Queda | David K. Naugle

"The Expulsion of Adam and Eve from Paradise" (Benjamin West, 1791)

O problema fundamental da raça humana: estamos alienados em relação a Deus.

“Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom” (Gênesis 1. 31). Mas as coisas não parecem tão maravilhosas assim hoje em dia. O que aconteceu? Por que tudo é tão distorcido e quebrado? Por que, meu Deus? Por que eu sou tão distorcido, tão quebrado? E também os outros?

Todo mundo, sem exceções, faz esta pergunta. Annie Lennox suscita um porquê assombrado em sua canção angustiante de mesmo título [Why?]. Nela, ela explora as suas próprias inanidades e falhas presentes entre ela e os outros.

Essas são as lágrimas,

As lágrimas que derramamos.

Este é o medo,

Este é o terror.

Por quê? Por que há valentões no parquinho? Por que minhocas e lagartas lutam pela sobrevivência na calçada ou no asfalto depois de uma chuva? Por que tanto concreto e asfalto, em primeiro lugar? E a multidão de formigueiros de formigas-de-fogo? Por que tem capim colchão no meu jardim ao invés de grama-bermuda ou festuca? Por que é tão difícil aprender e tão fácil esquecer? Por que existe o movimento rastafári ou a Santería, religião sincretista caribenha? Por que há a objetificação desenfreada dos corpos femininos e masculinos? Por que ocorre a viciante caçada entre animais que vemos no Animal Planet? Por que a humanidade é um lobo tão voraz de si mesma, homo homini lupus? Por que temos CEOs terrivelmente gananciosos? Por que o Cris morreu de um aneurisma cerebral ano passado, só duas semanas depois de ser meu colega de quarto numa conferência? Por que, enquanto eu escrevo, Rodney, meu amigo e colega, está na UTI lutando pela sobrevivência contra a pancreatite? Por que a minha mãe teve de aguentar uma dúzia de cirurgias de grande porte antes de morrer? Por que há tanto racismo global residual? Por que tanta solidão? Por que existem distinções sociais e de classe tão rígidas nos hotéis the Plaza, the Broadmoor ou the Biltmore? Wo ist Gott? Por quê? Ad nauseum.

Humpty Dumpty sentou em um muro

Humpty Dumpty caiu no chão duro

Nem os cavalos e homens do rei

O conseguiram juntar de novo

Eu não sei se há uma interpretação oficial dessa canção de ninar, que provavelmente ouvimos no colo de nossas mães quando éramos pequenos. Mas é possível vê-la como uma parábola descrevendo a criação e queda da humanidade, um vislumbre do que aconteceu em Gênesis 1-3. E é a história desse último capítulo que nos conta o que deu errado. Ela nos diz porque nós e todas as coisas são essa bagunça hoje.

No princípio da criação, “Humpty Dumpty” estava sentado num muro, tudo bem. Mas então “Humpty Dumpty” teve uma grande “queda”, mergulhando-se no pecado. Frágil ovo que era, as consequências foram devastadoras. Nenhuma quantidade de esforço humano, quer os cavalos do rei quer os homens do rei, foram capazes de juntar “Humpty Dumpty” de novo.

A canção de ninar termina com desespero. Não se oferece uma solução ao caráter quebrado de Humpty Dumpty. Felizmente, a Bíblia não acaba da mesma forma. Primeiro, há as boas notícias da criação, mas agora temos as más notícias da queda. Ela introduz conflito no drama bíblico, que precisa ser resolvido antes do fim da história de Deus. Ela mostra, ao contrário de outras cosmovisões, que o mal não está enraizado na própria criação, mas na rebelião moral da raça humana contra a autoridade divina de um Deus santo. Eu às vezes chamo este episódio de “descriação” por causa do dano que ele fez ao mundo muito bom de Deus: como ele torceu suas intenções para a humanidade, para o nosso conhecer e amar e fazer cultural, e para toda a terra.

Às vezes, todavia, achamos difícil levar esta história primeva a sério. Por quê? Provavelmente porque ela foi tão frequentemente satirizada. Como Herbert Schlossberg observou: “séculos de arte religiosa e, em anos recentes, centenas de desenhos de mulheres nuas, maçãs e serpentes serviram para nos distrair do sentido da queda em Gênesis 3.” Hoje, como Jamie Smith me ajudou a entender, a história da queda é ridicularizada à luz da noção evolucionária reinante da predação e da necessidade da morte para a sobrevivência e desenvolvimento das espécies mais adaptadas.

De todo modo, precisamos tentar deixar os nossos preconceitos contemporâneos de lado e descobrir que, embora essa narrativa possa ser difícil para nós entendermos, como disse Peter Kreeft, ela faz muitas outras coisas inteligíveis; em particular, o nosso caráter quebrado persistente e a profunda dor do mundo.

Os primeiros cinco versículos de Gênesis 3 são um relato da tentação da mulher. O versículo 1 nos informa que uma serpente muito sagaz foi apropriada por Satanás como agente da tentação (Apocalipse 12.9; 20.2). Ao confrontar a mulher, ele lhe fez uma pergunta investigativa: “É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim?” Não só a serpente/Satanás testa o conhecimento da mulher sobre a palavra de Deus, mas também lança dúvidas sobre o caráter de Deus, sugerindo sutilmente que ele é mesquinho em suas provisões. Nos versículos 2 e 3, a mulher responde recitando o mandamento originalmente dado por Deus (Gênesis 2.16-17). Ela adiciona, porém, que o fruto proibido não devia nem ser tocado, muito menos comido, caso contrário eles morreriam. Será que Eva foi a primeira legalista? Numa tentativa de persuadir a mulher a seguir seu próprio curso rebelde, a serpente/Satanás categoricamente nega a afirmação de Deus de que a desobediência resultaria na morte. Ele coloca em seguida uma promessa de que comer da árvore proibida não resultaria em morte, mas transformaria o homem e a mulher em verdadeiros deuses. Eles poderiam fazer o que quisessem, viver na liberdade que desejassem. Tristemente, a mulher acreditou nessas mentiras e convenceu seu marido a se juntar a ela nesse motim contra seu Criador.

Naquele momento, tudo mudou. Uma nova consciência tomou conta deles. Eles perderam a inocência e descobriram a vergonha. O pecado ficou preso no ponto mais profundo de sua humanidade na sua sexualidade. Eles tentaram cobrir a sua nudez com folhas de figueira. As trágicas consequências de sua autoafirmação orgulhosa se seguiram imediatamente. O restante de Gênesis 3 descreve essas consequências sob a forma de quatro separações e três maldições.

Primeiro, os seres humanos estão separados de Deus (3.8-9). Quando o Senhor fez sua aparição rotineira na viração do dia para comunhão com o homem e a sua esposa, a resposta do casal agora caído é reveladora: eles “esconderam-se da presença do SENHOR Deus, o homem e sua mulher, por entre as árvores do jardim” (3.8). Ao invés de alegremente se apresentarem para encontrar seu Criador, eles agora se escondem, envergonhadamente alienados. Eles estão com vergonha, não somente um do outro, mas também perante Deus. O exato propósito para o qual Deus havia criado esse casal primevo é agora distorcido, cortado do Autor da vida. Por causa do pecado, portanto, o problema fundamental da raça humana é de caráter espiritual e teológico: estamos alienados em relação a Deus. Agora, adoramos e refletimos ídolos. Humpty Dumpty caiu no chão duro.

Segundo, os seres humanos estão separados de ou dentro de si mesmos (3.10). O estranhamento em relação a Deus tem repercussões interiores diretas. Quando o Senhor inquiriu acerca da localização do homem, ele respondeu em palavras que revelavam um estado interior radicalmente alterado: “Ouvi a tua voz no jardim, e, porque estava nu, tive medo, e me escondi” (3.10). Medo, vergonha e culpa esmagaram o senso anterior de integridade e bem-estar. A linha dividindo o bem e o mal passa a cortar o coração de cada ser humano, como Soljenítsin tem notado. Por causa do pecado, portanto, os seres humanos têm mantido um dano interior significativo; estamos profundamente alienados interiormente. Agora buscamos em vão felicidade e realização por nossa própria conta numa vida de pura imanência debaixo do sol. Humpty Dumpty caiu no chão duro.

Terceiro, os seres humanos foram separados um do outro (3.11-13). Quando Deus perguntou ao homem sobre sua nudez e sobre se ele tinha ou não comido o fruto proscrito, ele imediatamente buscou se defender e colocar a culpa em outro lugar. “A mulher”, disse ele, “que me deste por esposa, ela me deu do fruto da árvore, e eu comi” (3.12, grifo nosso). Este episódio marca o começo não só da batalha entre os sexos, mas também das profundas divisões dentro da comunidade humana. Nossas alienações teológicas e psicológicas tiveram repercussões sociais significativas. O pecado não só rompe nosso vínculo com Deus e nós mesmos, mas também uns com os outros. Humpty Dumpty caiu no chão duro.

Neste ponto na narrativa, Deus anuncia uma série de maldições sobre a serpente, cuja humilhante derrota de “comer pó” é profetizada; sobre a mulher, que lutaria muito como mãe e esposa; e sobre o homem, que precisaria suar profusamente a fim de ter domínio sobre a terra. Depois morremos.

Uma vez que esses três juízos são administrados, a separação final é descrita no fim de Gênesis 3. Deus expulsa o primeiro casal humano do jardim e posiciona um batalhão angélico na sua entrada leste para evitar que os dois entrem de novo (3.20-24). Nós trocamos a riqueza e benção do Éden pelo caos e confusão de um mundo caído. Desde então, temos buscado a nossa felicidade de volta por nossos próprios esforços “utópicos”, quer individual quer coletivamente.

Somente Deus e seu reino podem satisfazer os desejos do coração. A vida sem Deus é vã e fútil. Humpty Dumpty caiu no chão duro.

Gênesis 3 nos conta a história da queda no espaço-tempo e seus resultados, para usar os termos de Francis Schaeffer. No cerne deste episódio estava a busca humana mal direcionada por liberdade, autonomia, autorregulação e independência. Os resultados foram ignorância e desejo errôneo. Os efeitos noéticos e afetivos do pecado têm desordenado nossas vidas horrivelmente. As quatro separações, mais as três maldições se somam à morte. O mundo agora é um cemitério cósmico, gemendo em desespero, esperando o alívio. Humpty Dumpty caiu no chão duro. Quem nos livrará desta morte? Quem poderá nos salvar desta queda?

Traduzido por Guilherme Cordeiro e revisado por Jonathan Silveira.

Texto original: Fall. Comment Magazine. Este artigo foi publicado em 1 de março de 2010 na revista “Comment”, uma publicação da CARDUS: www.cardus.ca.

David K. Naugle (ThD, Seminário Teológico de Dallas; PhD, Universidade de Texas-Arlington) é professor universitário honorário e presidente da cadeira de Filosofia na Dallas Baptist University. É autor de ‘Worldview: The History of a Concept e Reordered Love’ e ‘Reordered Lives: Learning the Deep Meaning of Happiness’.

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