“Born to be blue”: o que Chet Baker me ensinou sobre 1Coríntios 13 | Jonathan Silveira

Ethan Hawke como Chet Baker

Recentemente assisti ao filme Born to be blue (2015) – em português, Chet Baker: a lenda do jazz –, dirigido por Robert Burdreau, que narra um capítulo crítico da história do grande Chet Baker (a voz de veludo do jazz): o período de sua luta contra o vício em heroína.

Chet Baker (interpretado por Ethan Hawke), assim como infelizmente ocorre com muitos artistas que são sufocados pelo showbiz e pela fama, sofria com o vício em heroína. E isso, literalmente, lhe custou os dentes. Em uma briga com traficantes (supostamente por causa de uma dívida), Baker recebeu tantos murros na boca que acabou perdendo vários dentes, prejudicando completamente seu desempenho com o trompete por um bom tempo. Percebendo que seu talento e sua fonte de sustento estavam comprometidos, Chet inicia uma árdua luta contra o vício. E, como é comum no tratamento de dependentes químicos, uma maneira de amenizar o sofrimento de Chet durante suas crises de abstinência (que eram monitoradas por médicos) era o uso de metadona, um narcótico utilizado no tratamento de toxicodependentes para aliviar a síndrome de abstinência física.

Com disciplina, treino e paciência, Chet aos poucos recupera-se, reconquistando a confiança de seu empresário, que, gradualmente foi reinserindo o músico aos grandes holofotes do jazz. Limpo, com seu talento agora adaptado às falhas em sua arcada dentária, surge um Chet renovado. Por conta disso, surge a oportunidade de se apresentar no Birdland, badalado clube de jazz em Nova York onde se apresentam os grandes nomes do jazz. Apresentar-se no Birdland seria um momento de transição na carreira de Chet, um retorno ao auge musical. Se ele fizesse uma boa apresentação, retornaria a brilhar junto aos gigantes do jazz; se falhasse, seria esquecido definitivamente. Seria tudo ou nada.

Tocando no Birdland

Chet Baker e Jane Akuza

Chega o momento da apresentação. Miles Davis e Dizzy Gillespie estão na plateia, o que contribui para a ansiedade de Chet. No camarim, ele se sente enjoado, pois sua metadona acabara e havia dois dias que não tomava o medicamento. Seu empresário, Dick, tenta acalmá-lo, e sai em busca do medicamento: “Há jazzistas do mundo todo aqui nesse lugar. Alguém deve ter metadona.” (Uma fala bastante reveladora sobre a relação da música com as drogas.) Dick retorna ao camarim e se depara com a penteadeira de Chet preparada com os elementos necessários para quem está prestes a aplicar uma injeção de heroína. Coloca sua mão sobre o ombro de Chet, como quem lhe quer bem, senta-se ao lado dele e, então, acontece o diálogo mais impressionante e profundo do filme.

“Você vai começar tudo de novo. Jane [noiva de Chet] vai te deixar.”

“Acho que não consigo tocar de outro jeito”, responde Chet.

“Não arrisque, não toque.”

Dick, que estava segurando um frasco, coloca-o sobre a penteadeira e diz:

“Ou então, tome a metadona. Você tem tocado bem com ela. Tem sido ótimo.”

Hesitante, Chet reage: “Você disse que se eu realmente acertar nesse show haverá muitas apresentações, certo? Talvez uma turnê europeia?”

“Achei que você não quisesse uma carreira, Chet”.

“Eu quero minha vida de volta, Dick. Quero tocar música do jeito que eu quero tocar. Você sabe que essa é a minha última chance.”

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“Não”, responde Dick. “Não é a última chance, mas é uma chance. Se você cantar com a língua dos anjos, mas não tiver amor, você será um címbalo que retine.”

“O que isso significa, Dick?”

“Eu não quero que você fique vazio no palco, Chet.”

“Mas a droga me dá confiança. O tempo fica mais largo, eu posso entrar em cada nota.”

“Mas esse sempre foi você, Chet.”

Dick mais uma vez coloca a mão sobre o ombro de Chet e diz: “A escolha é sua”. E deixa o camarim.

Chet, por alguns instantes, contempla sua penteadeira: de um lado, a agulha supressora de originalidade; de outro, o frasco da prudência artística, da coragem.

A cena é cortada para a plateia, que, a essa altura, aguarda impacientemente a apresentação de Chet. O show começa. Ao fundo da plateia, Dick e Jane observam Chet atentamente, esperançosos de que ele não tenha tomado a decisão errada. No entanto, os trejeitos e as expressões faciais peculiares de um Chet sob efeito de drogas acabam denunciando sua triste condição. A cena é cortada novamente para o camarim. Agora, sobre a penteadeira, vemos que a seringa fora utilizada e que o frasco de metadona permanece ao lado, intocado.

Chet Baker no Birdland, por Carol Reiff

Dick e Jane se dão conta: sim, começou tudo novamente. Jane, chorando, remove o colar especial que ganhara de Chet por ocasião do noivado, entrega a Dick e vai embora sem se despedir de Chet. No palco, o trompete prossegue executando notas angelicais, comandado por uma personalidade vazia, sem amor. Um címbalo que retine. A ortodoxia musical venceu o amor.

Vocação e o pecado de Babel

Ainda que o diálogo entre Dick e Chet não tenha ocorrido na vida real (e muito provavelmente não ocorreu), ele é bastante emblemático, pois revela um perigo real que todos nós corremos em nossa vocação, independente de qual seja ela. É o perigo do abuso de nossos talentos e de nossa vocação em nome da fama e da glória. É o perigo do pecado de Babel, que se preocupou mais com a edificação de sua autoestima ao construir para si um nome do que com a boa administração de seus dons. É verdade que o abuso dos nossos talentos e de nossa vocação não nos impede necessariamente de alcançarmos fama e glória, mas chegamos lá sendo pessoas vazias e sem amor. Quantos artistas nós conhecemos que, apesar de toda a sua genialidade, viveram (ou vivem) uma vida vazia?

Chet Baker

Em Born to be blue, Chet Baker me ensinou que podemos passar horas, dias, anos a fio estudando, nos especializando, adquirindo todo o conhecimento necessário para o exercício de nossa vocação, mas, se esse arcabouço técnico não redundar em boas obras provenientes da sensibilidade e amor por nossos talentos, seremos como címbalos que retinem.

Chet continua brilhante e genial, mas, infelizmente, por tudo o que sabemos de sua história, teve uma vida vazia.

Deixo vocês com uma das minhas músicas preferidas de Chet: My Funny Valentine.

Jonathan Silveira é graduado em Direito pela Universidade São Francisco e mestre em Teologia pelo programa Master of Divinity da Escola de Pastores da Primeira Igreja Batista de Atibaia. É casado com Carrie, membro na Igreja Batista da Palavra, em São Paulo, trabalha na área de produção editorial e marketing em Edições Vida Nova e é fundador e editor do site Tuporém.

3 Comentários

  1. Luiz Tarso Nascimento Bezerra disse:

    Que texto excelente!
    Irei assistir esse Filme no final de semana agora, obrigado pela aplicação.

  2. Letícia disse:

    Excelente reflexão, também deu vontade de assistir ao filme.

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