Cristianismo e Ciência: onde está o conflito? | Jonathan Silveira

Sem dúvida, um dos maiores mitos propagados por nossa cultura é a ideia de que ciência e fé são duas áreas completamente independentes que estão em um conflito eterno e irreconciliável. Dizem que a fé é inimiga da ciência porque contraria as conclusões a que ciência chega por meio do uso razão e a fé seria apenas um salto cego no escuro. Essas pessoas exaltam o poder da razão e desprezam o valor da fé. A fé, para elas, empobrece o mundo, enquanto a ciência enriquece. Por se acharem pessoas iluminadas e brilhantes, sonham com um mundo sem religião, onde a prosperidade pode ser alcançada por meio exclusivo da ciência.

Mas será que este realmente seria o caso? Será que a relação entre fé e ciência deveria ser compreendida de uma maneira tão radical?

Em primeiro lugar, ao contrário do que muitos pensam, o cristianismo sempre estimulou o uso da razão e incentivou a ciência.

Agostinho de Hipona

Agostinho de Hipona, um dos pais da Igreja que viveu no período de 354 d.C a 430 d.C., certa vez deparou-se com um problema teológico: se antes do dia de hoje houve o dia de ontem, e se antes do dia de ontem houve o dia de anteontem, e assim sucessivamente, isso significaria que o universo é eterno, que as causas que antecedem o dia de hoje se estendem infinitamente no passado. Mas como isso seria possível? Se assim fosse, precisaríamos vencer a série infinita de dias no passado para que pudéssemos chegar ao dia hoje, o que, claramente seria impossível. Como não fazia muito sentido acreditar que Deus teria criado um universo que sempre existiu, Agostinho, então, séculos antes do nascimento da ciência moderna, chegou à surpreendente conclusão de que o universo teve um início. Para Agostinho, Deus criou o universo junto com o tempo. E, como é cediço, hoje sabemos que, de fato, o universo teve início por meio de um momento singular em que tempo, espaço, energia e matéria vieram a existir. A descoberta de Agostinho, sem dúvida, é uma das mais importantes na história do pensamento.

Tomás de Aquino

É de conhecimento de todos os que se envolvem com a filosofia que Tomás de Aquino, cristão medieval (1225-1274), é famoso por  apresentar suas Cinco Vias para a existência de Deus e, similarmente a Agostinho, dizia que deveria existir uma Causa Primeira que deu origem ao universo. Essa Causa deveria estar fora do universo. No modelo tomista, vemos também que o universo não é visto como eterno.

João Calvino

João Calvino (1509-1564), reformador cristão, em sua mais famosa obra, a A Instituição da Religião Cristã, declara que aqueles que se envolvem com a ciência e com as artes têm maiores condições de contemplar as obras de Deus e deleitar-se nele:

“São inumeráveis as provas que atestam sua admiravável sabedoria [a de Deus] tanto no céu como na terra, não somente aquelas mais secretas, às quais se destinam o estudo da astronomia, da medicina e de toda a ciência natural, mas também o que se mostra ao exame de qualquer um, mesmo o mais inculto idiota, de tal sorte que os olhos não possam ser abertos sem que obrigados a servir de testemunhas. Na verdade, aqueles que se embriagaram ou, pelo menos, experimentaram das artes liberais, auxiliados por elas, chegam bem mais longe na introspecção dos segredos da divina sabedoria. […] Certamente, para investigar os movimentos dos astros, distribuir suas posições, medir suas distâncias, anotar suas propriedades, necessitamos de uma técnica de um trabalho bastante preciso. Com tais conhecimentos, como a providência divina se mostra de modo mais claro, assim cabe à alma elevar-se mais altamente para considerar a glória de Deus.” (A instituição da religião cristã, vol. 1, p. 52. Ed. Unesp).

O mito da Terra plana e os Pais da Igreja

Os Pais da Igreja nunca acreditaram em uma Terra plana. Os cristãos medievais sabiam que a Terra era redonda. Dinesh D’Souza nos lembra que “os antigos gregos e os cristãos medievais sabiam que a Terra era redonda. Haviam observado que o casco de um navio saindo da costa desaparece antes da ponta do mastro e notado que, durante um eclipse lunar, a Terra lança uma sombra circular sobre a lua. Da mesma forma, a cosmologia medieval de Dante estava baseada na ideia de uma Terra esférica.” (A verdade sobre o cristianismo, Thomas Nelson, p. 125).

Para maiores esclarecimentos sobre este ponto, confira o vídeo abaixo:

A ciência moderna nasce em um contexto cristão

À parte de tudo isto, também precisamos nos lembrar que foi no contexto de uma Europa cristianizada que a ciência moderna nasceu. Cientistas cristãos acreditavam que fazer ciência era uma maneira de descobrir mais sobre Deus e de glorificá-lo (para corroborar isso, basta olharmos para a citação de Calvino mencionada anteriormente). Por acreditarem que havia uma Mente Racional por trás do universo, a ciência também era possível, o universo era cognoscível. Aliás, ao olharmos em retrospectiva para a história da ciência, vemos que a grande maioria dos cientistas era cristão: Francis Bacon, Galileu Galilei, Blaise Pascal, Robert Boyle, Isaac Newton, Johannes Kepler, Michael Faraday, Louis Pasteur, Gregor Mendel, Georges Lemaître, Werner Heinsenberg, Robert Boyd, Denis Alexander, Ben Carson e Francis Collins são apenas alguns deles. Não obstante, 65% dos ganhadores do prêmio Nobel são cientistas cristãos.

Claro, isso não quer dizer que o cristianismo é verdadeiro, mas nos diz muita coisa sobre como os cristãos enxergavam seu relacionamento com a ciência.

Como não integrar fé e ciência

Podemos citar quatro modelos de integração entre fé e ciência[1]. Os três primeiros modelos são maneiras erradas de relacionar fé e ciência.

1) Modelo do conflito: Esta é a visão que mencionamos no início do texto. Fé e ciência estão em uma guerra perene e essas duas esferas não se conciliam. Este modelo se popularizou dos anos 2000 em diante em razão da ascensão de neo-ateus como Richard Dawkins, Sam Harris, Daniel Dennett e Christopher Hitchens. Eles se valiam de momentos da história em que a religião teria prejudicado o avanço científico a fim de justificar tal modelo. No entanto, como já vimos, os grandes cientistas cristãos acreditavam que Deus havia nos dado dois livros: o livro das palavras (Bíblia) e o livro da natureza (ciência). Esse modelo é tido como o mais aceitável nas universidades e na mídia.

2) Modelo de fusão: Neste modelo, fé e ciência se aproximam tanto que elas se unem de uma tal maneira a ponto de se tornarem indissociáveis. Isso acontece quando cristãos usam a ciência para provar verdades bíblicas. Isso, no entanto, é extremamente perigoso, pois as teorias científicas mudam ao longo do tempo, sofrem alterações até ao ponto de muitas vezes ser necessária uma revolução científica e nossa compreensão bíblica pode se mostrar equivocada. Não podemos construir uma teologia sobre uma teoria científica.

3) Modelo de independência: É semelhante ao primeiro modelo. Neste caso, no entanto, não há integração. A questão é simplesmente resolvida separando fé e ciência e dizendo que elas não se relacionam, não se intrometem no campo do outro. É como a separação entre razão e fé. O problema com essa visão é que ele é simplista. Desconsidera toda a complexidade da realidade e como outros campos da vida podem contribuir, enriquecer a nossa visão de mundo. Tanto a fé quanto a ciência têm muito a contribuir com explicações sobre a vida.

Colocando fé e ciência em harmonia

Já que nenhuma das opções mencionadas é viável, qual então seria a alternativa que respeita tanto a fé quanto a ciência? Sem dúvida, o diálogo é o melhor modelo. No modelo do diálogo, entendemos que fé e ciência têm papéis distintos para responder questões de natureza distinta acerca da realidade.

A ciência busca responder questões de ordem física, sobre o funcionamento da natureza. A fé busca responder questões que dizem respeito ao significado, propósito e valor. Os equívocos que ocorrem na integração entre fé e ciência se dão quando não compreendemos corretamente os papéis de cada um deles. Quanto a isso, podemos citar dois exemplos. O primeiro exemplo parte de personagens muito caros ao cristianismo protestante: Lutero e Calvino. Tanto Lutero quanto Calvino consideravam Copérnico um grande impostor, um herege. Lutero chegou a dizer:

“Houve menção a um certo novo astrólogo [Copérnico] que queria provar que a Terra se move, e não o céu, o sol, e a lua. Isso se daria como se alguém estivesse andando em uma carroça ou em um navio e imaginasse que ele estava parado, enquanto a terra e as árvores estivessem se movendo. Então é assim que funciona: qualquer um que quiser ser inteligente não pode concordar com nada o que os outros estimam. Ele precisa fazer algo por conta própria. Isto é o que esse sujeito faz, desejando virar toda a astronomia de cabeça para baixo. Mesmo diante dessas coisas que são colocadas em desordem, eu acredito nas Sagradas Escrituras, uma vez que Josué ordenou que o sol parasse, e não a Terra [Josué 10:12].” (Conversas à mesa – publicado no Brasil por Ed. Monergismo)

Calvino, embora um grande apreciador das ciências, como já vimos, também tem um sermão em 1Coríntios que expressa o mesmo espírito de revolta manifestado por Lutero. Nesse sermão, Keith Mathison nos lembra que Calvino adverte contra aqueles que dizem: “que o sol não se move e que é a terra que se move.” Calvino chega a descrever aqueles que adotam essa visão como “completamente desvairados e loucos” e como “possuídos” pelo diabo[2]. Ao que tudo indica, Calvino de fato acreditava que o geocentrismo era a verdadeira explicação sobre a maneira que Deus constituiu o universo.

O segundo exemplo, em contrapartida, parte de dois cientistas ateus: Stephen Hawking e Leonard Mlodinow. Em 2010, ambos escreveram um livro intitulado “O Grande Projeto”. Logo na primeira página, eles declaram categoricamente:

“Como podemos entender o mundo em que nos encontramos? Como o universo se comporta? Qual é a natureza da realidade? De onde veio tudo isso? O universo precisou de um criador? A maioria de nós não gasta muito tempo preocupando-se com essas questões, mas quase todos nos preocupamos com eles uma parte do tempo. Tradicionalmente, essas são questões para a filosofia, mas a filosofia está morta. A filosofia não tem acompanhado a evolução da ciência moderna, particularmente da física. Os cientistas se tornaram os portadores da tocha da descoberta, em nossa busca pelo conhecimento.” (O grande projeto, Ed. Nova Fronteira).

Primeiro erro: dizer que a filosofia está morta já é uma declaração filosófica. O segundo erro é que, em seguida, eles começam a desenvolver teorias sobre o universo que são completamente filosóficas.

A melhor maneira de não cairmos nessas armadilhas, portanto, é reconhecer que fé e ciência têm papéis distintos e respondem perguntas de natureza distinta.

Se você fosse perguntar a um cientista “Por que aquela água está fervendo?”, ele responderia em termos de moléculas e temperatura. Mas há uma segunda explicação: a água está fervendo porque quero tomar uma xícara de chá. Essas duas explicações são descrições perfeitamente válidas da realidade. A primeira diz respeito à realidade física, a segunda diz respeito ao sentido, ao propósito.

Deus nos deu dois livros: o livro da redenção e o livro da natureza. Revelação especial e revelação geral. E as duas revelações são infalíveis. O problema não está na revelação, mas no intérprete que trabalha com essas revelações. Tanto o cientista que trabalha com a revelação geral quanto o teólogo que trabalha com a revelação especial podem errar. Por isso, quando surge uma nova teoria científica que a princípio poderíamos pensar que abala alguma de nossas crenças teológicas, devemos considerar a possibilidade de nossa interpretação bíblica estar errada e a interpretação científica estar correta. E vice-versa.

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Se um cientista, por exemplo, afirma que o universo possui 13,7 bilhões de anos, tal afirmação não entra em conflito com as crenças cristãs, mas, se ele disser que o mundo natural é tudo que existe, isso contraria frontalmente o cristianismo e, claro, é uma declaração que merece ser rejeitada, já que não se trata de uma declaração científica, mas sim metafísica, de ordem filosófica. Quando compreendemos essa dinâmica existente entre fé e ciência, nossa visão da fé e da ciência se torna muito mais rica, permitimos que a ciência corrija a interpretação bíblica do teólogo e que o cientista seja corrigido pela interpretação correta das Escrituras. Nossa postura deve ser como a de Agostinho de Hipona:

“Com relação a assuntos por demais obscuros e muito além de nossa visão, encontramos passagens nas Sagradas Escrituras que podem ser interpretadas de modos muito diferentes sem prejuízo para a fé que recebemos. Em tais casos, não devemos nos precipitar e tomar tão firmemente um dos lados, para que, se um progresso posterior na busca da verdade corretamente derrubar nossa escolha, não caiamos junto com ela. Não devemos lutar pela nossa própria interpretação, mas pelo ensino das Sagradas Escrituras. Não devemos desejar conformar o significado das Sagradas Escrituras a nossa interpretação, mas nossa interpretação ao significado delas” (Citado por Alister McGrath em O deus de Dawkins, Ed. Shedd Publicações, p. 88).

A ciência é a única fonte legítima de conhecimento?

A ideia de que a ciência é a única fonte legítima de conhecimento é chamada de cientificismo. De acordo com essa visão, somente a ciência é capaz de responder a todas as perguntas concernentes à realidade. No entanto, o cientificismo falha por motivos completamente básicos:

1) Não é possível provar cientificamente que o passado será igual no futuro. Não é possível provar cientificamente que uma lei natural específica se manterá uniforme amanhã, uma vez que as leis da natureza são descritivas e não prescritivas.

2) Verdades lógicas e matemáticas não podem ser provadas cientificamente. A ciência pressupõe a lógica e a matemática. Tentar prová-las pela ciência seria argumentar em círculos.

3) A ciência não pode provar verdades metafísicas. Existe um mundo fora de minha mente? Há outras mentes além da minha? A ciência poderia provar que o mundo não foi criado há cinco minutos com aparência de velho? É possível provar cientificamente que uma maçã tem para mim o mesmo sabor que outra pessoa sente quando a come? Acreditamos que existe um mundo fora de nossa mente, que existem outras mentes além da nossa, que o mundo é muito antigo e que maçã sempre tem o mesmo sabor. Tais crenças são perfeitamente racionais, mas não podem ser provadas cientificamente.

4) A ciência não pode provar verdades éticas. Não se pode demonstrar cientificamente que os nazistas fizeram algo mau. Como Einstein disse, “Você pode falar a respeito dos fundamentos éticos da ciência, mas você não pode falar a respeito dos fundamentos científicos da ética”. Einstein notou que há um campo no qual a ciência não pode ingressar.

5) A ciência também não pode provar verdades estéticas. O belo e o feio não são encontrados em um tubo de ensaio em um laboratório.

6) A declaração se autorrefuta. A declaração “só devemos acreditar naquilo que é provado cientificamente”, em si, não pode ser provada cientificamente. Bertrand Russell dizia: “Aquilo que a ciência não pode nos dizer, a humanidade não pode saber”. Essa é uma declaração que parte da ciência? Não. Portanto, não podemos sabê-la.

Para arrematar, G. K. Chesterton, em sua obra Ortodoxia, criticou os cientificistas de sua época de uma maneira genial:

“Todos os termos usados nos livros de ciência, ‘lei’, ‘necessidade’, ‘ordem’ e assim por diante, são realmente não-intelectuais, porque pressupõem uma síntese interior, que nós não possuímos. As únicas palavras que sempre me satisfizeram como descrições da natureza são os termos usados nos contos de fada, ‘sortilégio’, ‘feitiço’, ‘encantamento’. Eles expressam a arbitrariedade do fato e do mistério. Uma árvore dá frutos porque é uma árvore mágica. A água corre morro abaixo porque está enfeitiçada. O sol brilha porque está enfeitiçado. Eu nego totalmente que isso seja fantástico ou mesmo místico. […] essa linguagem dos contos de fada sobre as coisas é simplesmente racional e agnóstica. É a única maneira de expressar com palavras minha percepção clara e definida de que uma coisa é totalmente distinta da outra; de que não há nenhuma ligação lógica entre voar e botar ovos. É o homem que fala de ‘uma lei’ que nunca viu que é místico. Ou melhor, o cientista ordinário é estritamente um sentimental. Um sentimental no sentido essencial, de estar mergulhado em meras associações que o vão carregando. Ele viu tantas vezes pássaros voando e botando ovos que sente como se devesse existir alguma fantástica, delicada ligação entre as duas ideias, quando não há nenhuma”. (Ortodoxia, Ed. Mundo Cristão, p. 88)

O mundo natural é tudo que existe?

A ideia de que o mundo natural é tudo que existe é chamada de naturalismo. Nessa visão, o mundo é regido unicamente por causas naturais e não há intervenção sobrenatural na natureza. Não há espaço para milagres. O primeiro ponto que precisamos ressaltar em relação ao naturalismo é que não se trata de uma teoria científica, mas de uma visão filosófica. A ciência, por si só, é simplesmente incapaz de dizer que o mundo natural é tudo que existe, trata-se de uma especulação filosófica. O que cientistas ateus normalmente fazem é injetar uma boa dose de naturalismo em teorias científicas e dizer, de modo bastante irresponsável, que se trata apenas de ciência, quando na verdade não se trata. Isso é uma desvirtuação da ciência e o maior exemplo ocorre na biologia, quando se fala em teoria da evolução.

Quando se trata da evolução biológica, o verdadeiro conflito não está na evolução, mas sim entre naturalismo e cristianismo. Se Deus assim quisesse, ele poderia muito bem ter criado o universo, a natureza, por meio do processo evolutivo. Ele poderia ter conduzido todo o processo evolutivo até chegar a nós. Por isso, de maneira alguma a evolução conduz ao ateísmo. O que conduz ao ateísmo é o naturalismo, mas não a evolução. No entanto, qual é o calcanhar de Aquiles do naturalismo? Ironicamente, a própria evolução!

No livro Ciência, religião e naturalismo: onde está o conflito? (Ed. Vida Nova), Alvin Plantinga oferece uma resposta magistral ao problema do naturalismo usando a própria evolução. Sua resposta se expressa mais ou menos nos seguintes termos: se Deus não existe, o meu cérebro é o resultado da natureza. O que causa os meus pensamentos? A própria natureza causa reações químicas e físicas em meu cérebro e produzem aquilo que nós chamamos de pensamento. Mas, se é assim, então a natureza, a evolução naturalista, poderia me levar a acreditar que qualquer tipo de coisa é verdade. Por exemplo, a natureza poderia ter nos feito acreditar que 2+2=5 ou poderia ter nos feito acreditar que o estupro é correto. Se é assim, da mesma maneira que a evolução determinou que o naturalismo é verdadeiro, ela poderia ter determinado que o naturalismo é falso. Ou seja, os naturalistas não podem confiar em seus cérebros. Não podem usar a razão para mostrar que Deus não existe. Sem Deus, portanto, não há verdade.

A grande ironia, portanto, é que a própria arma que os naturalistas usam contra teístas, qual seja, a evolução, mina a própria crença que eles têm no naturalismo.

Além disso, o naturalismo possui outros problemas. Por exemplo, se o naturalismo é verdadeiro, a beleza, o amor, o certo e o errado, não passam de reações físicas em nossos cérebros ou de produtos sócio-biológicos. O amor, por exemplo, seria apenas uma reação eletroquímica em nossos cérebros e não um fenômeno metafísico.

Surpreendido pelo transcendente

Como vimos, a ciência tem um valor fundamental em nossa vida e, como cristãos devemos valorizá-la como dádiva de Deus. No entanto, não podemos deixar de reconhecer suas limitações. Quando se trata de questões inerentes ao sentido, ao propósito, ao valor, à beleza etc., ela é incapaz de nos fornecer respostas. Isso ocorre porque, nesse caso, estamos lidando com questões filosóficas e teológicas que fogem do escopo científico.

No cientificismo ou no naturalismo, não há sentido, propósito ou transcendência. Se um naturalista for sincero com sua visão de mundo, ele perceberá que a vida é vazia. No entanto, ninguém consegue viver desta forma. Esse tipo de percepção triste e insípida da realidade não é persuasiva. Todos nós precisamos de sentido, de propósito, de transcendência. Imagine ser arrebatado de alegria e maravilhamento por uma belíssima obra de arte, ou por uma linda sinfonia, e lembrar-se que esse sentimento não passa de uma mera reação química em seu cérebro e nada mais do que isso? Na visão naturalista, esse senso de transcendência que experimentamos é uma ilusão. Mas quem consegue viver de um modo a empobrecer a estética, a alegria que nos assalta quando menos esperamos? Seria sábio nos blindarmos dessa experiência transcendental?

Um mundo racionalista assim onde a fé e a imaginação são desprezadas, seria triste e sem esperança. Poderíamos até dizer como o apóstolo Paulo: “Comamos e bebamos porque amanhã morreremos”. Um mundo assim, seria como um mundo governando pela feiticeira branca de Nárnia, onde sempre era inverno e nunca Natal. Seria um mundo onde existiriam engenheiros químicos, mas não existiriam feiticeiros. Existiriam prédios, mas não existiriam gigantes. Existiriam equações matemáticas, mas não existiriam fórmulas mágicas. Existiriam jogadores de xadrez, mas não existiriam poetas.

No final das contas, portanto, o verdadeiro conflito não está entre fé e ciência, mas sim entre fé na ciência e fé na religião. Porque, no fim das contas, todos nós depositamos a fé em algo. Nosso coração sempre tem um senhor. Podemos depositar nossa fé na ciência, podemos ter uma fé cega, ou então podemos dirigir nossa fé a Deus – objeto adequado – e relacionar fé e ciência para a sua glória.

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[1] Sou devedor ao amigo Pedro Dulci pelo esclarecimento desses modelos. Para conferir a explicação de Pedro, acesse o canal no YouTube da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência: https://www.youtube.com/watch?v=D4VUY5jJxEA

[2] Keith Mathison, Lutero, Calvino e Copérnico – Uma abordagem reformada sobre a relação entre Ciência e Escrituras.

Jonathan Silveira é graduado em Direito pela Universidade São Francisco e mestre em Teologia pelo programa Master of Divinity da Escola de Pastores da Primeira Igreja Batista de Atibaia. É membro na Igreja Batista da Palavra, em São Paulo, trabalha na área de produção editorial e marketing em Edições Vida Nova e é fundador e editor do site Tuporém.
A compatibilidade entre ciência e religião talvez seja um dos maiores debates da humanidade. Especialmente nas últimas duas décadas, vários livros foram escritos sobre o assunto, mas quase sem nenhum consenso. Diante desse cenário e a fim de responder à pergunta proposta no título deste livro, Alvin Plantinga analisou temas como evolução, psicologia evolucionista, exegese das Escrituras, estudo científico da religião, além dos argumentos de proeminentes filósofos ateus como Dan Dennett, Richard Dawkins e Philip Kitcher, os quais defendem que a evolução e a crença teísta não podem coexistir.

O resultado é esta contribuição singular e há muito aguardada do principal filósofo contemporâneo da religião.

Publicado por Vida Nova.

4 Comentários

  1. Dario Eduardo Aydos Pujol disse:

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