4 maneiras de discordar graciosamente de outros cristãos | Gavin Ortlund

Alguns cristãos são ansiosos por defender a sã doutrina. Tudo isso é muito bonito.

Mas a unidade do corpo de Cristo é uma dessas doutrinas que defendemos com tanto zelo? A unidade da igreja é uma das finalidades da morte de Cristo (Ef 2.14). Isso, tanto quanto outras coisas, é o que o Novo Testamento nos chama a valorizar e defender. Portanto, nosso zelo pela teologia nunca deve exceder nosso zelo por nossos verdadeiros irmãos e irmãs em Cristo. Devemos ser marcados pelo amor. Nós devemos, como meu pai sempre diz, seguir a doutrina do evangelho e a cultura do evangelho.

No Novo Testamento, a humildade é o caminho para a unidade. A exortação de Paulo aos Filipenses, por exemplo, sobre “termos a mesma mente” (Fp 2.2) é seguida pelo apelo “por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmos” (Fp 2.3), imitando a ação de Cristo para com eles no evangelho (Fp. 2.5-11).

Ou considere o apelo de Paulo em Romanos 14. A questão apresentada nesse capítulo é o conflito sobre as leis alimentares judaicas, mas os princípios que Paulo invoca podem se aplicar também a muitos outros problemas. Sua principal preocupação nesse capítulo é a de que as diferentes convicções dos cristãos romanos não seja uma fonte de divisão entre eles. Assim, o “forte” e o “fraco” são chamados à aceitação mútua.

Especificamente, em meio às suas diferenças de consciência, Paulo os chama a serem acolhedores (Rm 14.1), a não discutirem (Rn 14.1), a não se desprezarem (Rm 14.3) e a não julgarem uns aos outros (Rm 14.3; 13). Paulo até os chama a abandonarem seus direitos e ajustarem suas práticas para não violar a consciência de um irmão:

“Se o seu irmão fica triste por causa do que você come, você já não anda segundo o amor. Não faça perecer, por causa daquilo que você come, aquele por quem Cristo morreu.” (Rm 14.15)

Hoje, também, existem muitas questões sobre as quais os cristãos serão tentados a discutir, desprezar e julgar um ao outro. Em vez disso, devemos resolver “não colocar tropeço ou escândalo diante do irmão” (Rm 14.13). Como Paulo, devemos estar dispostos a fazer ajustes sacrificiais em prol da unidade com os outros no corpo de Cristo. Se manter a unidade do corpo de Cristo não está te custando nada – se não machuca –, provavelmente você não está se ajustando o suficiente.

Paulo baseia seu apelo em Romanos 14.10 no fato de que cada pessoa estará diante do tribunal de Cristo:

“Você, porém, por que julga o seu irmão? E você, por que despreza o seu irmão? Pois todos temos de comparecer diante do tribunal de Deus.” (Rm 14.10)

É saudável lembrar disso: nós prestaremos contas de nossa fala e conduta teológicas, não menos do que qualquer outra área de nossa vida. Quando estivermos diante do trono no dia do julgamento, olharemos para trás e de quais batalhas teremos orgulho de ter lutado? Suspeito que a maioria dos nossos debates no Twitter não estarão entre elas.

A unidade da igreja era tão valiosa para Jesus que ele morreu por ela. Se nós nos importamos com a sã teologia, vamos nos importar com a unidade também.

Como lidar com diferenças

Enquanto você lê isso, você pode estar passando pelas ramificações práticas da triagem teológica, seja no seu trabalho, na sua igreja, sua denominação ou em algum outro conjunto de relacionamentos. Todos nós iremos enfrentar esse tipo de desafio uma hora ou outra. A realidade é que, se você pensar por si mesmo, provavelmente, em um momento ou outro, terá uma visão diferente do que é socialmente conveniente.

Leia também  Michael Curry e o casamento real: Uma estrela da Igreja Anglicana oferece ao mundo um cristianismo light | Gavin Ashenden

1. Seja honesto

Devemos ser transparentes quanto a nossas convicções, mesmo que isso cause perturbações em nossa vocação, vida na igreja ou relacionamentos. Por mais doloroso que seja, não vale a pena endurecer sua consciência deturpando a si mesmo ou suas visões. Algumas pessoas parecem “ajustar” suas convicções a cada novo contexto.

Quaisquer que sejam as outras nuances que podem estar envolvidas na maneira como você representa suas visões em contexto de ordenação ou emprego, o fato é que mentir é pecado. Portanto, quando uma declaração doutrinária exige sua afirmação “sem ressalva mental”, significa sem ressalva mental.

2. Seja diplomático

Honestidade não significa dar sua opinião o mais rápido possível, independentemente do contexto. Há momentos para ficar calado, há momentos de responder apenas o que lhe foi perguntado. Por exemplo, quando você está compartilhando o evangelho com alguém ou buscando construir uma amizade cristã, pode ser que existam tópicos que você intencionalmente não traz à tona nos estágios iniciais da conversa ou do relacionamento. Isso não significa necessariamente ceder; frequentemente reflete sabedoria.

3. Seja amável

Gentileza e civilidade estão escassas esses dias. Cada vez mais, a indignação é a norma. Por isso, podemos testemunhar o evangelho falando com gentileza e moderação enquanto navegamos em nossas divergências.

Esforce-se para mostrar seu amor e respeito ao outro, mesmo quando esse outro o enfurece. Fazer triagem teológica é uma oportunidade de viver as palavras de Jesus em João 13.35: “Nisto todos conhecerão que vocês são meus discípulos: se tiverem amor uns aos outros.”

4. Seja confiante

Deus é soberano mesmo sobre suas mudanças doutrinárias. Ele está cuidando de você. Os fios de cabelo da sua cabeça estão todos contados. Você pode confiar nele para te guiar e cuidar de você. Quando minha esposa e eu estávamos em Chicago para um ano sabático de estudos, fizemos do Salmo 121.3 nosso versículo tema:

“Ele não permitirá que os seus pés vacilem; não dormitará aquele que te guarda.”

Todas as noites antes de dormirmos, orávamos pela orientação de Deus para onde ele nos colocaria depois que o ano terminasse. Ele respondeu essa oração. Olhando para a minha vida, posso ver como Deus tem sido fiel para nos guiar através de nossas mudanças doutrinárias e denominacionais, e para nos levar a um lugar onde possamos servir alegremente.

É tranquilizador e encorajador lembrar que Deus está vigiando atentamente o caminho que percorremos – inclusive nossas migrações teológicas.

Nota do editor: Este artigo é um excerto adaptado do livro Finding the Right Hills to Die On: The Case for Theological Triage, de Gavin Ortlund (Crossway/TGC, 2020).

Traduzido por Maria Gabriela Pileggi e revisado por Jonathan Silveira.

Texto original: 4 Ways to Disagree Graciously with Other Christians. The Gospel Coalition.

Gavin Ortlund (PhD, Fuller Theological Seminary) é marido, pai, ministro e professor visitante no ministério Reasons to Believe. É autor de muitos livros, incluindo Ascending Toward the Beatific Vision: Heaven as the Climax of Anselm’s Proslogion (Brill). Gavin escreve regularmente no blog Soliloquium.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *