Buster Scruggs e a balada da vida e da morte | Thiago Oliveira

Atenção: este texto contém spoilers!

A Balada de Buster Scruggs é um filme escrito e dirigido pelos aclamados Irmãos Coen que apresenta seis histórias ambientadas no Velho Oeste — e que não estão conectadas entre si. O único elo entre os pequenos contos é a figura onipresente da morte, tão natural quanto a vida. Afinal, como muita gente diz: “a certeza que carregamos nessa vida é a de que um dia morreremos”.

The Ballad of Buster Scruggs

Logo de primeira, vemos o arrojado fora-da-lei Buster Scruggs, que vive rodeado de violência — apesar de ser um homem de sorriso simpático e que faz do cantarolar um fator identificador de sua persona. Scruggs é, apesar da simpatia, um homem com sangue nas mãos e que banaliza o valor da vida. Cheio de si. Fanfarrão. Ele gosta de se exibir com sua pontaria certeira. Num duelo, atira de costas vendo seu adversário por um espelho e lhe fere mortalmente. Mas, sua altivez precedeu a ruína quando encontrou alguém que lhe era páreo e mesmo assim o subestimou. Nesse primeiro conto, a morte aparece quando convidada pela imprudência dos homens. Implacável, ela ceifa quem acha que pode domá-la.

Near Algodones

No segundo conto, um assaltante de bancos que se dá mal, até parece que escapará da morte. Mas, após ter se livrado de uma forca, cai na segunda também por imprudência e — digamos — pouco tino para o crime. Ali, diante da forca, olha uma moça que corresponde seu olhar encantado pela beleza. Parece que a misericórdia irá sorrir novamente, mas ele é enforcado. Vislumbrou o belo e se foi…

The Meal Ticket

Na terceira história temos duas mortes: a do ator sem pernas e braços e a morte da arte-que-enobrece pelo entretenimento-que-imbeciliza. Esse é o conto mais sombrio, todavia, o que se parece mais com aquilo que temos vivido. Uma pessoa morre ao ser coisificada. A arte morre por puro pragmatismo.

All Gold Canyon

O quarto conto é lindo em sua fotografia. As belas imagens de uma natureza intacta e o árduo trabalho de um homem velho — para encontrar ouro — nos comovem. Num dado momento da trama, a serenidade é abalada pela ganância. Ocorre então uma morte não natural. Aqui, os irmãos Coen contrastam a harmonia da natureza com a inclinação do homem em ser o lobo do próprio homem. A vida não vale mais que ouro e isso retrata a vileza humana. Vileza aqui escancarada num tiro dado pelas costas num velho homem que buscava sua fortuna com o suor do rosto. Todavia, o que é vil traz consigo o seu quinhão.

The Girl Who Got Rattled

Na penúltima história há um romance que faz parecer que teremos o primeiro final feliz — ao menos para os espectadores mais ingênuos. A morte do início da trama parece ser capaz de redimir o destino de uma moça e fazê-la encontrar a felicidade. Quando ela encontra o cachorrinho que não foi sacrificado e ri ao segurá-lo, não imaginaria que ali seriam os seus últimos sorrisos. A mocinha morre e o final feliz não acontece. Foi uma morte desnecessária. Precipitada. Foi uma morte que fez com que as palavras de consolo se perdessem…O cachorro terminou vivo. Mas estar vivo era um lembrete para quem não fez o que deveria fazer. Aquilo era um memorial para a culpa. E sentir culpa, tal como morrer, é mais uma certeza que temos nessa vida.

The Mortal Remains

Por fim, uma carruagem que não pode parar no caminho. Concepções sobre a vida e sobre a natureza humana. Religiosidade e libertinagem seguindo rumo ao mesmo destino. Quem escapará do destino que lhes foi traçado? Nesse conto não acontece nenhuma morte. Ela perde o seu poderio de interrupção. E é aqui que está o xis da questão: a morte não pode nada onde já não há mais vida.

A balada da vida e da morte

O filme dos Irmãos Coen mescla niilismo com um pouco de metafísica. Brinca com conceitos filosóficos até mesmo quando satiriza os antigos faroestes. No entanto, ele tem algo a nos passar. Ele nos transmite a inquietude da alma humana diante da morte. Inquietude até de quem ousa assumir que a existência é um “ser para morrer”. E como é dito num dos diálogos da carruagem, são histórias que acontecem com outros, mas elas falam de nós. Afinal, nós morreremos. Trata-se da nossa inquietude. Trata-se do dilema da finitude. A balada da vida é a balada da morte, pois, como se diz: para morrer basta estar vivo.

Todavia não era para ser assim. Deus ao criar o homem e todo o cosmo que o circunda, fez o homem para a eternidade. O pecado de Adão trouxe morte através da sua desobediência e pretensão de querer ser o senhor de si mesmo. Todavia, Deus é o SENHOR e somente ele tem o controle de toda nossa existência. Na carta de Tiago, há uma passagem que clarifica o quanto que as rédeas da vida não estão em nossas mãos:

Ouçam agora, vocês que dizem: “Hoje ou amanhã iremos para esta ou aquela cidade, passaremos um ano ali, faremos negócios e ganharemos dinheiro”. Vocês nem sabem o que lhes acontecerá amanhã! Que é a sua vida? Vocês são como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa. Ao invés disso, deveriam dizer: “Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo”. Tiago 4:13-15

A mensagem não deve ser entendida como uma recomendação para não planejarmos a nossa vida previamente. Em diversos âmbitos, temos que fazer planos, senão sucumbimos. Já imaginou uma empresa que não tem planejamento? Ou uma universidade que não prepara o seu ano letivo? A advertência aqui é contra os que tecem suas vidas como se fossem senhores da mesma. Que se acham autossuficientes. Estão cegos, achando que é a força de suas mãos que lhes provê o essencial da vida, deixando de glorificar a Deus, que é Aquele que tem os nossos dias nas mãos (Sl 31:15).

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Jesus nos conta uma parábola (Lc 12:16-21) acerca de um homem rico, que tendo fartura em sua colheita, decidiu fazer um celeiro e arrazoou com sua alma dizendo: tenho muito para muitos anos, devo beber, comer e folgar. Mas Deus o faz cair em si e diz: “Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?”

Mas, embora o pecado tenha entrado no mundo e a morte juntamente com o pecado, Deus estabeleceu em seu “roteiro” o triunfo da vida através do Redentor – que é Jesus Cristo. Jesus é a ressurreição e a vida, como nos diz o evangelho joanino. E, portanto, a esperança deve prevalecer em meio a tudo aquilo que a morte representa. Todo o Cristianismo é um corpo doutrinário que nos deve trazer esperança. As Escrituras demonstram uma história que tem começo, meio e fim. Faz sentido! Por mais que a nossa volta o mundo pareça desmoronar, crer que Deus é soberano e tem o mundo em suas mãos é sem dúvida uma ideia reconfortante (ao menos deveria ser, pois, pior é não encontrarmos sentido para tanto sofrimento).

O pensador Francis Schaeffer, tratando sobre a arte, vai dividir o enredo da história humana em dois temas: o menor, que abarca as imperfeições da vida material e a rebeldia do homem com relação a Deus. E o “tema maior”, que abrange a plenitude de sentido e o propósito da vida. Este tema maior é subdividido pelo cristianismo em metafísica e moral. Deus existe e intervém no mundo. Esta cosmovisão pode ser alargada e não ficar restrita ao campo das artes. O pessimismo que vemos retratado em quadros, na literatura ou nas telas do cinema é reflexo da ênfase no tema menor. Obviamente que ele existe e temos que admitir: tudo nesta vida é imperfeito e incompleto. Contudo, sendo cristãos, devemos portar a mensagem da revelação e testemunharmos que a vida não é só isso, como diz o apóstolo Paulo: “Cristo é a esperança da glória” (Cl 1.27).

A Balada de Buster Scruggs está mais para o “tema menor”. É um excelente retrato de como o mundo pensa sobre a vida humana e o seu fim. No entanto, lembremos que a vida pertence ao SENHOR e mesmo nas dificuldades que ela nos apresenta, precisamos de um olhar esperançoso e voltado para Deus. O apóstolo Paulo é um bom exemplo de quem soube subjugar o “tema menor” em relação ao “tema maior”. Ele passou por dificuldades que boa parte da nossa geração que maratona séries na Netflix nem sequer pode imaginar. Mesmo assim ele consegue ser grato e viver contente em toda e qualquer situação, pois ele não está focado nas dádivas e nem nas desventuras da vida. Seu foco está no Doador. Paulo olha para a fonte das dádivas. Ele mantém o foco no Dono da Vida e sabe que assim, tendo o Senhor como sua porção, como seu tesouro e bem, todo o resto é secundário. Perder o que quer que seja não importa desde que não se perca o essencial: a nossa comunhão com Deus. Se estamos conectados no Senhor, até perder a vida vale a pena, pois quem perde a vida por Ele, a encontrará depois. Paulo é tão convicto disso que faz uma das declarações mais fervorosas e impactantes da Escritura: “Se viver é Cristo (Cristo é Deus), morrer é lucro” — Filipenses 1.21.

Na balada da vida e da morte, deixemos Cristo na condução da dança. E que a esperança nos faça vencer o niilismo. A vida tem um sentido: Jesus é este sentido.

Thiago Oliveira é graduado em História e especialista em Ciência Política, ambos pela Fundação de Ensino Superior de Olinda (Funeso). Mestrando em Estudos Teológicos pelo Mints-Recife. Casado com Samanta e pai de Valentina, atualmente pastoreia a Igreja Evangélica Livre em Itapuama/PE.

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