A reivindicação de exclusividade do cristianismo | Gregory Koukl

A reivindicação de exclusividade já é, há muito tempo, um obstáculo para a aceitação da fé cristã e hoje continua sendo mais do que nunca.

“Sr. Koukl, quero ser direto no que vou dizer agora.” O apresentador do programa hesitou, dramatizando o momento para os que estavam lhe escutando na rádio. “Estamos falando sobre uma pessoa que mora no Sudeste Asiático,” continuou, “sobre um pagão, budista ou qualquer pessoa que nunca tenha ouvido falar do Cristianismo Ocidental. O padre Kidney afirmou, seguindo a fé católica, que uma pessoa pode ser salva se for honesta e seguir a religião da qual é seguidor. Você concorda com isso, ou, na sua opinião, essa pessoa está condenada?”

Estremeci. A pergunta foi formulada de uma forma tão incisiva que minha resposta estava destinada a ofender. Na verdade, ela ofendeu até mesmo a mim.

“Não, não concordo. Não concordo que ela se salvará sem o Evangelho de Jesus Cristo.”

A doutrina desprezível

Este desafio persegue os apologistas cristãos há séculos, fazendo com que muitos se oponham a eles e os ataquem por considerar essa exclusividade da fé cristã um dogma radical. 

Essa objeção é a mais desafiadora que já enfrentei. Trata-se do ensino cristão mais detestado pelos outros, visto como um disparate, um verdadeiro obstáculo. A ideia de que Jesus é o único caminho é difícil de aceitar em uma cultura pós-moderna, até mesmo para um crente comprometido.

Para os não cristãos, é uma doutrina desprezível. Se ouvir o nome de Jesus constitui uma exigência para a salvação, culturas inteiras estarão entregues à perdição, reduzindo o Todo-Poderoso a um racista mesquinho. Isso é razoável? É justo?

O Rabino Weiss representou a posição dos Judeus Reformados naquela noite na rádio:

“Devo ser direto em meu comentário […] Não aceitamos isso de maneira alguma. Acreditamos que o Todo-Poderoso seria muito cruel, um Deus muito insensível se Ele condenasse eternamente milhões de Seus filhos que não têm nem tiveram nenhum contato com as Boas Novas.”

Até C. S. Lewis foi mais inclusivista que o evangélicos, a ponto até de incomodá-los. Ele diferenciou entre aqueles que agressivamente rejeitam o Filho de Deus e aqueles que o rejeitam por causa de um erro ou ignorância honestos.

Desta última classe, Lewis disse: “Se as intenções deles foram boas como suponho que foram, espero e acredito que a habilidade e a misericórdia de Deus remediará os males que a ignorância deles, deixada a si mesma, naturalmente produziria.”[1]

O denominador comum

É possível que haja na Bíblia suporte para essa ideia? Paulo argumenta contra a salvação pelas obras apelando para um único denominador comum dos remidos de todas as épocas. Deus justificou os crentes do Novo Testamento da mesma maneira que justificou os crentes do Antigo Testamento — pela fé. Se há essa continuidade de salvação e os crentes do Antigo Testamento nunca tinham ouvido falar de Jesus, então deve haver um denominador comum diferente, demarcando aqueles que aceitam a Cristo e são justificados por Deus à parte do conhecimento do nome de Jesus.

E o que dizer de Melquisedeque, um sacerdote de El Elyon (um termo cananeu para Deus Altíssimo)?[2] E de Raabe, uma prostituta pagã que só sabia que o Deus hebreu era “Deus em cima nos céus e embaixo na terra?[3]

Pedro diz a Cornélio que “…Deus não trata as pessoas com parcialidade, mas de todas as nações aceita todo aquele que o teme e faz o que é justo” (Atos 10:34, 35). Lídia era apenas uma mulher ”temente a Deus” cujo coração o Senhor abriu para atender à mensagem de Paulo (Atos 16:14).

O Rabino Weiss argumentou que “um lugar no mundo vindouro é prometido a todos os seres humanos, contanto que sejam decentes e guardem os mandamentos fundamentais”. Essa posição não parece ser bastante lógica?

Alguns textos do Novo Testamento parecem apontar nessa direção. Paulo escreve: “Deus retribuirá cada um conforme o seu procedimento […] Pois em Deus não há parcialidade” (Romanos 2:6,11). O próprio Jesus declara: “está chegando a hora em que todos os que estiverem nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão; os que fizeram o bem ressuscitarão para a vida, e os que fizeram o mal ressuscitarão para serem condenados.” (João 5:28,29).

Será que, com base no conhecimento geral de Deus que todos possuem, uma pessoa pode, por um profundo senso de necessidade, se render à misericórdia de Deus e ser aceita?[4]

Essa é a pergunta. Como respondê-la?

O que devo fazer?

A questão da salvação é, em sua essência, uma questão de critérios. Perguntamos, juntamente com o carcereiro de Filipos: “O que devo fazer para ser salvo?” Como saber o que Deus quer?

Fiz essa pergunta a um grupo de cristãos. A resposta deles foi: Deus precisa se revelar. Por exemplo, Ele revelou “seu eterno poder e sua natureza divina […] por meio das coisas criadas” (Romanos 1:20).

A questão da salvação é uma questão de quem Deus é — seus atributos — ou do que Deus quer — sua vontade?

Eles refletiram por um momento. “Do que Deus quer” concluíram.

Olhem para Betty no final da mesa. Podemos assimilar alguns elementos gerais sobre ela, observando-a. Mas como podemos saber a vontade dela?

A resposta foi imediata: “Ela precisa nos dizer.”

O mesmo raciocínio se aplica a Deus. Ele revela algo de sua natureza por meio da ordem criada. Porém, não conseguimos discernir sua vontade — o que devemos fazer para sermos salvos, especificamente — a menos que ele nos diga. Somente quando Deus diz é que conseguimos nos mover de uma vaga inferência para o conhecimento detalhado do que ele quer.[5]

O fato de que Deus falou é fundamental para a mensagem cristã. Não temos que adivinhar o que ele quer. Ele nos disse e, quando Deus diz, sua palavra põe fim à especulação.

Até aqui, duas coisas parecem óbvias. Primeira, a questão não é se adoramos a Deus de nossa maneira, mas se o adoramos da maneira dele, conforme a vontade dele. Segunda, não podemos conhecer a vontade de Deus a menos que ele nos diga.

Jesus disse que devemos adorar o Pai em espírito e em verdade (João 4:24). Paulo e Pedro enfatizam o “verdadeiro conhecimento” de Deus.[6] João relata que Jesus é a “verdadeira luz” e a “videira verdadeira” (João 1:9; 15:1). De fato, o primeiro dos Dez Mandamentos exige fidelidade ao único verdadeiro Deus.

O problema da sinceridade

A maioria das pessoas ao redor do mundo adoram algo além de si mesmas. Com toda sinceridade, prestam obediência a algum tipo de deus, para quem também direcionam suas considerações religiosas. Mas por que pressupor que isso basta? Deus disse que a mera sinceridade é suficiente? Não, a Bíblia parece dizer exatamente o contrário.

Em seu sermão no Areópago, Paulo argumenta que a adoração em ignorância não é satisfatória (Atos 17:23). Posteriormente, ele deixa essa questão clara ao derramar seu coração ao romanos em relação a seus irmãos, os judeus: “Pois posso testemunhar que eles têm zelo por Deus, mas o seu zelo não se baseia no conhecimento (Romanos 10:2).

O zelo precisa estar firmado na verdade, não na sinceridade. Os cananeus adoravam Moloque com enorme zelo, mas Moloque não era deus, e sim um ídolo. Isso mostra que zelo não é uma defesa apropriada. Na verdade, ele pode trazer resultados desastrosos se não estiver unido ao conhecimento correto (a “adoração” cananeia incluía sacrifício de crianças).

O problema da bondade

E quanto à pessoa boa? Deus certamente não irá rejeitá-la? As próprias Escrituras afirmam isso.

É verdade que, se a pessoa guarda a lei de Deus, não terá problemas com ele. Paulo e Jesus afirmam isso. Porém, a próxima pergunta é vital: Onde está esse homem que guarda a lei de Deus?

Faça uma sondagem sobre como as pessoas definem o que é “essencialmente bom” e você perceberá algo interessante. Na prática, todos se consideram uma boa pessoa. Mas quando se trata de decidir o que é realmente em nosso caráter, sempre saímos ilesos da análise. Nossos padrões são generosos porque nossos interesses egoístas estão envolvidos. A tentação de encobrir nossos próprios rastros é forte.

Entretanto, quando somos avaliados pelos padrões de Deus, o quadro é bem diferente. Mesmo com a redução que Jesus fez de todos os mandamentos de Deus em duas simples máximas — amar a Deus com toda tua alma, todo teu coração, toda tua mente e toda a tua força, e amar teu próximo como a ti mesmo — nossas vidas continuam sendo desastres morais.

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Onde está o budista bom, o hindu bom, ou o muçulmano bom? A propósito, onde está o cristão bom? Eles simplesmente não existem. Toda boca se cala. Os padrões absolutos de Deus silenciam toda alegação de justiça própria, tornando o mundo inteiro responsável diante de dele (Romanos 3:19).

O homem em fuga

Um aspecto crucial que muitos cristãos não compreendem é: As pessoas não são, em última instância, condenadas por terem rejeitado a Cristo. São condenadas por terem quebrado a lei de Deus. É verdade que a incredulidade as priva do antídoto, a cruz, selando-lhes a perdição. Contudo, quando os livros são finalmente abertos, os homens são julgados pelas suas obras, e todos assim julgados perecem, pois todos são culpados (Apocalipse 20: 11-15).

É um erro pressupor que muitos se voltariam para Deus se tivessem uma chance. As pessoas rejeitam a luz que lhes é dada não por causa da ignorância, mas porque suprimem intencionalmente a verdade (Romanos 1:18, 19). Deixado a si mesmo, o homem foge de Deus, em vez de ir em direção a ele. Quer se trate de uma rejeição abrangente do evangelho pleno ou da negação de um nível mais básico da revelação geral — o testemunho de Deus na natureza — a culpa que recai sobre o homem é a mesma.

O pagão que está adorando um ídolo na floresta já trocou a verdade por uma mentira. Ele não se encontra sob condenação apenas por ilegalidade (como todos os homens estão): ele já rejeita o Pai (revelação geral) antes mesmo de ouvir sobre o Filho. Se alguém não te dá atenção antes de você contar a toda a história, você não é obrigado a prosseguir. Na verdade, ela não escutaria se você continuasse.

Ainda assim, Deus não quer que ninguém pereça e trabalha para levar pessoas ao Reino (1Timóteo 2:4). Pedro considera a demora do retorno de Cristo não como um retardo no cumprimento da promessa, mas como uma demonstração de paciência a fim de que os culpados venham a se arrepender em vez de perecer (2Pedro 3:9).

Repare que, se o pecador não busca Deus, mas foge dele, logo, é necessário que Deus tome a iniciativa para impedir a fuga do homem.  Isso significa que nenhum “pagão na África” inicia uma busca sincera a menos que Deus tenha primeiramente ido em busca dele (João 6:44).

Se Deus tem de atrair nossa atenção, pelo menos em alguma medida, antes que possamos responder ao evangelho, então ele deve fornecer informações específicas como parte do processo. Deus não vai sobrenaturalmente arrastar-nos para ele, e depois negar-nos o conhecimento necessário para respondermos seu chamado.

O ato de chamar e a revelação necessária para a resposta ao chamado são partes inseparáveis do plano da redenção. Se Deus faz a primeira, ele providencia a segunda, ou por meio de um mensageiro humano ou mediante uma comunicação sobrenatural.

Elaborando uma resposta

Até aqui já cobrimos uma parte essencial do assunto. Primeiro, Deus só pune os que são culpados. Ele não deve perdão a ninguém. Se ele oferece perdão a alguns e retira a misericórdia de outros, Deus não é injusto em punir o culpado. Segundo, pessoas culpadas não buscam Deus; elas fogem dele. Terceiro, Deus toma a iniciativa de nos buscar por amor.

Com todos esses elementos no lugar, podemos construir uma resposta a nosso desafio inicial.

Para que qualquer pessoa venha a Deus, ela deve vir conforme os termos de Deus, detalhes que somente ele pode nos dizer. A continuidade da salvação, o denominador comum ao longo das épocas, tem sido a expressão do homem de fé ativa na misericórdia e na promessa divina. Todos os crentes do passado —Abraão, Melquisedeque, Raabe — demonstraram essa confiança redentiva. O conteúdo específico dessa revelação, contudo, cresceu com o tempo. Abraão sabia um pouco, Davi mais um pouco, os profetas ainda mais. Os apóstolos (e você e eu por meio da palavra deles) foram os que receberam o maior conteúdo da revelação dentre todos.

Não sabemos o que constituía o conteúdo dado a Melquisedeque, Jó, ou Jetro. Sabemos o que Deus nos revelou hoje: a morte expiatória de Jesus Cristo. Jesus é a declaração final, a perfeita expressão da misericórdia de Deus, o objeto mais puro da fé. Hoje, Jesus é o rigoroso teste para saber o que qualquer um realmente pensa a respeito do Pai (João 5:37,38).

Deus pode conceder essa informação de duas maneiras. É certamente possível que, em situações isoladas, ele se comunique diretamente como fez com Abraão. Nesse caso, porém, o Deus revelado será o Deus verdadeiro, e não Buda, Alá, Krishna, Rá, Zeus, ou a Mãe Terra. Em suma, o Deus que o pagão descobre por meio da revelação direta será o Senhor Jesus.

Todavia, a mensagem do verdadeiro Salvador costuma vir dos lábios de um pregador das boas novas (Romanos 10:14,15). Quando Deus toca o coração de alguém para que o busque, ele moverá céus e terra para trazer a mensagem do evangelho a essa pessoa.

Os exemplos bíblicos são vários. Raabe respondeu a seu conhecimento elementar de Deus e Deus levou os espias judeus até sua porta (Josué 2:1). Felipe “pregou Jesus” ao eunuco Etíope lendo Isaías a caminho de Gaza (Atos 8:26-39). Pedro trouxe “as palavras pelas quais vocês serão salvos” para a casa de Cornélio, um homem temente a Deus (Atos 10:23-48, 11:14). O Senhor abriu o coração de Lídia “para atender a mensagem de Paulo” (Atos 16:14). Cada um deles recebeu mais informações em resposta a busca que empreenderam.

Em seu livro Death of a Guru [A Morte de um Guru], Rabindranath Maharaj relata sua história. Rabi era um jovem Yogi, um Guru e um membro da casta de Brahman.

Ele havia experienciado viagens astrais a outros planetas, experiências psicodélicas, recebido visões de yoga. A meditação profunda levava a estados de consciência cada vez mais distantes.

Rabi percebeu, no entanto, que cada passo para mais perto dos deuses hindus era um passo para mais longe do verdadeiro Deus que ele buscava em seu coração. Quando confrontado com o total vazio da vida e com a superficialidade da religião, ele clamou: “Eu quero conhecer o verdadeiro Deus, o Criador do universo!”[7] Deus respondeu ao levar o evangelho a ele por meio do testemunho de uma jovem mulher chamada Molli.

O verdadeiro problema

Os cristãos podem ter certeza de uma coisa: qualquer pessoa que buscar a Deus de coração irá não só encontrá-lo, mas será aceito por ele. Porém, a Bíblia ensina que o “pagão”, seja de onde for, só buscará a Deus se Deus já tiver inclinado o coração dessa pessoa para isso. E Deus concluirá a tarefa, fornecendo os detalhes necessários para completar a obra da fé.

Este, contudo, não é o verdadeiro problema para a pessoa comum. Quando ela prestar contas a Deus, não haverá nenhuma discussão sobre o pagão que nunca ouviu falar do evangelho. Em vez disso, a pergunta será: E quanto ao que ouviu? E quanto a ele? Dobrou ele os joelhos e pediu perdão a Jesus?

Deus não condena ninguém por rejeitar um Jesus de quem nunca ouviu falar. Os homens são responsáveis por seus próprios crimes morais contra Deus e por rejeitarem o Pai cuja voz se faz ouvir em todo lugar.

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[1] C. S. Lewis, God in the Dock (Grand Rapids: Eerd,ams. 1970), 110.

[2] Gênesis 14:18-20.

[3] Josué 2:11.

[4] Bruce Demarest, General Revelation (Grand Rapids: Zondervan, 1982), 260. Veja Calvino, Corpus Reformatiorum, vol. XXIV, pp.301-9; vol. XXV, p. 267; vol. XLIX, pp. 307-8

[5] Conhecer a vontade moral de Deus – a lei escrita em nossos corações – seria uma exceção.

[6] Colossenses 2:2; 3:10; 2 Pedro 1:3,8

[7] Majaraj, Rabindranath R., Death of a Guru (Philadelphia & New York: A. J. Holman, 1977), 122.

Traduzido por Reginaldo Castro e revisado por Jonathan Silveira.

Texto original: The Christian claim of exclusivity. Stand to Reason.

Gregory Koukl obteve seu mestrado em filosofia da religião e ética na Talbot School of Theology e seu mestrado em apologética cristã na Simon Greenleaf University. É professor adjunto de apologética cristã na Biola University. Tem apresentado seu próprio programa de rádio por 20 anos, onde defende a cosmovisão cristã.

1 Comentário

  1. Robson Campos disse:

    Ito é uma pergunta, não uma crítica: Quando se diz: “Porém, a Bíblia ensina que o “pagão”, seja de onde for, só buscará a Deus se Deus já tiver inclinado o coração dessa pessoa para isso”, isto quer dizer que essa questão é melhor entendida e só pode ser respondida com a “proposta” da predestinação? Ou eu estou equivocado quanto a entender esse trecho como predestinação?

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