Arábia e a epifania do fatalismo | Rachel Watson

James Joyce (1882-1941)

A observação conduz a epifanias

Uma vez tive uma aluna que não lidava bem com o silêncio. Quando ela estava no carro, ela aumentava o volume do rádio. Se ela estivesse sozinha em casa, ela ligava a televisão. Ela gostava de filmes com perseguições de carros e explosões estridentes. Ela gostava de conversar, mas ficava nervosa se a conversa se aprofundasse demais. Quando eu lhe perguntava o que achava de assuntos espirituais como vida após a morte, a resposta era clara: “Eu tento não pensar a respeito dessas coisas.”

A observação deixa algumas pessoas desconfortáveis. A reflexão parece ser reservada ao poético ou ao introspectivo. Há algo, porém, a ser dito sobre a desaceleração de ritmo longa o bastante para se absorver as conversas, os eventos e as pessoas em nossas vidas. Se não observamos ou refletimos, não teremos muitas epifanias. Ernest Hemingway disse que “se um escritor parar de observar, ele está acabado”. Neste quesito, James Joyce é muito bem-sucedido. O personagem principal de seu conto Arábia presta atenção a tudo dos livros velhos, “as páginas que eram onduladas e úmidas”, até à silhueta de sua paixão, “sua imagem definida pela luz da porta entreaberta.”

Arábia faz parte de uma coletânea de contos de James Joyce chamada Dublinenses, publicada em 1914. O conto se concentra em um jovem que experimenta a epifania da derrota. Apesar de sua juventude, suas reflexões o levaram a concluir que a vida é uma série de esforços vãos (Ec 1.14). Somos tentados, em algum grau, a essa conclusão. Todos nós devemos lidar com a decepção. Quando, porém, nossa esperança é Cristo, a ideia de derrota eterna se torna derrotável.

Epifanias do fatalismo

James Joyce apresenta a ideia de fatalismo nessa história, a crença de que alguém não possui qualquer influência sobre o mundo, uma vez que o futuro é inevitável ou pré-determinado. O personagem principal em Arábia é, em última instância, atingindo por essa cosmovisão. Por quê?

Bem, tudo começa com uma garota.

“Enquanto falava, ela fazia girar um bracelete de prata. Disse que não poderia ir.”

A tensão e a expectativa são criadas na medida em que ele se prepara para ir ao bazar em Arábia a fim de encontrar essa garota, a garota perfeita. Isso é tudo que ele consegue pensar:

“Queria suprimir os tediosos dias de espera. Os deveres da escola irritavam-me. À noite, no quarto, durante o dia, na aula, sua imagem interpunha-se entre meus olhos e a página que me esforçava em ler. No silêncio em que minha alma vagava luxuriosamente, as sílabas da palavra Arábia remetiam-me a um encanto oriental.”

Suas esperanças rapidamente se esvaziam na medida em que obstáculos como o atraso de seu tio, a perda de algumas moedas de seu bolso e ter que lidar com comerciantes condescendentes e fofoqueiros o impedem de alcançar seu objetivo. Quando ele chega, a maior parte das lojas estão fechadas. Ele olha em vão para alguns itens caros e acaba indo para casa de mãos vazias. As últimas linhas resumem sua epifania fatalista:

“Pasmo na escuridão, eu me vi como uma criatura tangida e ludibriada pela vaidade.”

A soberania de Deus satisfaz

Os ídolos são implacáveis quando falhamos com eles e são menos que apologéticos quando eles falham conosco. Em Arábia, o jovem está tão arrebatado por sua paixão que começa a adorá-la:

“Todas as manhãs, sentava-me no chão da sala da frente para vigiar a porta da sua casa. […] Isto repetia-se todas as manhãs. Nunca havia falado com ela, a não ser algumas frases ocasionais e, no entanto, para o meu sangue inebriado seu nome era um apelo irresistível.”

Ele se desanima quando os detalhes da vida entram no caminho de seu objetivo:

“Quase não tinha paciência para suportar os deveres cotidianos que, interpondo-se entre mim e meu desejo, pareciam brinquedos de criança, brinquedos desagradáveis e monótonos.”

Tendo em vista que todas as suas esperanças estão presas a ela, ele é deixado sem nada quando tais esperanças não se concretizam. Ele conclui que a vida é vaidade e meramente “correr atrás do vento”. Sabemos que o escritor de Eclesiastes chegou a conclusões semelhantes:

“Que vantagem tem o homem em todo o seu trabalho,

em que tanto se esforça debaixo do sol?” (1.3)

“Todas as coisas resultam em canseira;

ninguém consegue explicá-las.” (1.8)

Chegamos ao fatalismo quando colocamos nossa esperança naquilo que não é Deus, e então vemos essa esperança se desmoronar. Fatalismo é aceitar que somos impotentes. Como cristãos, porém, nossa impotência não está despida de esperança. John Piper explica: “Em última instância, o pensamento fatalista é a descrença na promessa de Jesus de que ‘isso é impossível para os homens, mas não para Deus, pois para Deus tudo é possível (Marcos 10.27).” Há esperança porque Deus é soberano. Seu poder não torna nossas orações e ações inúteis. Em vez disso, Ele recompensa aqueles que o buscam (Hb 11.6).

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Ao contrário do jovem no final da história de James Joyce, podemos ter altas esperanças sobre o impacto que faremos neste mundo. Em Colossenses 1.29, Paulo articula a confiança que ele tem no poder de Deus. Essa confiança não faz com que ele se sente e desista. Em vez disso, ele diz aos colossenses que está “lutando de acordo com a sua eficácia, que atua poderosamente em mim.” A onipotência de Deus nos fortalece. Sua soberania não nos conduz à resignação, mas ao regozijo.

O que o hino quer dizer com a pergunta: “Não tens visto que todos os teus anseios têm sido concedidos naquilo que Ele ordenou?”[1] Quando nossos anseios são para Deus e para um futuro com Ele, não experimentaremos uma derrota ao estilo de Arábia. Desfrutaremos da mesma expectativa que o jovem sentiu ao se preparar para sua missão, mas, diferentemente dele, seremos satisfeitos. Eis uma diferença importante entre a crença fatalista e o cristianismo: sabemos que há algo mais para vir, algo maior. Conhecemos o Deus em quem confiamos. Com Cristo, a resposta à pergunta de Sam Gamgee em O Senhor dos Anéis (“Tudo que é triste se tornará inverídico?”) é um sonoro sim.

Minha epifania

Após refletir em minha própria decepção ao longo dos anos, eu também tive uma epifania. Quando a satisfação pessoal se torna meu alvo, a derrota é inevitável. Quando Cristo, porém, é meu tesouro e a soberania de Deus é minha esperança, estou satisfeita. Amy Carmichael uma vez escreveu:

“Eu sei que às vezes não vemos como aquilo que nos é concedido pode ser o que desejamos, mas é. Afinal, o que o profundo de nosso eu desejava não era nossa própria vontade natural, mas a vontade de nosso Pai. Assim, o que nos é dado é o desejo de nosso coração.”

Que contraste com a natureza sombria do fatalismo retratada na história de James Joyce. A autoridade de Deus não destrói a esperança, mas a restaura.

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[1] “Has thou not seen/how all thy longings have been/granted in what He ordaineth?”. Referência ao hino “Praise to the Lord, the Almighty”, de Lobe den Herren.

Traduzido e revisado por Jonathan Silveira.

Texto original: Araby and the Epiphany of Fatalism

Rachel Watson é estudante de teologia na Universidade de St. Andrews e professora de inglês. Esforça-se para mostrar a seus alunos como pensar, construir discernimento e desfrutar de ótimas literaturas. Escreve para o The Bible Is Relevant, The Gospel Coalition, RELEVANT e The Englewood Review. Você pode segui-la no Twitter e no Facebook.

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