Cristãos na Babilônia: construindo a paz na cidade dos homens | Luiz Adriano Borges

"A Torre de Babel" (Pieter Bruegel,1563)

Em meu devocional diário passei por uma passagem muito conhecida de todos nós, mas que mesmo assim gostaria tecer alguns comentários sobre ela. A passagem se encontra no livro de Jeremias, capítulo 29, mais especificamente os versículos 1 a 7:

Esta é a palavra que veio a Jeremias da parte do SENHOR:

Estas são as palavras da carta que o profeta Jeremias enviou de Jerusalém ao restante dos anciãos dentre os exilados, como também aos sacerdotes, aos profetas e a todo o povo que Nabucodonosor havia deportado de Jerusalém para a Babilônia.

Isso se deu depois que o rei Joaquim, a rainha-mãe, os funcionários do palácio, os chefes de Judá e Jerusalém, os carpinteiros e os artífices haviam saído de Jerusalém para o exílio.

A carta foi enviada por intermédio de Elasa, filho de Safã, e de Gemarias, filho de Hilquias, os quais Zedequias, rei de Judá, enviara a Nabucodonosor, rei da Babilônia. A carta dizia:

Assim diz o SENHOR dos Exércitos, o Deus de Israel, a todos os que estão no exílio, aos quais deportei de Jerusalém para a Babilônia:

“Edificai casas e habitai nelas; plantai pomares e comei do seu fruto.”

“Casai-vos com mulheres e gerai filhos e filhas; também tomai esposas para vossos filhos e dai vossas filhas em casamento para que tenham filhos e filhas. Multiplicai-vos ali e não venhais a diminuir.”

“Empenhai-vos pela prosperidade da cidade, para onde vos exilei, e orai ao SENHOR em favor dela; porque a prosperidade dela será a vossa prosperidade.”

Esta passagem se refere a uma carta de Jeremias aos cativos na Babilônia. A instrução é para que eles vivam normalmente na nova cidade para a qual estão indo. No versículo 5 lemos “Edificai casas e habitai nelas; plantai pomares e comei o seu fruto.” O mandamento é de se cultivar e criar na nova terra. Não é à toa que no versículo 2 são mencionados carpinteiros e ferreiros. Não há menção a outros profissionais e isto é curioso, porque com certeza existiam outras atividades entre o povo. Penso que a ênfase nessas duas atividades se dá justamente para apontar a necessidade de reconstrução de uma nova vida com as tecnologias disponíveis; e que essas atividades também poderiam estar ao alcance para abençoar outros povos.

Não sei se você já percebeu, mas, na Bíblia, é muito comum o intercâmbio de artesões hábeis em diversas tarefas; para construir e reconstruir o templo são chamados profissionais diversos de diferentes povos. A habilidade técnica era uma ferramenta (desculpe o trocadilho) essencial na busca por bem-estar e até na construção de um ambiente para adoração. Vejam o importante papel da tecnologia até mesmo em templos bíblicos! Assim, aos exilados era comandado usarem de suas habilidades para edificar na nova cidade, por mais depravada que ela fosse.

E no versículo 7 lemos que os exilados deveriam se “empenhar pela prosperidade da cidade, para onde vos exilei, e orar ao SENHOR em favor dela; porque a prosperidade dela será a vossa prosperidade.” A mensagem dessa carta do profeta Jeremias é uma mensagem que vai contra o nosso senso comum. Como assim conduzir uma vida normal? Como assim construir coisas e até mesmo orar pela paz na cidade? Não é melhor somente aguardar pelo retorno? Ou como cristãos hoje em dia poderíamos pensar, não é melhor somente aguardar a volta de Jesus e ficar somente orando e vigiando? Sinto lhe dizer, mas, não, não é isso que Deus nos instrui aqui através de seu profeta.

Em nosso contexto, em meio a uma pandemia de coronavírus, aquecimento global, queimadas, nos vem à mente pensamentos pessimistas de que não adianta fazer nada; o melhor é aguardar a vinda do Senhor. Mas o contexto dos exilados era muito pior do que o nosso. Eles teriam que viver em uma terra estranha, com cultura e deuses diferentes e teriam que ajudar na paz dessa cidade. E paz, no contexto bíblico, é mais do que somente uma calmaria; é algo mais integral, no sentido abrangente de bem-estar e bem comum. Então, o exilado deve orar e se colocar ao trabalho para edificar a cidade e ajudar para torná-la o mais agradável possível de se viver.

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Um autor que escreveu muito bem sobre essa temática foi Egbert Schuurman em “Cristãos em Babel” (Monergismo, 2016). Ali ele aponta que vivemos em uma cultura babilônica, mas que não devemos evitá-la, buscando viver em uma opção de afastamento mundano. Devemos nos engajar na melhoria material da sociedade, assim como orar para que ocorra benefícios espirituais. Sabemos que nossa cultura distorce a ciência e tecnologia, mas a Babilônia também o fazia. Utilizava todo o esforço científico e tecnológico para obter domínio sobre outros povos, para construir templos para suas divindades e sua magia para tentar dominar a natureza. Sua busca era por autonomia, no velho espírito de Babel, em Gênesis 11, e, em sua arrogância, acreditava que sua habilidade era suficiente para tudo. Mas sabemos que essa cultura seria destruída e apagada do mapa.

O comando ao exilado, assim como ao cristão, é de construir sua vida Coram Deo, na presença de Deus, desenvolvendo nossa ciência e tecnologia como se estivéssemos na presença de Deus. Devemos orar pela paz da cidade, nunca desanimando. Mas, ao mesmo tempo, devemos agir como profetas, anunciando que a catástrofe final está próxima. Soluções políticas não alterarão o curso dos acontecimentos se não houver arrependimento e reconhecimento de que as obras de nossas mãos devem ser conduzidas como se estivéssemos na presença de Deus, isto é, com ética e pensando no bem comum. Devemos olhar primeiro para a Palavra de Deus para encontrarmos as normas para construir e edificar a paz na cidade.

A ciência e a tecnologia bem orientadas podem produzir a paz na cidade, na medida em que os artefatos sejam pensados eticamente, com as pessoas tendo mais acesso às melhorias, isto é, quando as obras humanas sejam pensadas no florescimento humano em geral. E isto não é pensar de forma reducionista, em que as únicas opções de soluções sejam técnicas e científicas, mas sim, um posicionamento de cocriação, de mordomos da criação. O cristão não é chamado a cruzar os braços enquanto assiste a degradação moral e material de uma civilização, mas sim, procurar trazer esperança onde estiver, seja através de seu testemunho (orar) como de sua prática (edificai e plantai). E sempre temos que ter em mente que o nosso tempo de exilados (uma vez que o cativeiro na Babilônia nos serve de metáfora para nossa condição nessa terra), é passageiro. Ainda mais que devemos ter a certeza que nada do que fazemos é inútil e boa parte do que construímos será redimido na nova terra. Claro que isso não é querer trazer o paraíso para a terra, achando que poderemos redimir a civilização unicamente através de nossas atividades, mas ainda assim é procurar trazer certo alívio à condição humana.

Em períodos como esse que estamos vivendo, somos ainda mais instigados a orar, edificar e a plantar. Não é momento para nos desesperarmos; o Deus de Jeremias, o Deus dos judeus exilados, é o mesmo Deus hoje, que nos comanda a estudar ciência e tecnologia, e a apresentar nossos dons onde eles forem necessários, na cidade dos homens porque na paz da cidade vós tereis paz (Jr 29, 7).

Luiz Adriano Borges é professor de história na UTFPR-Toledo, lecionando sobre história da técnica, tecnologia e sociedade, filosofia, sociedade e política. Sua área de pesquisa centra-se na História e Filosofia da Tecnologia e da Ciência. Seus projetos mais recentes são: “A visão cristã da tecnologia” e “Esperança em Tempos de guerra. Ciência, tecnologia e sociedade em Tolkien, Huxley, Lewis e Orwell (1892-1973)".

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