Amando a si mesmo pelo bem do próximo? | Jonathan Silveira

Disse Jesus: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” (Lucas 10.27b)

Se a dúvida existente nos tempos de Jesus era sobre quem é o próximo merecedor do nosso amor, a dúvida que pode existir hoje em dia é: como vou amar o meu próximo como a mim mesmo, se eu não me amo?

O erro fariseu girava em torno da palavra “próximo”. “Quem é o meu próximo?”, pergunta o cínico fariseu a Jesus, como se um coração misericordioso e compassivo pudesse ficar parado enquanto a mente examina se um candidato sofredor se encaixa na definição de próximo ou não. Hoje, o erro gira em torno sobre o que significa “como a si mesmo”. Supõe-se que Jesus está convocando as pessoas ao amor a si mesmas, para que possam amar os outros como a si mesmas. “Como será possível, eu, miserável ser condenado à existência, amar alguém, se eu mesmo não me amo?”, indaga o depressivo, sofredor de baixa autoestima ou autoaceitação.

Na verdade, esse tipo de pensamento desvia-se do real sentido das palavras de Jesus, que não ordenou o amor a si próprio, mas o pressupôs. Ao dizer que se deve amar o próximo como a si mesmo, Jesus não estava dizendo que o desenvolvimento de uma autoestima elevada é uma condição para amar o próximo. Na verdade, ele pressuponha que ninguém odeia a si mesmo. Em outras palavras, o que Jesus está dizendo é: “Você deve amar o próximo como você, na verdade, já ama a si mesmo”. O amor por si mesmo, portanto, não é um mandamento, mas um pressuposto.

De fato, como afirma John Piper, “ninguém neste mundo jamais odiou sua própria carne no sentido extremo de escolher o que tem certeza que produzirá a maior desgraça”.

Nesse sentido, Karl Barth declara:

“A vontade de viver é a vontade de ter alegria, prazer, felicidade. […] Em toda pessoa autêntica a vontade de viver é também a vontade de ter alegria. Em tudo o que deseja, deseja e objetiva que também isso exista para ela de algum modo. Ela busca coisas diferentes com a intenção, expressa ou não, mas muito definida, mesmo que inconsciente, de conseguir alegria. […] É hipocrisia esconder isso de si mesmo. E a hipocrisia seria à custa da verdade ética de que deve querer ser feliz, do mesmo modo que deve querer comer, beber, dormir, ter saúde, trabalhar, defender o que é certo e viver em comunhão com Deus e com seu próximo. Quem tenta privar-se dessa alegria, certamente não é uma pessoa obediente” (Citado por John Piper em Em busca de Deus – a plenitude da alegria cristã. Ed. Shedd. São Paulo, 2008. p. 175).

Blaise Pascal também diz que:

“Todas as pessoas buscam a felicidade. Não há exceção para isso. Por mais diferentes que sejam os meios que usam, todos têm esse fim em vista. A razão de alguns fazerem guerra e outros a evitarem é o mesmo desejo, visto de lados diferentes. A vontade jamais dá um passo sequer que não seja nessa direção. Essa é a motivação de toda ação de qualquer pessoa, até das que se enforcam” (Citado por John Piper em Em busca de Deus – a plenitude da alegria cristã. Ed. Shedd. São Paulo, 2008. p. 175).

C. S. Lewis, por fim, afirma:

“Você não ‘ama’ a si mesmo em razão de suas ‘qualidades amáveis’. Talvez, em momentos de vaidade, você atribua qualidades a si, mas essa não é a causa de seu amor próprio, mas um dos produtos disso. Em outras ocasiões, quando você se despreza, você ainda deseja a sua própria felicidade. Essa atitude em relação a si é ditada pela natureza, já em relação a outros, precisa ser adquirida” (C. S. Lewis Institute (Reflections, November 2010 – Loving others). Ed. Paul F. Ford, Yours, Jack: Spiritual Direction from C.S. Lewis (New York: Harper Collins, 2008), 76-77).

Portanto, todos, em maior ou menor grau, amam a si mesmos. Todos buscam felicidade, todos se importam com alimentação, prazer, descanso, paz etc. Amar a si mesmo é o desejo de diminuir a dor e aumentar o prazer, e todos os seres humanos possuem essa característica incutida em sua natureza.

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É bom ressaltar que a posição de Jesus não é afetada diante do fato de muitas pessoas terem uma noção distorcida do que é bom para elas. Pessoas podem buscar seu bem em drogas, bebidas alcoólicas, no sexo ilícito etc. Contudo, como afirma John Piper, “todos os seres humanos desejam e encontram o que acham, pelo menos na hora de escolher, que os tornará mais felizes”.

Assim, o amor por si mesmo, além de ser pressuposto por Jesus, é bem diferente da autoestima que se pode imaginar em suas palavras. Amar a si mesmo é simplesmente cuidar de si mesmo – traço inerente à natureza humana. Jesus está dizendo, portanto, que, do mesmo modo que você cuida de si com alimentação, higiene, lazer etc., faça o mesmo ao seu próximo.

Jonathan Silveira é graduado em Direito pela Universidade São Francisco e mestre em Teologia pelo programa Master of Divinity da Escola de Pastores da Primeira Igreja Batista de Atibaia. É casado com Carrie, membro na Igreja Batista da Palavra, em São Paulo, trabalha na área de produção editorial e marketing em Edições Vida Nova e é fundador e editor do site Tuporém.

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