Apologética seletiva | Maurício Zágari

Fui levado a uma profunda reflexão quando, recentemente, assisti a um desses vídeos que circulam pelas redes sociais. Nele ouve-se o áudio de um conhecido pregador reformado falando sobre como vivemos na geração mais débil e superficial de cristãos que já houve na história. Até aí, ok, eu parcialmente concordo com ele (parcialmente pois, afinal, já houve muitas outras gerações problemáticas de cristãos). O que mais chamou minha atenção, porém, foram as imagens que o editor do vídeo escolheu para ilustrar o áudio do sermão.

Enquanto o pregador fala, corretamente, sobre como somos uma geração de crentes mimada e fraca, totalmente diferente da geração dos mártires do Coliseu, a pessoa que editou o vídeo vai inserindo imagens de, basicamente, três tipos: cenas de reteté em igrejas pentecostais, cenas de pessoas dançando em igrejas pentecostais e cenas de pregadores neopentecostais praticando bizarrices.

Preciso dizer, primeiro, que estou de acordo com a ideia transmitida. Não sou adepto do reteté ou de sandices neopentecostais. Meu foco nesta reflexão, porém, não é aquilo que foi retratado no vídeo, mas o que não foi retratado.

Se tomarmos o tal vídeo como referência dos absurdos da igreja de nossos dias, vamos acreditar que tudo o que nos distancia da solidez e da fibra espiritual dos mártires do Coliseu são exageros pentecostais e bobagens neopentecostais. Porém, os problemas da igreja de nossos dias vão muito, mas muito além disso. E nem de longe se restringem aos círculos carismáticos.

Penso que o vídeo deveria, sim, mostrar – como mostra – Kenneth Hagin e suas heresias. Deveria, sim, mostrar Agenor Duque e seus absurdos. Deveria, sim, mostrar pessoas agindo com histeria dentro de igrejas. Mas também deveria mostrar pregadores reformados sendo arrogantes e vaidosos. Deveria, sim, mostrar professores de seminários históricos tratando com deboches irmãos de quem discordam doutrinariamente. Deveria, ainda, retratar postagens em redes sociais de seminaristas que metem o malho como brutos em quem vota no político diferente de quem eles gostam. O vídeo deveria mostrar a imensa ausência, em certos grupos de cristãos protestantes, de pacificadores, gente que dá a outra face, líderes que amam os inimigos, expoentes da teologia que abençoam quem os amaldiçoa, preletores de grandes congressos que falam bem de quem fala mal deles, e por aí vai. Porque, creia, bizarrices são apenas a ponta do iceberg dos pecados desta geração.

Sim, as bobagens que surgem em alguns rincões pentecostais e neopentecostais são uma pequena parte do nosso desvio. Muito daquilo que nos diferencia dos mártires do Coliseu tem a ver não com manifestações extravagantes e visíveis, mas com o que se passa dentro do coração, traduzido visivelmente como vaidade, autoritarismo, arrogância, senso de superioridade moral e espiritual, falta de irenismo, grosseria no falar, desqualificação de quem pensa diferente, politicagens eclesiásticas, disputas de poder, dissensões e facções, entre tantos outros pecados praticados diariamente e sem arrependimento por respeitáveis defensores da sã doutrina. Nenhum fariseu e mestre da lei da época de Jesus caía no reteté ou derrubava gente sacudindo o paletó; ainda assim, aqueles religiosos foram duramente confrontados por Cristo. Por quê? Você sabe.

Leia também  Desafios do mundo pós-moderno e estratégias missionárias | Jonathan Silveira

Jesus falou em seus dias sobre o erro que o editor do tal vídeo viria a cometer dois mil anos depois, que é o pecado de muitos dos que se empavonam por fazer parte da “igreja saudável”: “Por que você se preocupa com o cisco no olho de seu amigo enquanto há um tronco em seu próprio olho? Como pode dizer a seu amigo: ‘Deixe-me ajudá-lo a tirar o cisco de seu olho’, se não consegue ver o tronco em seu próprio olho? Hipócrita! Primeiro, livre-se do tronco em seu olho; então você verá o suficiente para tirar o cisco do olho de seu amigo” (Mt 7.3-5).

As bizarrices e as bobagens que vemos por aí são um cisco no olho da igreja? Atrevo-me a dizer que são um tronco. O problema é que não temos denunciado os muitos outros troncos que rasgam nossos olhos e que fingimos não existir ou que nem nos damos conta de que são opróbio. E que fazem parte entranhável do que há de ruim na igreja de nossos dias.

Fato é que nossas igrejas teológica e doutrinariamente saudáveis estão impregnadas de pecados individuais e institucionais bastante fedorentos, que fingimos não existir, dos quais não nos arrependemos, que não abandonamos e que nada têm a ver com extravagâncias pentecostais ou heresias neopentecostais. Porém, enquanto ficarmos praticando essa apologética seletiva, para não confrontarmos os próprios pecados e não nos indispormos com os manos da nossa patota teológica, estaremos coando mosquitos e engolindo camelos. E, creia, isso causa uma tremenda indigestão.

Maurício Zágari é membro da Igreja Cristã Nova Vida em Copacabana (Rio de Janeiro, RJ), é casado com Alessandra e pai de Laura. É teólogo, escritor, editor e jornalista. É autor de vários livros, dentre eles "O fim do sofrimento", "Perdão total no casamento" e "Perdão total na igreja". Escreve regularmente em seu blog Apenas (apenas1.wordpress.com).

7 Comentários

  1. Carlos Antunes disse:

    Paz. Claro que talvez não seja seu propósito,mas este artigo, poderia virar uma tese, ou até um livro. Benção de Deus.

  2. Israel Amaral disse:

    Que análise lúcida, equilibrada e imparcial.
    Raramente vi um “reformado” ser tão auto-analítico dessa forma.
    O ponto que mais me chamou a atenção é sobre a questão da arrogância e prepotência de varios pregadores “reformados” que visam humilhar, chacotear e debochar de quem descorda e pensa diferente. Isso tem sido corriqueiro.

    Além de tudo, creio que faltou uma citação afirmando que nem todos carismáticos praticam esses movimentos infantis.

  3. Joelson disse:

    Um oasis no meio da mesmice. Parabéns.

  4. Marcio Vinicius Santos Neves disse:

    Este artigo está de parabéns, humildade do escritor em apontar não somente os erros neopentecostais e os pentecostais, mas também os pecados mais comuns no meio reformado. Botou o dedo na ferida da Igreja, agradeço a sua sinceridade. Nem todo mundo tem estomago de fazer isso.

  5. Robert Diego disse:

    Muito coerente, e acredito que falta honestidade interior e soberba religiosa.

  6. Geraldo disse:

    no meio reformado, é muito ego, muito exibicionismo, pregadores se tornaram produtos, a fé reformada virou comércio, mas ninguém denuncia isso, uma voz sequer se levanta, é dificil entenderrrrr

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *