Como o jazz pode moldar a apologética | Douglas Groothuis

John Coltrane (1926-1967)

O jazz é um tesouro nacional, mas não é mais um passatempo comum. Primeiro o rock, e, em seguida, o hip hop, eclipsaram sua popularidade há muito tempo. O historiador Gerald Early afirma que três coisas definem exclusivamente os Estados Unidos: a Constituição, o beisebol e o jazz. No entanto, a venda de discos de jazz representa apenas uma pequena fração do mercado da música. A última vez que verifiquei, foi de 4%. Muitos de meus alunos no Seminário de Denver e em outras instituições onde ensino sabem muito pouco sobre jazz e ficam um pouco confusos, se não desconcertados, com minhas referências a ele. Outros afirmam que “não entendem jazz”, talvez com uma pontada de culpa que deveriam sentir. No verão passado, um pastor do seminário muito inteligente e um amigo de longa data assistiram a um concerto de jazz comigo. Depois, ele disse: “A música tem um centro, mas não consigo encontrá-lo”. Eu humildemente disse a ele que tinha encontrado e que adorava. Eu amo o jazz por muitas razões. Uma razão notável é que ele pode ajudar a informar e a reformar nossos compromissos apologéticos por meio de seu gênio distinto. Tudo o que é necessário é um pouco de transposição das sensibilidades do jazz para as habilidades da apologética.

Meu ponto aqui não é evangelizar para o jazz, ou pelo menos não diretamente. (Faço isso em outro lugar.) Quer uma pessoa goste ou não goste, entenda ou não entenda de jazz, a natureza da música é rica em virtudes que podem ser transferidas para a arte de defender e elogiar a cosmovisão cristã. Por isso, não estou argumentando que os cristãos devam ser músicos de jazz ou escrever sobre jazz. Isso é verdade, mas estou buscando outra coisa: a essência do próprio jazz como forma de arte e o que ele nos diz sobre a excelência em geral e em particular para o testemunho cristão da verdade.

O que é jazz?

As raízes do jazz são complexas e contestadas, mas todos garantem que o jazz surgiu de canções escravas afro-americanas. Essas canções de lamento e esperança estavam ligadas a ritmos que ajudavam os trabalhadores exaustos a reunir suas forças e se animar. Essa “chamada e resposta” é intrínseca ao jazz – essa colaboração e cooperação musical executadas sem partes com scripts.

Nesta tradição, uma banda de jazz toca de acordo com a estrutura musical (ou uma tabela musical) e os solos são realizados nos locais apropriados. Isso requer um profundo conhecimento dos padrões do jazz (o cânone musical) e como tocá-los. (Veja Ted Gioia, Jazz Standards.) Aprender essas melodias canônicas e dominar o instrumento significa passar “tempo no depósito de lenha”. Este é um termo do jazz para se referir à prática, ao refinamento das habilidades de alguém – também conhecido como “chops”, termo cunhado por Louis Armstrong, um dos pioneiros seminais do jazz.

No entanto, um verdadeiro grupo de jazz nunca tocará a mesma música da mesma maneira duas vezes. (Kenny G e a maior parte do “jazz suave” não se incluem nisso.) Minha colossal coleção de John Coltrane ostenta cerca de vinte versões de sua interpretação de “My Favorite Things” de “A Noviça Rebelde”. Cada versão é única e muito diferente de todas as outras. Improvisação – a medula do jazz – é o que explica isso. Jazzistas improvisam de duas maneiras principais.

Primeiro, em uma apresentação de jazz, um ou mais músicos executam solos que são criados no momento da apresentação. Não há dois solos de jazz do mesmo instrumentista na mesma música que soem iguais, embora sejam geralmente semelhantes. Esse tipo de solo é semelhante a compor no momento da apresentação. O escritor de jazz Ted Gioia chama o jazz de “arte imperfeita” por esse motivo. A liberdade de falhar abre caminho para a liberdade brilhar. Músicos de jazz, como o guitarrista Pat Martino, costumam se referir a isso como “estar no momento”. Também podemos pensar nisso como se apresentar sem uma rede de proteção (mas não sem habilidade).

Segundo, músicos de jazz improvisam juntos, não apenas durante solos. Isso é conhecido como “improvisação de grupo”. Mesmo quando o baterista, o pianista e o baixista – a seção rítmica – apoiam um solista, eles adaptam seu acompanhamento pelo que ouvem o solista tocando, seja trompete, saxofone, vibrafone ou outro instrumento. O pianista de jazz Herbie Hancock é, talvez, o maior mestre vivo dessa habilidade. A improvisação de grupo é rara e provavelmente exclusiva do jazz ou, pelo menos, da música influenciada pelo jazz e infectada pelo jazz.

O jazz dialoga com a apologética

O que, então, essa ênfase em dominar o material e improvisar (nos dois sentidos acima) tem a ver com a apologética? Assim como os músicos de jazz, os apologistas precisam “conhecer suas tabelas musicais”, após terem passado muito “tempo no depósito de lenha”. Ou seja, eles precisam dominar os argumentos apologéticos padrão sobre a natureza da verdade e da fé, os argumentos para a existência de Deus (teologia natural), a confiabilidade da Bíblia, a divindade e ressurreição de Cristo, a defesa contra visões de mundo rivais (ateísmo, panteísmo, politeísmo, budismo, islamismo) e muito mais. No entanto, conhecer os argumentos (as tabelas musicais) não é o mesmo que oferecer os argumentos em várias configurações interpessoais. Isso inclui oferecer argumentos no âmbito individual, em um pequeno grupo, em um grupo maior, em uma palestra, em um sermão, on-line, em um cartão postal e muito mais. Isso exige inventividade, estar preparado “no momento” para avaliar o cenário, aproveitar o momento e tocar em conformidade. O testemunho apologético nunca deve ser pomposo ou clicherizado, assim como o jazz nunca é inflexível em relação a uma maneira de tocar uma melodia. Como Phillip Brooks disse há muito tempo a respeito da pregação, a apologética é “verdade através da personalidade”. Ninguém mais tem sua personalidade e cada situação é única. Então faça música – em seus solos e através da dinâmica de grupo.

Uma vez que o jazz é feito através de interação profunda, o apologista deve solicitar reações do incrédulo por meio da “chamada e resposta”. Transposto da música para a fala, isso significa diálogo, não monólogo. No jazz, um músico não executa o solo de acordo com uma tabela musical, enquanto é acompanhado por músicos monótonos. Em vez disso, ele improvisa junto com o grupo. Mutatis mutandus, portanto, o apologista não recita um texto sem interação com os ouvintes. Não, alguém fala diante de um ou mais ouvintes, que, por sua vez, ouvem e respondem. Essa música apologética é feita mutuamente. Devemos desejar estar “no momento”, enquanto nos apoiamos em Deus, o Espírito da Verdade (João 14:26), momento a momento. Isso não elimina erros. Assim como o jazz é “a arte imperfeita” (Gioia), o diálogo apologético permite erros, que se espera que possam ser resolvidos (ou pelo menos minimizados) através de discussões em andamento. Se mais de um cristão está argumentando com um público não cristão, cada um pode apoiar o outro. Herbie Hancock diz que tocou uma nota errada no piano enquanto tocava no The Miles Davis Group em meados da década de 1960. Ele foi resgatado quando Miles tocou uma nota que fez do seu “erro” a nota certa, afinal. A apologética também precisa desse tipo de trabalho em equipe.

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Estudo e improvisação

Alguns pensam erroneamente que a inspiração na apologética ou no testemunho cristão em geral tem pouco ou nada a ver com estudos prévios. Isso está errado – tanto para a apologética quanto para o jazz. Os melhores improvisadores praticam mais, como John Coltrane. Esse virtuoso do saxofone era conhecido por praticar incessantemente e mesmo antes de dormir, fazendo com que ele adormecesse com o saxofone. Quando Jesus disse a seus discípulos que não se preocupassem em como responderiam quando fossem presos por sua fé, ele não disse para não estudar, mas não se preocupar (Marcos 11.13; Lucas 12.11). Além disso, os discípulos estudaram e viveram com o Mestre por cerca de três anos antes dessa declaração. Eles já estavam bem equipados para produzir sob pressão.

Confiar no Espírito Santo não significa ser um ignorante ou, no jargão do jazz, não “passar um tempo no depósito de lenha”. Em vez de recitar pontos de discussão (como cabeças falantes), o apologista deve engajar os pontos de discussão por meio da troca de ideias. As faíscas voam e elas podem acender os fogos amigáveis ​​da verdade. As verdades de Deus que inicialmente eram apenas rejeitadas ou consideradas podem se tornar conhecimento através da persuasão paciente inspirada pelo Espírito da Verdade.

Sincopação e salvação

Vamos considerar mais um elemento do jazz pertinente à apologética: sincopação. Este é um conceito sutil. Sincopar significa atingir a nota fraca (offbeat) em vez da nota grave (down-beat) esperada. Há liberdade para sincopar, o que significa acentuar a nota fraca sem desperdiçar a batida. Isso raramente é ouvido no rock and roll, que geralmente é muito mais simples e previsível. (O rock progressivo é outra questão, pois é influenciado pelo jazz.) De maneira mais geral, significa fazer com que as surpresas funcionem no momento. A sincopação evita que a música seja penosa e entediante. É um tipo de improvisação particularmente sublime. É por isso que os músicos de jazz tantas vezes se olham e sorriem com um brilho nos olhos enquanto se apresentam. Jesus sincopou fazendo coisas inesperadas, mas maravilhosas, durante todo o seu ministério. (Veja, Robert Gelinas, Finding the Groove.) Jesus nos abençoa com muitos exemplos, mas considere esse feliz encontro.

Tendo entrado em Jericó, Jesus atravessava a cidade. Havia ali um homem chamado Zaqueu, que era rico e chefe de publicanos. Ele tentava ver quem era Jesus e não conseguia, por causa da multidão e porque era de pequena estatura. Correndo na frente, subiu num sicômoro a fim de vê-lo, pois Jesus tinha de passar por ali.

Quando chegou àquele lugar, Jesus olhou para cima e disse-lhe: “Zaqueu, desce depressa, porque hoje tenho de ficar em tua casa.” Então ele desceu rapidamente e o recebeu com alegria.

Ao verem isso, todos criticavam, dizendo: “Ele foi ser hóspede de um homem pecador.” (Lucas 19.1-7).

Note que Jesus não pretendia fazer uma visita a Zaqueu. Ele estava “atravessando Jericó”. O pequeno Zaqueu, que estava em uma árvore, era certamente uma “nota fraca”, principalmente porque esses cobradores de impostos judeus eram considerados terríveis “pecadores” por causa de seu conluio com Roma e pela extorsão de dinheiro extra para si. Mas encontramos nos versículos 8-10 que Zaqueu se arrependeu publicamente, fazendo Jesus exclamar:

Hoje a salvação chegou a esta casa, pois este homem também é filho de Abraão. Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido. (Lucas 19.9-10).

A sincopação de Jesus resultou em salvação

Francis Schaeffer (1912-1984) foi um apologista exemplar de várias maneiras. Mas sua maior força não estava em discursos públicos, mas em conversas privadas. William Edgar, agora teólogo do Seminário Teológico de Westminster, relata que Schaeffer já esteve em uma conversa difícil com uma incrédula no L’Abri, um centro de estudos cristão nos Alpes Suíços. Uma jovem tinha uma estranha objeção quanto a se tornar cristã. Ela não podia servir a um Deus que exigia sacrifícios de animais durante o tempo do Antigo Testamento. Schaeffer tentou várias abordagens, nenhuma das quais afastou a mulher de sua objeção. Então ele olhou para os sapatos dela, feitos de couro. Schaeffer perguntou à mulher se usar esses sapatos de couro, tirados de um animal, era imoral. Ela disse não. Então a conversa se abriu para a verdade e a bondade dos caminhos de Deus com os homens. Schaeffer, como Jesus, sincopou. Eu li milhares de páginas sobre filosofia da religião e apologética, mas nenhum livro ou artigo sugeriu uma “apologética do couro de sapato”. Mas, estando preparado e estando “no momento”, Schaeffer sabia o que fazer. Suponho que o Espírito Santo saiba tocar de improviso.

Quer você esteja (como eu) entre os “poucos, orgulhosos, aficionados pelo jazz” ou não, essa arte musical tem muito a nos ensinar no caminho do engajamento apologético frutífero e fiel. Suas virtudes podem se tornar nossas. Nesse caso, o testemunho da igreja se aprofundará e se expandirá à medida que a música melódica da vida eterna se espalhar por toda parte.

Traduzido por Jonathan Silveira.

Texto original: How Jazz Can Shape Apologetics.

Douglas Groothuis é professor de filosofia no Denver Seminary. Coordena o curso de apologética cristã e ética e dirige o Gordon Lewis Center for Christian Thought and Culture. Obteve seu PhD em filosofia na University of Oregon em 1993, e está no Denver Seminary desde então.

1 Comentário

  1. David Julio disse:

    Belíssimo artigo. Como faço para tê-lo em PDF?

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