Star Wars – Os Últimos Jedi: Jedi para sempre | Silas Chosen

*** Spoilers Abundantes de OS ÚLTIMOS JEDI ***

O maior bastião da cultura pop é Star Wars, o caldeirão onde George Lucas jogou Flash Gordon, Buck Rogers, Akira Kurosawa, filosofia oriental e sua decepção com o próprio país na desastrosa Guerra do Vietnã. Com honestidade e carisma, os três primeiros filmes mudaram o cinema, a fantasia e o imaginário coletivo para sempre. Já bilionário, Lucas então filmou a segunda trilogia, contando a origem de suas criações. E onde a alegoria política ganhou contornos mais diretos (e porque não, proféticos), a falta de habilidade na escrita e na direção mancharam a cronologia com três filmes muito aquém do esperado.

Então veio a Disney, colocou Lucas na aposentadoria e decidiu realinhar tudo. Chamou o diretor-sucesso J. J. Abrams para dirigir Star Wars Episódio VII – O Despertar da Força, colocando a saga novamente no hall de honra pop como merece – além de vender bilhões em merchandising, como precisa. O filme tinha que recuperar não só o desgosto do final dos anos noventa, mas a história que parou no começo dos anos oitenta. A decisão então foi de ir pelo lado seguro: personagens novos, mas situações clássicas. Lado a lado, O Despertar da Força e o Star Wars original (na época ainda com a tradução permitida de Guerra nas Estrelas) são praticamente iguais. Cenários, momentos de virada, situações, conflitos. Quase como seguir uma cartilha. A falta de ousadia do roteiro atrapalhou um pouco o filme, que esbanjou qualidade em seu casting perfeito e na direção sempre pop-empolgante de Abrams.

Mas já era passada a hora de mudar de rumo. Rian Johnson, diretor-roteirista do excelente Looper – Assassinos do Futuro, foi escolhido para escrever e dirigir o novo filme, partindo do final de O Despertar da Força. E entendendo o que fez de Star Wars um clássico, aquela honestidade pessoal de George Lucas, Johnson decidiu seguir seu instinto. Criou um filme que olha para o passado, mas mergulha no futuro com despreocupação e confiança invejáveis. E no meio do caminho consegue fazer o que pouco foi feito antes: tornar Star Wars surpreendente, relevante e, por que não, profundo.

Começando momentos após O Despertar, seguimos quatro nichos paralelos que se desenrolam depois de uma cena inicial intensa. A frota da Resistência (os novos Rebeldes) está em fuga e precisa juntar os trapos que conseguirem e bater em retirada, sendo perseguidos bem de perto pelas naves mais poderosas e os militares mais impiedosos da Nova Ordem (o novo Império). Poe Dameron, papel de Oscar Isaac, o piloto esquentado e impetuoso, entra em conflito com a General Leia (Carrie Fisher), e em especial com a nova personagem Almirante Holdo (Laura Dern), por considerar as decisões de suas superiores erradas e covardes. Finn (John Boyega), desertor da Nova Ordem, se alia à Rose Tico (Kelly Marie Tran) para conseguir um decodificador que quebre o rastreamento das naves imperiais. Kylo Ren (Adam Driver) se afunda no abismo emocional que é ficar entre as pressões de seu líder Snoke (Andy Serkis) e seu próprio trauma familiar. E Rey (Daisy Ridley) finalmente encontra o recluso Luke Skywalker (Mark Hamill) e tenta convencê-lo a deixar seu exílio para ajudar na guerra.

Rian Johnson não é só um ótimo diretor, trazendo estilo próprio como jogadas de câmera não só belas, mas funcionais, cenas impactantes em silêncio, flashbacks e até câmera lenta a um universo cinematográfico que até agora evitou esses utensílios ao máximo. Mas também é um ótimo contador de histórias. Isso começa a ficar claro no seu uso da simbologia. Um filme como Os Últimos Jedi não tem como evitar despejar na tela galões de nostalgia, a exemplo de inúmeras outras propriedades pop que invadiram nossas telas nos últimos anos. Porém, ao contrário dos Stranger Things da vida, cada artefato nostálgico tem um propósito emocional e narrativamente funcional dentro da história. Significa muito mais para os personagens em cena do que meramente para o público. E é assim que se criam momentos inesquecíveis, como quando R2-D2 convence Luke a ajudar Rey, ou quando um velho amigo aparece para dizer umas verdades.

Sendo esse roteirista esperto, Jonhson montou Os Últimos Jedi numa estrutura completamente nova, focando toda a trama em volta de um só acontecimento ao longo do filme inteiro. Isso faz mais do que renovar, traz uma urgência inédita à série. Mas não é só estruturalmente que o filme se mostra bem construído, também o é tematicamente.

Os temas de Star Wars sempre foram muito clássicos e expansivos, falando de guerra, liberdade, autoritarismo, amor e coragem. Enquanto não esquece nenhum deles, Johnson aprofunda-se para fazer o Star Wars mais pessoal para quase todos os personagens ao falar sobre fracasso. Todos os protagonistas aqui falham de maneira exuberante. Montados no próprio orgulho e autossuficiência, toda vez que um personagem tenta algo ousado, com poucas chances de dar certo e que lhe aconselharam a não fazer, não há dúvidas: tudo dá errado. As maiores reviravoltas, nunca gratuitas e “surpresa pela surpresa”, vêm exatamente de como os personagens falham onde tantos outros filmes nos mostraram que “a ousadia é 90% do sucesso”.

Há desastres em conflitos internos intensos como o embate entre Poe e Holdo e numa jornada paralela guiada por fúria, como a missão de Finn e Rose. Mas nada se compara a Luke Skywalker e seu exílio. Em flashbacks que, cada vez que são repetidos mudam de ponto de vista (outra herança do cinema de Kurosawa, em Rashomon), vemos em um momento que uniu suprema autoconfiança e o medo à queda de um dos maiores heróis do cinema, e entendemos o quanto isso custou a ele e à galáxia inteira. E essa talvez seja a decisão de roteiro mais disputada entre aqueles que amaram Os Últimos Jedi e aqueles que o odiaram.

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Luke não é mais aquele herói que usa artifícios de aventuras pulp para saltar um precipício dentro de uma base estelar. Ele é um velho arrependido que, por acreditar demais naquele herói que um dia foi, deixou o medo sobrepor-se à sua perspicácia. Um momento passageiro foi o prego que faltou em sua ferradura e, assim, ele perdeu uma guerra antes mesmo dela começar.

Não só a trajetória é inesperada, mas a presença e a entrega de Mark Hamill, melhor do que nunca, constroem um herói muito mais realista, muito menos arquetípico e bastante trágico. E aprender que o fracasso é o melhor dos professores encaixa tão bem em todas as partes do filme que, quando Luke retorna ao posto de herói, lenda e símbolo de esperança, não é de graça. Não é barato. É um crescimento conquistado a suor, lágrimas e uma cajadada na cabeça. E um que cobra seu preço final, sob a luz de dois sóis, exatamente como tudo começou.

Johnson também se mostra um criador muito perspicaz ao jogar pela janela toda e qualquer menção à Mystery Boxes. J. J. Abrams, durante sua carreira, se mostrou fascinado pelo conceito que batizou de “Caixas Mistério”, ou seja, a ideia de criar um segredo que vai aumentar o suspense e a tensão de sua história, independente do que está dentro da caixa. O mais óbvio uso disso foi quando Abrams criou Lost, uma série completamente embasada nesse princípio. Esse conceito funciona muito bem em Missão Impossível III, fracassa bastante em Star Trek – Além da Escuridão e, em O Despertar da Força, estabeleceu vários mistérios que deixaram a internet em polvorosa por dois anos. O problema das Mystery Boxes é que elas ignoram as coisas que fazem de uma história uma história – personagem, conflito, drama – em prol de uma surpresa que pode ou não significar alguma coisa. Ele pensa na caixa antes de pensar em seu interior. E aqui, já que ninguém jamais chegaria aos pés de “Não, eu sou seu pai” em termos de surpresa (e de significância para os personagens), Johnson simplesmente foi por uma outra veia. Snoke, seja quem for, não é mais importante. Deixou de ser um clone (modo de dizer) do Imperador Palpatine e uma barriga na trama para ser parte do passado de Kylo Ren e mais nada, servindo o seu propósito sem fazer falta. E na virada mais certeira, Rey não é herdeira de ninguém.

Quando Rey aparece em O Despertar da Força, ela é viciada em legado. Coleciona itens relacionados às lendas dos rebeldes e sonha em descobrir seu lugar no universo. Um encontro inesperado a coloca numa odisseia ao final da qual ela – e o público – esperavam respostas. Mas não existem respostas. O buraco do Lado Negro na ilha de Skywalker lhe atrai exatamente com essa promessa. E a frustração de perceber que ela não provém de nenhuma dinastia mais significativa cria o caminho para sua própria falha pessoal: buscar qualquer tipo de conexão, mesmo que seja nas mãos de seu pior inimigo. E é dele que vem o entendimento: não há passado. Só há futuro.

Mas há duas maneiras de entender essa dicotomia entre identidade e legado. Ou você destrói seu passado da maneira mais violenta possível, colecionando os corpos de suas figuras paternas como Kylo Ren, ou você aceita que o passado é um caminho, que ignorá-lo é inútil, mas prender-se a ele é fatal, como explica o Mestre Yoda. “Esse é o fardo de todo o mestre: viver o futuro através dos pupilos”.

E esse conceito se resume na imagem final. Um garoto anônimo, escravo do capitalismo hedonista da economia de guerra, empunha uma espada imaginária. A lenda de um herói caído e reerguido o inspira e a Força está com ele. E ela pode estar em qualquer um, independentemente do passado. Não são os “escolhidos” que criam uma história, um legado, mas sim qualquer um forte o bastante para ganhar sem destruir o que odeia, mas salvando o que ama. Star Wars sempre foi esperto, mas finalmente agora é sábio também.

A outra grande surpresa indireta é o espaço para um bem-vindo protagonismo feminino: Rose, Leia e Holdo dominam seus ambientes, sendo que Holdo tem um dos momentos mais espetaculares de toda a saga. Carrie Fisher, em seu último papel, rasga o nosso coração em cada segundo de cena por sabermos que nossa princesa transformada em general linha dura (como sempre deveria) não voltará. Seu momento divino está lá, surpreendendo a todos com um domínio da Força que finalmente faz justiça ao seu personagem.

“Tudo o que você acaba de dizer está errado”. Luke Skywalker profere essa frase duas vezes, e isso é o principal do filme. Nada é o que você espera em Os Últimos Jedi e cada declaração prévia estava equivocada. A guerra acabou de começar. Não importa a quantidade ou o tamanho das falhas, o futuro está cheio de esperança. E a Força não morreu. Luke, no final, luta como um verdadeiro mestre Jedi jamais lutou, consertando todos os anacronismos que, por vezes, o próprio George Lucas inventou. Um dos maiores heróis do cinema nos deixa (?) pacífico, juntando-se à Força e deixando a galáxia nas mãos de seu legado.

O legado é imortal, mas ele anda pra frente. Os Jedi existirão para sempre. E a Força pode estar em qualquer lugar. Numa princesa. Num guerreiro. Num fantasma. Num déspota. Numa criança. Em mim, e em você.

Silas Chosen é roteirista, cineasta, publicitário, ilustrador e é viciado em cinema e histórias. Escreve para sites e programas de rádio sobre cinema, cultura pop e cristianismo desde 2004. Faz parte da 4U Films, ministério de cinema independente.

1 Comentário

  1. Matheus de Carvalho disse:

    Excelente análise! Para mim esse foi, com certeza, um dos melhores filmes do ano.

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