Cristianismo na Universidade: Uma resenha | Thiago Oliveira

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Barna, nos EUA em 2011, relata que um de cada dez alunos cristãos perde a fé ao ingressar na Universidade e se declara ateu ou agnóstico. Quatro em cada dez deixam de frequentar a igreja, mesmo se considerando ainda cristãos. Dois em cada dez assumem uma frequência irregular e não sabem como relacionar a fé com a vida em sociedade. E três em cada dez dos alunos cristãos mantém a sua fé do começo ao fim da jornada universitária.

O Dr. Augustus Nicodemus, autor de Cristianismo na Universidade – A prática da integração da fé cristã à academia, utiliza dessa pesquisa como uma ilustração do que acredita ser uma realidade muito semelhante à brasileira. Tendo sido o chanceler da Universidade Mackenzie durante muitos anos, o Dr. Augustus não faz este paralelo à toa. De fato, os campi se tornaram terra hostil à fé bíblica e muitos dos nossos jovens não foram preparados para lidar com tamanha hostilidade. Cristianismo na Universidade se torna uma leitura de muito proveito para ser lido e debatido nas igrejas como uma espécie de preparação introdutória para esta realidade.

Dividida em oito partes e contando com 26 capítulos, a obra é de leitura simples e de fácil compreensão. Muitos dos capítulos foram palestras proferidas pelo Dr. Augustus na Mackenzie, o que dá um caráter mais dinâmico ao texto. Quem já se acostumou em ouvir e ver suas pregações no YouTube, poderá até ler com a voz do seu autor.

Mas o grande trunfo de Cristianismo na Universidade é começar falando sobre cosmovisões. Pois, logo de cara temos a desconstrução do “mito da neutralidade”. Isto é excelente para que os universitários cristãos entendam que eles não podem colocar a fé num cabideiro enquanto assistem as suas aulas. E não apenas alunos. Professores e universidades cristãs não deveriam esconder as suas crenças, pois a pretensa neutralidade é inexistente. O Dr. Augustus diz o seguinte:

Uma vez que não existe neutralidade, seja na academia, seja em qualquer contexto, o que temos são sempre paradigmas vinculados a visões de mundo. Há muitas cosmovisões, como a marxista, a humanista, a ateísta, a agnóstica e a materialista, para nomear apenas algumas. Se não é possível escapar de uma visão de mundo que norteie e influencie decisivamente o que fazemos na academia e na vida, que abracemos, então, em nossos labores a visão cristã de mundo (pág. 20).

Rushdoony, em seu ensaio “A Desgraça do Ateísmo na Educação”[1] nos alerta que: “Se Deus é de fato o Criador dos céus e da terra, e se o Deus da Escritura é o Deus vivo, eliminá-lo da educação não é neutralidade, mas inimizade; a consideração mais importante de todas não é considerada. Nenhum homem pode ser neutro para com Deus”. Portanto, devemos munir nossos jovens com todo o escopo da fé bíblica, para que, na batalha pela fé travada nos campi, eles não venham a sucumbir e se voltar contra a própria fé enredados em argumentações vãs e mentirosas que alegam a neutralidade e/ou a autonomia do pensamento.

A cosmovisão cristã tende a contribuir para a Universidade e para o conhecimento em si, pois a cosmovisão cristã é verdadeira, afinal, sua base é a verdade revelada pelo próprio Deus nas páginas da Escritura. O Dr. Augustus chega a demonstrar o quanto que a cosmovisão cristã foi importante para o surgimento da ciência moderna e das artes. A citação é longa, mais vale ser colocada aqui:

Antes do chamado período moderno, o conhecimento, as artes e a cultura em geral eram influenciados por uma visão de mundo e de realidade moldada por princípios e valores cristãos. O cristianismo da Reforma Protestante – com sua afirmação de que o mundo foi criado por Deus e funciona segundo a lei da causalidade, ela própria também criada por Deus – havia libertado a mente humana do medo de ofender os deuses por investigar o mundo e a natureza, e também havia desfeito a dualidade oriunda do gnosticismo. Tudo isso contribuiu de modo significativo para o surgimento da cultura ocidental e para um renovado apreço pelas artes, juntamente com o humanismo.

Muitos dos grandes artistas, pintores, músicos, escritores, cientistas e pesquisadores desse período professavam a fé em Deus, ao mesmo tempo que se dedicavam a conhecer, pesquisar, explorar e desenvolver o mundo por ele criado. Acreditavam num mundo regido por leis naturais, mas concomitantemente sustentado por Deus e passível de ser tocado pelo Criador, que providencialmente agia no mundo, na vida das pessoas e na história (págs. 22 e 23).

Essa visão foi sendo removida a partir do século 17 quando o racionalismo ganhou forças e se alastrou nas universidades. O mundo não é mais visto como criação de Deus. E a sua ação providencial no mundo passa a ser considerada tolice. Tudo o que se sabe é o que se pode provar via demonstração e sensação. Isto seria racional: acreditar naquilo que está ao alcance da própria razão compreender. Com isso, o mundo virou uma caixa fechada. Um mecanismo de causa e efeito. Mas, diante desse racionalismo tido por seus adeptos como libertário, e visto como a “maioridade do pensamento humano”, o seu legado causou o oposto do que prometera, como se o remédio fosse bem pior do que a doença. A realidade interpretada sem Deus levou o homem ao caos artístico, científico, filosófico e existencial: “Surge, assim, a pós – modernidade, a qual, sem negar que a realidade está de fato contida na caixa, contesta a existência da própria caixa, e também – por que não? – do próprio homem e da realidade ao seu redor” (pág. 24)[2].

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Diante deste cenário caótico, Dr. Augustus nos convida a ter uma postura ad fontes, retornando para a cosmovisão que gestou a Universidade: “(…) recomendo à sua mente brilhante e privilegiada o cristianismo bíblico como uma cosmovisão que completa e abrange a realidade de uma forma muito mais completa e que não afasta Deus para longe de nenhum de nós” (pág. 25).

Mas a pergunta é: como esse retorno seria possível diante de uma sociedade pluralista onde cada um reclama para si a sua verdade particular? O Dr. Augustus propõe que, ao invés de nos deixarmos inibir pelo pluralismo, devemos nos sentir à vontade para expor o nosso pensamento com base na nossa fé e assegurarmos a verdade tal como a Escritura afirma. Estar fundamentado na verdade é algo que faz arrepiar os cabelos de quem é adepto das relativizações pós-modernas. Todavia, serve para demonstrar a incongruência do pós-modernismo quando se afirma que não existe a verdade e nem absolutos: Entretanto, defendem a existência de um axioma que consideram absoluto e universal ‘Não existem verdades absolutas’. Assim, eles precisam partir do fundamento da existência de verdades absolutas para poder argumentar que elas não existem” (pág. 79).

Falando em incongruência, o Dr. Augustus coloca o dedo na ferida ao expor as inconsistências acadêmicas, o que é de muita coragem, uma vez que os docentes do ensino superior são vistos como “sacerdotes” de uma religião secular. Na pág. 78 lemos:

Pós-modernos escrevem textos para demonstrar que textos não têm sentido algum, ou porque se descontroem ou porque tem tantos sentidos que acabam não tendo nenhum. Há, portanto, uma inconsistência basilar nessa mentalidade pós-moderna acadêmica, uma vez que seus adeptos precisam do fundamento da hermenêutica (que ensina que o texto quer dizer o que seu autor quis dizer) para poder provar o contrário (isto é, que o texto não quer dizer o que o seu autor quis dizer).

Essa desconstrução da racionalidade acadêmica é um excelente trunfo, pois o jovem tende a enxergar seus professores e seus colegas universitários (e também a si mesmo) como sendo parte de uma casta mais evoluída em seu pensamento, conseguindo arrazoar aquilo que os pequenos mortais que estão para além das cercas do panteão universitário não alcançam. O deslumbramento com o saber é tentador e demonstrar que os saberes deste mundo são tolice aos olhos de Deus e de sua revelação é atribuição profética. Pastores e líderes de jovens devem fazer bom uso deste livro e, com muita oração e preparo, debater o que está se debatendo nas universidades. Contrastando a sabedoria secular com a sabedoria divina, formando uma juventude pronta para batalhar nos campi e ficar de pé frente aos ataques do relativismo e da incredulidade. Que o Senhor continue a abençoar o Dr. Augustus e usá-lo para edificar a igreja brasileira.

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[1] Publicado pela Editora Monergismo em 2019.

[2] Talvez um dos elementos da cultura pop que nos façam entender essa “suspeita” pós-moderna seja o filme Matrix, estrelado por Keanu Reeves.

Thiago Oliveira é graduado em História e especialista em Ciência Política, ambos pela Fundação de Ensino Superior de Olinda (Funeso). Mestrando em Estudos Teológicos pelo Mints-Recife. Casado com Samanta e pai de Valentina, atualmente pastoreia a Igreja Evangélica Livre em Itapuama/PE.

A universidade representa um grande desafio para a fé dos jovens cristãos que ali ingressam em busca de formação acadêmica e qualificação profissional. Dominada por uma visão de mundo naturalista, materialista, ateísta e darwinista, a academia não só confronta aquilo que o cristão aprendeu no lar e na igreja, mas também cria um ambiente hostil para os que abertamente professam Cristo como Senhor.

Longe de intimidar-se e vacilar, o cristão deve tomar conhecimento da história da ciência, do papel fundamental do cristianismo no surgimento das universidades e da ciência moderna, bem como das fraquezas evidentes da visão de mundo naturalista, com o alvo de permanecer firme na fé e ter como responder a seus professores e colegas de classe quando indagado sobre aquilo em que crê.

Este livro tem como objetivo ajudar o cristão universitário a entender melhor sua fé à luz dos desafios que encontrará no ambiente universitário. É o resultado de dez anos de experiência do autor nessa área como chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo.

Publicado por Vida Nova.

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