Bem-aventurados os isentões (que não são isentos) | Maurício Zágari

A libertação do ex-presidente Lula reacendeu de forma explosiva a polarização que tem dividido os brasileiros nos últimos anos. Se a guerra fria civil da população vinha caminhando de forma relativamente contida nos últimos meses, a soltura do ícone petista a fez voltar à baila com toda força. O feed das redes sociais passou, novamente, a se tornar um campo de batalha entre direita e esquerda, com o retorno do fogo cruzado político-ideológico que tem dividido o Brasil. Poucas horas após a libertação de Lula, meus amigos virtuais já se dedicavam a transparecer ódio pelo divergente; cobrar posicionamentos radicais; e ofender, excluir e bloquear discordantes de suas redes. E, observando tudo isso com cautela, estava eu, o “isentão”. Perdoe-me por inserir-me na narrativa deste artigo, mas escolhi usar-me para abordar este assunto do âmbito político, que transborda para o teológico, porque sou um bom exemplo do tema que aqui trato. Você já entenderá por quê.

Na arena político-ideológica brasileira dos últimos anos, cunhou-se esse termo pejorativo, “isentão”, cujo objetivo é empurrar todo indivíduo a necessariamente se posicionar em algum extremo do debate público e verbalizar em alta voz seu ódio ao outro extremo. A narrativa criada faz crer que o “isentão” é uma pessoa sem convicções firmes, que fica em cima do muro e não toma partido. Por essa visão, ele seria um covarde, um omisso, que opta por não se envolver nas questões da vida nacional e, portanto, não luta por um Brasil melhor.

Como a igreja brasileira mergulhou de cabeça nas brigas do cenário político, acabou importando esse conceito para as questões teológicas, com o igual peso nefando que ele tem na arena pública. Por isso, deixe-me começar falando da questão do “isentão” na vida político-ideológica para, em seguida, falar do mesmo conceito na vida teológica.

O “isentão” político-ideológico

Durante as últimas eleições, descobri por terceiros, e para minha surpresa, que eu sou um “isentão”. E uso conscientemente o verbo “descobrir”, porque, afinal, eu nunca fui isento em nada. Pelo contrário, tenho crenças e posturas bastante definidas. Porém, como não abracei cega e apaixonadamente nenhum dos extremos da guerra político-ideológica dos últimos anos, nem vivi atacando publicamente quem pensa diferente de mim, não conseguiram me rotular nem de fascista, nem de esquerdopata. Logo, o rótulo que me sobrou foi o de “isentão”.

Ao pesquisar o que essa alcunha caracteriza, rapidamente compreendi que esse conceito não se refere a pessoas realmente isentas, mas àquelas que não se acorrentam a extremos. Até porque isenção em crenças é um mito, absolutamente ninguém é isento em absolutamente nada.

O conceito “isentão” surgiu porque o ser humano não sabe lidar com quem não se encaixa em molduras pré-fabricadas do pensamento e em paradigmas que não lhe sejam familiares. A falta de carimbos na testa assusta, amedronta, faz perder o rebolado. Pessoas que não se autoadjetivam nem se filiam a tribos extremistas são vistas como ameaças, uma vez que a massa não sabe se relacionar com quem prefere o equilíbrio ponderado e não se encaixa em moldes de gesso mentais.

A verdade é que o ser humano é péssimo em lidar com quem não assume rótulos. Sabemos fazer duas coisas muito bem: abraçar quem concorda conosco e odiar e detonar quem discorda de nós. Contudo, quando encontramos alguém que pondera, questiona e vê os erros e acertos dos dois extremos, despido de paixões, ficamos extremamente confusos e desconfortáveis. O ser humano é péssimo em lidar com o equilíbrio.

Desde 1989, quando votei pela primeira vez, tenho crenças político-ideológicas muito claras para mim. Fui às fontes. Li. Estudei. Aprendi. E, mesmo quando, anos depois, mudei minhas visões, minha postura seguiu me sendo clara. Já fui politicamente apaixonado. Já fui a comícios. Já me emocionei em posses de governantes. Já cantei jingles de campanha. Já bati boca com amigos para defender políticos. E já quebrei muito a cara por crer — cega e apaixonadamente — em seres humanos e doutrinas humanas.

Mas aí vieram o amadurecimento e o chão da vida, que me ensinaram algo chamado racionalidade. É ela que me impede de comprar um discurso pré-fabricado de forma apaixonada, isto é, inquestionável. Os fatos e os livros me ensinaram, na prática, que tanto esquerda quanto direita erram em muitas coisas e acertam em outras tantas. E ser ponderado e racional me ensinou que não posso fingir que erros e contradições não existem nas doutrinas humanas — inclusive, nas em que acredito. Claro que existem. Nenhuma doutrina político-ideológica é inerrante. E ser mais inclinado a uma delas não me faz ignorar os seus erros e os acertos das outras. Fingir o contrário faria de mim um cego, um tolo ou um hipócrita. E não quero ser nada disso: meu desejo e meu esforço são para ser justo e coerente. Qualquer coisa diferente disso afrontaria meu cristianismo. Só que tomar a decisão de não comprar pacotes prontos tem um alto custo social.

Então, como atravessei o período eleitoral comentando esporadicamente os acertos de todos os candidatos e criticando as incoerências de todos os candidatos (e suas ideologias) — inclusive no(a) candidato(a) em que votei —, fui tangido para o curral dos “isentões” pelos cegamente apaixonados. Não quer dizer que eu não tinha minhas convicções ou meus candidatos, nunca fui isento, simplesmente me recusei a abraçar de forma inquestionável um deles, ignorando seus aspectos negativos, seus erros e contradições.

Claro que isso trouxe consequências. Marcou-me, em especial, um dia em que perdi “amigos” de Facebook porque fui acusado, pelo que escrevi em um mesmo post, tanto de ser um “marxista travestido de cristão” quanto de ser um “fascistinha disfarçado”. Repito: pelo mesmo post. Ou seja, a cegueira das paixões político-ideológicas foi incapaz de lidar com um ser humano que olhava com objetividade os fatos e preferia lidar com eles com base na verdade e não na testosterona — e, consequentemente, o pensamento fácil e guetificado se apressou em interpretar minhas palavras das formas mais hermeneuticamente bizarras possível.

O “isentão” teológico

E, aqui, chegamos ao âmbito da fé. Fato é que, lamentavelmente, esse mesmo fenômeno foi importado para o universo da teologia, que não tem escapado dessa polarização purulenta e vem mimetizando o exato mesmo mecanismo da arena político-ideológica.

Acredito com convicção que o evangelho de Cristo, em sua grandiosidade, não cabe em sua totalidade em nenhum dos sistemas doutrinários ou denominacionais até hoje criados, e entendo que somos irmãos antes de sermos calvinistas, arminianos, pedobatistas, credobatistas, assembleianos, presbiterianos, anglicanos ou o que for. Vejo falhas em absolutamente todos; não há perfeição e inerrância em nada que é humano. Nossa identidade, em Cristo, é a de cidadãos do Reino, filhos de Deus, discípulos de Jesus, e nos tornamos cavaleiros da triste figura quando nos guetificamos e abraçamos rótulos teológicos que cavalgam rocinantes claudicantes que investem contra os moinhos de vento de sistemas teológicos alheios.

Tal qual prisioneiros de penitenciárias estadunidenses que são obrigados a se unir a uma gangue para sobreviver via salva-vidas identitários, somos levados por nossos instintos primevos a nos associar a “gangues” teológicas, nas quais nos sintamos aceitos, parte de uma patota que nos atribua uma identidade. E, em meio a essa história, embora eu tenha minhas convicções teológicas e doutrinárias muito claras para mim, optei conscientemente por me filiar a nenhuma “gangue”, a não nutrir paixões denominacionais, a abraçar todos os filhos de Deus, estejam onde estiverem, como meus irmãos na fé.

Muitos, porém, colocam em seus perfis das redes sociais rótulos como “Zezinho Reformado”, “Huguinho Arminiano”, “Luisinho Pentecostal”; fazem piadas com quem pensa diferente, debocham de quem não faz parte do seu clubinho. Em demonstrações cansativamente óbvias do efeito manada, se agarram desesperadamente a debates infindáveis, travestidos de apologética, a fim de, inconscientemente, fazer xixi pelos postes do debate teológico público, no intuito de demarcar território na arena teológico-doutrinária. Não percebem que isso não é apologética, mas um mecanismo tribal elementar, de fácil percepção para quem já leu Jung, que faz o indivíduo tentar construir seu self a partir da identificação com arquétipos.

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E aí, no meio dessa confusão, surge o “isentão”. Tal qual na arena político-ideológica, onde não se tolera quem pondera os erros e acertos de todos os lados e enxerga valores mais elevados do que o loteamento do pensamento permite crer, na arena teológica que não admite ponderações fora dos moldes de gesso. O indivíduo que valoriza os princípios centrais do Reino e a união da igreja acima dos valores periféricos de sistemas doutrinários é visto com uma desconfiança e uma estranheza ímpares. A pessoa que consegue ser amigo de calvinistas e arminianos de igual modo e é capaz de enxergar que cessacionistas e continuístas são filhos do mesmo Pai (embora algum deles esteja cometendo equívocos, naturalmente) confunde e enerva quem não consegue viver fora dos boxes pré-fabricados do pensamento doutrinário. É mais confortável rotular, como quem já leu um tiquinho sobre o gatilho mental da familiaridade sabe. A falta de rótulos claros confunde, ameaça, acua. Pois pensar fora de rótulos dá muito trabalho.

Jesus disse que os pacificadores seriam chamados de filhos de Deus. Uma análise hermenêutica básica dessa afirmação demonstra que não é pacificar que faz alguém ser adotado pelo Pai, mas, sim, que todo aquele que é adotado pelo Pai pacifica. Por essa razão, desconfio seriamente de quem vive alimentando conflitos por causa de sistemas doutrinários em vez de promover a paz entre irmãos que pensam diferente em questões periféricas. Acredito que Deus nos comissionou a pacificar os ânimos entre os que se dizem de Paulo e os que se dizem de Apolo, afinal, no frigir dos ovos, não é o deboche de quem usa termos como “labaxúrias” e “sorveteriano” para desqualificar outros filhos de Deus que promoverá benefícios em prol do Reino. Isso não é defesa da fé; é a mais elementar autoafirmação via bullying: diminuir e desqualificar o outro a fim de se autoafirmar.

Nesse processo psicológica, antropológica e sociologicamente muito fácil de se detectar, usa-se passagens bíblicas fora de contexto para se justificar o amor maior por uma tulipa ou uma língua de fogo do que por uma cruz. O cristão que não abraça um gueto é visto por quem ama rótulos como quem, por não ser quente nem frio, será cuspido da boca de Deus, numa argumentação análoga à da briga entre polos político-ideológicos. O guetificado olha de cima para baixo para quem prefere conciliar e o rotula. Chama de morno. Omisso. Em cima do muro. Intelectualmente limitado. E, evidentemente, o exclui. Pois é mais fácil excluir do que ter de lidar com o incômodo do contraditório e se esforçar em manter a unidade pelo vínculo da paz.

Rotuladores doutrinários dificilmente mudam seu modus operandi. Eles precisam desesperadamente dos rótulos para definir a própria identidade e achar seu lugar no mundo. São viciados em pertencer a uma patota e emocionalmente dependentes de fazer parte de um gueto. E, consequentemente, detestam ou desprezam os que pertencem a outros guetos e os que preferem não pertencer a gueto algum.

Já ponderar exige esforço. Lidar com o diferente demanda paciência. Mais fácil é se agarrar a um rótulo e ficar ali, quentinho, na sua zona de conforto, debaixo do edredom de palavras fáceis e conceitos pré-fabricados, compartilhando memes que desqualificam o diferente. É confortável conviver só com quem torce para o mesmo time e brada os mesmos gritos de guerra. Aquece o coração receber elogios em comentários em posts de outros membros da “gangue”. É enormemente mais fácil, simples e rápido desqualificar pentecostais, reformados ou adeptos da missão integral, por exemplo, do que investir — em nome do amor e da pacificação — tempo, energias e neurônios para tentar entendê-los, conhecê-los, amá-los e conviver com eles, apesar das discordâncias. Quem quer ter trabalho, afinal?

Sou chamado de “isentão”. Mas prefiro crer que sou um pacificador. Isto é, aquele que, embora tenha suas crenças teológicas e doutrinárias muito claras e bem definidas, se empenha em procurar não segmentar, mas aproximar. Não afastar, mas promover o diálogo. Não fatiar, mas conciliar. Isso, acredite, custa muito caro. Você sofre bullying o tempo todo e é visto com muita desconfiança. Você para de ser convidado para certos eventos e deixa de ser incluído em certas discussões, onde questionamentos e autocrítica não são bem-vindos. Afinal, é mais fácil promover sempre os meeeesmos eventos, com sempre as meeeesmas pessoas, para falar sempre as meeeesmas coisas, do que conviver com quem pondera e expõe o contraditório.

No prefácio de meu último livro, o Ziel Machado, a quem admiro demais por sua ponderação, seu equilíbrio e seu coração cristão, escreveu uma frase maravilhosa: “Quem é filho do mesmo Pai não pode escolher os irmãos que tem”. Uma realidade tão simples e óbvia, mas que muitos nos recusamos a aceitar. Agimos como quem diz: “Desculpe, Deus, mas não admito que o Senhor tenha por filhos pessoas que pensam diferente de mim”. Com isso, em vez de pacificar os relacionamentos entre irmãos em Cristo que concordam no que é central, mas discordam em aspectos periféricos da fé, optamos por promover dissensões em razão de divergências soteriológicas, pneumatológicas, eclesiológicas etc.

Tenho rodado muito por esse Brasil para pregar e palestrar, e encontro expressões autênticas de fé entre irmãos em Cristo presbiterianos, batistas, metodistas, wesleyanos, assembleianos, anglicanos, episcopais, pentecostais, luteranos, menonitas e tantos outros. São todos meus irmãos. Sou incapaz, por temor e tremor, de dizer: “Este não é meu irmão em Cristo”. Não consigo, ao ler as Escrituras, me arrogar o direito de fazer afirmação tão nefasta e altiva, como tantos fazem. Prefiro me submeter ao senhorio de Jesus; dar o meu máximo para pacificar todos os membros da enorme, heterogênea e santa família da fé; e promover a graça no meio do povo de Deus.

Isso vai me custar o rótulo de “isentão”? Paciência. No dia em que eu estiver face a face com meu Criador e Senhor, terei a consciência tranquila, por ter devotado minhas energias a promover a unidade e a união entre filhos de Deus que pensam diferente, erram e acertam, mas buscam a face do Senhor com inteireza de coração. Todos são a noiva santa e amada do Cordeiro e ai de mim levantar minha mão contra ela. É minha obrigação mandatória promover a unidade e a união, o que, aliás, Jesus pediu em oração, em João 17. E, se a unidade pacificadora é a vontade de Cristo, a promoção da desunião entre irmãos é pecado.

E deixo a você, que não é isento, mas costuma ser rotulado de “isentão” por se recusar a fragmentar a Igreja de Cristo e por enxergar erros e acertos em todos os guetos doutrinários, meu abraço, minha solidariedade e meu incentivo: não desanime! Siga pacificando, unindo, construindo, aproximando, conciliando, vivendo a graça — isto é, amando a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Pois, naquele grande e terrível dia, acredito que o Eterno olhará para você e o chamará, não de “isentão”, mas de bem-aventurado pacificador.

Maurício Zágari é membro da Igreja Cristã Nova Vida em Copacabana (Rio de Janeiro, RJ), é casado com Alessandra e pai de Laura. É teólogo, escritor, editor e jornalista. É autor de vários livros, dentre eles "O fim do sofrimento", "Perdão total no casamento" e "Perdão total na igreja". Escreve regularmente em seu blog Apenas (apenas1.wordpress.com).

1 Comentário

  1. Julio disse:

    Texto perfeito!!! Me representa totalmente.

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