Alguns pensamentos sobre a apologética de Francis Schaeffer | John Frame

Francis Schaeffer (1912-1984)

Introdução explicativa

Steve Scrivener reuniu comentários de John Frame sobre a apologética de Schaeffer retirados de diversos livros de apologética escritos por John. Steve colocou algumas leituras adicionais, alguns emails trocados entre ele e John, e então formatou tudo em uma espécie de “perguntas e respostas” (de forma que as questões em itálico são de Steve). As notas de rodapé são de John, exceto quando indicado “SCRIVENER”.

Abreviações dos escritos de Frame

As seguintes abreviações foram utilizadas por John Frame nos escritos que foram citados:

AGGApologetics to the Glory of God: an Introduction (Phillipsburg, NJ: P&R Publishing, 1994 – Publicado no Brasil como Apologética para a glória de Deus, Ed. Cultura Cristã).

CGAD – Unpublished Westminster Theological Seminary, Philadelphia, Course outline for Christianity and the Great Debates (sem data).

CVTCornelius Van Til: An Analysis of His Thought (Phillipsburg, NJ: P&R Publishing, 1995).

DKGThe Doctrine of the Knowledge of God (Phillipsburg, NJ: P&R Publishing, 1987 – Publicado no Brasil como A doutrina do conhecimento de Deus, Ed. Cultura Cristã).

STTILSpeaking the Truth in Love: The Theology of John Frame, ed. John J. Hughes (Phillipsburg, NJ: P&R Publishing, 2009).

Perguntas e respostas

1. John, o quanto Francis Schaeffer influenciou você?

Eu só me encontrei com Schaeffer duas ou três vezes na vida talvez. Passei uma noite em seu chalé na Suíça em 1960, mas ele estava nos Estados Unidos naquela época. Eu esperava passar mais tempo por lá, mas Deus nunca abriu essa porta. Mesmo assim, relatos da obra de Deus no L’Abri agitaram minha alma, e procurei por oportunidades de ler suas cartas e, quando disponíveis, seus livros.

Cedo em meus estudos em Westminster (seminário teológico na Filadélfia, entre 1961 e 1964), li o artigo de Schaeffer intitulado “A review of a review”, publicado no The Bible Today[1]. Schaeffer estudou tanto com Van Til quanto com o editor do The Bible Today, J. Oliver Buswell. Buswell era um grande crítico de Van Til. O artigo de Schaeffer procurou aproximá-los. Muito do argumento de Schaeffer fez sentido para mim e, a partir dali, eu passei a acreditar que as diferenças entre Van Til e a apologética “tradicional” eram bem menores do que Van Til entendeu ser.

Ainda mais impressionante para mim, no entanto, era o exemplo de Schaeffer como evangelista. L’Abri buscou tanto dar “respostas honestas para perguntas honestas” para os visitantes quanto mostrar a eles um exemplo radical de hospitalidade e amor cristãos, uma “demonstração de que Deus é real”. Vim a conhecer muitos que foram convertidos através do L’Abri, ou ao menos foram profundamente influenciados por esse ministério. Quase sem exceções, esses crentes eram espiritualmente maduros, equilibrados e apaixonados pela verdade e pela santidade. Embora eu tenha acompanhado L’Abri à distância, influenciou meu ministério mais do que muitos dos que estavam próximos.

Meus anos de estudante em Westminster foram profundamente formativos. Particularmente, eu emergi completamente convencido da autoridade bíblica da epistemologia pressuposicionalista, modificada um pouco na direção de Schaeffer.

STILL, 19 e 20

2. Você disse (veja a pergunta 1 acima) que foi influenciado pelo artigo de Schaeffer para uma “epistemologia pressuposicionalista, modificada um pouco na direção de Schaeffer” e que “as diferenças entre Van Til e a apologética ‘tradicional’ eram, de alguma forma, menores do que Van Til acreditou ser”. Com respeito ao artigo de Schaeffer, além de ele dizer que “para alguns usamos os argumentos clássicos” (in #8(H) de seu artigo – veja a nota 1), o que Van Til contestaria e como você responderia? Em outras palavras, como Schaeffer influenciou você a partir do artigo?

Sobre a provável objeção de Van Til ao artigo de Schaeffer, penso que Van Til teria discordado fortemente com o argumento de Schaeffer de que a apologética de Buswell é conciliável com a de Van Til. Van Til pensava que o uso de evidências por Buswell dava crédito ao homem natural. Ele teria se sentido gravemente ofendido pela posição de Buswell (como demonstra Schaeffer na declaração #5: “Dr. Buswell diz, ao considerar melhorias nos argumento de Tomás de Aquino, que ele mesmo, proporia algumas conclusões lógicas ao homem não salvo, baseado em tais argumentos, e então mostraria a ele que ‘entre muitas hipóteses de existência eterna, o Deus da Bíblia é o mais razoável, o mais provável Ser eterno’”). Van Til sempre reprovou a noção de que o cristianismo deveria ser considerado como uma hipótese entre outras e então provado como “razoável” e “provável”. De fato, Van Til sempre se referiu a Buswell como tendo uma apologética não sã.

Agora, eu concordo com Schaeffer (#6) que as “concordâncias” de Buswell com a descrença deveria ser entendida como uma estratégia argumentativa e, portanto, não incompatível com aquilo que o próprio Van Til recomenda.

E penso que Schaeffer foi bem perspicaz em sua análise (#8) da inconsistência não cristã (e cristã) e a possibilidade de frutos desta inconsistência. Val Til também falou sobre a inconsistência não cristã, mas ele manifestou resistência quanto ao uso desta inconsistência como “ponto de contato”. Penso que esta é parte da falta de clareza geral de Van Til sobe a natureza da “antítese” entre crente e descrente, a qual eu discuti no capítulo 15 de meu livro CVT. O artigo de Schaeffer foi a raiz do meu sentimento de que a percepção de Van Til sobre a psicologia do descrente precisava de maior clareza. Eu me manifestei concordando com Schaeffer, e não com Van Til, sobre o fato de que é legítimo usar as inconsistências do descrente como ponto de contato. “Ok: você acredita na lógica, mas, se você realmente acreditasse na lógica, você seria um teísta”.

Email de John Frame de 20 de outubro de 2008

3. John, por favor, nos dê um breve esboço da apologética de Francis Schaeffer, a qual você descreve como “Pressuposicionalismo Modificado”, e faça uma avaliação dela.

1. Embora Schaeffer saiba muita coisa em diversas áreas, principalmente em história da arte, ele não é um acadêmico profissional. A maior parte do conhecimento dele vem de conversas com pessoas que estudaram em diversas áreas.

2. Essencialmente, Schaeffer é um evangelista. E como tal, ele é um dos melhores. Sua estratégia:

  • a. “Respostas honestas para questões honestas.”
  • b. Demonstração da presença de Deus em um estilo de vida.

3. Schaeffer muitas vezes fala como Van Til, com quem ele estudou. “Precisamos começar com pressuposições cristãs”.

4. Ainda assim, precisamos verificar todas as pressuposições através de testes de coerência, adequação factual e adequação na vida prática.

5. Análise da história do pensamento:

  • a. A era moderna é caracterizada pelo ceticismo sobre a verdade e o significado, uma recusa em distinguir claramente entre verdade e falsidade.
  • b. Tal mazela é vista primeiramente em Hegel, o qual definiu a verdade como a união de opostos.
  • c. Dessa forma, para testemunhar ao homem moderno, precisamos primeiro ensiná-lo a pensar – como Platão e Aristóteles – em termos de verdade como o oposto à falsidade, a lei da não-contradição.

6. Avaliação

  • a. Schaeffer alcançou bens mais óbvios nos últimos anos do que quase qualquer outra pessoa.
  • b. A ênfase tanto nos pressupostos quanto na verificação é importante (possivelmente um avanço em relação à ênfase de Van Til).
  • c. A ênfase em “ser capaz de viver com seus pressupostos” é uma importante ferramenta apologética, frequentemente ignorada por pressuposicionalistas. A dialética do racionalismo/irracionalismo aparece na vida prática, não apenas na teoria.
  • d. Mas Schaeffer não torna explícita a rejeição do homem natural de todos os padrões legítimos de verificação.
  • e. Ao chamar o homem moderno de volta à perspectiva grega de “verdade como antítese”,
  • i. Ele interpreta erroneamente a história. Hegel não foi o primeiro a abandonar a objetividade da verdade. Os gregos já eram bem ruins nisso. (E Kant é mais importante que Hegel para a forma distintivamente moderna de dialeteísmo.)
  • ii. Ele convoca os homens a uma noção neutra de verdade à parte das Escrituras, a qual crentes e descrentes compartilham de maneira comum. “A verdade não está, em última instância, relacionada à Bíblia”. (Em uma conversa privada, ele me disse que não quis sugerir isso, mas ele não conseguiu me mostrar nada em nenhum dos seus livros que evitasse tal ideia. Portanto, eu ainda afirmo que seus livros transmitem essa impressão.)
  • iii. Ele torna a aderência à “antítese” uma necessidade anterior para que alguém ouça o evangelho. Uma forma de “pré-preparacionismo”. Ao meu ver, não há preparação para a graça. Para educar as pessoas sobre o significado da verdade, nós precisamos ir às Escrituras, e isso é evangelismo, não pré-evangelismo.

CAGD, 71-71

4. Em CGAD (veja o ponto 3 acima) você diz que “verificar todos os pressupostos através de testes de coerência, adequação factual e adequação na vida prática… é importante; possivelmente um avanço em relação à ênfase de Van Til” com a qualificação de que “Schaeffer não torna explícita a rejeição do homem natural de todos os padrões legítimos de verificação” (d e f(2&4)). Você poderia explicar melhor essa questão (inclusive se você ainda concorda), tendo em vista que não tenho certeza se você disse isso em outro momento? Além disso, poderia explicar, em especial, por que o método apologético de Schaeffer está mais próximo de um “verificacionismo” que do pressuposicionalismo.[2]

Em termos epistemológicos, ocorre da seguinte forma: (1) Pressupomos as normas ou padrões para o conhecimento, (2) aplicamos eles aos fatos e evidências e (3) adotamos aquelas conclusões que cremos estarem avalizadas. (1) é normativo, (2) situacional e (3) existencial. Podemos errar, portanto, de três formas: (1) por pressupor as normas erradas, (2) por interpretar ou identificar as evidências de maneira errada ou (3) por extrair conclusões erradas da aplicação das normas aos fatos. Estes pontos estão perspectivamente conectados: o erro em um deles irá, logicamente, conduzir ao erro nos outros. Essa é a abordagem que desenvolvi em DKG.

Van Til não teria dito que devemos verificar os pressupostos (como dito em (d) na questão 3 acima). Mas ele acreditava que existia uma “prova absoluta para o teísmo cristão”, ainda que fosse uma prova circular em algum sentido. Quando falo de verificação por testes de coerência, fatos e adequação prática, estou me referindo a um argumento que é circular, mas amplo, ao invés de estreitamente circular (a distinção é apresentada nos meus escritos[3]). Então penso que, se Van Til compreendesse o que eu quero dizer por verificação, ele teria concordado comigo.

Com relação a Schaeffer, eu não penso que ele tenha desenvolvido um sistema filosoficamente rigoroso de coerência, evidência factual e adequação prática. Como eu disse no ponto 4 da questão 3, ele não diz explicitamente que o homem natural rejeita todos os parâmetros legítimos (ele diz, no entanto, em seu artigo[4], que a posição não cristã se reduz a irracionalismo, o que pode apontar para a mesma conclusão).

Mas quando ele defende o apelo à coerência etc., penso que devemos interpretá-lo da melhor forma possível, como a defesa (como eu e Van Til fazemos) em favor de um argumento que, em última instância, é circular, pois depende dos pressupostos bíblicos.

Email de John Frame de 20 de outubro de 2008.

5. As Declarações de L’Abri (The L’Abri Statements), de 21 de abril de 1997, qualificou posteriormente a declaração de Schaeffer em seu artigo no The Bible Today em que dizia que “para alguns usamos os argumentos clássicos”[5] ao dizer que “negamos a alegação tomista de que é possível argumentar a partir da ordem natural de forma independente de uma epistemologia enraizada na revelação especial de Deus”[6]. O que você pensa sobre a qualificação de L’Abri?

A declaração de L’Abri que você citou é interessante. Eu não a tinha visto antes. No entanto, Schaeffer era um evangelista, não um filósofo, e certamente não era um perito em epistemologia da apologética. Ele disse coisas como “a verdade não está, em última instância, relacionada à Bíblia” (uma citação crua de um de seus primeiros livros), o que faz pouco sentido. Ele frequentemente escrevia como se os filósofos gregos fossem modelos de crença na verdade objetiva, o que é, na melhor das hipóteses, um mal-entendido. Com exceção de seu artigo para o The Bible Today, o qual eu achei muito útil, não acredito que ele pensasse de forma muito clara nessas áreas. Mas a declaração de L’Abri que você citou, sobre o significado óbvio disso, diz algo que Schaeffer raramente estava disposto (se é que de fato estaria) a dizer durante sua vida. Definitivamente isso vai na direção de Van Til. E aplaudo.

Email de John Frame de 20 de outubro de 2008.

6. Como você compararia as análises da história da filosofia feitas por Van Til e por Schaeffer?

A análise de Van Til da história da filosofia é mais precisa e, penso eu, mais profunda que a de seu aluno Francis Schaeffer, ainda que haja ensinos muito úteis no pensamento de Schaeffer. Schaeffer argumenta que os filósofos gregos acreditavam em uma verdade absoluta, e que tal convicção permeou toda filosofia ocidental até a chegada de Hegel, o qual ensinou que a verdade e a falsidade poderiam ser, de alguma forma, combinadas de maneira dialética com o fim de atingir um nível supralógico de insight. Depois disso, disse Schaeffer, a cultura ocidental “escapou da razão” (referência ao livro A morte da razão), desesperada em sempre descobrir a “verdade verdadeira”.[7]

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Van Til, pelo contrário, achava os gregos tão irracionais quanto os modernos. A ideia sofista do “homem como medida”, ou Heráclito com seu “fluxo contínuo”, ou o “reino das opiniões” de Platão e mesmo a “matéria prima” de Aristóteles, o reino gnóstico do erro – todos eram, para Van Til, declarações clássicas do impulso irracionalista – o qual, para ser preciso, estava combinado no pensamento grego com o impulso racionalista. Mas, diz Van Til, mesmo o racionalismo grego não possui o tipo de objetividade que os cristãos deveriam aplaudir. O racionalismo grego está baseado na autonomia humana e, portanto, em conceitos vazios ao invés das riquezas da revelação divina.

Consequentemente, ao contrário de Schaeffer, Van Til não enaltecia a objetividade dos gregos, bem como não via uma mudança drástica para o irracionalismo na filosofia de Hegel. Platão, assim como Hegel, era tanto racionalista quanto irracionalista. As diferenças entre os dois eram diferenças de detalhes e de perspectiva histórica, não diferenças de algum tipo de compromisso subjacentes.

CVT, 237-238

7. O que você pensa sobre a influência de Van Til sobre Schaeffer e a crítica que o primeiro faz do último?

Eu acredito que Van Til… teve uma profunda influência sobre Francis Schaeffer e, através dele, sobre muitos outros. Schaeffer estudou com Van Til entre 1936 e 1937 e então o deixou para se juntar ao corpo de estudantes do recém-criado Faith Theological Seminary.  Schaeffer via a si mesmo como uma espécie de ponte entre Van Til e a apologética mais tradicional – particularmente a apologética de James Oliver Buswell –, e publicou um artigo para esclarecer isso no início da década de 1950.[8]

Schaeffer conduziu um ministério memorável na Suíça, primeiro para crianças, depois para adultos questionadores. Após algum tempo, o ministério se tornou conhecido como L’Abri, expressão francesa para “o abrigo”. Muitos vieram a professar a fé em Cristo através do trabalho de Schaeffer, principalmente jovens intelectuais. Do final da década de 1960 até sua morte, Schaeffer produziu vários livros refletindo a apologética que ele praticava entre esses questionadores.

Van Til escreveu um livro atacando a apologética de Schaeffer[9], mas não o publicou. Sua crítica a Schaeffer era muito próxima às críticas a Butler e Carnell: Schaeffer se apegava ao método tradicional; ele apresentava a fé cristã como um suplemento ao conhecimento do descrente; ele usava evidências e testes lógicos sem antes afirmar suas bases na revelação escriturística; ele tinha um olhar muito favorável para a epistemologia dos antigos gregos.

Eu acredito que Schaeffer realmente não foi claro em alguns pontos importantes, particularmente a existência de um conceito distintivamente bíblico de verdade. A base epistemológica de seu raciocínio é um pouco obscura. E Van Til é um guia muito mais confiável que Schaeffer na história da filosofia.[10] Mesmo assim, defendo Schaeffer na mesma medida em que defendo Butler e Carnell[11] e praticamente com a mesma argumentação.

De qualquer modo, é interessante observar que há elementos no pensamento de Schaeffer que o traz para mais perto de Van Til que a maioria dos apologistas tradicionais. Seu uso da Trindade para resolver o problema do uno e dos muitos veio direto de Van Til. E talvez seja mais significativo o fato de a apologética de Schaeffer ser transcendental de uma maneira mais explícita que a de Butler ou de Carnell. Schaeffer argumenta que a única alternativa à crença no Deus bíblico é a matéria, o tempo e o acaso, nos quais não há bases para a racionalidade, padrões morais ou valores estéticos.

Desde sua morte, a influência de Schaeffer continuou através dos ensinos e escritos de sua família e de seus discípulos como Os Guinness, Jerram Barrs, Ranald Macaulay, Udo Middelmann e Donald Drew. Entre estes, não encontramos muito da terminologia vantiliana. Mas, na minha opinião, seus escritos injetaram na apologética e na teologia evangélica um alto nível de inteligência, sabedoria, equilíbrio e percepção cultural, juntamente com uma grande preocupação com os princípios bíblicos. Nestes aspectos, eles são… netos de Van Til.

CVT, 395-396

8. Como Schaeffer usou argumentos ad hominem (ou o dilema racionalismo-irracionalismo de Van Til) de maneira eficaz e de que maneira eles são frágeis?

Descrentes também precisam ser desafiados a olharem para si mesmos e não apenas para os argumentos do cristianismo. Se eles não perceberem como o argumento se relaciona a eles, eles nunca serão persuadidos. Francis Schaeffer usou argumentos ad hominem de maneira muito eficaz que desafiavam o direito do descrente de falar como ele falava e, especialmente, de viver como ele vivia. Ele nos conta, por exemplo, sobre o compositor John Cage, que acreditava que o universo é puro acaso e buscava expressar isso em sua música. Mas Cage, que também era um plantador de cogumelos, disse certa vez que “Eu percebi que se eu me aproximasse dos cogumelos no espírito das minhas operações casuais, eu morreria brevemente. Então eu decidi não me aproximar deles dessa forma.”[12] Schaeffer comenta que “em outras palavras, aqui está um homem que tenta ensinar ao mundo o que o universo é intrinsecamente e o que a filosofia da vida realmente é e, ainda assim, não pode aplicar tais conceitos ao simples ato de colher cogumelos.” A filosofia do acaso de Cage não é refutada meramente porque Cage é incapaz de aplicá-la de maneira consistente. Ainda assim, seu argumento tem uma grande força. Primeiro, mostra que há algo de errado com a vida de Cage – algo que precisa mudar de uma forma ou outra. Segundo, enfraquece a atratividade da posição de Cage. A maioria de nós deseja uma filosofia que possamos viver, mas se até o próprio Cage não podia viver segundo sua própria filosofia, é pouco razoável que outros conseguirão. Terceiro, sugere problemas mais profundos no pensamento de Cage – a dialética racionalismo-irracionalismo como descrita por Van Til.

DKG, 286-287

A escolha é entre Deus e o caos, entre Deus e o nada, Deus e a insanidade. Para a maioria de nós, estas não são escolhas de forma alguma. Acreditar em um universo irracional não é sequer acreditar. É, como vimos, autocontraditório. Mas se alguém resolver viver sem lógica e sem padrões, não podemos impedi-lo. Ele com certeza aceita a lógica e a racionalidade quando toma decisões na vida real e, consequentemente, não viverá de acordo com sua irracionalidade teórica. É útil apontar esse ponto em várias situações apologéticas. Talvez o elemento mais persuasivo da apologética de Francis Schaeffer tenha sido sua ênfase de que irracionalistas (ou relativistas ou subjetivistas) não conseguem viver de forma consistente com suas crenças. De fato, quando alguém tenta viver como se não houvesse ordem racional (arbitrariamente caminhando entre carros em movimento etc.), é improvável que essa pessoa viva por muito tempo! Esta mensagem teve um grande impacto na mente de muitos.

AGG, 102 com nota de rodapé 18 (as duas últimas sentenças)

Ateísmo [Irracionalismo]

Entre os críticos da cultura, Francis Schaeffer e seus discípulos foram talvez os que apresentaram de forma mais vívida as implicações e os perigos do relativismo ateísta.[13] Eles caracterizam o período moderno como dominado por esse tipo de pensamento, em contraste ao pensamento mais racionalista dos períodos anteriores. Eles analisam arte moderna, música, filmes, filosofia e política nessas linhas, com conclusões apologéticas frutíferas.

Idolatria [Racionalismo]

…Os seguidores de Schaeffer tendem a minimizar a idolatria moderna, pois tendem a se comprometer com um modelo histórico em que o otimismo antigo em relação à razão e à ordem degenera em irracionalismo moderno (relativismo ateísta).[14] Eles estão tão comprometidos em[15] ver o homem moderno em termos de irracionalismo que frequentemente esquecem sua idolatria e seu dogmatismo – seu racionalismo.

AGG, 195 e 198

9. Como o trabalho de Schaeffer nos ensina a tratar os questionadores?

O questionador não deve ser tratado como estatística nem como alguém a ser manipulado por um comprometimento verbal; não deve tampouco ser tratado com desprezo, ainda que sua descrença seja abominável para Deus. Ele é um ser humano, feito à imagem de Deus, a deve ser amado e tratado com dignidade. O trabalho dos Schaeffers no L’Abri será um exemplo duradouro para nós no que diz respeito ao trabalho dedicado para se apresentar respostas bem pensadas em um contexto de amor e respeito.[16]

10. Quais são os escritores do grupo de Schaeffer que podem nos ajudar a conhecer as pessoas a quem estamos nos dirigindo?

A apologética não é direcionada apenas a indivíduos, mas também a famílias, a grupos, a nações (como no Antigo Testamento) e ao mundo. O apologista é frequentemente chamado para apresentar sua mensagem, não apenas individualmente, mas em discursos, publicações e em aparições na mídia. Para fazer isso de forma efetiva, é importante saber um pouco da mentalidade dos grupos aos quais se dirige. Quais são as características distintivas da cultura moderna? E da atual sociedade americana? Respostas a essas questões podem aumentar a eficiência do nosso testemunho aos indivíduos.

Livros e artigos escritos pelo grupo Schaeffer (Francis, Edith e Franky Schaeffer; Os Guinness, Donald Drew, Udo Middelmann e Hans Rookmaaker)… estão entre as fontes mais úteis para esse propósito dentro da comunidade reformada.

DKG, 365-366

Leitura complementar

Bahnsen, Dr. Greg L. (editado por Joel McDurmon) Presuppositional Apologetics: Stated and Defended (Georgia: American Vision and Texas: Covenant Media Press, 2008), páginas 241–268.

—. Van Til: Apologetics Readings & Analysis (Phillipsburg, NJ: P&R Publishing, 1998), pages 16–17n54, 52–53, 466 e 537–545.

Boa, Kenneth D. and Bowman, Robert M. Faith has its Reasons: An Integrative Approach to Defending Christianity (Colorado: NavPress, 2001), páginas 462–476.

Edgar, William “Two Christian Warriors: Cornelius Van Til and Francis A. Schaeffer Compared,” Westminster Theological Journal 57 (1995), 57–80.

Follis, Bryan A. Truth with Love: the apologetics of Francis Schaeffer (Ilinois: Crossway Books, 2006), especialmente as páginas 29-30, 61-67, 99 e 107–122 para uma comparação entre os métodos apologéticos de Van Til e Schaeffer.

Schaeffer, Edith L’Abri (Ilinois: Crossway Books; 2nd Revised and Expanded edition, 1992)

Schaeffer, Francis A:

As obras abaixo estão disponíveis em edições modernas ou em The Complete Works:

—. Trilogy: Three Essential Books in One Volume: The God Who Is There, Escape from Reason and He Is There and He Is Not Silent (UK: Leicester: Inter-Varsity Press or USA: Ilinois: Crossway Books, 1990). Veja principalmente as seções 4 e 6 e o Apêndice B de The God Who Is There. (Publicado no Brasil pela editora Cultura Cristã com os seguintes títulos: O Deus que intervém, A morte da razão e O Deus que se revela).

—. The Complete Works of Francis Schaeffer: A Christian Worldview, Volume One, A Christian View of Philosophy and Culture (UK: Carlisle: Paternoster Press or USA: Ilinois: Crossway Books, Second edition, 1985). Essa obra contém The God Who Is There, Escape from Reason e He Is There and He Is Not Silent, e o acréscimo de um importante Apêndice A, “The Question of Apologetics” ao The God Who Is There.

—. How Should We Then Live?: The Rise and Decline of Western Thought and Culture (Ilinois: Crossway Books; 50th Anniversary edition, 2005) – Publicado no Brasil pela editora Cultura Cristã sob o título Como viveremos?.

—. The Complete Works of Francis Schaeffer: A Christian Worldview, Volume Five, A Christian View of the West (UK: Carlisle: Paternoster Press or USA: Ilinois: Crossway Books, Second edition, 1985). Essa obra contém How Should We Then Live: The Rise and Decline of Western Thought and Culture.

_________________

[1] Oct., 1948, 7-9. Disponível em: https://www.pcahistory.org/documents/schaefferreview.html.

[2] SCRIVENER: Parte III do artigo de Bill Edgar’s, Two Christian Warriors: Cornelius Van Til and Francis A. Schaeffer ComparedWTJ 57:1 (Primavera 1995): 57–80; Bryan Follis Truth with Love: The Apologetics of Francis Schaeffer(Ilinois: Crossway Books, 2006), 99, 107–120; Dr. Greg L. Bahnsen (editado por Joel McDurmon) Presuppositional Apologetics: Stated and Defended (Georgia: American Vision and Texas: Covenant Media Press, 2008), 248-252 e Van Til: Apologetics Readings & Analysis (Phillipsburg, NJ: P&R Publishing, 1998), 16–17n542. Embora compare Kenneth D. Boa e Robert M. Bowman, Faith has its Reasons: An Integrative Approach to Defending Christianity (Colorado: NavPress, 2001), 472–473.

[3] SCRIVENER: Veja DKG, 130–33 and 376 (maxim 18); AGG, 14.

[4] SCRIVENER: Veja nota de rodapé 1 acima.

[5] SCRIVENER: Veja nota de rodapé 1 acima, 8(h).

[6] SCRIVENER: https://www.labri.org/pdf/The-LAbri-Statements.pdf, página 15.

[7] Schaeffer, The God Who Is There (Downers Grove III.: Inter-Varsity Press, 1968), 1–29.

[8] SCRIVENER: Veja nota de rodapé 1 acima.

[9] SCRIVENER: Veja “The Apologetic Methodology of Francis A. Schaeffer” (1977), Eric H. Sigward, ed. The Works of Cornelius Van Til, 1895-1987 [Logos] CD-ROM (New York: Labels Army Co., 1997).

[10] Veja minhas notas [sob 6 acima].

[11] SCRIVENER: Veja CVT, 269-297, especialmente as conclusões de Frame em 296-297.

[12] Francis Schaeffer, The God Who is there (Chicago; Inter-Varsity Press, 1968) 73f.

[13] Esse grupo inclui a esposa de Schaeffer, Edith, seu filho Frank, sua filha Susan Macaulay, e os membros atuais e passados da Sociedade L’Abri, como Os Guinness e Jane Stuart Smith.

[14] Seria interessante notar o quanto isso está relacionado ao pré-milenismo de Schaeffer.

[15] Meu contraste entre ateísmo e idolatria é muito próximo a um equivalente relacionado ao contraste entre irracionalismo e racionalismo feito por Van Til.

[16] Veja Edith Schaeffer. L’Abri (Wheaton, III.: Tyndale House, 1969) e The Tapestry (Waco, Tex.: Word Books, 1981).

Traduzido por Felipe Wieira e revisado por Jonathan Silveira.

Texto original: Some Thoughts on Schaeffer’s Apologetics

John Frame é um filósofo e teólogo calvinista, especialmente conhecido por seu trabalho nas áreas de epistemologia e apologética pressuposicionalista, teologia sistemática e ética. É considerado como um dos principais estudiosos das obras de Cornelius Van Til.

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