Sobre evangélicos tornando-se católicos | Igor Miguel

Basílica de São Pedro, Vaticano.

O número é restrito, os casos que conheço são por compensação estética, intelectual ou o que James K. A. Smith chama em “How (Not) To Be Secular” de pura nostalgia pós-moderna. Neste último caso, um saudosismo pelo clássico, uma demanda por enraizamento confessional e pertencimento institucional, o efeito colateral da demanda secular por “autenticidade” (Charles Taylor). Em “A Revolução Protestante” Alister McGrath tenta explicar o fenômeno de evangélicos tornando-se católicos romanos ou ortodoxos orientais:

“O que está causando essas conversões? Está claro que vários fatores estão envolvidos. Um dos motivos para tantos evangélicos ‘fazerem a travessia do Bósforo’ é estarem alarmados com a falta de raízes históricas do evangelicalismo e de continuidade institucional com o Novo Testamento, além de considerarem que a ortodoxia tem credenciais particularmente firmes nesse área… Um terceiro grupo está preocupado com os desenvolvimentos em suas denominações por considerarem que estes se afastaram do cristianismo histórico; por isso, eles transferiram-se para igrejas com forte registro de defender a tradição.”

Sei bem o que esta sensação de deslocamento produz. Mas, também entendo perfeitamente o que é estar sobre o protesto. Diferente de alguns colegas reformados, não consigo considerar católicos não-cristãos (a Trindade não me permite). Apesar de concordar com Peter Leithart em “End of Protestantism” que há algo de sectário na afirmação da supremacia de “Roma” (particularização) sobre a Catolicidade (universalidade), ainda assim, não dá para alegar simplesmente que o catolicismo seja não-cristão.

Tenho entre alguns irmãos católicos excelentes interlocutores, mas tenho muita dificuldade de conversar com católicos no polo ultraconservador tridentino (esses respiram um saudosismo que remete a contrarreforma) e também com os que flertam com um cristianismo frouxo, moderninho (intelectualista), politicamente correto, progressista e liberal. Mas, há bons pares para boa comunhão, oração e papos teológicos.

O protesto continua: supremacia de Roma, o papado, o custo de uma eclesiologia pesada, uma soteriologia sinergista, a sacramentologia e a mariologia. Lendo o “Journeys of Faith“, que também narra a migração de Francis J. Beckwith (um gênio nos argumentos contra o aborto) ex-evangélico e agora um católico, o silêncio sobre questões como a mariologia é o ponto mais inquietante de sua trajetória. E, vejo entre brasileiros que fizeram a jornada, o mesmo silêncio. Suspeito que esta omissão intencional seja porque beberam das críticas protestantes, e sabem que a defesa católica pela ascensão de Maria, por exemplo, seja completamente frágil e forçada demais. Se usarmos os critérios que um ex-presbiteriano como Scott Han usa para defender a ascensão de Maria não há limites para defender ou criar qualquer outra doutrina usando as Escrituras.

De qualquer forma, é quase um mantra entre os que migraram que os mesmos são melhores católicos justamente porque foram bons evangélicos. Encontrei este padrão em Scott Han, Christian Smith e Francis J. Beckwith. Este último traz um testemunho claro:

“Como um evangélico protestante, recebi um dom maravilhoso, algo que poucos católicos tiveram a oportunidade de experimentar. Eu vi, de primeira mão, as consequências práticas de uma tradição que enfatiza a necessidade de conversão pessoal, a partilha pública da fé, e a dependência da autoridade das Escrituras como a única Palavra de Deus escrita. Essas virtudes — que são encontradas em abundância entre as melhores igrejas evangélicas — são reduzidas por, quando não completamente ausentes, mesmo entre católicos praticantes… Nós católicos, perdemos alguma coisa de nós mesmos e a grandeza de nossa fé comum quando enganosamente chegamos a crer que algumas crenças e práticas de nossos irmãos separados são inteiramente estranhas à fé católica, quando de fato elas estão enraizadas em tradições tão antigas quanto a Igreja mesma. A necessidade de conversão pela graça apenas, o chamado ao evangelismo e a inspiração e autoridade da Bíblia são crenças católicas que são algumas vezes melhor expressas e ensinadas por nossos irmãos separados.”

São esses os pontos que valem sacrificar por uma eclesiologia forte e pela herança institucional romana? Não são exatamente nas Escrituras, na fé pessoal em Cristo e na evangelização que se encontram a vitalidade para o ser cristão? Talvez ao invés de migrar, o que se deve fazer é retomar uma apreciação profunda da catolicidade do protestantismo, algo que já vem feito por nomes como Kevin Vanhoozer, James K. A. Smith, Peter Leithart, Todd Billings, Michael Allen, Scott R. Swain e Alister McGrath. Mas, eu suspeito que os migrantes abandonaram o projeto por uma ansiedade, e até por pouca familiaridade com a tradição evangélica mesmo.

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Reconheço que a ênfase evangélica sobre a conversão pessoal e no sola scriptura produziu um efeito colateral que é um certo subjetivismo hermenêutico, um pietismo psicologizante e a perda do senso de pertencimento comunitário e assim por diante. E, parece que forças culturais modernas e pós-modernas como o racionalismo e o sentimentalismo reforçaram ainda mais o problema. Porém, como Kevin Vanhoozer magistralmente vem enfatizando em seu livro Autoridade Bíblica Pós-Reforma, tais problemas são desvios da própria matriz reformada e a reforma em si mesmo não pode ser responsabilizada por isso. Os reformadores eram críticos da tradição, mas também, valiam-se da mesma quando encontrava consonância com as Escrituras. Eles mesmos não eram interpretes solitários, se engajavam em uma leitura exegética e histórica da Bíblia. Este uso da tradição como submetida ao cânon é claramente afirmada na Primeira Confissão Helvética (1536):

“Onde quer que os pais santos e os antigos mestres explicaram e expuseram a Escritura sem se apartarem desta regra, queremos reconhecê-los e considerá-los não apenas como expositores da Escritura, mas como instrumentos eleitos através de quem Deus falou e operou.”

Seria importante ainda mencionar que há migrações oportunistas. Gente que o faz querendo tirar proveito do aparato institucional, da riqueza intelectual e acadêmica que o contexto católico pode fornecer. Outros, estão em busca de sentido estético, penso que a tradição ortodoxa é mais atraente neste sentido, a experiência de migração para a ortodoxia oriental de Wilbur Ellsworth é um exemplo nesta direção.

O imaginável está acontecendo. Longe de superar migrações no sentido contrário, os que migram para lá são geralmente pessoas ligadas às fileiras intelectuais do protestantismo. Porém, é verdade, que em grande medida o catolicismo romano que temos hoje não é o mesmo que tivemos durante a reforma, como afirmo em um artigo de minha autoria em que explico o que chamo de neocatolicismo e o que o católico George Weigel chama de Catolicismo Evangelical. Apesar de um esforço em tornar a experiência cristã mais “pessoalizada” (daí o espírito evangélico do processo), os pontos levantados pelo protesto reformado continuam lá no Catecismo Católico. E, daí a necessidade de se manter no projeto protestante, ainda que aspirando pelo seu “término” como Leithart insiste.

Convenhamos que a aproximação entre católicos e evangélicos tende a se intensificar, no campo da hermenêutica, na resistência ao secularismo e ao avanço do islã. Aprecio iniciativas como Evangelicals and Catholics Together e o portal First Things como exemplo de coalizão da cristandade (em sentido amplo) pela afirmação da fé cristã ante forças culturais anticristãs. Nas aproximações entre ciência e cristianismo, bem como no campo da “Ontologia Sacramental” (Nouvelle Théologie), que a propósito temos a melhor introdução escrita pelo reformado Hans Boersma, percebe-se uma importante aproximação.

Enfim, não tenho aqui a intenção de reacender velhas tensões. Até porque não se pode simplesmente tratar o catolicismo e o protestantismo de hoje como os mesmos do século XVI. Por outro lado, há algo de precioso nas afirmações protestantes, principalmente seu potencial em manter o evangelho transparente e sem os penduricalhos de uma eclesiologia que impede tantas pessoas de enxergar a mensagem do evangelho com mais nitidez. Qualquer pessoa aprofundada na história da igreja, sempre há de apreciar as marcas históricas da vida cristã mantidas em belíssimas catedrais, na arte sacra e em vários aspectos da liturgia romana ou ortodoxa. Mas a história dá testemunho que o movimento evangélico, com todos os seus problemas, conseguiu manter aquele espírito protestante de tornar Cristo, as Escrituras e o evangelho mais claramente comunicado e acessível. Até ex-evangélicos migrantes reconhecem tais virtudes, mas, como disse antes: suspeito que esta evangelicalidade seja exatamente tudo o que falta ao catolicismo romano para que seja, ironicamente, mais católico e menos romano.

igorIgor Miguel é casado com Juliana Miguel, pai do João Miguel, cristão reformado, teólogo, pedagogo e mestre em letras (língua hebraica) pela FFLCH/USP. Educador social e coordenador pedagógico da Organização Multidisciplinar de Capacitação e Voluntariado (OMCV) em BH-MG, membro da AKET (Associação Kuyper de Estudos Transdisciplinares), articulador do movimento #IgrejaNaRua e membro da Igreja Esperança em Belo Horizonte - MG.

5 Comentários

  1. Molotov_verde disse:

    Graça e paz !! Excelente texto !! 👊

  2. Victor disse:

    Muitos deles estavam estudando o catolicismo pra refutá-lo e acabaram católicos.

  3. kerem disse:

    Quero aqui expressar minha alegria perante esse site. Pois, com vocês e essas mensagens edificantes postadas aqui me traz um aprendizado espiritual bem elevado e por isso, quero agradecer. Continuem nesse foco! Vocês edificam vidas e traz consigo o verdadeiro evangelho da graça revelado nas palavras ditas.

  4. Kerem disse:

    Além do mais, esse texto mencionado sobre “evangélicos tornando-se católicos”, que verdade, que palavra! Impactada com essa mensagem! Sensacional! 👏👏👏👏👏

  5. Ivacy Furtado de Oliveira disse:

    Igor,

    Pelo que entendi, o catolicismo norte-americano é muito conservador, mais ou menos o contrário do que acontece por aqui. São contra o aborto, divórcio, entre outras coisas.
    Esses neocatólicos não teriam se decepcionado com o liberalismo protestante?

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