Arquitetura, arte e apologética | Luiz Adriano Borges

Gostaria de falar sobre arquitetura, arte e apologética focando como exemplo duas igrejas famosas, Sagrada Família em Barcelona e Capela Sistina no Vaticano. O intuito é apontar como a arte pode expressar verdades transcendentais, que pode trazer maravilhamento àquele que observa, sendo ele religioso ou não. Não estamos falando em uma perspectiva puramente utilitária da arte, mas sim, que, através da arte as pessoas podem se sentir movidas para apreciar e refletir sobre verdades eternas e valores objetivos.

Comecemos nosso tour pela igreja em Barcelona. O templo expiatório da Sagrada Família, sua designação oficial, é uma obra da arquitetura modernista, iniciada em 1882 e assumida por Antoni Gaudí a partir de 1883. Ainda não está completa e sua finalização é prevista para 2026, quando se celebrarão cem anos da morte do construtor.

Catedral da La Sagrada Familia. Projetada pelo arquiteto Antonio Gaudí.

A igreja é impressionante (quem quiser pode fazer o tour virtual: https://sagradafamilia.org/visita-virtual), imponente, recheada de elementos simbólicos que podem ser perdidos para o visitante mais desatento. O templo conta a história da redenção bíblica esculpida em pedra. Exteriormente, existem três fachadas, contando a história da vida de Cristo: a Fachada da Natividade, a Fachada da Paixão e a Fachada da Glória. Na medida em que o visitante adentra este espaço, é levado a levantar a cabeça para observar os detalhes da construção; uma velha artimanha dos construtores religiosos para atrair os fiéis a olhar para as alturas. Aqui, é impossível não suspirar e se surpreender com a genialidade inspirada de Gaudí. Sua profunda inspiração nas Escrituras e na natureza é latente em cada detalhe da construção: já no exterior, a fachada mais famosa, a que conta a história do nascimento de Cristo, nos remete a troncos de árvores altíssimas; na faixada da Paixão, nos lembramos de um esqueleto e músculos humanos. Mesmo no interior, quando olhamos para cima, as colunas terminam na abóbada com estruturas que nos lembram galhos de árvores. O uso da luz também é impressionante; dependendo do horário, novos detalhes são revelados dentro do templo.

 

Mas o que pode chamar mais a atenção ao visitante, e é um ponto importante para o argumento desse texto, é a parte da imagética. No interior da igreja há uma ausência de imagens de santos, sendo somente Cristo, a luz do mundo, representado logo acima do altar. Nas fachadas externas, como já comentamos, temos imagens que contam a história da vida de Cristo, mas não é uma arte como costumamos ver em templos católicos, mesmo que Gaudí tenha seguido a liturgia católica na elaboração de todo o simbolismo.

O uso de correntes arquitetônicas e artísticas do período foi pensado pelo arquiteto para ser a marca de cada parte que fosse sendo construída. Sabendo que seria um projeto que levaria décadas, ele dispôs no desenho arquitetônico que a arte fosse disposta de maneira a seguir a corrente da época em que estivesse sendo executada. É por isso que podemos ver na fachada da Natividade reminiscências do cubismo, e na Fachada da Paixão, iniciada em 1954 e finalizada em 2009, uma arte mais austera, sem tanta ornamentação, destacando-se a nudeza da pedra, com estilo mais contemporâneo.

Poderíamos escrever muitas linhas mais sobre os detalhes presentes na Sagrada Família, mas o que dissemos já basta para os intentos do presente texto: toda a arquitetura e arte presentes no templo levam qualquer um a se impressionar e a refletir sobre a história ali contada. Mesmo o não cristão é levado a questionar (como se apresenta escrito em metal em uma das portas) “O que é a verdade?”.

E após passar por essa porta, chegando na Fachada da Paixão, vemos nas imensas pilastras formas esqueléticas e músculos, nos passando uma imagem tétrica de sofrimento. Quem teria sido esse Cristo que passou por tanto sofrimento? Qual a razão desse sofrimento? O que difere esse homem, de outros tantos líderes religiosos e grandes mestres da moral? A resposta está ali, documentada no monumento: Cristo ressuscitou, ele é a Verdade.

Quando estiver finalizada a Fachada da Glória anunciará, de maneira estrondosa, a Glória celestial de Jesus. A Beleza da vida eterna, com Deus, está presente e contada em cada pedra, metal, vidro, escultura e mosaicos construídos por alguém verdadeiramente inspirado pela Palavra de Deus. Sua obra canta as maravilhas da criação, da queda e da redenção de uma maneira disponível tanto para o mais ignorante quanto para o homem ou mulher mais sábios aos olhos do mundo. Gaudí sabia que a raça humana precisa saber discernir Deus nos livros escritos da Palavra e da natureza. Sua inspiração na natureza para contar a história da redenção em pedras é um presente para a humanidade e que não passa despercebida mesmo pelo ateu mais ferrenho. Talvez, nem milhares de páginas de obras apologéticas façam um serviço melhor na demonstração da Verdade, do que uma visita à Sagrada Família. A busca por se aprofundar na história contada neste templo não deixa ninguém incólume à sua gritante mensagem.[1]

Agora, viajemos centenas de quilômetros a oeste para o Vaticano, em Roma. Aqui teremos mais um exemplo de uma ótima relação entre arquitetura, arte e apologética.

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Para quem tem o mais leve gosto por história sabe que em Roma pululam obras de artes, escultóricas e arquitetônicas. Todos já ouviram falar da Capela Sistina, que faz parte do complexo do Vaticano, e suas impressionantes pinturas. Mais marcantes ainda (se isso é possível dentro de um local recheado de pinturas) são o teto e a cena do Juízo Final, pintados por Michelangelo.

Normalmente a Capela está abarrotada de pessoas, mas isso não é problema porque se pode sentar nas laterais do recinto para observar e refletir sob as pinturas. A construção em si não é nada demais aqui – os diversos arquitetos que comandaram a construção queriam que o visitante se deslumbrasse com o interior, com a parte imaterial da narrativa que suas pinturas estão contando. (Aliás, já perceberam que a maioria das igrejas mais antigas não têm nada demais no exterior, mas quando adentramos somos surpreendidos?).

Olhamos para o teto e podemos gastar horas e horas percebendo cada detalhe que nos conduz pela história da Salvação. Foram diversos artistas que elaboraram os vários afrescos que ornam o interior do templo, mas o que tem chamado mais a atenção ao longo dos séculos são as pinturas de Michelangelo na abóbada e na parede do altar.

No teto há um grande afresco contando a história do Gênesis, com a Criação de Adão como o centro. Esta é uma das pinturas mais impressionantes de Michelangelo e de todo o período Renascentista.

A Criação de Adão (c. 1511), Michelangelo

O último julgamento, pintado no altar da Capela conta a segunda vinda de Cristo e o julgamento da humanidade por Deus. Este afresco é muito imponente, com centenas de figuras retratas, mas o que nos foca a visão é a proeminência central de Cristo; aqui vemos uma teologia profundamente cristocêntrica, mesmo dentro de um contexto católico. Toda a história, criação-queda-redenção, possui Cristo como o Salvador e Redentor da História.

O Último Julgamento (1541), Michelangelo

É impossível ficar indiferente frente ao que nos está sendo contado aqui. O observador fica enlevado e profundamente tocado, independentemente de sua religião; a arte tem esse potencial, que foi amplamente explorada e levada a outro patamar pelos artistas renascentistas. Glorificar a Deus através de obras de arte e arquitetura tem a capacidade de atrair pessoas para refletir sobre a criação; pessoas que muitas vezes não são cristãs. Milhares de pessoas visitam esses lugares todos os meses e nem todas são religiosas; são atraídas pela excelência artística demonstrada em telas, afrescos, arquiteturas e esculturas.

A corrente de arquitetura atual, não somente religiosa, mas principalmente esta (com exceções), preza por um funcionalismo exacerbado, que se baseia em uma busca pela funcionalidade e utilidade em detrimento da beleza. Veja-se os templos religiosos modernos. Não está mais presente a busca pela beleza vertical, que força o observador a levantar os olhos para os céus, e a narrativa de uma “história”. Essa busca por funcionalidade esboça bem a visão do homem moderno: pressa e eficiência. Não há mais tempo para se sentar em um banco de igreja, apreciar e refletir sobre a História da Salvação e assim meditar sobre nosso papel nela. Mesmo que argumentemos que a cosmovisão cristã genuína aponte que a Igreja não é somente um templo material, ainda assim a arquitetura (e a arte) bem executada demonstra nosso louvor às coisas imateriais. Deus capacitou os construtores do Templo de Jerusalém para fazerem uma bela obra. Se os cristãos não dão valor à arte, não se pode reclamar que a boa arte esteja corrompida. A beleza é um valor transcendental e não está somente nos olhos do observador. Não há dúvidas quanto à excelência e a qualidade quando se está na presença das obras de Gaudí e Michelangelo. Apreciar as formas da natureza e a criação humana estão nos planos de Deus quando ele nos encarregou de cultivar a Terra. Ele mesmo esboçou desenhos arquitetônicos e artísticos na elaboração do Tabernáculo e os passou oralmente a Moisés.

Como quis apontar nesse texto, a arquitetura e obras de artes possuem em si características inerentes de trazer reflexão, questionamento e maravilhamento. Mas a arte e a arquitetura moderna perverteram esse último elemento. Buscam trazer reflexão e questionamento através da feiura, do escárnio e do grotesco.

Mas existem exceções. Não nos esqueçamos que o templo da Sagrada Família é uma construção modernista e traz traços da arte do século XX. Nem por isso deixa de maravilhar quem adentra seu recinto.

Estamos tão atarefados e tão focados no aqui e agora que nos esquecemos de parar, respirar e pensar para além do nosso presente século. Essas obras de arte e de arquitetura nos dão um vislumbre da eternidade.

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[1] Mais informações sobre simbolismos e a construção da igreja, aqui: https://es.wikipedia.org/wiki/Templo_Expiatorio_de_la_Sagrada_Familia#Fachada_de_la_Pasi%C3%B3n

Luiz Adriano Borges é professor de história na UTFPR-Toledo, lecionando sobre história da técnica, tecnologia e sociedade, filosofia, sociedade e política. Sua área de pesquisa centra-se na História e Filosofia da Tecnologia e da Ciência. Seus projetos mais recentes são: “A visão cristã da tecnologia” e “Esperança em Tempos de guerra. Ciência, tecnologia e sociedade em Tolkien, Huxley, Lewis e Orwell (1892-1973)".

4 Comentários

  1. Lisse disse:

    Ótimo texto. Realmente triste como a beleza e a arte tem sumido de nossas igrejas.

  2. Márcia Macedo d'Haese disse:

    Muito bom o teu texto e tua análise, Luiz Adriano. Trazem mais perto da nova geração valores preciosos sobre o poder da arte, da comunicação, da expressão. São de fato obras maravilhosas, inspiradas, impressionantes, que chamam a serem observadas, descritas, contempladas. Proporcionam um estado de espírito elevado e contemplativo muitas vezes desconhecido ou desprezado pelas novas nuances deste século, mas ainda assim presente, (felizmente) em expressões na arte, hoje. Que a história continue sendo referência.

  3. Tal disse:

    Muito bom o texto. Esses lugares devem ser realmente espetaculares ao vivo. Com certeza estes artistas e arquitetos tiveram uma unção e capacitação divinas pra realizarem obras tão inspiradoras e que perduraram por tanto tempo.

  4. Wallace Vieira de Jesus disse:

    Porque será que as igrejas cristãs evangélicas não valorizam a arte na construção do templo?

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