A fé e a prisão da racionalidade pura e simples | Alister McGrath

A afirmação vigorosa e intransigente do neo-ateísmo sobre a racionalidade de suas próprias crenças e a irracionalidade de todas as outras tem feito com que muitos dentro da comunidade ateísta mais ampla se sintam embaraçados.

Como o filósofo ateu Julian Baggini apontou, o neo-ateísmo parecia acreditar que “somente por meio da estupidez ou do descaso grosseiro para com a razão alguém poderia ser outra coisa senão um ateu.” Este tipo de arrogância intelectual dogmática, sugere ele, apenas conferiu ao ateísmo uma má reputação.

Mas por que a razão deveria ser capaz de nos dizer algo a respeito de Deus ou sobre qualquer outra coisa de importância para esse assunto, tal como o que é bom ou o que é certo?

Consideremos um argumento usado por um grupo de escritores racionalistas do século XVIII, que influenciou claramente o neo-ateísmo. O argumento funciona da seguinte maneira:

Premissa maior: A razão é uma autoridade confiável em matéria de crença.

Premissa menor: A própria razão nos diz que é uma autoridade confiável em matéria de crença.

Conclusão: Portanto razão é uma autoridade confiável em matéria de crença.

O problema aqui é que essa defesa da autoridade da razão humana é, em última análise, circular e parasitária. Ela pressupõe e depende de sua conclusão. Esta defesa filosófica da validade da razão pela razão é, portanto, intrinsecamente autorreferencial. Não pode ser sustentada.

A defesa racional da própria razão pode redundar em uma demonstração de sua coerência e consistência interna – mas não de sua verdade. Não há nenhum motivo para que uma racionalidade falha mostre as suas próprias falhas. Estamos usando uma ferramenta para julgar sua própria confiabilidade. Convocamos um tribunal no qual o acusado e o juiz são os mesmos. A razão precisa ser calibrada por algo externo. Essa é uma das razões por que a ciência é tão importante na crítica da razão pura – um ponto que vamos voltar a tratar no próximo artigo.

Mas meu ponto imediato é que, se houvesse uma falha no processo de raciocínio humano, a própria razão não seria capaz de detectar isso. Ficaríamos presos em padrões não-confiáveis de pensamento, sem quaisquer meios de fuga. Alguns dizem que o racionalismo liberta. Almas mais sábias sugerem que ele tem a capacidade de prender e aprisionar.

O trabalho do brilhante matemático e filósofo austríaco Kurt Gödel (1906-1978) reforçou a percepção crescente de que a razão não possui a autoridade nem a competência para legitimar-se como base do conhecimento confiável.

Como Rebecca Goldstein, um de seus intérpretes nota, Gödel expôs o problema de qualquer sistema de crença que se baseia puramente na razão humana. E se a razão apresenta falhas ou está sujeita a influências dissimuladas que determinam seus resultados?

A análise penetrante de Goldstein refuta o racionalismo simplista do neo-ateísmo:

“Como pode uma pessoa, que opera dentro de um sistema de crenças, incluindo crenças a respeito de crenças, sair desse sistema para determinar se ele é racional? Se todo o seu sistema se torna infectado pela loucura, incluindo as próprias regras pelas quais você raciocina, como, então, você pode raciocinar para fora da loucura?”

Uma das características mais intrigantes do neo-ateísmo é sua afirmação dogmática do racionalismo iluminista. Na verdade, alguns diriam que o neo-ateísmo é uma peça de museu, na medida em que é um dos poucos objetos sobreviventes do racionalismo iluminista do século XVIII na cultura contemporânea.

Mesmo os críticos filosóficos do Iluminismo – como Alasdair MacIntyre ou John Gray – têm argumentado que a busca por um fundamento e critério universal de conhecimento vacilou, tropeçou, e, finalmente, entrou em colapso sob o peso de uma acumulação maciça de evidências contrárias. Essa visão simplesmente não poderia ser alcançada.

O legado do Iluminismo foi, portanto, um ideal de justificação racional que se revelou impossível de ser alcançado na prática. Os escritos do neo-ateísmo não mostram a menor inclinação para buscar este ponto, mas é crucialmente importante.

A visão iluminista da razão, sobre a qual o neo-ateísmo depende em vários pontos, é agora amplamente considerada como profundamente falha.

Mas há um outro ponto que MacIntyre suscita como resultado de sua análise histórica. Referindo-se à chamada “crise de fé Vitoriana”, ele observa: “O Deus em quem o século XIX deixou de acreditar foi inventado no século XVII”. Este é um ponto excelente. O Deus que os filósofos do Iluminismo rejeitaram era uma construção filosófica do século XVII. Foi inventado por Descartes e outros. O Iluminismo, na verdade, tem pouco a ver com a noção cristã de Deus. Tudo se resume  a noções filosoficamente inventadas de Deus. Mas há mais do que isso. E se a razão humana é influenciada por fatores que não entendemos e não podemos controlar? Esta não é uma pergunta supérflua.

Nos últimos dois séculos, os escritos de Karl Marx, Charles Darwin e Sigmund Freud levantaram questões profundamente perturbadoras para o racionalismo. Como podemos confiar na razão, se a própria razão é tendenciosa, distorcida e comprometida?

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Karl Marx, por exemplo, argumentou que as ideias humanas foram fundamentalmente moldadas por fatores culturais acima de todas as condições sociais e econômicas. Se Marx estiver certo, todas as nossas ideias são dissimuladamente moldadas por nossos contextos. Não temos controle sobre elas, como os pensadores racionalistas acreditavam. Longe de ser algo universal ao longo da história, a racionalidade acaba por ser socialmente integrada, moldada pelas contingências da história e da cultura.

Como se isso não fosse suficiente, temos de lidar com o argumento freudiano de que não temos acesso às nossas próprias verdadeiras motivações. Nossas ações e ideias são moldadas por forças obscuras dentro de nosso subconsciente, o qual realmente não entendemos e achamos difícil de dominar.

Para piorar as coisas, algumas escolas do darwinismo sugerem que a nossa “racionalidade” é moldada por nosso passado evolutivo, nos prendendo em respostas instintivas primitivas a respeito do mundo à nossa volta. Pode a razão nos aprisionar, em vez de nos libertar, sendo ela em si moldada por nossos anseios subconscientes e paixões?

Se ela é verdadeira em relação ao critério pelo qual se exige que os outros devem ser julgados, o neo-ateísmo deve limitar-se ao domínio do racional e do cientificamente comprovado e verificável. Talvez já tenha sido possível acreditar que esse era um domínio existencial e moralmente habitável no século XVIII, mas agora não é.

Buscando nos libertar do que ele ridiculariza como “superstição”, o neo-ateísmo simplesmente nos aprisiona em um cárcere racionalista. Não é de se admirar que Blaise Pascal tenha argumentado que existem dois erros fundamentais do pensar: excluir a razão completamente e aceitar nada mais do que a própria razão.

O neo-ateísmo parece acreditar que o cristianismo se recusa a ter qualquer relação com a razão – um delírio que só pode ser sustentado ao se recusarem a ler os vários escritores cristãos que a levam a sério; tais como Tomás de Aquino e C. S. Lewis.

Os críticos do neo-ateísmo indicam que os métodos restringem o movimento à aceitação do que a razão pode provar – o que acaba sendo algo de pouca ou nenhuma importância, ou de pouco interesse.

O ne-aoteísmo parece acabar confinando a humanidade em uma prisão autoproduzida e auto-imposta. Como Sir Isaiah Berlin observou, o clima dominante na cultura ocidental agora é rejeitar “a razão e a ordem por serem cárceres do espírito”. Isto não é, de forma alguma, irracional. É apenas um protesto contra aqueles que têm distorcido uma boa ferramenta crítica e feito dela uma visão da realidade.

Limitar-se ao que a razão e a ciência podem provar é apenas arranhar a superfície da realidade e falhar em descobrir o que está escondido nas profundezas. Tanto a razão quanto a ciência são severamente limitadas em relação àquilo que podem provar e em relação à sua capacidade de se ocuparem das mais profundas preocupações intelectuais e existenciais da humanidade. O neo-ateísmo precisa se acostumar com isso.

Para escritores cristãos, a fé religiosa não é uma rebelião contra a razão, mas uma revolta legítima e necessária contra a prisão da humanidade dentro das paredes frias de um dogmatismo racionalista. A fé cristã declara que existem muito mais coisas a respeito da realidade do que a razão revela. Ela não contradiz a razão, mas simplesmente a transcende, fugindo de suas limitações. Ela desafia o dogma da finalidade da razão e exige que seja autorizada a explorar mundos mais profundos e melhores. A lógica humana pode ser racionalmente adequada, mas é também existencialmente deficiente. Ela não satisfaz as pessoas e as deixa querendo mais – não porque são pessoas inadequadas, mas porque o racionalismo oferece uma visão inadequada da realidade.

O mesmo pode ser dito sobre as ciências naturais, como irei demonstrar no próximo artigo.

Traduzido por Breno Perdigão e revisado por Tiago Silva.

Texto original: Faith and the Prison of Mere Rationality. ABC.

Alister McGrath (ex-ateu) é presidente do Oxford Centre for Evangelism and Apologetics [Centro para Evangelismo e Apologética em Oxford] e professor de Teologia Histórica na Universidade de Oxford. É autor de diversos livros.
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Apologética pura e simples apresenta um método que atrai não só o intelecto, mas também o coração e a imaginação.

Depois de versar sobre a base bíblica da apologética e as várias formas em que ela foi empregada em diferentes momentos da história, Alister McGrath apresenta diversas maneiras de partilhar a fé. É possível evangelizar, por exemplo, recorrendo-se aos indicadores da fé. E quais são esses indicadores? São elementos como o desejo inato de justiça de todo ser humano, o prazer que sentimos na beleza, a ordem que vemos no mundo físico e muitos outros. O autor mostra também que há muitas formas interessantes de compartilhar a fé — por meio de explanações, debates, histórias e imagens —, e nos ajuda a escolher a que poderá produzir melhores resultados de acordo com nossa personalidade e com o público com o qual dialogamos.

Publicado por Edições Vida Nova.

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