As quatro criaturas: Perelandra e exploração espacial | Luiz Adriano Borges

Perelandra

No mês passado fomos surpreendidos pela notícia de que existe possibilidade de vida em Vênus. Isto é surpreendente porque esse planeta é bastante inóspito para a vida: é o mais quente do sistema solar, possui uma atmosfera tóxica, com chuvas ácidas. Mesmo assim, foi detectado um gás chamado fosfina, que pode ser indício de vida. Na Terra, esse gás fedorento é produzido predominantemente por bactérias, então isso seria uma “bioassinatura” que sinalizaria a presença de seres vivos. Não é preciso dizer que isso reacendeu a esperança de vida fora da Terra e olhares já foram redirecionados para o planeta. Alguns astrônomos já dizem que ali pode estar o futuro da humanidade.

Esses dias também curiosamente cheguei a Vênus por outro caminho e fiz a conexão com a notícia acima. Tudo começou com a leitura da passagem de Ezequiel 1, em que o profeta descreve uma visão que teve de quatro seres viventes e, na hora, lembrei que C. S. Lewis se influencia nessa passagem para descrever o que seus personagens encontram no planeta Vênus.

Leia Ezequiel 1 e tente imaginar o que está se desdobrando aos olhos do profeta. A coisa mais bizarra aparece, nuvem, quatro seres viventes, um trono e, por fim, o Senhor Deus no trono. Descrever a glória celestial é impossível em nossa linguagem limitada. É somente algo aproximado. Na atualidade, a despeito de termos todos os filmes e séries com seus efeitos especiais, ainda é difícil conceber tais seres. A narração desta passagem de Ezequiel é algo mais que uma descrição do que se está enxergando através do sentido da visão, é uma descrição fenomenológica dos seres angelicais, isto é, uma tentativa de explicação de como os seres se apresentam para o profeta, como o fenômeno que se está experimentando é percebido em todos os sentidos.

“A Visão de Ezequiel” (Rafael c. 1518)

A visão da Glória de Deus é demais e o profeta vai ao chão. Para nós, a descrição de quatro seres, com aparência humana, mas também com partes de animais, com quatro rostos, asas, resplandecentes como tochas acesas, rodas… tudo é muito estranho. Imagine então para um judeu do século VI a. C.! O fato é que Deus se apresenta para comissionar o profeta da maneira como este, em sua insignificância cognitiva, conseguisse compreender. Apesar de esquisita, a imagem grudaria na mente do profeta com suas multiplicidades explicativas. Porém, tentar apreendê-la completamente é um trabalho colossal; a experiência é única, mas representa todo o desdobrar da história: as monarquias da época, os evangelistas e a consumação dos tempos. Não podemos compreender totalmente como Ezequiel se sentiu ao ver tal maravilha, mesmo que ele tenha tentado nos explicar ao deixar sua experiência escrita. É aqui que a literatura, especialmente uma passagem de uma ficção de C. S. Lewis, nos ajuda a compreender um pouco mais.

No segundo volume da “Trilogia Cósmica”, Lewis faz referência à sacralidade da visão celestial, bem semelhante à visão de Ezequiel. A inspiração é clara. Nesta segunda incursão ficcional, Lewis nos leva a “Perelandra”, o planeta que conhecemos como Vênus, na carona de Ransom, o herói do livro. Neste planeta pré-edenico, há somente dois habitantes corpóreos, o Rei e a Rainha, tais como Adão e Eva.  O que se desdobra é toda uma tensão psicológica e física da Queda do Homem.

Mas o ponto que me levou a lembrar da descrição de Ezequiel se encontra no final de “Perelandra”, quando Ransom tem contato com dois seres angelicais ou hipersomáticos, como diz Lewis (capítulo 16). A descrição desses seres espirituais é muito semelhante ao relato bíblico, tendo Lewis querendo chamar atenção e até dar uma explicação teológica e fenomenológica para a aparência deles. A passagem é belíssima e conseguimos sentir um pouco melhor como Ezequiel devia ter se sentido. A primeira tentativa de apresentação visual por parte dos seres celestiais produz em Ransom um terror, o levando a gritar para que eles parem de mostrar toda a sua glória, uma glória terrível e impossível de se conseguir compreender com os olhos e a mente. Em uma segunda tentativa, os seres se apresentam tal qual Ezequiel nos descreve, o que torna a visão um pouco menos desconfortável, pelo reconhecimento da descrição bíblica. Mas ainda assim é algo espantoso. Ransom pede para que os seres tentem uma vez mais. Aí duas figuras humanas gigantes surgem, reconhecíveis, mas difíceis de se distinguir totalmente, pois sua essência continua sendo hipersomática, isto é, excessivamente (hiper) corpórea (soma), trazendo a concepção grega de corpo em sua plenitude.

Ransom tenta explicar isso para nós:

“Pensamos que, quando criaturas de tipo hipersomático resolver[em ‘aparecer’ para nós, elas na verdade não afetam a nossa retina, mas manipulam diretamente partes importantes do nosso cérebro. Se for assim mesmo, é muito possível que elas podem produzir as sensações que teríamos se nossos olhos fossem capazes de perceber aquelas cores no espectro que na verdade estão além do seu alcance.” (Perelandra, p. 280).

Ransom não conseguiu explicar totalmente o que estava vendo e concluiu que tudo aquilo se referia a amor, mas um amor puro, espiritual, emanando dos rostos dos seres.

A visão das quatro criaturas. “Bíblia em ação”, p. 457

A aparência desses dois anjos remeteu Ransom à imagem terrena da mitologia grega de Marte e Vênus. Os seres tratam de explicar o que aquilo significava e Ransom “finalmente entendeu por que a mitologia é o que é – lampejos de força e beleza celestiais caindo sobre uma selva de sujeira e imbecilidade. Ele corou de vergonha da nossa raça quando contemplou os verdadeiros Marte e Vênus, e se lembrou das tolices que lhe foram ditas a respeitos deles na Terra” (Perelandra, p. 284).

Mesmo assim, não era a forma como eles realmente eram, porque “somente Deus vê uma criatura como ela realmente é”. Marte explica ao confuso terráqueo que ele “só vê uma aparência (…). Você nunca viu mais do que uma aparência de seja lá do que for – nem de Arbol (o sistema solar), nem de uma pedra, nem do seu próprio corpo.” (Perelandra, p. 284). Aqui, a passagem de 1Coríntios 13.12 faz eco, “Agora vemos as coisas como num espelho e de maneira confusa. Naquele dia, iremos vê-las frente a frente. Agora o meu conhecimento é imperfeito, mas naquele dia vou conhecer como Deus me conhece a mim.” É a concepção de que temos acesso parcial à realidade. Podemos confiar nos nossos sentidos, mas só até certo ponto, porque a real visão das coisas só nos será dada quando tivermos nossos órgãos transformados pela ressurreição em Cristo.

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Espero que Lewis tenha nos esclarecido sobre o fato de que a realidade é mais complexa do que imaginamos. Se apontarmos um telescópio para os céus, se examinarmos tudo sob o microscópio, não teremos garantia de que acessamos toda a realidade, mas sim uma parte dela. Uma parte bem pequena.

Mas, o que tudo isso tem a ver com a possibilidade de vida em Vênus?          

Lewis tinha algumas preocupações com a possibilidade de exploração interplanetária.

A cosmovisão da maioria dos primeiros entusiastas das viagens espaciais perpassava a negação do transcendental e mantinham um niilismo desesperado no futuro da raça humana. Para estes, tudo o que existia era o material, imanente e a ciência e a tecnologia poderiam ajudar a aperfeiçoar moral e fisicamente o ser humano. A busca por vida inteligente fora da terra seria uma busca por preencher um vazio existencial do ser humano, que se sente solitário num universo aparentemente sem sentido. O futuro da raça humana está lá fora.

Isso nos remete às motivações de se encontrar vida inteligente em outros planetas: há motivações de curiosidade científica, que é saudável; mas também há motivações egoístas, econômicas e existenciais. O anúncio da possibilidade de vida em outro planeta em meio a meses de pandemia e isolamento forçados, vai contra a dicotômica insuficiência e arrogância científica humana, no sentido de que achamos que podemos resolver tudo através da ciência e da tecnologia.

Olhando para sua própria cultura inglesa e suas questões coloniais, Lewis, no artigo “Religião e Foguetes”, quando menciona viagens espaciais, tem um tom cético com relação ao benefício cósmico da expansão humana para outros planetas. Ele diz que:

“Nós sabemos o que nossa raça faz com estranhos. O homem destrói ou escraviza todas as espécies que pode. O homem civilizado mata, escraviza, engana e corrompe o homem selvagem. Mesmo a natureza inanimada, ele a transforma em poças de areia e montes de escória. Existem pessoas que não o fazem. Mas elas não são do tipo que provavelmente serão nossos pioneiros no espaço. Nosso embaixador para novos mundos será o aventureiro necessitado e ganancioso ou o perito técnico implacável. Eles farão o que sempre fizeram. O que acontecerá se eles encontrarem coisas mais fracas que eles, o homem negro e o índio podem dizer. Se eles encontrarem coisas mais fortes, eles serão devidamente destruídos.” (Religião e Foguetes, em A última noite do mundo, p. 107).

Não à toa, ele coloca essa posição de soberba com relação ao tratamento das outras espécies em seus dois protagonistas antagônicos ao herói Ransom no primeiro livro da Trilogia Cósmica: o cientificista Weston e o tecnocrata Devine. Estes elementos são fundamentais na ficção científica de Lewis: o imperialismo sendo justificado por ideais calcados na evolução e na noção de progresso.

O cientificista Weston, quando se apresenta à entidade protetora do planeta Marte, discursa que estaria preparado para estabelecer a bandeira nesse planeta e que, se fosse necessário, eliminaria as “formas inferiores de vida que encontrarmos, [assumindo] planeta após planeta, sistema após sistema, até a nossa posteridade (…)[procurando] habitar no universo onde este é habitável” (p. 189). A visão utilitarista dos cientistas da virada para o século XX, que cujos meios justificavam os fins maiores para a raça humana, fica evidenciada aqui; eliminação em massa não seria um problema.

Ainda no artigo “Religião e Foguetes” Lewis escreve: “Eu já me perguntei se as vastas distâncias astronômicas não seriam precauções de quarentena de Deus. Elas impedem que a infecção espiritual de uma espécie caída se espalhe” (p. 107).

Olhamos para a natureza com o único intento de dominação, porque não conseguimos ver além do que nossos olhos e nossa mente enxergam. Houve um desencantamento do mundo na modernidade que retirou a sacralidade da vida e da natureza. A visão tecnológica e científica é que tudo está a nosso dispor, seja o nosso próximo, a natureza terrestre e até outros planetas.

Assim, encontrar sinais de vida em Vênus, e isto em meio a uma pandemia que abala a existência humana e sua confiança na ciência, traz um alento para certas mentes, mas deve nos fazer mais uma vez olhar para a maneira como temos tratado do nosso mundo e a maneira como temos cuidado da vida neste planeta. A esperança escapista de povoar outros planetas perpassa pela dessacralização da vida e da natureza. O contexto em que Ezequiel teve sua visão das quatro criaturas, em que Lewis escreveu sua viagem a Vênus e nosso próprio contexto de possibilidade de assinatura de vida em outro planeta contém semelhanças: em um mundo que perdeu o sentido, ora pelo povo judeu ter sido tornado cativo em uma terra estranha, ora pelo contexto de guerra, ou pelo contexto de uma doença pandêmica, a ressignificação se faz mais que necessária. O cristão é aquele que sabe que a humanidade é caída e que vai produzir idolatria, guerras e que doenças irão surgir; o cristão deve ser alguém que olha pra Cristo e percebe que tudo pode ser redimido através do sacrifício expiatório do Messias e não através unicamente de sua ciência e tecnologia.

A crença de vida em outros planetas muitas vezes esconde uma busca egoísta por planetas que possam nos acolher, caso esse se esgote. Não investimos em ressignificar nossa vida aqui, redimindo a ciência, a tecnologia, as relações interpessoais, o meio ambiente. Nossos investimentos estão em fazer remendos velhos em concepções velhas. Não surpreende que as ficções científicas relacionadas à exploração de outros planetas, que já aparecem na antiguidade, sempre estejam relacionadas ao contexto de exploração de outras regiões e outros povos aqui na terra. Somente quando os seres humanos tiverem a noção de que a realidade é mais profunda do que ciência e tecnologia e de que não teremos acesso total a ela desse lado da eternidade é que nossas expectativas serão ajustadas, e nossa atuação no mundo será diferente. Essa é a esperança cristã, uma confiança que nos coloca céticos com relação aos poderes humanos autônomos, mas enche de expectativa pela volta daquele que fará novas todas as coisas.

Luiz Adriano Borges é professor de história na UTFPR-Toledo, lecionando sobre história da técnica, tecnologia e sociedade, filosofia, sociedade e política. Sua área de pesquisa centra-se na História e Filosofia da Tecnologia e da Ciência. Seus projetos mais recentes são: “A visão cristã da tecnologia” e “Esperança em Tempos de guerra. Ciência, tecnologia e sociedade em Tolkien, Huxley, Lewis e Orwell (1892-1973)".

1 Comentário

  1. Pedro H. Lima disse:

    Muito boa essa conversa! Eu achava muito estranha a ideia de que possa haver vida consciente em outros planetas, como articulada pelo Lewis, mas agora consigo entender melhor de onde ele vem. Haja ou não, ainda somos homens caídos necessitados de Cristo e chamados a remir a vida toda para a glória de Deus, e Ele é Senhor sobre toda sorte de criaturas no universo.

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