Clint Eastwood, John Stott e George Floyd: a estupidez do racismo | Thiago Oliveira

George Floyd

Ontem (31/05/20) o longevo Clint Eastwood completou 90 anos. O seu último trabalho como ator foi no filme – que também é dirigido por ele – “A Mula” (2018). O filme é uma bela trama, que nos faz refletir sobre diversos pontos. Dentre eles o racismo. Eastwood já havia abordado o tema dez anos antes em “Gran Torino” (2008), onde seu personagem é um homem rabugento, viúvo e veterano de guerra que não esconde seu desprezo pela vizinhança que já não é a mesma. Seu bairro está cheio de asiáticos, latinos e negros. Mas o personagem passa por uma espécie de redenção ao se relacionar com um casal de irmãos asiáticos.

Voltando para “A Mula”, o personagem vivido por Eastwood se tornará um transportador de drogas para um cartel mexicano. Ele se torna uma “mula” de sucesso por estar acima de qualquer suspeita: ele é um homem branco, octogenário e veterano de guerra. Ou seja: não se enquadrava no perfil de um traficante de drogas. O filme não se reduz a uma discussão sobre racismo, mas a sua premissa é baseada na história real. Por isso, há vários momentos em que Eastwood nos mostra um naturalismo do preconceito na sociedade norte-americana. Há uma cena, por exemplo, em que ele vai se apresentar como o patrão dos dois traficantes latinos que estão com ele em uma das missões, e, por conta disso, o policial desiste da abordagem.

Leo Sharp (papel de Clint Eastwood) sendo abordado por um policial durante suas viagens para entrega de drogas.

John Stott, em um dos seus livros, trata sobre o racismo e cita algo muito interessante:

Em novembro de 2000, foi noticiado que a polícia norte-americana levava em conta perfis raciais na perseguição de pessoas que pudessem estar transportando drogas. Os policiais paravam motoristas na estrada principal que levava à cidade de Nova York — e 80% dessas pessoas eram negras. A polícia simplesmente supôs que pessoas negras e drogas eram uma combinação natural, mas 70% dos negros que eram parados não estavam transportando nenhum tipo de droga. O procurador geral de Nova Jersey disse que, do ponto de vista sociopolítico, aquilo era um desastre, e a prática foi abandonada”.[1]

George Floyd (em segundo, da direita para a esquerda, segurando uma Bíblia), com seus amigos de ministério. Foto de Nijalon Dunn.

O fato de Stott mencionar isso é de muita importância, pois o mesmo é considerado um teólogo conservador, chegando a ser alvo de críticas de teólogos latinos que achavam que sua atuação no Movimento Lausanne era eurocêntrica e não estava conectada aos problemas do terceiro mundo, assim chamado na época. Clint Eastwood também está longe de ser um progressista. Ele é um republicano convicto, crítico aberto do ex-presidente Barack Obama, e já deu apoio ao atual presidente, Donald Trump.  Logo, o racismo não deve ser visto como pauta de um espectro político. O preconceito racial não pode ser uma bandeira sequestrada pelas esquerdas. Eastwood e Stott combatem o racismo por ser uma estupidez. E como cristãos precisamos destacar: uma estupidez pecaminosa.

Infelizmente, nos deparamos com a triste notícia da morte do George Floyd (homem de 46 anos e negro) após uma abordagem policial truculenta em Minnesota, onde um policial branco o asfixia com o joelho pressionando o seu pescoço. As imagens correram o mundo e geraram revoltas. Protestos violentos vêm acontecendo nesse e em outros estados norte-americanos.

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Não demorou muito para algumas pessoas negarem que o crime tenha sido racial e falar que ainda é cedo para um veredito. Floyd começa a ter sua biografia vasculhada e há muitos que digam que ele era um criminoso. Todavia, pastores chegaram a dar entrevista afirmando que Floyd ajudou na evangelização de vários jovens e os incentivava a saírem do mundo do crime. O fato que temos até o momento é que parece que ele teria tentado comprar algo com uma nota falsa de U$ 20,00. Embora isso possa ser verdade e, embora também possa ser verdade ele tenha entrado em luta corporal com o policial (e por isso precisou ser contido), a cena do policial com o joelho em seu pescoço é um ato de barbárie. Não havia necessidade de tal medida. E o racismo naturalizado denunciado por Eastwood em “A Mula”, tal como o fato citado por Stott, nos fazem deduzir de maneira muito lógica que o episódio poderia ser diferente se Floyd não fosse negro.

Como cristãos, é obvio que o preconceito racial precisa ser combatido. Talvez as igrejas precisem falar até um pouco mais acerca do assunto. Claro que de uma maneira não ideologizada, mas bíblica. Tal como aborda Stott:

Em termos de um relacionamento pessoal e íntimo, embora Deus seja, por meio de sua graça, o Pai de todos os que ele adota, e nossos irmãos e nossas irmãs sejam membros de sua família, Deus é, em termos mais gerais, o Pai de toda a humanidade, pois todos são sua ‘descendência’, por Criação, e cada ser humano é nosso irmão ou nossa irmã. Sendo todos igualmente criados por ele, e como ele, somos iguais aos olhos do Pai em valor e dignidade, portanto temos o mesmo direito a respeito e justiça”.[2]

Que a nossa cosmovisão enraizada na Palavra se levante para celebrar a diversidade étnica e encabeçar uma luta pelo fim do preconceito racial, primeiramente, para a glória de Deus que é SENHOR sobre todos os povos, e, segundo, para que o que ocorreu com Floyd não se torne algo naturalizado.

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[1] Stott, John. “O cristão em uma sociedade não cristã”. Thomas Nelson Brasil. Edição do Kindle.

[2] Ibidem.

Thiago Oliveira é graduado em História e especialista em Ciência Política, ambos pela Fundação de Ensino Superior de Olinda (Funeso). Mestrando em Estudos Teológicos pelo Mints-Recife. Casado com Samanta e pai de Valentina, atualmente pastoreia a Igreja Evangélica Livre em Itapuama/PE.
O racismo, o ódio e o sentimento de superioridade racial têm sido elementos trágicos da condição humana desde a Queda, no mundo inteiro. E a cada vez que esses elementos se manifestam, encontramos por trás deles, bem na raiz do pecado racial, um coração incrédulo que resiste à graça e à misericórdia de Deus.

O evangelho de Jesus Cristo é a única esperança de chegarmos a soluções de fato significativas para o problema racial. É isso que John Piper nos mostra neste livro, quando lança a luz do evangelho sobre essa questão.

Além de confessar seus próprios pecados e sua experiência pessoal com tensões raciais, ele conta também como Deus tem transformado sua vida e sua igreja. Piper expõe aos olhos dos leitores a realidade e a extensão do racismo e, a seguir, demonstra, a partir das Escrituras, como a luz do evangelho atravessa as trevas sombrias desse pecado tão destrutivo.

Publicado por Vida Nova.

2 Comentários

  1. O problema do racismo midiático é não sabermos de fato o que se trata na raiz. É inseguro afirmar que o policial matou o rapaz pela cor. Não sabemos se de fato ele foi rendido e morto de propósito ou sufocado para ser rendido com mais facilidade. Mas render uma pessoa com joelho no pescoço, penso ser brutal e desnecessário.
    Infelizmente as ocorrências em nível de mídia são totalmente desprovidas de crédito por mim, pois a usam por motivos de interesse, promovendo fatos e factoides como esteio para promoção de mentiras hom´éricas.
    De modo que não posso crer piamente nem descrer friamente. Levando em consideração que foi verdade e foi realizado em prol de um viés racista, o ato foi inumano, cruel e digno de todo o repúdio que um ser humano pode despender.
    Se não for verdade, sentenciamos um homem no ofício do dever. Mas um joelho no pescoço não parece fazer parte desse dever, menos a foto tirada justificaria.
    Tirar qualquer parecer, pois a mídia é tendenciosa e uma foto tirada em um momento nos conduz a um pensamento quase certo, mas a posição confortável de Derek no pescoço de um homem (que apesar de sua estatura alta e corpulento), justificaria oito minutos em cima do pescoço do homem?!
    São as observações que faço, e penso sinceramente que este homem foi sentenciado a morte sem direito a tribunal ou júri por um policial que pensa ser o Dredd – em que no filme de 1995 apreende, julga e executa, de forma resumida e aparenta eficiência. Se chegaram a este nível, prova que os confederados e a Klu Klux Klan segue intrépida e mais viva que nunca, apenas secreta e invisível enquanto organização.
    Mais que racismo foi um assassinato – e isto a mídia não evidencia. Pudera – defende o aborto, que é uma modalidade de assassínio covarde, não possuem força para contestar de forma humana a morte de um inocente e rotular o feito com a palavra correta.
    Racismo é um ato ofensivo. Neste caso brindado com uma morte. Mas a palavra correta para designar é assassinato. E o mass media é tão tendencioso que sequer nos leva a raciocinar sobre, para de alguma forma, encobrir as formas de morte que julgam toleráveis, como o aborto e a eutanásia.

  2. Wellington Tadeu disse:

    A MOTIVAÇÃO (o impulso interno que leva à ação) de um assassinato JAMAIS poderá ser ignorada. A BÍBLIA não ignora tal motivação. Nosso Código Penal, por exemplo, também não ignora a motivação de um assassinato. Do ponto de vista tanto ESPIRITUAL quanto MORAL, a motivação TORPE ou ESTÚPIDA de um assassino torna seu ato criminoso VÁRIAS vezes PIOR.

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