Bandersnatch: Você está no controle? | Thiago Oliveira

(…) um peixe colocado numa terra seca é perfeitamente livre, a saber, para expirar e perecer, enquanto que um peixe, que realmente é livre para viver e desenvolver-se deve estar totalmente cercado pela água e guiado por suas barbatanas. – Abraham Kuyper, em Calvinismo

No final de 2018, a Netflix disponibilizou o filme interativo Black Mirror Bandersnatch (BMB). O filme é um atrativo à parte da série antológica criada por Charlie Brooke que já possui milhões de fãs pelo mundo e, atualmente, tem quatro temporadas. Black Mirror é uma série focada no uso da tecnologia e como esta vem nos moldando ética, social e psicologicamente. Alguns episódios já não parecem tão futurísticos e nos soam familiar. Aliás, essa é a grande sacada de toda obra sci-fi, tratar de problemas atuais num cenário futuro. Confesso que sou fã de Black Mirror e sempre aguardo com grande expectativa a próxima temporada. Cada episódio nos dá boas sacadas para debatermos uma gama de assuntos, todavia, desejo focar em BMB. Se você não viu, trate de ver.

BMB é uma excelente e divertida experiência. Algumas pessoas reclamaram que a interatividade não é tanta. Outros não gostaram da forma que o enredo se repetia dependendo das escolhas a serem feitas. Mas tudo isso é proposital. Não é uma falha. Não é algo que ainda será aprimorado num próximo enredo interativo. BMB não é um joguinho. É uma obra que tem na sua narrativa a provocação acerca de como nossas escolhas estão limitadas à contingência do mundo. E como o mundo tecnológico limita cada vez mais nossas escolhas, ao mesmo tempo em que nos passa a impressão de que estamos no controle – devido ao grande leque de interatividade tecnológica. Se você assistiu e ficou na bronca por não ter se achado “totalmente” livre ao fazer as escolhas que o enredo permitia, então você foi trolado.

As reflexões acerca do livre-arbítrio são pertinentes e fazem jus à filosofia da série. Há em todo o universo Black Mirror uma reflexão acerca da contingência, isto é, de como determinadas coisas acontecem por conta de ações que desencadearam que aquela possibilidade se tornasse real diante de condicionalidades que permitam tal desencadeamento. (Para entender melhor, lembrem da teoria sobre Pac Man num dos melhores diálogos de BMB). E é esse o ponto de reflexão que nos leva até para a Teologia e nos fazem debater sobre um tema que é o objeto de um embate que vem atravessando os séculos entre calvinistas e arminianos.

A ideia do livre arbítrio é extremamente comum em nossa cultura. Os católicos defendem a ideia do livre arbítrio, assim como, os arminianos e outras variáveis do protestantismo. Do lado oposto, estão os calvinistas que negam o livre arbítrio e buscam exercer sua teologia sempre baseando-se na soberania de Deus. Por conta disso, muitos colocam o calvinismo como sendo determinista e rechaçam sua doutrina por não considerarem que o homem não seja verdadeiramente livre. Mas não é isso que o calvinismo prega. Os calvinistas não negam que o homem tenha liberdade, eles apenas tratam-na sobre outra perspectiva – e com o extremo cuidado para não macular a soberania divina.

O homem é um ser livre por fazer escolhas. Só que dizer que o homem tem livre arbítrio implica em dizer que ele é capaz de escolher o bem ou o mal sem nenhum auxílio que venha da operação da graça. Para os não-calvinistas o homem é voluntariamente capaz de escolher ou rejeitar Cristo, pois a liberdade da sua vontade é o pressuposto que adotam. No calvinismo, a ideia da depravação total impede que pensemos no livre arbítrio como uma realidade ontológica do ser humano. Os calvinismos falam de livre agência, pois consideram que o homem faz escolhas, todavia, existe a condicionalidade de sua natureza, que, por ser pecaminosa (como nos diz as Escrituras), afeta a vontade – e consequentemente aquilo que se escolhe ou se rejeita.

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A supracitada doutrina da depravação total se baseia na antropologia bíblica, sobretudo nos escritos do apóstolo Paulo, que utilizou sete termos para descrever os aspectos do homem natural/decaído. São eles: alma (psychç); espírito (pneuma); carne (sarx); corpo (sôma); coração (kardia); mente (nous); e consciência (syneidçsis). Em suas cartas, Paulo argumenta que o pecado afeta cada uma dessas partes, fazendo com que o ser humano, em sua totalidade, seja depravado ao ponto de ser controlado pela intensa e vibrante vontade de pecar. Assim sendo, o homem é um ser degenerado, que tem uma vontade livre para fazer escolhas. A vontade não tem amarras. Todavia, ela tem condicionalidade. A vontade do homem pecador é livre para escolher aquilo que sua natureza anseia: pecar.

Esta degeneração fez com que os homens ficassem alienados em relação a Deus. A figura que Calvino mais gosta de usar para ilustrar esta alienação é a do labirinto, afirmando que, em razão do pecado, a humanidade encontra-se perdida nesse labirinto. (Viram ou não a teoria do Pac Man?). Embora a imagem de Deus ainda se fizesse presente no ser-humano, ela foi completamente deteriorada/desfigurada. Por causa dessa desfiguração, o homem não é capaz de caminhar na direção da divindade e, por isso, mergulha no erro constante de fabricar ídolos.

O pecado, quando entrou no mundo por intermédio de Adão, alcançou a todos os indivíduos, e a exposição clássica acerca disso se encontra nos três primeiros capítulos de Romanos. No capítulo 5, versículo 12, lê-se: “Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram”. Portanto, quando alguém afirma que o homem é livre, ele está sendo bastante superficial. O debate acerca da liberdade humana precisa atentar para as nuances pinceladas acima. Soberania de Deus versus Liberdade Humana concorrem, não no sentido de competir, mas de convergir. Deus, em sua soberania, decretou todas as coisas e fez do ser humano um ser moralmente responsável pelos seus atos. Se eu perguntar a você quem matou Aslam, você responderá a Feiticeira Branca ou C. S. Lewis? Seu impulso será responder a primeira opção, não é? Logo, por mais complicado que seja pensar acerca da liberdade dos indivíduos, devemos conciliar isso com um Deus que é o autor de toda narrativa vivenciada, mesmo que isto nos pareça ser irreconciliável. Digo isto por ser o caminho que não fere o que diz a Escritura.

BMB nos dá muitos insights acerca do tema. Trabalhar o seu enredo e ter uma boa conversa teológica é um baita de um programa que mescla entretenimento com uma profunda reflexão. Quem controla o Stefan Butler? Quem controla você? E por que você escolheu tal destino para o Stefan ao invés de outro?  Livre arbítrio ou livre agência? Calvino ou Armínio? Prepara a pipoca, junta uma turma e se divirta.

Thiago Oliveira é graduado em História e especialista em Ciência Política, ambos pela Fundação de Ensino Superior de Olinda (Funeso). Mestrando em Estudos Teológicos pelo Mints-Recife. Casado com Samanta e pai de Valentina, atualmente pastoreia a Igreja Evangélica Livre em Itapuama/PE.

2 Comentários

  1. Gilmar disse:

    Artigo muito bom. Pena que o autor não se preocupou minimamente em estudar o arminianismo, apresentando no artigo sua caricatura mais conhecida. Quando vejo um calvinista combatendo “espantalhos” da teologia arminiana, a impressão que me dá é que o calvinismo é incapaz de refutar os ensinos do teólogo holandês.

  2. Renato disse:

    Enquanto a discussão teológica acontece prefiro ficar com o que aprendi em Romanos 3:23 e João 3:16.

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