A ressurreição de Jesus e o metaverso | Luiz Adriano Borges

Mark Zuckerberg apresenta o metaverso. — Foto: Reprodução

O que a ressurreição de Jesus poderia trazer como resposta à ideia do Metaverso de Zuckerberg?

Em finais de outubro, o CEO do Facebook anunciou seu novo empreendimento, maior do que a soma de suas outras companhias, denominado Metaverso. Trata-se, pretensamente, de uma nova internet, um outro universo onde todas as redes existirão. Através de realidade virtual, as pessoas poderão interagir nesse universo; as promessas são de “internet corporificada”, “presença”, “maior conexão entre as pessoas” e uma “realidade aumentada”.

Estas todas são questões bastante discutidas dentro do campo da filosofia da tecnologia, mas a teologia cristã tem ótimos diagnósticos e respostas fundamentais para elas. Podemos partir de um único evento, com certeza um dos mais importantes da história da humanidade: a ressurreição de Cristo.

Jesus ressurgiu em carne, apontando para como seremos na eternidade; não seres etéreos, somente espíritos, mas seres de corpo e alma. Nossos corpos importam! O corpo sempre foi importante na tradição cristã, tendo inclusive João escrevendo sua primeira carta para combater a seita gnóstica que proliferava. Os gnósticos, entre outras coisas, defendiam que a matéria era ruim e que o espírito deveria se ver livre do corpo para evoluir. Uma mentalidade comum ainda hoje em movimentos transumanistas que veem a mente como algo superior e que prescrevem o paulatino abandono dos corpos. Não é à toa que, por trás das grandes corporações tecnológicas, este tipo de pensamento continue vivo. Kuzweil, por exemplo, um grande inventor e que trabalha na Google, é um dos grandes proponentes do transumanismo. Mas isso também fica claro na busca de eternidade através do mundo digital, que parece ser o objetivo do dono do Facebook.

Para Zuckerberg, nossos corpos não são importantes, somente nossa mente (e os olhos que enxergam as telas; mas que talvez possam no futuro ser também dispensados). Uma vez conectados no mundo virtual, podemos viver uma vida mais plena. Mas será mesmo?

Não precisamos ler longos tratados de filósofos obscuros para perceber na prática que o corpo importa nos relacionamentos humanos. Nossas relações não são baseadas apenas na visão, mas também no tato, paladar, olfato e toda a expressão corporal. Essa descorporificação é a busca transumanista e é o objetivo das grandes corporações de tecnologia, já que, reduzir as experiências humanas somente à mente e ao visual facilita o controle. É nessa busca por reduzir a experiência humana que torna as tecnologias de internet tão empobrecedoras da realidade. Ficamos cansados porque não fomos feitos para ficar o dia todo olhando para uma tela. Precisamos de coisas tangíveis, de coisas focais.

Albert Borgmann, um dos grandes críticos da sociedade hipermoderna, hiperconectada, fala que precisamos arregaçar as mangas e ter contato com a realidade porque as telas atrofiam nossas mentes. Ele usa o termo “coisas e práticas focais” para se referir às coisas reais, para além do mundo conectado, tais como cozinhar, caminhar etc. Byung-Chul Han, que não é cristão, concorda e diz que a solução para a sociedade do cansaço é um retorno aos rituais, à comunidade e a uma relação corporificada com a realidade. A solução não é mais telas, como quer Zuckerberg, mas mais contato com a realidade.

Falando sobre “presença”, que é uma das promessas do Metaverso, também temos o que aprender com o ponto central da história cristã. Um dos primeiros atos de Cristo ressurreto é fazer uma refeição com os discípulos que encontrou no caminho de Emaús (Lc 24.13-35). Aqui, Jesus nos deixa um grande exemplo do que é realmente uma presença: é estar corporalmente e, além de tudo, dividir uma refeição juntos. Esse é o epítome do que é presença. A solução apontada por muitos filósofos da tecnologia para a crise causada pelo abuso de tecnologia é justamente essa: comunhão!

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Durante alguns momentos da pandemia tivemos que nos contentar com a transmissão de cultos online e até conversar com amigos e parentes pela internet. Isso foi um mitigador dos males do distanciamento. Mas aprendemos na marra que essa não é a forma que seres humanos se relacionam plenamente. Tivemos muitos problemas psicológicos e espirituais e as pessoas perceberam a importância da comunhão. Jesus, para dar o exemplo da importância disso, come com os discípulos de Emaús e depois aparece por duas vezes ao grupo dos onze discípulos; primeiramente sem a presença de Tomé (Jo 20.19-23) e, depois, com a presença dele (Jo 20.26-29). Na ressureição iremos ainda ter comunhão!

A comunhão, o partilhar de uma mesa, isto sim gera maior conexão entre as pessoas. Telas podem ser ótimas ferramentas para aliviar distâncias, mas elas nunca serão substitutos para a realidade.

Mas também, outra coisa é importante dessas aparições de Jesus ressurreto: ele mostra as marcas das feridas em seu corpo e pede para que Tomé lhe toque. Na ressurreição da carne, não vamos tocar em telas, mas sim em coisas realmente tangíveis, como corpos redimidos.

Zuckerberg ao apresentar o metaverso do Facebook. — Foto: Reprodução

A “realidade aumentada” que estes adoradores do ciberespaço desejam é uma busca por tornar real a promessa religiosa de uma outra vida, de uma vida mais completa, sem dores e sofrimentos. Mas, nessa busca tecnicista de querer trazer o paraíso pelos próprios esforços, cria-se uma realidade infernal, incompleta. Ao invés de uma realidade aumentada, tem-se uma realidade diminuída, focada em somente na vida da mente. Nesse sentido, somos cooptados pelas redes sociais para que usem nossos corpos para alimentar esse Metaverso. Sim, não nos enganemos, o Facebook não vai deixar de sugar nossos dados comportamentais; pelo contrário, terá ainda mais poder. Com a nova embalagem de liberdade e as falsas promessas do Metaverso, as grandes companhias dão um passo a mais na obtenção de ainda mais controle sobre os seres humanos e, se não nos atentarmos, o homem será abolido. Essa abolição se dará quando tudo que prezamos enquanto seres humanos for moldado e transformado em meros objetos dos computadores. Não é coincidência que Zuckerberg goste tanto de “Matrix”. Isto tudo é uma tendência histórica: a busca tecnológica desde inícios do século XX que vem se fortalecendo cada vez mais.

O Metaverso é, portanto, o oposto do reino vindouro de Cristo, já anunciado com a sua ressurreição, mas que será completamente instaurado com a sua volta. Aqui, neste mundo totalmente redimido, viveremos a glória de um universo que transcende tudo o que a mão humana pode construir, ainda que tente lhe copiar. Teremos ainda espaço para construir, inventar e comer! Mas cabe ao cristão estar atento e não se deixar iludir pelas falsas promessas tecnológicas. Cabe também não sermos somente luditas, negando os benefícios tecnológicos, mas lutarmos por construir melhores ferramentas que condigam e auxiliem o ser humano a florescer. Florescer em todos os aspectos da realidade, aqui, especialmente no relacionamento uns com os outros.

Luiz Adriano Borges é professor de história na UTFPR-Toledo, lecionando sobre história da técnica, tecnologia e sociedade, filosofia, sociedade e política. Sua área de pesquisa centra-se na História e Filosofia da Tecnologia e da Ciência. Seus projetos mais recentes são: “A visão cristã da tecnologia” e “Esperança em Tempos de guerra. Ciência, tecnologia e sociedade em Tolkien, Huxley, Lewis e Orwell (1892-1973)".

4 Comentários

  1. Lucas disse:

    Top demais o texto… Falei na mensagem de domingo sobre esse tema acredita… Já mandei no grupo para a igreja.

  2. Excelente texto! Parabéns ao autor. Gostaria de ouvir a opinião do autor e da equipe editorial, sobre se esse desejo não seria uma depravação da nossa imaginação. Pois como nos lembra JRR Tolkein, a criação, a imaginação são traços de Deus em nós, portanto esse exagero no uso da tecnologia não seria o mal uso dessa habilidade que Deus nos deu para sua glória?

  3. Fabio Rodrigues disse:

    Parabéns pela percepção e alerta. Vivemos o limiar de dias muito complexos que estão por vir e se aproximam em velocidade assustadora; precisamos de discernimento, e você deu uma direção de para onde olhar em busca de respostas.

  4. Natalia disse:

    Acho esse tipo de post extremamente importante. Me preocupo com o rumo em que as coisas estão tomando e como cientista me pergunto cada vez mais de que maneira eu posso ajudar as pessoas a perceberem que o meta verso é o início do fim – pelo menos pra mim. O fim das relações pessoais.

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