A vida é absurda sem Deus? | William Lane Craig

"O grito", de Edvard Munch, 1893.

Pergunta

Dr. Craig,

embora eu o respeite como um dos pensadores cristãos mais racionais da atualidade, discordo veementemente de sua afirmação de que a vida sem Deus é absurda. Os argumentos que oferece para apoiá-la são bastante superficiais, e é lamentável que filósofos inteligentes como você tenham cedido à aceitação dessas monstruosidades. Em seu trabalho sobre o assunto, parece que você oferece duas alegações básicas:

(1) que a vida sem Deus é desprovida de verdadeiro sentido, propósito e valor e

(2) que o teísmo pode prover verdadeiro sentido, propósito e valor.

Ora, penso que a questão do valor humano pode ser considerada separadamente das outras duas (nenhuma das quais você se dá ao trabalho de definir antes); mas em relação ao sentido e ao propósito da vida, acredito que Thomas Nagel eloquentemente refutou as alegações (1) e (2) em seu artigo “The absurd” [O absurdo].[1]

Em defesa da alegação (1), você parece argumentar que a vida nos moldes do ateísmo é absurda porque Deus e as condições da imortalidade, que você declara serem necessários para uma vida objetivamente significativa, estão ausentes em tal visão. Você dá alguns quase-argumentos informais para essa formidável asserção, alegando que (a) a vida é absurda no ateísmo devido à incapacidade do homem de escapar da morte térmica do Universo, (b) a insignificância do homem no cosmo, e (c) sua morte final. No que diz respeito ao quase-argumento (a), você pergunta: “Suponha que o Universo nunca tivesse existido. Que diferença fundamental isso faria? O Universo está condenado a morrer de qualquer maneira”. Nagel responde incisivamente em seu artigo da seguinte forma:

Afirma-se com frequência que nada que fazemos agora terá importância daqui a um milhão de anos. Mas se isso for verdade, então, pela mesma razão, nada que acontecerá daqui a um milhão de anos tem importância agora. Especificamente, não importa agora que daqui a um milhão de anos nada que façamos agora terá importância. Além disso, mesmo que tivesse importância daqui a um milhão de anos o que fazemos agora, como isso poderia impedir que nossos interesses atuais fossem absurdos? Se o fato de serem importantes agora não é suficiente para conseguir esse feito, como poderia fazer alguma diferença se fossem importantes daqui a um milhão de anos?

Se o que fazemos agora terá importância daqui a um milhão de anos poderia fazer toda a diferença somente se sua importância daqui a um milhão de anos depender dessa importância, e ponto final. Mas, então, negar que tudo o que acontece agora terá importância daqui a um milhão de anos é uma petição de princípio contra a sua importância, e ponto final; pois nesse sentido não podemos saber (por exemplo) se o fato de alguém agora ser feliz ou miserável não terá importância daqui a um milhão de anos, sem saber que isso não tem importância, e ponto final.

Também é importante notar que todo o seu argumento é um non sequitur, pois mesmo que se admita que nossas ações perderão o seu significado, é inegável que elas sempre terão tido significado no passado; fatos sobre o passado como estes não podem ser apagados com a passagem do tempo. Além disso, seria possível ir ainda mais longe e adotar a conhecida B-teoria do tempo, segundo a qual o passado é tão real quanto o presente, o que significa que as ações humanas sempre terão significado!

No que diz respeito ao quase-argumento (b), você sugere a insignificância espaço-temporal do homem em relação ao Universo, que é muito maior e mais antigo do que a humanidade, afirmando que “a humanidade é, portanto, não mais significativa do que um enxame de mosquitos ou uma manada de porcos”. Mais uma vez, Nagel argumenta que tais noções egocêntricas são falsas:

O que dizemos para exprimir o absurdo da nossa vida muitas vezes tem relação com o espaço e o tempo: somos partículas minúsculas na vastidão infinita do Universo; a nossa vida é mero instante até mesmo em uma escala de tempo geológica, quanto mais em uma cósmica; estaremos todos mortos a qualquer momento. Mas, é claro que nenhum desses fatos evidentes podem ser o que faz a vida ser absurda, se for absurda. Pois, suponha que vivêssemos para sempre; uma vida que é absurda se durar setenta anos não seria infinitamente absurda se durasse toda a eternidade? E se a nossa vida é absurda dado o nosso [insignificante] tamanho atual, por que seria menos absurda se ocupássemos todo o Universo?

Finalmente, quanto ao quase-argumento (c), você alega que o ateísmo ensina que: “Você é o subproduto acidental da natureza, resultado de matéria, mais tempo, mais acaso. Não há nenhuma razão para a sua existência. Tudo que você encara é a morte”. Nagel responde admiravelmente:

Outro argumento inadequado é o de que, pela razão de que vamos morrer, todas as cadeias de justificaçã o [do sentido] tenham de ser deixadas no vácuo […] Tudo isso é uma viagem elaborada que não leva a lugar algum…

Há várias respostas para esse argumento. Em primeiro lugar, a vida não consiste em uma sequência de atividades em que cada uma delas tem como propósito algum elemento posterior da sequência […] Não é preciso nenhuma justificação adicional para que seja razoável tomar uma aspirina contra a dor de cabeça, visitar uma exposição de um pintor que admiramos ou impedir uma criança de colocar a mão sobre um fogão quente…

Mesmo que alguém desejasse fornecer uma justificação adicional a favor [das coisas], essa justificação adicional também teria de parar em algum ponto. Se nada pode justificar, a não ser que tenha justificação em algo fora de si que, por sua vez, também tenha justificação, temos como resultado uma regressão infinita e nenhuma cadeia de justificação pode ser completa. Além disso, se uma cadeia finita de razões não pode justificar coisa alguma, o que poderia ser obtido com uma cadeia infinita, em que cada elo tem de ter justificação em algo exterior a si? [Nota: você deve crer que tal regressão é impossível, dada a sua posição sobre infinitos atuais no contexto do argumento cosmológico kalam.]

Considerando que as justificações têm de chegar ao fim em algum ponto, nada se ganha com a negação de que acabam onde parecem acabar, na própria vida, ou com a tentativa de agrupar as múltiplas e muitas vezes triviais justificações comuns da ação sob um esquema de vida único e dominante. Podemos nos contentar com menos do que isso. De fato, por representar erroneamente o processo de justificação, o argumento faz uma exigência tola. Insiste que as razões disponíveis na própria vida são incompletas, mas com isso sugere que todas as razões que chegarem a um fim são incompletas. Isso torna impossível fornecer quaisquer razões.

Portanto, por essas razões levantadas pelo artigo de Nagel, não posso aceitar racionalmente seus argumentos para o suposto absurdo da vida sem Deus.

Agora, com respeito à alegação (2), Nagel oferece um argumento brilhante contra o fundamento teísta para o sentido da vida. Primeiro, ele define absurdo como a discrepância conspícua entre pretensão ou aspiração e realidade (e.g., enquanto você é condecorado, suas calças caem). De acordo com Nagel, o absurdo da vida se origina do conflito “entre a seriedade com que encaramos a nossa vida e a possibilidade perpétua de considerar como arbitrário, ou sujeito a dúvida, tudo o que encaramos com seriedade”. Para entender isso, algo que ajuda é primeiro distinguirmos entre as perspectivas de vida engajada e desinteressada. Na perspectiva engajada, assumimos que a vida tem sentido à medida que nos esforçamos para sobreviver, nos reproduzir e nos divertir. No entanto, de acordo com Nagel, sempre é possível darmos um passo atrás para “fora da vida” e examiná-la a partir do ponto de vista da terceira pessoa, assumindo uma perspectiva desinteressada. De lá, podemos então perguntar: “Por que isso tem sentido?”, e se recebermos uma resposta para isso, poderemos continuamente dar um passo para trás, assumir uma perspectiva desinteressada, e repetir o processo infinitamente.

Agora, suponha que o teísmo seja verdadeiro e que Deus criou o homem para glorificá-lo e se alegrar nele para sempre. Embora isso a princípio possa parecer ter sentido a partir da perspectiva engajada, podemos sempre dar um passo para trás, assumir uma perspectiva desinteressada e perguntar: “Por que glorificar a Deus e alegrar-se em Deus é significativo? Isso realmente importa?”. Em outras palavras, a alegação (2) é incoerente; o desejo de um sentido maior para a vida pode ser tão irracional quanto o desejo por solteiros casados. Além disso, seguir as ordens de Deus não parece ser um sentido muito gratificante ou satisfatório para a vida. Se, em vez disso, Deus estivesse simplesmente entediado e decidisse criar seres humanos para observá-los se matarem mutuamente sem piedade para seu entretenimento, eu faria tudo o que pudesse para promover a paz e o amor, a fim de ativamente acabar com as exigências caprichosas desse ser maligno. Esse seria o meu sentido da vida em um mundo assim. [Nota: você não pode apelar para a onibenevolência de Deus a fim de refutar essa questão, uma vez que diz em seu artigo sobre os cananeus que Deus não tem deveres morais, pois não pode comandar a si mesmo.] Nagel ainda acrescenta:

Mas um papel em algum empreendimento maior não pode conferir sentido, a menos que tal empreendimento seja em si significativo […] Se descobríssemos que fomos criados para fornecer comida a outras criaturas que gostam de carne humana, [então] mesmo que descobríssemos que a raça humana foi desenvolvida por criadores de animais, precisamente com esse propósito, isso continuaria a não dar sentido à nossa vida, por duas razões. Primeiro, continuaríamos desconhecendo o sentido da vida de tais seres; segundo, ainda que pudéssemos aceitar que esse papel culinário tornaria a nossa vida significativa para eles, não está claro como a tornaria significativa para nós.

Mas, finalmente, mesmo que você creia que esses problemas incontestáveis possam ser resolvidos, penso que é um pouco desonesto argumentar dessa forma, pois mesmo que você esteja certo sobre a vida ser realmente um absurdo sem Deus, disso não se deduz de forma alguma que Deus existe. Não podemos simplesmente mudar a realidade por desejar que algo seja o caso; proposições devem ser apoiadas por argumentos epistêmicos, não pragmáticos.

Assim, em última análise, você acredita que a resposta de Nagel é bem-sucedida? Ou é absurda? E em qualquer um dos casos, por quê?

Felicidades.

Bennington

Irlanda

Resposta do dr. Craig

Obrigado por seus comentários, Bennington! Essas perguntas são apaixonantes, pois nos tocam no âmago de nosso ser. Senti profundamente o absurdo da vida e seu consequente desespero durante meus anos como não cristão. Quando mais tarde encontrei os existencialistas franceses, a mensagem deles despertou meu interesse. Parece-me que, se o ateísmo é verdadeiro, então a vida é, em última análise, absurda.

Tenho tentado analisar o absurdo da vida como a falta de verdadeiro sentido, propósito e valor da vida. A palavra “verdadeiro” é importante aqui, pois obviamente podemos ter propósitos subsidiários e valores condicionais sem Deus, mas a minha alegação é que, em última análise, nada realmente importa se não houver Deus. Parece-me que há dois pré-requisitos para uma vida essencialmente significativa, valiosa e com propósito, que são Deus e a imortalidade, e se Deus não existe, então não temos nenhum dos dois.

Por “sentido”, quero dizer algo como significado ou importância. Por “propósito”, quero dizer um télos ou um objetivo de vida. Por “valor”, quero dizer valores e deveres morais objetivos. Não devemos separar a questão do valor do sentido e do propósito, como você tenta fazer em sua pergunta, pois se existem valores e deveres morais objetivos, então a vida provavelmente tem sentido. Assim, o ateu não pode dizer que a vida pode ter verdadeiro sentido na ausência de Deus, pois há coisas verdadeiramente valiosas na vida, uma vez que, se eu estiver certo, não existe nenhum valor moral objetivo na ausência de Deus. Esses três elementos, embora distintos, estão inter-relacionados e se articulam.

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Ora, na sua pergunta você tende a misturar meus argumentos e omitir outros. Com relação à alegação (a), o que eu afirmo é que, sem a imortalidade pessoal a nossa vida, em última análise, não tem nenhum sentido ou propósito. (Eu também argumento que o mesmo se daria sem Deus, ainda que tivéssemos a imortalidade.) Considero a resposta de Nagel sobre esse ponto confusa. Ele parece usar a frase “não importa” equivocadamente, para querer dizer ou que “é, em última análise, insignificante” ou que “não faz diferença”. Quando esclarecemos os significados, então seu argumento não faz sentido: “Se o que fazemos agora é, em última análise, sem importância, porque não fará diferença em um milhão de anos, então o que acontece em um milhão de anos também é, em última análise, sem importância porque não faz diferença para o que fazemos agora”. Isso não faz sentido porque a flecha do tempo se desloca do passado para o futuro. Para ver se o que acontecerá em um milhão de anos fará qualquer diferença, você não olha para o seu impacto sobre hoje, mas para o seu impacto sobre o futuro, e não existe nenhum impacto no final. Então, é claro, na ausência de retrocausalidade, não faz diferença agora o que vai acontecer em um milhão de anos. A questão é que o que acontece agora ou em um milhão de anos não faz nenhuma diferença definitiva no desfecho do Universo.

Assim, em certo sentido, Nagel está certo quanto ao que acontecer daqui a um milhão de anos ser, em última análise, insignificante e por isso nunca importar e, portanto, não ter importância hoje também. Mas permanece a questão de que, sem a imortalidade, nada do que fazemos faz alguma diferença verdadeira. Talvez a afirmação de Nagel seja que não importa que nada importa; mas isso não nega o meu ponto de que não importa, que não há verdadeiro sentido. Concordo com ele que só a imortalidade não é suficiente para verdadeiro sentido: mero prolongamento da existência não é suficiente, mas é uma condição necessária.

Quanto ao seu ponto de que fatos do passado sempre permanecem fatos passados, isso não reveste esses fatos com alguma verdadeira importância no grande esquema das coisas. O Terceiro Reich sempre terá sido derrotado na Segunda Guerra Mundial, mas, e daí? Tudo está condenado a acabar na mesma condição sem vida e descaracterizada da fria morte térmica do Universo. No final, não importa quem venceu a Segunda Guerra Mundial (não diga que isso importa, porque o bem triunfou sobre o mal, pois então você estará presumindo a realidade de valores morais objetivos sem Deus).

Quanto à alegação (b), o meu ponto na passagem que você cita era, na verdade, que, se excluirmos a presença de Deus, não fomos criados com um propósito em mente; somos um subproduto cego do processo evolutivo. Isso me parece inegável com o ateísmo. Eu também demonstro que somos partículas insignificantes e por isso é tão difícil ver por que nossa vida tem alguma importância verdadeira (mais uma vez, você não pode dizer que o nosso valor moral supera nossa insignificância). Aqui Nagel perde de vista totalmente a minha ideia. Ele afirma que, se fôssemos estendidos ao longo de todo o espaço e tempo, isso não investiria nossa vida de verdadeiro significado. Mas eu concordo com isso! Ele está confundindo condições necessárias com condições suficientes. A imortalidade é uma condição necessária, mas não uma condição suficiente para o verdadeiro significado; também precisamos de Deus, como já argumentei.

Quanto à alegação (c), aqui o ponto é novamente que, se excluirmos a presença de Deus, somos um subproduto cego do processo evolutivo e, portanto, não fomos criados com qualquer fim em vista. Mas também menciono que, se não houvesse imortalidade, não haveria um propósito verdadeiro para nossa vida, pois seja o que for que fizéssemos, acabaríamos sempre da mesma forma: na total extinção. Não vejo a relevância do primeiro ponto de Nagel. De que modo a minha alegação exige que tudo o que fizermos seja feito propositalmente? Isso não mostra que a vida tem um verdadeiro propósito de acordo com o ateísmo. Também não estou defendendo uma cadeia infinita de propósitos justificados. Em vez disso, a cadeia termina em Deus. Nós fomos feitos para conhecer a Deus, e nossa verdadeira realização se encontra em estarmos devidamente relacionados com ele, a fonte de infinita bondade e amor. Eu, obviamente, não defendo que “todas as razões que chegarem a um fim são incompletas”. Na verdade, a questão-chave para nós aqui é se existe um fim adequado para completar a corrente. No ateísmo não existe tal fim. Não há nenhuma razão pela qual existirmos.

Então, Bennington, me parece que essas não são respostas muito boas. Elas confundem condições necessárias e suficientes e sequer levam em conta os meus argumentos de que Deus, assim como a imortalidade, são condições necessárias para o verdadeiro sentido, valor e propósito.

Agora vamos ao ponto (2), de que no teísmo bíblico a vida tem verdadeiro sentido, valor e propósito. Olhe para o teísmo a partir de uma perspectiva independente. Ele fornece condições suficientes para o verdadeiro sentido, valor e propósito? Bem, certamente parece que sim, e um bom número de ateus admite pesarosamente que sim. Ele investe nossa vida de significado eterno: por meio de nossas livres escolhas determinamos nosso destino eterno. Além disso, entramos em um relacionamento pessoal com o bem supremo, o próprio Deus. Ademais, Deus provê a base para os valores e deveres morais objetivos, como já argumentei em outro lugar. Por fim, Deus nos criou com o propósito de conhecermos a ele e o seu amor para sempre. Assim, a partir da perspectiva mais distante e filosófica que você possa ter, o teísmo bíblico supre as condições para uma vida significativa e valiosa. Se você perguntar: “Será que é realmente isso?”, a resposta é “Sim, não pode ficar melhor do que isso!”.

Agora, se você disser que não pode haver um final autojustificado, então é você que está presumindo que a cadeia de justificativas deve ser infinita e não pode ser completa — uma posição que você corretamente rejeitou antes. A questão é que com Deus chegamos a um fim que é verdadeiramente digno e capaz de ser um ponto de parada intrinsecamente bom e significativo.

Se você acredita que a resposta teísta é incoerente como desejar um solteiro casado, então precisa mostrar alguma incompatibilidade lógica no que eu disse, o que, no meu entender, você não tentou fazer.

Ora, você diz: “Além disso, seguir as ordens de Deus não parece ser um sentido muito gratificante ou satisfatório para a vida”. Ah, ah, Bennington, você deixou a perspectiva desinteressada e caiu novamente na perspectiva engajada. Da perspectiva desinteressada, a resposta teísta é inteiramente adequada, quer você mesmo a considere ou não satisfatória ou gratificante.

Ademais, seu juízo engajado é manifestado como um verdadeiro não cristão. Como alguém cuja vida foi transformada pelo amor de Deus, eu, em contrapartida, a partir da perspectiva engajada, creio que não há nada mais gratificante do que conhecê-lo. A obediência aos seus mandamentos resulta, não da tristeza, mas da gratidão e do anseio de um coração disposto.

Sua hipótese sobre o caráter de Deus é impossível, e por isso, inútil. Lembre-se de que, do meu ponto de vista, embora Deus não aja por dever, ele, no entanto, age de acordo com o dever porque o seu caráter é essencialmente bondoso e justo. Portanto, os mandamentos de Deus não são caprichosos, mas reflexos necessários de sua natureza. Quando diz que o sentido de sua vida seria se opor a um Deus caprichoso, você passou a pensar em sentido de forma não objetiva, mas subjetiva. Eu nunca neguei que podemos inventar sentidos subjetivos para a nossa vida (como rebater 60 home runs em uma temporada). O que afirmo é que, de acordo com o ateísmo, nossa vida não teria sentido objetivo.

Por fim, quanto ao argumento de Nagel sobre os seres humanos terem sido criados para fornecer comida a outras criaturas, ele somente reforça a minha teoria de que o fim para o qual existimos deve ser adequado ao propósito. É por isso que defendo que Deus é necessário, assim como a imortalidade. Como o bem maior, o maior ser concebível, Deus fornece um ponto final adequado à nossa busca.

Quanto ao seu último ponto, se você já leu o meu trabalho, sabe que eu nunca defendo a existência de Deus com base no absurdo da vida sem Deus. Sou muito explícito quanto a isso. Pelo contrário, o objetivo desse exercício é despertar pessoas apáticas de seu torpor e levá-las a pensar sobre a importância da questão da existência de Deus, para levá-las a ficarem tão apaixonadas quanto você é! Então, talvez, elas se interessarão em ouvir meus argumentos a favor da existência de Deus.

Não, eu não penso que as réplicas de Nagel sejam absurdas. Elas são ponderadas e dignas de consideração, mas, no final, creio que elas falham e nada fazem para demonstrar que, de acordo com o ateísmo, a vida não é, em última análise, sem sentido, sem valor e sem propósito, nem para demonstrar que o teísmo bíblico falha em fornecer uma base para a afirmação dessas mesmas virtudes.

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[1] Thomas Nagel, “The absurd”, The Journal of Philosophy 68:20 (21 out., 1971): 716-27.

Trecho extraído da obra “A Razão da Nossa Fé. Respostas a Perguntas Difíceis sobre Deus, o Cristianismo e a Bíblia“, de William Lane Craig e Joseph E. Gorra, publicada por Vida Nova: São Paulo, 2018, pp. 253-262. Traduzido por Danny Charão, Vitor Grando, Yago Martins, Lucas Maria, Eliel Vieira, Wagner Kaba e Felipe Miguel. Publicado no site Tuporém com permissão.

vc087mhiWilliam Lane Craig é doutor em filosofia pela Universidade de Birmingham, na Inglaterra, e em teologia pela Universidade de Munique, na Alemanha. Atualmente é professor de filosofia da Universidade Biola, na Califórnia. É conferencista internacional e autor de dezenas de artigos e livros no campo da filosofia e da apologética. Em parceria com J. P. Moreland, escreveu a monumental Filosofia e cosmovisão cristã, além das obras Apologética para questões difíceis da vida, Em guarda e Apologética contemporânea, publicadas por Vida Nova.
Os seguidores de Jesus não precisam ficar amedrontados com perguntas difíceis ou mesmo objeções contra a fé cristã. Em 'A razão da nossa fé', o renomado filósofo e apologista William Lane Craig oferece dezenas de exemplos de como tratar alguns dos desafios mais comuns ao pensamento cristão.

Partindo de perguntas enviadas para o seu famoso website ReasonableFaith.org, o dr. Craig mostra a grande habilidade que tem de interagir com seus inquiridores de forma equilibrada, técnica e fundamentada nas Escrituras. A razão da nossa fé não se limita a apenas tratar de apologética; ela mostra como se faz apologética. Em coautoria com Joseph E. Gorra, esse livro também oferece conselhos para conceber e praticar um ministério de respostas às perguntas que nos são feitas em igrejas locais, nas situações de trabalho e em ambientes virtuais, na Internet. Se você está lutando para responder a perguntas difíceis ou está buscando respostas para seus próprios questionamentos intelectuais, A razão da nossa fé vai muni-lo de argumentos sólidos e da verdade escriturística.

Publicado por Vida Nova.

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