A donzela que se confundiu – História dos Irmãos Coen explora a fragilidade das nossas certezas | Leonardo Bruno Galdino

Zoe Kazan e Bill Heck como Alice Longabaugh e Billy Knapp em “A Balada de Buster Scruggs”, dos Irmãos Coen.

Traduzido como A garota nervosa pela Netflix Brasil, The Gal Who Got Rattled é a penúltima das seis histórias que compõem o longa A Balada de Buster Scruggs, dos Irmãos Coen (Netflix, 2018). Ao lado da terceira vinheta (Vale-refeição, com Liam Neeson), é a mais triste do filme.

[Spoilers daqui em diante]

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A Canaã ilusória

Alice Longabaugh é uma jovem solteira e de temperamento tímido que segue uma caravana até o Oregon, onde supostamente um homem a espera em casamento. Digo “supostamente” porque a única garantia que Alice tem é do seu irmão Gilbert, um homem fracassado, de saúde frágil e que faz comentários depreciativos sobre ela à mesa de jantar no início da história. Quando este morre vítima de cólera no meio da viagem, Alice se vê sozinha com seu cachorro “Presidente Pierce” e um criado, que começa a cobrá-la das dívidas que seu irmão deixou. Sem ter como pagar e peregrinando para uma Canaã que ela não sabe se realmente existe, Alice acaba encontrando amparo em um dos guias da caravana, Billy Knapp.

Inicialmente o envolvimento de Billy consiste em três coisas apenas: enterrar o irmão de Alice, negociar com o criado dela e livrar-se do “Presidente Pierce”, cujos latidos à noite começam a incomodar seriamente a caravana. Diante das visitas cada vez mais frequentes de Alice, no entanto, o próprio Billy começa a vislumbrar possibilidades de uma vida boa no Oregon, e então, com a promessa de assumir a dívida do seu irmão junto ao seu criado, a propõe em casamento.

Um vislumbre da terra prometida

Alice, como o espectador, fica espantada. Billy expõe alguns motivos que o levaram a isso. Ele já havia chegado àquela idade em que o homem tem de decidir se vai querer ter filhos que cuidem dele quando envelhecer, e por isso viu em Alice uma moça de respeito para tornar isso possível. Ela o indaga sobre sua religião. Ele se confessa metodista; ela, episcopal. Alice pede um tempo para pensar, mas acaba aceitando. Quem parece não gostar muito da ideia é o Sr. Arthur, o outro guia da caravana com quem Billy trabalhava há quinze anos. Afinal, ele ia ficar só. Não tinha família, tampouco uma Canaã com que sonhar. Já estava velho demais para isso.

O caminho largo das certezas

Billy se mostra um tanto pesaroso com essa questão, mas Alice, naquela que seria a primeira e última “DR” (discussão do relacionamento) do casal, o lembra de que a primeira responsabilidade dele é com sua casa. Antes mesmo que o coitado pudesse se explicar, ela lhe pede desculpas. Fora influenciada por Gilbert, seu irmão, que tinha ditados para tudo (a fala anterior dela devia ser um desses). Alice revela que Gilbert era um homem com convicções políticas firmes, que a criticava por ser indecisa. Ela lamenta por não ser decidida como ele, e entende que isso é um defeito. Billy discorda, e o que ele diz em seguida servirá como a moldura que “explicará” o desfecho da história:

A incerteza. Ela é adequada aos problemas deste mundo. Somente referindo-nos ao próximo podemos ter certeza. Acredito que a certeza naquilo que podemos ver e tocar raramente é justificável, ou nunca. De todas as eras, desde nosso mais remoto passado, quais certezas sobreviveram? E, no entanto, nos apressamos para fabricar novas certezas. Em busca do conforto. A certeza é o caminho fácil. Como você disse…

Neste momento, Alice entrecorta a fala de Billy com a famosa passagem evangélica de Mateus 7.13–14: “‘Estreita é a porta’…”, e Billy completa: “‘e estreito o é o caminho’. De fato. De fato”. Sim: de fato.

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Inimigos à vista

O amanhecer, porém, traz algo preocupante: o Sr. Arthur, que sabia interpretar o terreno como ninguém, vê pegadas de cavalo no caminho mais adiante da caravana. Índios, por certo. Ele, então, volta para avisar Billy, mas no caminho descobre que Alice tinha ido atrás do Presidente Pierce após ouvir os seus latidos. Maus presságios.

O Sr. Arthur vai atrás dela e a encontra a alguns morros além, com o cachorro nos braços. Ele a apressa para acompanhá-lo de volta, quando vê um índio no horizonte. Faz um sinal de paz, mas ele não responde. Alice, em sua inocência, não vê maiores problemas com “um selvagem apenas”, mas o Sr. Arthur ri e manda ela continuar olhando, e o que ela vê é a própria visão do Apocalipse: uma comitiva de guerra Comanche. Homem prático que é, o Sr. Arthur começa a se preparar para o combate. Alice fica apavorada, e ele a manda esconder-se num barranco, dá-lhe um revólver com duas balas e a seguinte instrução: matar-se caso ele não consiga deter os índios; do contrário, eles a pegariam, abusariam dela e depois a empalariam. Mais do que nunca, Alice precisaria tomar uma decisão. Será que conseguiria?

O exercício da fé

Após uma vitória heroica e improvável sobre os índios, o Sr. Arthur então volta para pegar Alice. Tudo o que ele encontra, porém, é o Presidente Pierce latindo e a pobre moça com um tiro no meio da testa. Ela não sabia quem havia sobrevivido à luta que se travara entre o Sr. Arthur e o último comanche além do barranco onde ela estava, e então se precipita — para a morte. As câmeras simplesmente não mostram se Alice viu a luta ou se só ficou ouvindo, como também não é possível ouvirmos o tiro que ela desferiu contra si mesma. É justamente aqui reside todo o brilhantismo dos Irmãos Coen. Afinal, é uma história sobre certezas; ou, mais especificamente, sobre a fragilidade das nossas certezas, da crença naquilo que se vê, do caminho largo das convicções artificiais. O espectador é deixado à sua própria imaginação. Ou, se preferirmos, ao exercício da fé.

A hipótese da Graça

Mas talvez a história da donzela que se confundiu — de longe uma tradução mais adequada para o título original — ainda reserve um toque da Graça em meio à tragédia. Há algo de flanneriano nas histórias de A Balada de Buster Scruggs, e penso não ser coincidência o fato de a velha tagarela à mesa de jantar no início da presente história atender pelo nome de Sra. Flannery. Será mesmo que a romancista católica do sul dos Estados Unidos veio dar o ar de sua graça numa história onde a redenção é tão improvável?

Bem, se repararmos para além dos que os olhos podem ver, veremos que Alice Longabaugh prefere a morte a entregar-se a outro que não o seu noivo. Morre virgem, como uma mártir da Canaã que não viu. Terá Billy esta mesma visão das coisas?

Seja qual for a nossa opinião sobre o desfecho da história, uma questão ainda permanece: O que o Sr. Arthur dirá a Billy Knapp? Cruel. Eu, no lugar dele, também não saberia.

 

Leonardo Bruno Galdino é presbítero da Igreja Presbiteriana do Brasil e atualmente congrega na Igreja Presbiteriana da Aliança, em Recife. É colaborador do site Literatura e Redenção. Casado com Adnna e pai de Lucas e Pedro.

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