de nós nunca teve a curiosidade de saber como era o cotidiano de Jesus? Qualquer pessoa que leia e estude a Bíblia e, em especial os evangelhos, quer saber como era o ambiente, o costume e a cultura que constituía o dia-a-dia do Filho do Homem.

Nesta obra, o leitor encontrará, além dessas informações, uma riqueza de detalhes sobre os contextos geográfico, social e político da Palestina no alvorecer do cristianismo. Detalhes que são extremamente relevantes para a compreensão dos eventos narrados pelos evangelhos.

Embora o livro seja de uma incontestável erudição, Daniel-Rops se preocupou em abordar o tema numa linguagem clara e empolgante. O leitor facilmente se envolverá com as inúmeras ilustrações e explicações dos rituais, dos hábitos, das obrigações, entre outras coisas que envolvem o contexto do judaísmo do primeiro século.

Publicado por Vida Nova.

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