Corinthianismo: o futebol como liturgia modeladora da adoração | Thiago Oliveira

“No início não havia vida, não havia nada. Era tudo escuro, era tudo preto. Até que pelas mãos de cinco imigrantes, em volta de um lampião no Bom Retiro, fez-se luz. Lentamente, o clarão inundou o breu, o branco se misturou ao preto e tudo ficou alvinegro. Nascia o Sport Club Corinthians Paulista. Mais que um clube, o Todo Poderoso.”

O Sport Club Corinthians Paulista lançou uma campanha em vídeo no qual trata a relação entre clube e torcida como uma religião:

Batizada de Corinthianismo, a religião não está sendo encarada como mero marketing, mas tem sido construída com símbolos e preceitos, tais como qualquer outro credo religioso. Veja os 10 mandamentos do Corinthianismo:

  1. “Amar o Corinthians acima de qualquer resultado, partida e jogador.”
  2. “Nada é mais importante do que o jogo do Corinthians.”
  3. “Aqui é Corinthians. Aqui é na raça”.
  4. “A Fiel não vaia. A Fiel apoia os 90 minutos.”
  5. “Nossas glórias mil são contra tudo e contra todos.”
  6. “O bando grita mais forte quando o Timão está perdendo.”
  7. “Sofredor hoje. Sofredor amanhã. Sofredor para sempre. Graças a Deus”.
  8. “Este time só tem um dono. Este time é do povo.”
  9. “Eu nunca vou te abandonar. Porque eu te amo.”
  10. “Vai, Corinthians!”

Aqui identificamos o problema do coração humano: sua “bússola afetiva” está descalibrada. O autor James K. A. Smith, em sua aclamada obra Você é aquilo que ama (Vida Nova, 2017), defende a ideia de que temos uma bússola que nos guia para onde o nosso coração deseja, e o objeto que desejamos logo se torna o objeto de nossa devoção. Smith explica esta devoção enraizada na afetividade da seguinte maneira:

Ser humano é ser para algo, direcionado para, voltado para. Ser humano é estar em movimento, em busca de algo, atrás de algo. Somos como tubarões existenciais: precisamos nos mover para viver. Não somos apenas recipientes estáticos de ideais, e sim, criaturas dinâmicas voltadas para algum fim. Em filosofia, temos uma expressão abreviada para isso: algo orientado com vistas a um fim ou telos (uma “meta”) é descrito como “teleológico” [p.28]

O que vai nos orientar para o telos é aquilo que vamos amar. E então o amor é desembocado na prática através daquilo que Smith irá chamar de liturgias, ou seja, rituais que vão formando o nosso desejo por aquilo que passa a ser amado e adorado como deus, tornando-se um ídolo. Tais práticas modelam os nossos afetos e com isso nos cativam e nos transformam em adoradores, isto sem tentar nos convencer pela via da razão ou da crença. Se modelam nosso amor, elas já nos conquistam.

Volte para os 10 mandamentos do corinthianismo e veja qual a primeira palavra que encabeça a lista. Agora lembre-se das palavras de Jesus sobre o maior mandamento:

Um deles, doutor da lei, interrogou-o, para colocá-lo à prova: Mestre, qual é o maior mandamento na Lei? Jesus lhe respondeu: Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, de toda a alma e de todo o entendimento. Este é o maior e o primeiro mandamento. (Mateus 22.35-38)

É no coração que se travará a batalha contra a idolatria. O homem é um ser racional, mas não devemos isolar e elevar a razão humana. O homem é um ser afetivo e é justamente na sede de nossos afetos que está o perigo de fabricarmos ídolos, para usar uma ilustração de Calvino. Os ídolos são forjados nas liturgias seculares que envolvem a sociedade e a cultura, logo, tais liturgias modelam a identidade que passa a definir a pessoa como indivíduo dentro de uma consciência coletiva (e religiosa), definindo o tipo de adorador que se devota àquilo que é objeto de seu amor. Em suma: o que você pratica e o que essas práticas fazem em você, te definirão como adorador.

O corinthianismo, que trata o futebol como religião é apenas a explicitação do que na prática já ocorre com muitos fanáticos pelo futebol, não apenas os corinthianos. Quantos de nós, brasileiros, que crescemos com a ideia de que estamos no país do futebol, não presenciamos diversos episódios de idolatria envolvendo o “time do coração”? Gente que paga promessa se o time vencer e sobe escadaria de joelhos, gente que faz simpatia, que reza para santos, que usa sempre a mesma peça de roupa porque “dá sorte” e etc. E toda essa devoção é posta em prática nos rituais futebolísticos que, dentre várias coisas, inclui ir para o estádio vestindo a camisa do clube, encontrando com os “irmãos” da torcida, cantando as glórias do seu time e transmitindo este ritual para filhos e netos. E um importante detalhe: geralmente isto é realizado aos domingos.

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O que foi descrito acima é uma liturgia que concorre com a única liturgia que pode reordenar nossos amores e colocar Deus no topo, tal como deve ser, pois, como Criador, ele nos criou para si. E esta liturgia é o culto cristão. Smith comenta: “O culto cristão é o ambiente onde Deus recalibra nosso coração, reforma nossos desejos e reabitua nossos amores. O culto não é apenas algo que fazemos, mas é onde Deus faz algo em nós” [p.112]. Daí a necessidade de congregarmos e nos moldarmos pela liturgia do culto, pois ela “não apenas ensina a pensar; ensina a amar” [p. 120].

A campanha do Corinthians gerou muitas críticas, até mesmo dentro de sua torcida, principalmente porque no seu vídeo fez-se o uso de imagens de Cristo e da simbologia cristã, vistas como ofensivas por católicos e evangélicos. Todavia, acredito que haja um lado bom nisso tudo: fazer as pessoas perceberem o quanto que a religiosidade se faz presente em suas vidas e que não há neutralidade. O homem é religioso e ponto. E minha oração é que, ao perceberem isso, essas pessoas tenham a oportunidade de conhecer o Evangelho e serem levadas a adorar o único e verdadeiro Deus.

Também rogo para que os cristãos percebam que seu credo não pode se resumir a um conjunto de valores abstratos. Que a fé não pode ser encarada como mera intelectualização do conteúdo revelado, mas deve ser vivenciado dia após dia através de práticas que demonstrem que Deus é o objeto de nossa adoração, pois devotamos a Ele as nossas vidas com toda nossa afeição. E o culto cristão semanal, isto é, o reunir-se como igreja, é o ponto alto da liturgia que forma e reorganiza nossos amores, nos moldando segundo a imagem de Cristo para que as nossas atividades secundárias estejam nutridas por aquilo que acontece quando juntos, os membros do Corpo de Cristo, através da Palavra e dos meios de graça, são plenamente cheios do Espírito Santo.

Thiago Oliveira é graduado em História e especialista em Ciência Política, ambos pela Fundação de Ensino Superior de Olinda (Funeso). Mestrando em Estudos Teológicos pelo Mints-Recife. Casado com Samanta e pai de Valentina, atualmente pastoreia a Igreja Evangélica Livre em Itapuama/PE.
Você é aquilo que ama. Mas pode ser que você não ame o que pensa que ama.

Nosso coração é moldado fundamentalmente por tudo o que adoramos. Talvez sem perceber, somos ensinados a amar deuses rivais em lugar do verdadeiro Deus para o qual fomos criados. Embora tenhamos a intenção de moldar a cultura, nem sempre temos consciência de quanto a cultura nos molda. Em Você é aquilo que ama, James K. A. Smith nos ajuda a reconhecer o poder formador da cultura e as possibilidades transformadoras das práticas cristãs, redirecionando nosso coração para o que de fato merece nossa adoração.

Smith explica que a adoração é a “estação da imaginação”, capaz de incubar nossos amores e anseios de tal modo que os nossos engajamentos culturais tenham sempre Deus e o reino como referenciais. É por essa razão que a igreja e o culto em uma comunidade local de crentes devem ser o centro da formação e do discipulado cristãos. O autor engaja o leitor fazendo um uso criativo de filmes, obras de literatura e músicas e trata de temas como casamento, família, ministério de jovens, fé e trabalho. Além de tudo, também sugere práticas individuais e comunitárias para moldar a vida cristã.

Publicado por Vida Nova.

1 Comentário

  1. Valter disse:

    Parabéns ao articulista. Nossos ídolo nos destroem.

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