Apologética, tecnologia e ciberespaço: Uma entrevista com Douglas Groothuis

Douglas Groothuis

Tuporém: Você escreveu bastante sobre apologética. Quando estudamos o assunto, encontramos apologistas com diferentes visões sobre como fazer apologética. Na sua opinião, existe um método de apologética que você considera mais adequado e bíblico?

Douglas Groothuis: Todos os principais sistemas têm as suas vantagens, mas eu uso a abordagem de caso cumulativo* para defender o cristianismo como uma verdade objetiva, atraentemente racional e existencialmente pertinente para a totalidade da vida. Esta visão apresenta a cosmovisão cristã como uma hipótese confirmada por várias linhas convergentes de provas: ciência, história, filosofia, a condição humana, a confiabilidade da Bíblia, a identidade de Jesus, a necessidade humana de Deus, e várias outras. Cada argumento confirma um elemento essencial do cristianismo como verdadeiro e racional.

Tuporém: Como os cristãos devem fazer apologética em um mundo pós-moderno?

Douglas Groothuis: Eles devem fazê-lo em espírito de oração, repetidamente, e humildemente.  Não podemos presumir que pessoas pós-modernas creiam na verdade objetiva e no poder da razão para descobri-la. Portanto, devemos defender a ideia de verdade objetiva (ou a visão da verdade como correspondência) e recomendar a razão como amiga da pessoa sábia, e não como inimiga do cristianismo. Veja meu livro Truth Decay (InterVarsity Press, 2000).

Tuporém: O cristianismo afirma exclusividade na pessoa de Jesus Cristo. Esta alegação, no entanto, soa arrogante e muito politicamente incorreta nos dias atuais, já que as pessoas tendem a acreditar que todos os caminhos levam ao céu. Por que o cristianismo é a única religião verdadeira? O que é tão especial no cristianismo?

Douglas Groothuis: Precisamos apresentar a singularidade e a supremacia de Cristo como o Deus encarnado de maneira factual, lógica, e relacional.

1. A verdade pode contradizer nossos sentimentos.

2. O Novo Testamento afirma exclusividade e divindade de Jesus: João 8:58; Atos 4:12; 1 Timóteo 2:15, João 14: 6, etc.

3. O Novo Testamento é historicamente confiável.

4. Podemos defender que Jesus era o que ele e os discípulos disseram que ele era:

  • A. Jesus afirmou sua exclusividade e divindade.
  • B. Se ele mentiu, ele era um homem mau.
  • C. Ele não era um homem louco.
  • D. Se ele foi enganado, ele era um homem doente.
  • E. Ele não era um homem doente.
  • F. Portanto, ele era quem dizia ser.

Eu defendo essa abordagem em detalhes em “In Defense of the Incarnation”, em Christian Apologetics (InterVarsity Press, 2011).

Tuporém: Quando nos concentramos em apresentar evidências para a existência de Deus, os apologistas clássicos tendem a apelar para o argumento cosmológico, o argumento do ajuste fino e o argumento moral (que são argumentos poderosos, por sinal). No entanto, em seu livro “Apologética Cristã”, você também menciona um argumento muito interessante intitulado “argumento antropológico de Pascal”. Você poderia nos explicar, em linhas gerais, sobre o que se trata este argumento?

Douglas Groothuis: Este é um argumento de uma etapa. Se bem-sucedido, ele não apenas comprova o teísmo, mas o teísmo cristão. O argumento cosmológico, por exemplo, apoia o teísmo, mas deixa em aberto se a Primeira Causa é a mesma que o Deus da Bíblia. (Nós usamos outros argumentos para demonstrar isso.)

O argumento é que o cristianismo explica a condição humana – de grandeza e de miséria – melhor do que qualquer outra cosmovisão. Outras visões de mundo ou exaltam a grandeza à custa da miséria, ou o contrário. As doutrinas cristãs da criação e queda explicam ambas. Somos feitos à imagem de Deus, mas pecamos contra Deus. Somos uma “realeza deposta”, como ele disse e, como tais, precisamos de um Salvador. Assim, tem-se uma apologética ligada a este argumento. No entanto, ele pode ser complementado por muitos outros argumentos científicos, filosóficos e históricos.

Tuporém: Um dos problemas mais complexos e controversos que as pessoas estão debatendo hoje em todo o mundo parece estar relacionado à identidade de gênero. Muitos teóricos têm defendido a identidade de gênero como uma construção cultural que alguém pode adquirir. Você poderia comentar sobre como devemos responder a essa ideologia, fornecendo uma defesa cristã robusta?

Douglas Groothuis: A Bíblia ensina que Deus criou os seres humanos à sua própria imagem e semelhança. Isto garante a dignidade a todos nós, em nossa natureza humana. Deus estabeleceu as categorias de macho e fêmea para todos os seres humanos, com cada sexo tendo a sua sexualidade sancionada e sua ética sexual. Qualquer coisa que se desvia da monogamia heterossexual decorre da queda. Isso inclui a homossexualidade, o lesbianismo, a poligamia, o incesto, a bestialidade, e muito mais. Confira como Levítico 18 e Romanos 1:18-32 falam sobre essas perversões. No entanto, em um mundo caído, até mesmo alguns que vão a Cristo ainda sofrerão com a desorientação sexual. Mas, como seguidores da Bíblia, eles não devem agir com base em seus desejos sexuais, mas serem celibatários. A igreja não pode comprometer este ensino, caso contrário perderá a sua alma e violará o ensinamento das Sagradas Escrituras.

Tuporém: É sempre importante lembrar que os ataques ao cristianismo algumas vezes não se apresentam como ideias, mas também como estilos de vida que nos são pregados pela sociedade, os quais podem nos fazer conformar ao padrão deste mundo (Romanos 12.1). Neste contexto, uma das questões que você chamou atenção diz respeito à tecnologia e a recente tendência à vida no ciberespaço, conforme apresentado em seu livro The Soul in Cyberspace. Quais são algumas das ideias anticristãs que podem estar presentes nas tecnologias modernas de internet e na forma como as usamos?

Douglas Groothuis: As tecnologias computacionais aumentam a velocidade e extensão da transferência de informações. Isto é muitas vezes útil nas áreas de comércio (eu amo a Amazon) na comunicação com pessoas que estão distantes. No entanto, estas tecnologias podem ser desumanizantes, uma vez que separam as informações da presença pessoal. Se não tivermos cuidado, as pessoas podem acabar parecendo meras mensagens ou ícones. Encontros face a face e reuniões de igreja sem pastores que recebam toda a atenção têm um valor excepcionalmente importante para a comunhão, discipulado e evangelismo. Além disso, estas tecnologias podem tomar todo o nosso tempo e esforço, distraindo-nos de outras atividades como ler, orar, evangelizar, sermos politicamente ativos, e muito mais.

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Tuporém: Com base nas reflexões feitas anteriormente por Marshal McLuhan e Neil Postman, em seu livro você também discute como as telas e o hipertexto alteram a forma como nos relacionamos com o mundo ao nosso redor. Quais são algumas das maneiras nas quais isso acontece?

Douglas Groothuis: O meio sempre afeta a mensagem. Ouvir um sermão pessoalmente é uma experiência diferente do que vê-lo em uma tela ou simplesmente ouvi-lo em um podcast. A presença pessoal não pode ser reduzida a qualquer tipo de transferência de dados. Quando falo com grandes grupos, a minha imagem é algumas vezes projetada em uma ou mais telas. Mesmo que eu esteja bem na frente das pessoas, elas muitas vezes olham para a tela, o que diminui a força da minha mensagem e sua recepção.

O melhor ambiente para o ensino é o da sala de aula, e não online. Nela o professor faz contato visual e interage face a face, e em tempo real, com seres humanos encarnados. Apenas uma parte desta realidade pode ser capturada em qualquer formato de ensino online.

Os links de hipertexto, que são agora onipresentes na internet, podem desviar a nossa concentração de um artigo ou resenha, transferindo-a para outro lugar. Isso é útil para encontrar mais informação, mas não é propício para aprender com profundidade. Para isso, o livro tradicional é insuperável. O livro não nos tenta a clicar em um link. Tampouco ele nos interrompe com notificações de e-mails recebidos, telefonemas, mensagens do Facebook, etc.

Tuporém: Alguns capítulos de seu livro lidam com as comunidades virtuais e a questão do “Cristianismo online”. De forma resumida, qual é a sua avaliação do uso das mídias sociais, blogs e canais do YouTube pela igreja para proclamar o evangelho e nutrir os cristãos? Quais são algumas das vantagens e perigos associados a isso?

Douglas Groothuis: Estes meios podem fornecer material piedoso. Eles também podem facilmente tornar-se fóruns para apologética de segunda categoria, ensinamentos morais pobres, ou quaisquer coisas que alguém queira publicar. Poucos ou nenhuns filtros existem para controlar a qualidade do conteúdo na Internet. Assim, deve-se procurar fontes de informação de boa reputação, como o site de William Lane Craig: Reasonable Faith. Para informações sobre darwinismo e Design Inteligente, consulte The Discovery Institute.

O discipulado, o ensino da Bíblia, a construção de uma cultura piedosa, a apologética e o evangelismo – todos funcionam melhor em ambientes pessoais. Quando estou mentoreando um jovem, desejo encontrar-me com ele, jantar com ele, dar-lhe um abraço. A dimensão pessoal é facilmente perdida online. No entanto, nem tudo precisa ser pessoal. Pode-se ouvir uma palestra de Francis Schaeffer de quarenta anos atrás e ser muito edificado, mesmo que Schaeffer tenha morrido em 1984. Mas nunca devemos esquecer que Jesus passou tempo com seus seguidores. Eles aprenderam a partir de tudo o que ele fez: seus milagres, seus ensinamentos, sua forma de lidar com as pessoas. Considere este texto do apóstolo João:

“Muitas coisas tinha que te escrever; todavia, não quis fazê-lo com tinta e pena, pois, em breve, espero ver-te. Então, conversaremos de viva voz.” (2 João 12).

João queria estar com os cristãos, uma vez que até mesmo a sua carta inspirada não poderia substituir isso.

Tuporém: Que conselhos você encontra nas Escrituras para os jovens que podem estar preferindo se envolver com (ou até mesmo viciados em) comunidades virtuais e os ambientes simulados dos jogos, ao invés do “mundo real”?

Douglas Groothuis: Pais e pastores devem incentivar os jovens a desenvolverem suas habilidades de comunicação face a face. Pode-se realizar eventos nos quais dispositivos eletrônicos não sejam permitidos. O Summit Ministries não permite que seus alunos de ensino médio usem estes dispositivos dentro de seu prédio. Eu peço que meus alunos de graduação façam um jejum de mídia, no qual eles deixam de usar um ou mais meios de comunicação eletrônicos por dez dias, e então escrevam os resultados. A maioria deles fica profundamente afetada, descobrindo que gastam mais tempo com isso do que pensavam, e que suas vidas melhoram quando se abstêm de alguns meios de comunicação. Eles oram mais, ficam menos estressados, menos lascivos, mais reflexivos. Isso pode ser profundo.

Tuporém: Finalmente, como cristãos, como você acha que poderíamos desenvolver discursos e práticas refletindo os valores do Reino de Cristo em um mundo que serve, como Neil Postman cunhou, o “deus da Tecnologia”? O que devemos aceitar e o que devemos rejeitar nesta área?

Douglas Groothuis: Esta é uma grande pergunta. Devemos estudar a Bíblia à luz de nosso uso da tecnologia. Por que as Escrituras valorizam tanto a escrita? Por que ela nos alerta para com os ídolos? Como produzimos o fruto do Espírito online? Como deveríamos usar o tempo, os talentos e o dinheiro que Deus nos deu em nossa sociedade tecnológica? Será que precisamos do celular mais recente ou da TV de tela grande? Como essas tecnologias onipresentes afetam nosso senso de si, dos outros e de Deus?

A leitura dos perspicazes críticos de mídia é útil para nos dar perspectiva, como Neil Postman, Jacques Ellul, e Marshall McLuhan (embora ele fosse mais sutil do que Postman e Ellul). Eu escrevi um livro perto do início da explosão da Internet chamado The Soul in Cyberspace (Baker, 1997) e desde então tenho publicado vários artigos e comentários sobre este tema.

Ao lermos sobre a introdução e os efeitos de tecnologias mais antigas, podemos obter sabedoria sobre como usar o Facebook ou Instagram.

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* Uma apresentação do método de caso cumulativo pode ser encontrada em http://voltemosaoevangelho.com/blog/2012/03/uma-introducao-as-cinco-visoes-sobre-apologetica/

Traduzido por Fernando Pasquini e revisado por Jonathan Silveira.

Douglas Groothuis é professor de filosofia no Denver Seminary. Coordena o curso de apologética cristã e ética e dirige o Gordon Lewis Center for Christian Thought and Culture. Obteve seu PhD em filosofia na University of Oregon em 1993, e está no Denver Seminary desde então.

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