Black Mirror e a artificialidade da vida sem Deus | Thiago Oliveira

No dia 5 de junho do presente ano, a quinta temporada de Black Mirror estreou na Netflix. De volta aos clássicos três episódios por temporada, após o lançamento de um filme interativo (veja aqui a nossa análise), muitos fãs avaliaram que foi uma temporada empobrecida. E nem a escalação de estrelas como a Miley Cyrus foi capaz de atenuar as críticas negativas. De fato, como sou um grande fã de Black Mirror, classifico essa temporada como a pior. No entanto, a série é daquele tipo de coisa que a gente fala, vez ou outra, que mesmo quando ruim não deixa de ser boa. Entenderam?

Por isso, acredito que é proveitoso escrever sobre os três episódios e falar sobre como eles estão sintonizados numa temática comum: a artificialidade dos relacionamentos. Daqui para frente vocês terão muito spoiler. Siga apenas após ter assistido. Mas se não liga para spoiler, leia e depois assista.

Striking Vipers

Este episódio mostra um casal – Danny e Theo – que divide um apartamento com outro amigo – Karl. A diversão de muitas noites entre Danny e Karl é jogar um game de luta chamado Striking Vipers. Onze anos depois, Danny e Theo estão casados. E num aniversário de Danny, ele revê o seu amigo Karl que lhe presenteia com a última versão do game. A novidade desta nova versão é a seguinte: os jogadores podem imergir para dentro do jogo, sentindo todos os golpes levados pelos personagens-lutadores. Mas a ideia de importar as sensações para o ambiente virtual fez com que os dois amigos experimentassem algo diferente da luta. Com seus respectivos avatares, eles entram numa relação sexual virtual que causa inúmeros desdobramentos.

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Anthony Mackie, no papel de Danny

Há uma questão acerca da sexualidade. Os dois amigos ficam em dúvida se são gays. Vale ressaltar que na relação virtual, Karl usa uma personagem feminina. Também há todo um sentimento de culpa que transpassa a realidade virtual. Danny sente que está traindo a esposa. E a relação que acontece dentro do jogo começa a ter mais importância do que a relação com a sua esposa.

No ato final, os dois marcam um encontro para tirar a limpo a sua sexualidade. Acabam saindo na porrada (o que deveria ocorrer no game) e Danny conta tudo para a sua esposa quando esta terá que pegar o marido brigão na delegacia. Qual o desfecho? Theo, a esposa, aceita o fato do marido imergir nessa relação virtual, mas, em troca, ela sairá sem alianças e terá seus encontros extraconjugais. E, perante a sociedade, eles ainda formam uma bela família, com seus dois filhos.

Smithereens

Aqui temos um motorista de aplicativo que arquitetou um sequestro. Ele estaciona o carro na frente da empresa Smitherrens – que é uma rede social bem parecida com o nosso Twitter. Ele aceita uma corrida de alguém de dentro da empresa. Trata-se de um jovem negro, vestido com um elegante terno. No decorrer da corrida o motorista anuncia que aquilo é um sequestro e que ele irá matar o seu passageiro se não conseguir falar com Billy Bauer, criador e CEO da rede social.

Todo o episódio é bem tenso. Descobrimos que o motorista se chama Chris e que ele sequestrou um estagiário e não um funcionário do alto escalão da empresa. Mesmo assim, com a polícia na sua cola, com as redes sociais e a mídia tradicional acompanhando o caso, ele consegue fazer contato com Bauer por telefone. Durante a ligação ele explica que era noivo, mas que perdeu sua noiva num acidente, quando foi ver uma notificação do Smitherrens, acabou batendo em outro carro. Como o motorista do outro veículo estava bêbado, ele levou a culpa e Chris foi visto como vítima. Mas ele sentia o peso da morte da noiva. E ele então estava disposto a tirar a vida para não ter que lidar com esse peso. Só que antes de fazer isso, ele queria falar para o inventor da rede social que a sua invenção levava as pessoas a serem viciadas e que a coisa tinha passado do controle.

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Andrew Scott, no papel de Chris, e Damson Idris, no papel de Jaden

Do outro lado da linha, Billy Bauer diz que não tem mais o controle e que a corporação que tomou conta da rede tem a intenção de fazer com que seus usuários sejam viciados mesmo. Tal como alguém vicia ao experimentar crack. Ele faz apelos para Chris não fazer nenhum tipo de besteira. Chris está decidido a se matar, mas vai ser impedido pelo próprio estagiário, que sente empatia e não quer que seu sequestrador cometa suicídio. Há uma luta corporal entre os dois. Na mira de um atirador da polícia, a tensão toma conta e ouve-se um barulho de tiro.

Não se sabe quem acabou morrendo. Pode até ser que os dois tenham morrido. O que vem em seguida à cena do tiro são imagens de pessoas recebendo uma notificação em suas redes sociais. Elas parecem ler a notícia da tragédia envolvendo Chris, mas após fazer cara de tristeza, elas voltam a fazer outras coisas, parecendo não se importar. O próprio Billy Bauer, que antes de falar ao telefone com o Chris estava meditando numa espécie de retiro silencioso, volta a praticar a sua atividade meditativa.

Rachel, Jack e Ashley Too

No terceiro e último episódio, vemos que Rachel é uma adolescente retraída, sem amigos na escola nova e que vive o luto da perda de sua mãe. Morando com o pai e com sua irmã mais velha, a Jack, ela se isola num mundo fantasioso ao se projetar no estilo e nas letras de sua cantora pop predileta: Ashley O. Sua admiração pela Ashley é tanta que pede para que seu pai compre uma bonequinha que é uma espécie de réplica robótica da cantora: Ashley Too. A relação com a boneca, que tenta sempre lhe motivar e falar o quanto ela é bonita e poderosa, faz com que Rachel acredite que pode se dar bem no show de talentos de sua escola. Vestida como Ashley, sua apresentação é péssima e a sua desenvoltura não condiz com os elogios que ganhou da boneca.

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A Ashley real, interpretada pela também cantora pop Miley Cyrus, nos é apresentada como uma pessoa triste, pois tem a sua arte tolhida e a sua carreira controlada rigidamente pela sua tia, que é também sua empresária. As músicas com mensagens positivas e repletas de empoderamento, que dizem coisas do tipo “acredite em si mesmo” e “você pode ser o que você quiser ser” não são o que ela realmente gostaria de compor e cantar.

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Miley Cyrus, no papel de Ashley O

O episódio tem uma boa premissa, mas peca na condução. Tendo a pior montagem e o pior ato final de toda a história da série. De uma forma não muito plausível (impossível comprar a ideia!), a Ashley real se encontra com as duas irmãs e a boneca e consegue se libertar daquele cativeiro montado por sua tia. Ela então passa a cantar músicas com teor mais rebelde, adotando um estilo rock underground.

Vidas artificiais

Mesmo não sendo a melhor temporada de Black Mirror, todos os episódios me fizeram refletir acerca da artificialidade da vida moderna. A forma como estruturamos o nosso estilo de vida está cercado de elementos que desnaturalizam nossas relações pessoais e sociais. Será que um relacionamento virtual é mais prazeroso, e assim sendo, preferível, ao invés de uma relação matrimonial? E as redes sociais? Elas valem todo o investimento de tempo que lhe damos? Elas têm de fato nos ajudado a ser mais sociáveis? E quanto a toda essa baboseira empoderada que são ditas por artistas com suas vidas maquiladas, vendendo uma perfeição intangível? Realmente acreditamos nessas mensagens?

Black Mirror não é sobre a tecnologia ser má. Mas sim sobre como a temos usado de forma inadequada. E essa inadequação é, como diria o filósofo Egbert Schuurman, idolatria. Para Schuurman, o problema de nossa sociedade é o tecnicismo, isto é, uma inclinação para fazer da tecnologia uma coisa que venha a nos redimir. Mas acontece que a redenção é obra divina e não humana. Logo, como todo ídolo – ou falso Deus – a tecnologia que promete liberdade, nos dando a sensação de estarmos no controle, acaba por nos escravizar e nos controlar por completo.

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Topher Grace, no papel de Billy Bauer

Vemos isso nos três episódios desta temporada, mas talvez seja no segundo que isto fique um pouco mais fácil de observarmos. Em Smithereens, o CEO Billy Bauer medita num deserto com ares de messias pop. Num determinado momento ele fala que o bom da sua posição é poder ativar o “modo deus”. Mas Chris, ao entrar em contato com essa “divindade pós-moderna”, acaba demonstrando aquilo que Schuurman resume bem em uma de suas muitas obras que tratam sobre a tecnologia:

Na cultura tecnocrática, os laços essenciais do relacionamento humano são cortados e substituídos por laços artificiais que prejudicam o amor, destroem a compaixão e a empatia, e aumentam a alienação e solidão. As pessoas que sofrem a agonia do mundo tão frio e impessoal tornam públicos uma série de protestos e reinvindicações. [Cristãos em Babel . Editora Monergismo. Edição do Kindle].

O protesto de Chris consistiu em tentar falar para o criador da viciante rede social que ele era responsável por artificializar a vida. Seu ato final seria o suicídio. A morte de sua noiva aconteceu por uma distração que tinha relação com o Smithereens. Ela morreu quando ele se distraiu ao volante ao curtir uma foto de um cãozinho. Nada mais ilustrativo: o mau uso da tecnologia matou o amor. E o matou quando se pensou estar no controle da situação.

Onde está o amor?

Black Mirror é uma série de contexto secularizado. A sociedade apresentada não está preocupada com Deus e nem com aquilo que é espiritual. Todos parecem lidar super bem com isso. Todos parecem ter domínio sobre as próprias vidas, até que algo de ruim aconteça… o que geralmente acontece.

Mas é nesse cenário em que o homem busca fugir de Deus que faz com que ele se utilize de meios artificiais para cultivar sua vida e seus relacionamentos. A solução? Voltar-se para Deus. Amar a Deus sobre todas as coisas, pois é na fonte do amor que aprendemos a amar e a cultivar as nossas relações.

Quando perguntado sobre o maior mandamento (Mateus 22.34-40), a resposta de Jesus foi a de que amar a Deus sobre todas as coisas é o principal mandamento, seguido pelo amor ao próximo. Este encadeamento é natural. Ao amarmos a Deus, amaremos as demais coisas da maneira que convém amar, sem confundir o essencial com o secundário. E assim, tendo um bom desempenho nas relações interpessoais. Pois, se amarmos nosso SENHOR a ponto de querermos glorificá-lo em nossas vidas, seremos bons cônjuges, bons pais, bons filhos, bons vizinhos, bons patrões, bons funcionários e etc.

Em Striking Vipers, por exemplo, existe um amor egoísta. Um amor que faz a autossatisfação ter a primazia. Um amor conjugal que se doa em busca de servir ao cônjuge é trocado pela busca pessoal pelo prazer. Já no episódio da Ashley O, temos um amor pela imagem e não o amor pela essência do outro. Amores superficiais, falsos e que não resultam em felicidade (apesar de Striking Vipers sugerir um final feliz).

A vida não será artificial se amarmos verdadeiramente quem é digno de ser amado. A vida será plena e satisfatória ao nos devotarmos para aquele que é o amor e nos criou para amarmos, sobretudo, para amá-lo. E, à medida que o amamos, nos deleitamos nele e nos tornamos aptos a amar e viver uma vida consistente. Que o amor de Deus nos livre de toda artificialidade.

Thiago Oliveira é graduado em História e especialista em Ciência Política, ambos pela Fundação de Ensino Superior de Olinda (Funeso). Mestrando em Estudos Teológicos pelo Mints-Recife. Casado com Samanta e pai de Valentina, atualmente pastoreia a Igreja Evangélica Livre em Itapuama/PE.

1 Comentário

  1. Felipe Alves disse:

    Ótima análise da temporada de Black Mirror.
    São críticas válidas.

    Precisamos fomentar profundidade nos relacionamentos, aproveitar o dia da melhor forma em louvor a Deus.

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