A disciplina espiritual de frequentar cemitérios | Cortland Gatliff

Foto de Tom Skarbek Wazynski (Unsplash)

A maioria das pessoas tenta evitar pensar na morte. Para ser justo, esta é uma reação razoável ao fato inquietante de que nós, e todos que amamos, um dia pararemos de respirar. Hoje, principalmente, existem infinitas fontes de entretenimento que nos entorpecem para a realidade de que nossos dias são fugazes e nossa existência transitória. O constante ruído de fundo de nossas vidas nos distrai da sensação de pavor que nos persegue às três horas da manhã, quando lembramos que a vida realmente é apenas uma névoa e que ela desaparecerá em alguns momentos.

No entanto, permanece o fato sombrio de que vamos morrer, de que estamos morrendo. Nenhuma quantidade de suplementos vitamínicos ou exercícios físicos vai mudar isso. O que, então, nós realmente ganhamos tentando expulsar a morte de nossas mentes? Ou talvez uma pergunta mais importante: o que perdemos?

Ao longo da história da igreja, filósofos, teólogos e professores têm exortado os cristãos a resistir à tentação de ignorar a morte, encorajando os crentes a refletir ativamente sobre a morte. “Lembre-se diariamente de que você vai morrer”, escreve São Bento aos monges que vivem sob sua regra. E por um bom motivo. Como o salmista nos lembra, é contando os nossos dias ─ contemplando a morte ─ que “alcançamos um coração sábio”.

Tradicionalmente, a Quaresma ─ que começou esta semana, quarta-feira, 2 de março ─ é uma época reservada para esse propósito. É um tempo para se arrepender, jejuar e meditar em nossa pecaminosidade e mortalidade enquanto nos preparamos para celebrar a ressurreição de Cristo. “Lembre-se de que você é pó”, diz o pastor na quarta-feira de cinzas, “e ao pó você voltará”. Estas são palavras sombrias, palavras que nos tiram de nosso sono espiritual ao nos confrontar com a inevitabilidade da morte e nossa profunda necessidade de um salvador.

Infelizmente, a Quaresma é muitas vezes reduzida a pouco mais do que uma oportunidade de autoaperfeiçoamento, uma chance de refrear maus hábitos ou se abster temporariamente de pequenos prazeres como Netflix, chocolate ou de lançar palavrões para aliviar uma frustração. Nossa compreensão empobrecida da morte leva a uma compreensão empobrecida da Quaresma e vice-versa.

Ao longo dos anos, uma prática se tornou para mim uma disciplina espiritual insubstituível, que me obriga a lembrar que minha morte está próxima, mas a ressurreição está chegando. É, na minha opinião, uma prática que todos faríamos bem em praticar nesta Quaresma. Estou falando, é claro, da disciplina espiritual de frequentar cemitérios.

Comecei a passar o tempo em cemitérios no ensino médio. Eu costumava passar por um todos os dias no meu caminho para a escola, mas mal refletia a respeito desse vasto cemitério e suas sepulturas. Então, uma tarde, a caminho de casa, me vi inexplicavelmente atraído pelo lugar. Decidi entrar pelos portões abertos de ferro forjado.

Cercado por uma cidade de concreto, o gramado bem cuidado pontilhado de buquês deixados pelos entes queridos do falecido parecia existir em seu próprio universo. O que mais chamou a atenção foi o silêncio. Do outro lado da cerca, o ritmo frenético do mundo continuava. Mas neste jardim de sepulturas, algumas cheias de terra fresca, a vida era calma e lenta. Criei o hábito de voltar lá muitas vezes para me sentar entre os mortos, às vezes até trazendo amigos. Desde então, raramente viajei sem antes procurar cemitérios ou túmulos próximos que valessem a pena visitar.

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Cemitérios ─ e seu predecessor, o adro ─ são motivo de grande preocupação em nossa imaginação cultural. Para alguns, são lugares assombrados, fonte de medo e ansiedade. Outros os veem como ineficientes, um desperdício de terra perfeitamente boa, um anacronismo em uma sociedade que cada vez mais opta pela cremação em vez de enterros tradicionais. Na maioria das vezes, temos a tendência de evitá-los porque são lembretes tangíveis e geográficos do que nos aguarda.

No entanto, acho cemitérios surpreendentemente reconfortantes. Estar no lugar dos mortos nos traz de volta à realidade. Caminhando entre as lápides, muitas vezes penso na Cripta dos Capuchinhos em Roma, onde milhares de restos mortais são acompanhados por uma placa que diz: “O que você é agora, nós éramos uma vez; o que somos agora você será.” Esse lembrete coloca o estresse da vida cotidiana em perspectiva e me desafia a fixar meu coração e minha mente no que é eterno.

O teólogo Martinho Lutero enfatizou a importância de contemplar a morte como forma de nos prepararmos para morrer bem. Em vez de ignorar a morte, Lutero queria que nos “familiarizássemos com a morte durante nossa vida, convidando-a à nossa presença quando ainda está distante e não quando está se aproximando”. Cemitérios, diz ele, são o lugar perfeito para fazer isso. “Um cemitério”, escreve ele, “deveria ser um bom lugar tranquilo, afastado de todas as outras localidades, ao qual se pode ir com reverência e meditar sobre a morte, o Juízo Final, a ressurreição e fazer suas orações.”

Longe de ser um exercício estoico macabro, descobri que passar tempo em cemitérios me ajuda a sentir o peso e a dor da morte de forma mais aguda e a colocar minha esperança na promessa do túmulo vazio de maneira mais plena. Há dias em que esse olhar em direção à esperança é mais fácil do que outros. Há dias em que parece impossível, como se a esperança estivesse para sempre fora de alcance. Mas reconhecer a morte e meditar sobre ela é sempre o primeiro passo. Só então podemos começar a esperar a ressurreição dos mortos e a vida do mundo vindouro.

Traduzido por Jonathan Silveira.

Texto original: The Spiritual Discipline of Hanging Out in Cemeteries. Christ and Pop Culture.

Cortland Gatliff possui um MDiv pela Beeson Divinity School, é pastor e escritor e mora em Birmingham, Alabama.

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