Cristãos Reformados e Israel: a necessidade de um novo diálogo | Igor Sabino

Texto baseado no original “Reformed Christians and Israel: The Need For a New Conversation”[1]

Em 2017 foi comemorado o aniversário de 500 anos da Reforma Protestante, um dos eventos mais importantes do século XVI. Como um cristão reformado, esperei por esse evento com grande alegria. Foi por causa da Reforma e do trabalho de reformadores como Martinho Lutero e João Calvino que as traduções da Bíblia foram popularizadas na Europa, abrindo o caminho para que o Evangelho atingisse a pequena cidade onde moro, no Nordeste do Brasil.

Embora eu seja grato a Deus pelas vidas e obras desses homens, devo confessar, porém, que, recentemente, tive alguns conflitos com relação à tradição reformada. Ainda acredito nas doutrinas da graça e amo os Catecismos, documentos históricos e declarações de fé escritas pelos reformadores. Mesmo crendo nas doutrinas da graça e subscrevendo os catecismos e as confissões de fé escritas pelos reformadores, havia algumas páginas da história da Reforma Protestante que me incomodavam, especialmente com relação a Israel e aos judeus.

Ano passado, viajei por Israel, Territórios Palestinos, Jordânia e Polônia, para tentar melhor compreender os desafios do Oriente Médio moderno. O objetivo era aprender sobre como os cristãos podem se envolver positivamente com a região e lidar com os principais problemas que ela enfrenta hoje. Certamente, vivi muitas experiências inesquecíveis. Entretanto, poucas coisas me tocaram mais do que minhas visitas ao Yad Vashem (o museu do Holocausto em Jerusalém) e a Auschwitz e Burkenau, dois campos de concentração nazistas na Polônia, onde milhões de judeus foram mortos durante a Segunda Guerra Mundial.

Uma das primeiras coisas que notei quando entrei em Yad Vashem foi uma citação de Santo Agostinho que dizia: “Não os mate [os judeus]. Torne-os andarilhos desabrigados”. Essas palavras me soaram tão hostis e antissemitas que eu facilmente poderia atribuí-las ao Hamas ou a qualquer outro grupo terrorista islâmico que ameace a existência do Estado moderno de Israel. Entretanto, elas foram proferidas por um grande pai da igreja, um dos homens que lançaram os alicerces da civilização ocidental e que inspirou todos os teólogos e “gigantes da fé” que admiro.

Passado o meu choque inicial, descobri que as palavras de Agostinho eram uma interpretação equivocada do Salmo 59:11 e visavam promover uma visão mais positiva dos judeus, em contraste com os ensinamentos de Crisóstomo e Ambrósio[2], outros líderes religiosos de sua época. O teólogo queria evitar os constantes ataques violentos contra sinagogas, propriedades judaicas, e até mesmo judeus. Ironicamente, ele fez isso negando o direito do povo judeu a uma terra e a uma nação, promovendo o que mais tarde seria chamado de “teologia da substituição”, a crença de que a igreja substituiu Israel. De acordo com esta visão, não há mais distinções especiais entre os judeus e os outros povos no plano redentor de Deus. Portanto, todas as promessas escatológicas feitas à nação de Israel devem ser aplicadas a todos os cristãos. Essa ideia foi parte integrante da fé cristã durante séculos, dando origem a certo tipo de antijudaísmo que era comum durante os primeiros anos da Igreja Católica – e permaneceu incontestável durante os anos iniciais da Reforma.

Tanto Lutero como, depois, Calvino foram altamente influenciados pela teologia agostiniana, especialmente em relação ao pecado e à natureza humana. Essa influência, porém, como destaca Gerald McDermott, também se estendeu à visão dos reformadores acerca de Israel, levando-os a adotar a teologia da substituição[3]. Nos escritos de Calvino, essas ideias aparecem com um tom mais brando, diferentemente de algumas obras de Lutero. Calvino acreditava que, embora as promessas de Deus a Israel devessem ser aplicadas à igreja, os judeus teriam novamente um lugar distinto entre as nações no final dos tempos.

Durante os anos que sucederam a Reforma, Lutero endossou uma visão benevolente dos judeus, esperando que eles se arrependessem do judaísmo e se convertessem ao cristianismo. No final de sua vida, entretanto, sua postura mudou bastante, passando a adotar um tom bastante anti-judaico. Um de seus últimos livros, escrito pouco antes de sua morte, é intitulado “Os judeus e suas mentiras”. Nele, Lutero argumenta que os judeus seguem uma religião falsa, e aconselha os cristãos a adotar medidas bastante hostis com relação aos judeus, inclusive a destruição de sinagogas e propriedades judaicas[4].

Foi difícil para mim andar por Auschwitz e Birkenau e não pensar nisso. Era impossível ver as câmaras de gás em que milhões de judeus morreram e não lembrar que o Holocausto foi promovido e apoiado por pessoas que alegaram ter a mesma teologia que eu. Tudo o que eu conseguia pensar era nas histórias que eu havia ouvido na Jordânia, dias antes, de cristãos iraquianos que sofreram coisas semelhantes aos judeus, mas nas mãos dos jihadistas do Estado Islâmico. Isso me despedaçou de uma maneira indescritível.

Eu não sou teólogo. Sou apenas um cristão que ama a Bíblia e luta diariamente para entendê-la e obedecê-la. Porém, não posso levar em consideração séculos de anti-judaísmo cristão sem me perguntar se há algo de errado com alguns dos ensinamentos de homens respeitados, como Agostinho e Lutero com relação a Israel e os judeus. Quando leio a Bíblia, é claro que estou lendo um livro judaico, escrito por autores judeus, sobre um Deus judeu que, na sua misericórdia, decidiu fazer uma aliança eterna com Israel para abençoar todas as nações da terra. Não consigo ver como a salvação, estando disponível para as nações, anula as promessas feitas aos judeus, apesar de sua desobediência e incredulidade. Quando leio Romanos 9-11 (uma das principais passagens que os cristãos reformados usam para defender a doutrina da eleição), isso se torna ainda mais claro.

No capítulo 11, versículos 28 e 29, Paulo diz que, embora os judeus sejam “inimigos” em relação ao Evangelho, eles ainda são “amados” por causa dos patriarcas, pois os dons e o chamado de Deus são “irrevogáveis”. Não se trata dos judeus ou da nação de Israel, mas da natureza e do caráter do próprio Deus. O Deus que fez uma aliança eterna e incondicional com Abraão, prometendo dar a ele e a seus descendentes um pedaço de terra e usá-los para abençoar todos os povos do mundo. O Deus que disse que Suas palavras são verdadeiras e durarão para sempre.

Fui muito confrontado com esses pensamentos desde que voltei do Oriente Médio. Mas, aos poucos fui descobrindo que não estava sozinho neste impasse. Como demonstra Gerald R. McDermott em seu livro A importância de Israel (Vida Nova), ao longo da história da igreja, muitos cristãos reformados também questionaram o papel de Israel nos planos de Deus e a maneira como a Cristandade tradicionalmente lidou com os judeus.

Os mais notáveis entre eles são os puritanos ingleses e americanos, sobretudo John Foxe e Jonathan Edwards[5]. Durante as diferentes épocas em que esses homens viveram os judeus ainda estavam dispersos. Mesmo assim, cada um deles, a sua maneira, examinou as páginas do Antigo Testamento e a epístola de Paulo aos Romanos e percebeu que Deus ainda pode cumprir suas promessas a Israel de uma maneira literal. Como destaca McDermott,

“A esperança de uma restauração futura de Israel foi renovada no século 16 com a Reforma. Lutero e Calvino incentivaram as pessoas a ler mais a Bíblia e a prestar mais atenção no sentido imediato da Bíblia, e não aos sentidos simbólico e alegórico. Para muitos dos que liam a Bíblia, ficava claro que Israel (além do Deus de Israel, é claro!) era o assunto principal do Antigo Testamento, o qual, por sua vez, perfaz um total de três quartos da Bíblia cristã, e que os profetas do Antigo Testamento haviam previsto o retorno dos judeus do mundo todo para a Terra Prometida. Estava claro também para muitos leitores que o Novo Testamento previa um futuro especial para os judeus e sua terra.”[6]

Até mesmo o Catecismo Maior de Westminster, em sua pergunta de número 191, faz referência a uma conversão nacional do povo judeu. Para minha surpresa, descobri que a tradição reformada é muito mais filossemita do que eu imaginava.

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Em 2017 foi comemorado não apenas os 500 anos da Reforma Protestante, mas também o 50º aniversário da retomada de Jerusalém pelos judeus. Já este ano, celebram-se os 70 anos da criação do Estado de Israel. A justaposição dos campos de concentração nazistas, imediatamente após uma visita ao Estado judeu, lembrou-me do quão diferentes são as coisas atualmente e do quão importante é para mim, um cristão reformado, refletir acerca dos planos que Deus ainda tem para Israel.

Após 2.000 anos de dispersão, os judeus voltaram para parte da terra prometida a eles por Deus, incluindo Jerusalém. O antissemitismo, porém, ainda está vivo e cresce cada vez mais ao redor do mundo, sobretudo no Ocidente. O conflito israelo-palestino está longe de ser resolvido e as tensões no Oriente Médio aumentam diariamente. Diante dessas realidades, acredito que os cristãos reformados não podem mais evitar abordar questões controversas como escatologia e o futuro nacional dos judeus. Para muitos, esses são temas de interesse exclusivo a cristãos pentecostais ou dispensacionalistas clássicos. Porém, a nossa tradição tem muito a nos informar acerca dessa temática, embora os reformados geralmente se esquivem da conversa sobre os últimos dias.

Charles Spurgeon, por exemplo, o grande pregador britânico do século XIX, chamava a atenção dos cristãos da sua época pela falta de interesse pela restauração final dos judeus. Segundo o príncipe dos pregadores, esse não era um assunto que recebia a devida importância, porém está claramente predito nas Escrituras[7]. Mais recentemente, em 2015, durante a conferência nacional da Coalizão pelo Evangelho, nos EUA, John Piper fez uma asserção semelhante acerca dos cristãos reformados da atualidade. Segundo ele, muitos de nós negligenciam o estudo das profecias porque tem medo de serem considerados sionistas conservadores, alarmistas preocupados com cronogramas sobre o Anticristo e o final dos tempos. Exatamente por causa disso, porém, Piper argumenta que agora, mais do que nunca, os jovens reformados precisam se envolver mais com o estudo das profecias e não negligenciar as interpretações futuristas de textos como Daniel 9 ou Mateus 25, que falam sobre o futuro de Israel.

Em suas palavras,

“Se alguma coisa é clara dos profetas, é que suas profecias foram destinadas a capacitar o presente, a justiça centrada em Deus e o sacrifício pelo alívio de todo sofrimento, e […] especialmente, o sofrimento eterno.”[8]

Depois de minhas experiências no Oriente Médio e na Polônia, tenho cada vez mais convicção sobre a necessidade de um novo diálogo entre os cristãos reformados sobre Israel. Como afirma Gerald R. McDermott, precisamos de um “novo sionismo cristão”. Precisamos repensar o que as Escrituras realmente afirmam sobre o povo e a terra de Israel. Isso é imperativo não apenas para compreendermos os desafios do Oriente Médio contemporâneo, mas, sobretudo para aliviarmos o sofrimento eterno de milhares de judeus e palestinos. Logo, é algo que não podemos mais ignorar.

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[1] Texto baseado no original “Reformed Christians and Israel: The Need For a New Conversation”, disponível em <https://philosproject.org/reformed-christians-and-israel-the-need-for-a-new-conversation/>. Modificado pelo autor.

[2] HORNER, Barry E. Future Israel: Why Christian anti-Judaism must be challenged. 2006, p. 22. Disponível em: <http://www.bunyanministries.org/books/Future%20Israel.pdf>. Acesso em 18 de outubro de 2018.

[3] MCDERMOTT, Gerald R. A Importância de Israel: Por que o cristão deve pensar de maneira diferente em relação ao povo e à terra. São Paulo: Vida Nova, 2018, p. 36.

[4] McDermott declara: “Para os estudiosos de Lutero, ele teria dito essas coisas porque acreditava que o mundo fosse terminar em seus dias e que o Diabo estava próximo, enganando a todos os que não aceitassem o evangelho. Esses escritos de Lutero eram realmente desconcertantes, mas é preciso acrescentar que ele disse coisas semelhantes sobre os turcos muçulmanos, camponeses revoltosos e sobre o papado.” (Idem, p. 36)

[5] Ibidem, pp.64-67.

[6]  Ibidem, p.64.

[7] SPURGEON, Charles. The Church of Christ. 03 de junho de 1855. Disponível em: <http://www.romans45.org/spurgeon/sermons/0028.htm>. Acesso em 18 de outubro de 2018.

[8] PIPER, John. The Shoot from Jesse, the Nations, and Israel. The Gospel Coalition 2015. Disponível em: <https://www.desiringgod.org/messages/the-shoot-from-jesse-the-nations-and-israel>. Acesso em 18 de outubro de 2018.

Igor Sabino é Bacharel e Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) e alumnus do Philos Project Leadership Institute. Realizou trabalhos humanitários em ONGs de Direitos Humanos ligadas à American University of Cairo, no Egito e pesquisas de campo na Polônia, Israel, Territórios Palestinos, Líbano e Jordânia relacionadas a migrações forçadas e perseguição religiosa. Tem como áreas de interesse: Religião e Relações Internacionais, Migrações Forçadas, Política Externa dos EUA para o Oriente Médio, Sionismo Cristão e Islã Político.
Não é difícil perceber que a análise da relação entre o cristianismo, o povo judeu e a terra de Israel é marcada por opiniões divergentes. Para muitos cristãos, Israel não passa de um Estado opressivo. Para outros, é o lar do povo escolhido de Deus. Após duas décadas de pesquisa sobre o significado de Israel e do judaísmo para a teologia cristã, o respeitado teólogo Gerald McDermott oferece um terceiro ponto de vista.

A importância de Israel desafia a suposição defendida por muitos cristãos de que, após a vinda de Jesus, os judeus deixaram de ser especiais para Deus e de que a terra de Israel se tornou teologicamente insignificante. À luz de uma nova interpretação de passagens do Novo Testamento, o autor (que também defendia esse tipo de raciocínio) mostra que tanto o povo quanto a terra de Israel continuam relevantes para o futuro da redenção e refuta a ideia da teologia da substituição, que considera a igreja o novo Israel.

Publicado por Vida Nova.

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